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Cartas de Minas

Roberto Amaral: É preciso esmagar o embrião fascista agora

26 de julho de 2015 às 23h28

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Foto Guilherme Santos/Sul21, no lançamento de “A Serpente sem Casca. Da Crise à Frente Popular”, de um dos fundadores do PSB, Roberto Amaral, em Porto Alegre

por Roberto Amaral, em depoimento a Marco Aurélio Weisheimer, no Sul21

O ovo da serpente e o embrião fascista

“O ovo da serpente tem uma característica especial: ele não tem casca, mas sim uma película muito fina e transparente que permita que se veja o embrião se desenvolvendo. O que quero dizer com essa metáfora é que nós estamos vendo o desenvolvimento de um embrião fascista no Brasil. Está em nossas mãos a decisão. Podemos deixar esse embrião crescer, sair desse ovo e amanhã picar o nosso calcanhar, ou podemos esmagá-lo agora. O ovo da serpente permite que vejamos à frente. Estou tentando chamar a atenção, não só da esquerda, mas das forças progressistas e democráticas em geral, para a ameaça de um grave retrocesso político e ideológico no País. Esse retrocesso não se mede apenas pela crise dos partidos, em particular pela crise dos partidos de esquerda e, de modo mais particular ainda, pela crise do PT. Tampouco se mede apenas pela crise do governo Dilma. Ele se mede, fundamentalmente, pela ascensão de uma opinião, que já está se tornando orgânica, de retrocesso conservador.”

“Já há um baluarte institucional perigosíssimo desse processo, que é a Câmara dos Deputados. Eduardo Cunha não foi colocado ali pelo acaso, ele representa um núcleo pensante conservador brasileiro. Esse núcleo, na Câmara, está representado pela chamada bancada BBB, ou seja, os grupos do boi, do agronegócio atrasado, da bala e da Bíblia, que reúne os evangélicos primitivos e midiáticos. Isso tudo se juntou”.

Esquerda não levou a sério o tema da comunicação

“Mas é preciso dizer que a grande responsabilidade por isso é da esquerda e dos nossos governos de centro-esquerda. Há mais de 40 anos, eu e outras pessoas – aqui no Rio Grande do Sul havia uma pessoa que lutava muito por isso, o Daniel Herz – viemos alertando sobre o poder dos meios de comunicação de massa no Brasil, sobre o monopólio da informação e a cartelização das empresas. A esquerda nunca acreditou nisso.”

“A primeira eleição do Lula serviu para mascarar esse problema. Nós metemos na cabeça que essa gente não formava mais opinião. Nos descuidamos e ficamos assistindo à construção de um monopólio ideológico, destilando conservadorismo de manhã, de tarde e de noite. Aqui, não estou me referindo apenas à Rede Globo, ao Globo, Estadão e Folha de São Paulo. Pior do que isso talvez sejam as rádios evangélicas, as rádios AM e FM, despejando diariamente xenofobia, racismo, machismo, homofobia e tudo o que é atrasado. Paralelamente a isso, nós não construímos uma imprensa nossa. E nem estou falando de uma imprensa nossa para falar com a sociedade. Não construímos uma imprensa nossa sequer para falar conosco mesmo. Os militantes do movimento sindical e dos partidos se informam das teses de suas lideranças pela grande imprensa. Nem criamos uma imprensa de massa, nem criamos uma imprensa própria.”

“Nos anos 50 e 60, nós tínhamos O Semanário, que circulava no Brasil inteiro defendendo as teses do Petróleo é Nosso e da Petrobras, tínhamos Novos Rumos, do Partido Comunista, a imprensa sindical e circulava também a Última Hora. Havia, então, um esforço para garantir um mínimo de debate. Isso tudo desapareceu e nada foi colocado no seu lugar. Com a chegada de Lula ao governo, os principais quadros do PT foram transferidos da burocracia partidária para a burocracia estatal e o partido acabou se esfacelando. Os principais quadros do movimento sindical também foram transferidos para os gabinetes da Esplanada”.

