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Curumim degolado, o caso simbólico do desprezo pelos indígenas

08 de janeiro de 2016 às 11h05

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Sexta, 08 de janeiro de 2016

Uma missa para o curumim degolado

do El Pais, via IHU Online

Meia hora antes do horário previsto para a missa, duas beatas bufavam impacientes pela demora do padre. A poucos metros dali o indiozinho kaigang, Vitor Pinto, 2 anos, foi degolado. No sétimo dia depois do crime do penúltimo dia de 2015, a comunidade cristã resolveu homenageá-lo. No chão não havia flor ou vela, mas sangue. As beatas venceram o tédio percorrendo as marcas. Os sinais estão lá, sob a sombra da castanheira, em frente a rodoviária da cidade portuária de Imbituba, no sul de Santa Catarina. Dois bêbados que não sabiam do caso se uniram a elas. Aos poucos as pessoas surgiram, mais de cem. Meio-dia em ponto começou a missa. No mesmo horário que Vitor teve a garganta cortada, após ter os cabelos afagados pelo assassino.

A reportagem é de Aline Torres, publicada por El País, 07-01-2016.

Concluído o Pai Nosso, o padre Luciano dos Santos pediu licença para complementar a oração do Papa Francisco: “Digamos juntos, de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”, e acrescentou “nenhuma etnia indígena sem suas terras demarcadas”.

Quando se discute no Congresso mudanças que podem por em xeque a demarcação de terras indígenas no Brasil, o padre recebeu aplausos tímidos dos Guarani, que vieram de aldeias próximas, solidários ao ato.

— Esse padre é índio, né?, perguntou uma mulher.

Foi aberto espaço. A cacique Guarani Kerexu Ixapyry, 35 anos, viajou 93 km para falar.

— Eu temia por esse momento. Os indígenas são vítimas da violência em todo o Brasil. Mas é preciso a tragédia para que nos ouçam. Somos tratados piores que animais. No Mato Grosso do Sul nosso povo está sendo exterminado. Em Santa Catarina somos vítimas de ameaças”, disse a líder, há quatro anos jurada de morte.

Os Guarani entoaram um canto a Nhanderú, deus solar, pela alma do curumim. O padre encerrou seu discurso pedindo aos fiéis que “vençam as diferenças”. “Basta de perseguição”, bradou. Em seguida fez a comunidade repetir três vezes uma expressão: “Somos paz”. Nesse momento, ativistas grafitavam no chão “Vitor Kaingang vive em nós”.

Em busca do motivo

Antes que a população se dispersasse, Marina Oliveira, representante do CIMI (Conselho Indigenista Brasileiro), braço da Igreja Católica que milita na causa indígena, fez uma convocatória para irem à delegacia. Foram todos com intuito de entender o “real motivo” do assassino de Vitor.

O delegado Rafael Giordani foi cravejado pela curiosidade. No início calmo e depois irritado, ele foi respondendo cada questão. Até que um homem perguntou se a mãe de Vitor tinha reconhecido o suposto criminoso. O delegado disse que não. Mas a mulher, de longos cabelos pretos e voz trêmula, o interrompeu aos gritos: “É sim. É o menino que matou meu filho. Por que vocês querem soltar ele?”.

Era Sônia. Aos 27 anos, mãe de dois filhos, a indígena é a imagem do abandono. Vestia um camisetão rosa, saia azul comprida e havaianas verdes menores que os seus pés. A dor dos últimos dias causou tiques nervosos. As pálpebras e maçãs do rosto tremiam. Na pele há inúmeras feridas e alergias, o olho esquerdo não abre, e apesar de medir 1,5 metro, pesa mais de 80 quilos. O pai de Vitor, Arcelino, 42 anos, ao contrário, tem pinta de pastor. Vestia sapatos pretos fechados, calça social cinza e camisa azul de mangas compridas. O casal é evangélico, apesar de adorar Tupã, deus do Trovão. O sincretismo religioso permitiu a sobrevivência dos Kaingang.

A família chegou atrasada, após 12 horas de viagem de Chapecó, no Oeste catarinense, até Imbituba. Vieram os pais do indiozinho e as lideranças da aldeia Condá, onde vivem, e onde Vitor foi enterrado. Como o umbigo tradicionalmente jogado no solo após o nascimento, o curumim voltou ao ventre da Mãe Terra.

Surpreso com a presença da família, o delegado passou a responder somente aos indígenas. A plateia ora vaiava, ora se excitava. “Se um indígena cortasse a garganta de uma criança branca o Brasil viria abaixo. Quero