“A grande dificuldade que temos hoje para promover a defesa do governo Dilma é que perdemos o diálogo com a massa. Eu conversava dias atrás com uma ex-presidente da UNE e ela me dizia: ‘Professor, como é que eu posso entrar em sala e chamar os estudantes para uma passeata quando o governo está reduzindo as verbas para as bolsas de estudo’. Há um paradoxo entre a nossa política e a nossa base social. A Dilma não foi eleita pela base com a qual está governando. Ela atende os interesses dessa base com a qual está governando e não tem o apoio dela. Por outro lado, ela contraria os interesses da base progressista, a qual nós temos dificuldade de mobilizar para defendê-la. Esse paradoxo precisa ser enfrentado.”

“Não devemos nos iludir com os compromissos democráticos da direita”

“Ninguém deve se iludir com os compromissos democráticos e legalistas da direita brasileira. É uma direita que sempre apelou para o golpe e para o desvio democrático. Está aí a história dos anos 50 e 60 repleta de exemplos disso. Ela não tem compromisso com a democracia. Seu único compromisso é com seus interesses de classe. E, lamentavelmente, parece que a burguesia no Brasil tem mais consciência de classe do que muitos setores proletários.”

“Há um segundo paradoxo, que é difícil explicar a não ser que você use aparelhos ideológicos. Nós já sofremos, de fato, dois golpes nos últimos meses. A direita perdeu as eleições, mas ganhou a política. Esta política econômica que está sendo aplicada é a política da direita. O segundo golpe foi a implantação de uma nova forma de parlamentarismo, que vive de subtrair poderes do Executivo. E há ainda um terceiro golpe em curso que consiste em refazer a Constituição sem ter poder originário para tanto, retirando da Carta de 88 conquistas que levamos décadas para aprovar e consolidar”.

Sobre a construção de uma frente ampla, popular e democrática

“Diante deste cenário, precisamos articular a formação de uma frente ampla, de uma frente popular que reúna os setores progressistas e democráticos do País. Eu não estou falando de uma frente de esquerda, pois com isso estaríamos nos encerrando em um casulo, voltando a ser ostra. Precisamos retomar um discurso para a classe média, que perdemos em função dos desvios éticos do PT. Nós não estamos pagando o preço de erros de governo, mas sim dos desvios éticos. Precisamos retomar um discurso que fale para os trabalhadores, para os setores médios, para as forças progressistas, que não são necessariamente de esquerda, falar com a empresa nacional que, neste momento, está sendo destruída neste País. Há uma tentativa de acabar com as principais empresas brasileiras, detentoras de know how, não por uma questão moral, mas para colocar no lugar delas empresas espanholas, chinesas e americanas.”

“Não estou pensando a constituição desta frente com objetivos imediatos e de caráter eleitoral, mas sim na perspectiva da reconstituição das forças progressistas. O ponto de partida para essas forças é construir uma barragem para conter o avanço do pensamento e da ação da direita. Para isso, precisamos voltar às ruas e voltar a debater com a população. Na minha opinião, o modelo no qual devemos nos inspirar não é o da Frente Ampla uruguaia. Esta tem algo que nós temos, partidos. É uma frente de partidos. Nós temos que construir uma frente de movimentos, da sociedade, preparada para receber os partidos e oferecer a eles um novo discurso, uma nova alternativa. Mas não trabalho com a ideia de um modelo pronto e acabado. O que vai decidir isso, como sempre, é o processo histórico”.

A ameaça do impeachment

“Irrita-me o fato de nossas forças estarem acuadas por fantasmas. O nosso governo está acuado, enquanto ele tem o que dizer. Em face disso, como não há espaço vazio, a direita vem avançando e preparando ideologicamente a ideia do impeachment. Precisamos por isso a nu e exigir que a direita assuma publicamente se é golpista ou não. O senhor Fernando Henrique Cardoso tem que ser chamado às favas. O PSB e o PMDB têm que ser questionados a assumir se são golpistas ou não. Creio que a melhor forma de enfrentar a ameaça do impeachment, seja ela pequena ou grande, é dizer que ela existe. Dizer que ela não existe é perigoso. E o objetivo principal nem é mais a Dilma, é o Lula. Querem liquidar o Lula e o PT. Não se iludam. Se isso acontecer, não atingirá só o PT, mas toda a esquerda brasileira. Temos responsabilidades distintas pelo que está acontecendo, mas estamos todos no mesmo barco”.

Leia também:

Paulo Nogueira: Abril quer um governo amigo para mamar ainda mais nas tetas do Estado

 

18 Comentários escrever comentário »

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[email protected]!r [email protected]+35

09/09/2015 - 00h14

Dilma continua alimentando a Globo. Propaganda do Banco do Brasil. É a SECOM técnica.

O que é possível dizer? Burrice não é…

Certamente, ela toma decisões com informações que não temos.

Talvez esteja protegendo os netinhos dela de monstros piores.

Fica difícil saber o que acontece.

Responder

Julio Silveira

28/07/2015 - 21h28

A esquerda emburrece quando acredita que apenas com sua ousadia politicamente correta vai arrebanhar mentes e conquistar corações. Não percebe, nem presta atenção a história, não vê como se conquista nela sua supremacia. Penso que talvez por uma dose de arrogancia. A direita que, sabe, em democracia, tem pouco a oferecer, tantos em termos numéricos, quanto em valores humanísticos. Investem pesadamente em, e com , seu melhor valor, o economico. Por isso investem pesadamente na publicidade, no marqueting, produtos que dependem de poder economico, para produzir valores ficticios, mas com grande poder de convencimento nas mentes despreparadas das cidadanias. Ambos, cidadania e as esquerdas, subestimam esses poderes superestimando suas proprias capacidades de avaliação e julgamento. Por isso a cidadania e a esquerda acabam por fracassarem juntas, vendo os valores humanistas da sociedade caindo para o ralo.

Responder

C.Paoliello

28/07/2015 - 19h30

Pelo que deduzi esta Frente Progressista continua na estaca zero, embora seja a principal prioridade política neste momento.

Responder

FrancoAtirador

28/07/2015 - 13h51

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Beato Dalanhól exerce Ministério Público Federal na Igreja Lava-Jato
.
Seria tema para o Professor Hariovaldo de Almeida Prado discorrer,
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não fosse um aberrante fato que ora emerge da realidade braZileira:
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O Chefe da Força-Tarefa do MPF em Curitiba-Paraná
foi apresentado por Pastores como “Servo” e “Irmão”
em uma Igreja da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro.
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– “Dentro da minha cosmovisão cristã,
eu acredito que existe uma janela de oportunidade
que Deus está dando para mudanças”,
pregou o Procurador Regional da República paranaense.
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– “Amém”, respondeu a plateia de cerca de 200 pessoas.
.
– “É isso aí. Deus está respondendo”, devolveu Dallagnol.
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(http://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardomellofranco/2015/07/1661189-o-procurador-na-igreja.shtml)
(http://jornalggn.com.br/noticia/dallagnol-tenta-por-lava-jato-acima-do-bem-e-do-mal-por-paulo-moreira-leite)
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Responder

    FrancoAtirador

    28/07/2015 - 14h16

    .
    .
    A ‘Cosmovisão Cristã’ do Beato Dalanhól
    .
    E o ‘Livre-Arbítrio’ da ‘Delação Premiada’
    .
    (https://youtu.be/1mm2M2qo0VA?t=617)
    .
    .

    Ricardo

    08/09/2015 - 17h39

    Os beatos do MP vão exorcizar o país. Sai desse corpo que não te pertence!

Bacellar

27/07/2015 - 22h24

Óia…Se teve uma coisa que nutriu esse embrião foi a candidatura Marina pelo PSB em 2014…

Ali valia o R.Amaral ter usado TUDO que tinha na mão para impedir que o seu partido fosse barriga de aluguel da sonhática. Carteirada, apelo aos caciques, botar o cargo na mesa, chamar a imprensa e abrir a metralhadora, escancarar bastidor, enfim, o que fosse.

Quanto a batalha da comunicação…A maioria não entende muito quando falo isso mas pra mim um Netflix da vida é infinitamente mais daninho do que a Veja. Na realidade quem prepara o terreno e f0d& com a cabeça da massa é a mídia de entretenimento muito mais do que a jornalística.

Responder

Euler

27/07/2015 - 21h57

A análise feita por Amaral tem passagens importantes. Houve quase que uma síntese de problemas que boa parte da esquerda vem denunciando nos últimos 10 anos, pelo menos. Um deles, o descaso do governo federal sob o PT com a mídia, ou com a democratização da mídia. Nem precisaríamos quebrar a Globo, mas pelo menos a esquerda tinha o dever moral de construir alternativas de mídia, que vão desde rádios comunitárias, passando por jornais de bairro até a Internet. Isto sem falar numa TV pública com grande alcance nacional e programação atrativa. Se o governo federal, ao invés de pagar bilhões de reais para a Globo e afins em propaganda, tivesse investido na TV pública e nas mídias alternativas, a realidade hoje seria outra. O PT e a esquerda falharam nessa tarefa essencial, e hoje colhemos a lobotomização de milhões de brasileiros em função do monopólio de uma mídia golpista, canalha, intelectualmente vazia e desqualificada.

O segundo ponto que eu levantaria é sobre o distanciamento da esquerda com a base social dos governos do PT. Milhões de pessoas foram beneficiadas por políticas sociais, como: Minha casa minha vida (com as devidas limitações do projeto); Bolsa família, Mais médicos, Pronatec, Luz para todos, aumentos reais no salário mínimo, entre outros. Nada disso foi apresentado como uma conquista dos de baixo, da luta de classes entre oprimidos e os de cima, opressores, mas, ao contrário, aparece como dádiva do governo, de forma despolitizante e eleitoreira, até.

O processo de burocratização dos quadros do PT e de outros partidos de esquerda era algo natural tendo em vista que os instrumentos de estado são mecanismos criados para cooptar pessoas, grupos, e afastá-las do convívio diário com o povão. Dentre o batalhão de militantes que se tornaram chefes disso, ou secretários daquilo, ou assessores de algum parlamentar, ou até mesmo ministros de estado, quantos desses visitam as comunidades pobres, disputam lugar nos ônibus e metrôs nos horários de pico; caminham pelas ruas dos grandes centros urbanos, visitam supermercados e padarias, enfim, quantos deles procuram conhecer de perto a realidade e o pensamento das pessoas comuns?

Ora, não se constrói movimento real, que não seja mera massa de manobra, se não se dispuser a desenvolver um prolongado trabalho de base, ou pelo menos, sabendo combinar as atividades no aparato do estado com o cotidiano das pessoas comuns. Claro que é mais fácil aparecer em horário eleitoral a cada quatro ou a cada dois anos, com a muleta do marketing profissional. Enquanto os de baixo perceberem que há conquistas, mesmo que em meio à despolitização, ou à politização à direita, pela mídia golpista, é possível manter vitórias eleitorais.

Contudo, diante da crise econômica, política e institucional, tudo isso desaparece e o discurso da direita, antes anestesiado pelo poder de consumo momentâneo, passa a ganhar força e se torna um perigo mortal contra a democracia e contra as conquistas dos trabalhadores. É o que está acontecendo nesse momento.

A esquerda em geral, os setores progressistas, os movimentos sociais, as pessoas de bem, que não tenham sido lobotomizadas pela mídia precisam de fato refletir sobre este momento que vivemos. Para que consigamos barrar o golpe em curso, mudar os rumos da política neoliberal de Levy e Cia, e construir, junto do povo brasileiro, alternativas à esquerda tanto para pressionar o governo atual a mudar de rumo, quanto em relação ao futuro do Brasil, ameaçadíssimo com essa onda golpista e fascista que nos rodeia e confisca nossos direitos.

Responder

Marcelo Gaúcho

27/07/2015 - 15h47

Esse ovo fascista chama-se rede globo.

Corta a verba, Dilma… corta que o embrião do fascimo padece.

Responder

FrancoAtirador

27/07/2015 - 15h19

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No Dia 16 de Agosto farei questão de sair pra rua Vestido de Vermelho.
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Responder

    FrancoAtirador

    27/07/2015 - 15h33

    .
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    É nítida a tentativa de implementar um Processo de Higienização de Classe,
    .
    sob Eufemismos como Meritocracia Individual e Empreendedorismo Criativo.
    .
    Não podemos permitir que se instale aqui no BraSil o Darwinismo Social!
    .
    .

Flavio Marcio

27/07/2015 - 13h58

FHC é presidente honorário do Diálogo Interamericano, articulação think tank sediada em Washington DC, supostamente comprometida com a defesa da democracia no continente.
Uma amiga minha, norte-americana, de área acadêmica afinada com a do ex-presidente, pensa em interpelar Mr. Peter Hakim, fundador do Diálogo, perguntando-lhe: o senhor concorda com o movimento golpista do Sr. FHC?
Talvez, o senador Jorge Viana do PT, arrolado como participante da mesma articulação, devesse antecipar-se e tomar a iniciativa de interpelar Mr. Hakim, não?

Responder

Urbano

27/07/2015 - 12h31

O que há de escaterina (hipotético gás formado por escatol e cadaverina) nas áreas de comunicação… Os crimes que vêm sendo cometidos pelos bandidos da oposição ao Brasil e ao Mundo não são de brincadeira… Qualquer bandidinho mequetrefe da oposição ao Brasil lança mãos de seus dados pessoais, faz desbloqueio de celular e alteração cadastral sem a devida solicitação do cliente, correspondências importantes se evaporam no ar, e por aí vai.

Responder

Jadson Oliveira

27/07/2015 - 09h44

Azenha e Conceição: Para reforçar as posições do prof Roberto Amaral no item comunicação, colo aqui artigo que publiquei hoje no meu blog Evidentemente, abraços, Jadson Oliveira

CHEGA A SER CRIMINOSA A OMISSÃO DOS GOVERNOS LULA E DILMA NA “BATALHA DA COMUNICAÇÃO”

“A verdade é uma só, são várias”, já disse o poeta. Nós também, da esquerda, temos o direito e o dever de alardear a nossa, como a direita propaga a sua, aos quatro ventos e há décadas, através da Rede Globo e sua gangue dos monopólios da mídia hegemônica.

Por Jadson Oliveira (jornalista/blogueiro) – editor do blog Evidentemente – publicado em 27/07/2015

Será que sou demasiadamente rigoroso ao chamar de criminosa a omissão do governo brasileiro no quesito comunicação? Pode ser, mas é inaceitável o aparente descaso dos governos de Lula e Dilma diante do envenenamento paulatino e constante dos corações e mentes dos brasileiros, forçados a ler, ouvir e ver só uma “verdade”, a deles.

Deles: dos banqueiros especuladores, do grande empresariado corrupto e corruptor, das grandes corporações multinacionais, mancomunados com a Rede Globo e os demais monopólios da imprensa hegemônica. A “verdade” dessa gente chega a toda hora, todo santo dia, em todo lugar, ao povo brasileiro. E quem não luta contra isso (ou não sabe lutar, por ignorância ou por estar contaminado com o vírus da conciliação) comete crime de responsabilidade diante da história.

Falar em história dá assim um tom grandiloquente que me cheira à ostentação vazia. Mas procuro justificar: Getúlio Vargas teve seu lado torturador na sua ditadura e depois o seu lado nacionalista, mas arrisca-se a ficar na história como o responsável pelo famoso “mar de lama” inventado pela direita, através das mesmas armas que continua usando: a mídia hegemônica.

(E observe que naquela época, início da década de 1950, Getúlio não podia ser defendido através da Internet, mas tinha pelo menos uma poderosa bala na agulha: um jornal diário de grande circulação e alcance nacional, chamado Última Hora, liquidado depois do golpe de 1964).

Outro exemplo histórico: João Goulart, o popular Jango, poderia ter seus defeitos, como todos temos, mas seu governo lutou bravamente pelas chamadas “reformas de base” (das quais até hoje carecemos). E arrisca-se a ficar na história como um “incompetente e corrupto”, porque assim inventaram as mesmas forças da direita, através dos mesmos instrumentos: TV Globo e sua gangue da mídia hegemônica.

E nós, da esquerda, que buscamos uma democracia mais avançada, participativa, popular, nacionalista, que buscamos a segunda e efetiva independência do Brasil, que buscamos uma sociedade humanista, solidária, fraterna, sem esse consumismo desvairado do capitalismo, sem essa gula louca pelo dinheiro, não temos também o direito de propagandear nossa “verdade”?

Ou nossas “verdades”, porque como diz o poeta baiano Antônio Brasileiro (mora em Feira de Santana, a 100 quilômetros de Salvador), “a verdade é uma só, são várias” (cito de memória, se as palavras não são exatamente estas, o sentido é exatamente este). Nós temos o direito e o dever de propagar a nossa, como eles, da direita, também têm.

Mas a grande questão é que eles têm armas, munição pesada e abundante, na tal da “batalha da comunicação”, como se referiu um dia desses a nossa presidenta Dilma Rousseff. E nós não temos, somos literalmente desarmados.

E não me venham, pelo amor de Deus, dizer que hoje temos a Internet. Claro, temos a Internet, temos nossos combativos blogueiros chamados progressistas (ou “sujos”), os sites progressistas, nossos bravos ativistas das redes sociais (ai de nós se não tivéssemos). Mas isso eles também têm e com maior poder de fogo, porque as grandes corporações da mídia estão lá.

Por que a Telesur não chega às TVs nos lares brasileiros?

Fora a Internet, o que temos? A Carta Capital, que faz um jornalismo criteriosa e confiável, mas é apenas uma revista semanal; o jornal Brasil de Fato, com poucos recursos, a revista mensal Caros Amigos… o que mais? A TV Brasil, que poderia ser realmente uma arma poderosa, tem uma política editorial acanhadíssima do ponto de vista do enfrentamento com as “verdades” hegemônicas da direita.

Aliás, a TV Brasil é o retrato pronto e acabado do acanhamento dos governos de Lula e Dilma no item comunicação. É como se avisassem: é somente até aqui que podemos chegar. Às vezes penso: Lula teve uma larga convivência com Hugo Chávez, não é possível que ele não tenha visto e sentido que a comunicação na Venezuela foi tratada como um ponto estratégico fundamental.
(Um caso que chega a ser inacreditável: o governo brasileiro nunca teve sequer a “ousadia” de trazer para o Brasil a Telesur – Telesul -, uma televisão hoje poderosíssima que comemorou seus 10 anos na sexta-feira, dia 24, de alcance inclusive internacional, patrocinada por vários governos da América Latina, a partir da Venezuela. Um dia esta história ainda será revelada aos brasileiros: por que a Telesur não chega às telas da TV nos lares brasileiros, por que o brasileiro não tem o direito de ver e ouvir as “verdades” transmitidas pela Telesur? Durante o governo de Requião no Paraná, por exemplo, o noticiário da Telesur passava todos os dias na TV do governo estadual).

O brasileiro talvez não perceba, porque pouco se fala disso no Brasil, mas será que alguém imagina que os governos da Venezuela, Argentina, Bolívia e Equador estariam ainda de pé se eles – juntamente com o movimento democrático, popular e de esquerda (ou de centro-esquerda) – não tivessem construído uma poderosa rede de mídia contra-hegemônica? (Governos que, além disso e ao contrário do nosso, conseguiram regular os meios de comunicação, com a democratização das concessões de rádio e TV).

São jornais diários e emissoras de rádio e TV públicos, estatais, comunitários, sindicais, partidários e, em alguns casos, também privados, além das mais diversas plataformas na Internet. Toda a programação e toda a política editorial de tais meios procuram difundir uma outra “verdade”, uma outra maneira de ver as coisas, outros valores ideológicos e culturais, fora dessa cultura de ódio e violência, fora portanto do “pensamento único”, da “verdade” única da mídia hegemônica.

Será que alguém imagina que se tivéssemos uma rede de mídia contra-hegemônica, aferrada a um trabalho jornalístico sério e ético, comprometida com os interesses populares e nacionais, haveria no Brasil fenômenos midiáticos e judiciais como Joaquim Barbosa, Sergio Moro e Gilmar Mendes? Teríamos uma Justiça/Ministério Público/Polícia Federal com ação tão enviesada como essa da Lava Jato? Teríamos um Congresso tão direitista, sempre mais a cada legislatura?

Teríamos apresentadores/animadores de auditório em TVs e rádios – que funcionam sob concessões públicas – pregando linchamento de pobres e pretos? Teríamos todos os dias policiais assassinando pobres e pretos, denominados a grosso modo de “bandidos”? Teríamos gente com tanta desenvoltura agredindo autoridades e “petistas” nos restaurantes de São Paulo? Teríamos parlamentares encorajados a votar uma coisa atrasada como a redução da maioridade penal? E senadores querendo votar a entrega do nosso petróleo? E parlamentares defendendo a tortura e a volta da ditadura?

Pensadores do porte do espanhol Ignacio Ramonet, jornalista e acadêmico, diretor do Le Monde Diplomatique em espanhol, tem alertado sobre o quanto é estratégico a questão da comunicação, inclusive abordando especificamente a situação da América Latina.

Na sexta-feira mesmo publiquei aqui neste meu blog matéria com Ramonet dizendo que “a principal batalha da América Latina é midiática”. No primeiro semestre, quando eu estava no Equador, traduzi e publiquei aqui uma longa entrevista sua, sobre o mesmo tema: ao ser mencionada a situação difícil do Brasil, ele chamou a atenção justamente para o fato dos governos do PT terem se descuidado (ou não terem conseguido) da construção duma rede de mídia pública e comunitária.

Responder

    Yuri

    27/07/2015 - 11h46

    Texto excelente, caro Jadson!

FrancoAtirador

27/07/2015 - 03h46

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“Na Aparência, Perdemos Todas.
.
O Sentido de Derrota, Transmitido pela Grande Imprensa,
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Não Pode Esmorecer a Resistência. Não Se Deve Baixar a Guarda.
.
O Campo da Esquerda Precisa Deixar Suas Diferenças de Lado
.
e Lutar pelo Essencial, que é Evitar o Triunfo do Discurso Único.”
.
Antônio Augusto de Queiroz
Jornalista e Analista Político
Diretor de Documentação do DIAP
.
(http://www.diap.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=25410:legislativo-muito-barulho-e-pouco-resultado&catid=46&Itemid=207)
(http://www.diap.org.br/index.php?option=com_content&view=category&id=46&Itemid=207)
.
.

Responder

    FrancoAtirador

    27/07/2015 - 03h52

    .
    .
    “A Ofensiva Conservadora e Neoliberal Vai Continuar.
    .
    E a Resistência Precisa Perseverar,
    porque ela é Capaz de Brecar as Mudanças Propostas,
    que são Muito Retrógadas.
    .
    Se os Trabalhadores incorporarem o Discurso
    de que o Retrocesso é Inexorável, ele se realizará.
    Tem que resistir.
    Há provas de que resistindo se consegue segurar.”
    .
    Antônio Augusto de Queiroz
    Jornalista e Analista Político
    Diretor de Documentação do DIAP
    .
    (http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Apesar-do-ajuste-e-de-Cunha-leis-favoraveis-ao-trabalhador-foram-maioria-em-2015-/4/34074)
    .
    .
    As Quatro Onças Ferozes
    .
    Crise Política, Moralismo Justiceiro, Ajuste Fiscal e Recessão
    .
    As Pintas de cada uma são diferentes,
    mas são todas Onças Famintas.
    .
    É Hora de Resistência!
    .
    Por João Guilherme Vargas Neto (*)
    .
    Tudo aparece misturado como em uma Horrorosa Feijoada Fria.
    .
    Mas, para compreender aquilo que diariamente nos bombardeia,
    eu sugiro que se divida a Crise (pelo menos na sua compreensão)
    de forma a facilitar as resistências.
    .
    A Primeira Crise é Política, onde impera o ‘barata-voa’, com a Oposição Desnorteada
    (alguns esperando que o mamão caia de maduro e outros sacudindo o mamoeiro) e o Governo Emparedado (com dificuldades para viabilizar qualquer projeto
    e recuperar a mínima confiança de uma escassa maioria aritmética).
    .
    Junto com ela há a Crise que chamo de ‘Moralista’,
    que se materializa nos sucessivos lances da Operação Lava-Jato,
    com prisões, delações, investigações, condenações e o que mais seja
    para alimento dos Meios de Comunicação,
    desespero e vergonha dos denunciados
    e ranger de dentes da Sociedade.
    .
    Nos últimos dias ficou evidente uma Operação
    para tentar ‘sujar’ o Movimento Sindical como um todo
    nas águas lamacentas da corrupção e dos malfeitos
    visando enfraquecer a Resistência dos Trabalhadores.
    .
    Por iniciativa errada do Governo, foi criada a Terceira Crise: o Ajuste Fiscal.
    .
    Hoje já se sabe que como foi elaborado e implementado, o Ajuste é um Fracasso.
    .
    Não há a menor possibilidade de que ele seja completado com êxito
    antes que a Lona do Circo das Agências de Risco caia sobre o Picadeiro.
    .
    E, por fim, há a Recessão.
    .
    Ela é uma crise monstruosa, que devora empregos e corrói salários,
    levando os trabalhadores ao desespero e acuando o movimento sindical,
    obrigado agora a uma luta de resistência depois de anos de protagonismo
    das centrais sindicais e sua atuação unitária.
    .
    Não adianta botar ou tirar qualquer bode da sala,
    enquanto nela se agigantam essas Quatro Onças Ferozes:
    a Crise Política, o Moralismo Justiceiro, o Ajuste Fiscal e a Recessão.
    .
    As Pintas de cada Onça são Diferentes, mas são todas Onças Famintas.
    .
    É hora de resistência e nesta hora cresce o papel daquelas entidades sindicais
    que ao longo dos anos de bonança fizeram a lição de casa
    e são hoje fortes o suficiente para enfrentar a crise,
    construir uma nova unidade e apresentar (com seus trabalhadores)
    novos rumos econômicos corretos para a sociedade.
    .
    (*) Membro do Corpo Técnico do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – DIAP.
    .
    (http://www.diap.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=25417:as-quatro-oncas-ferozes&catid=46&Itemid=207)
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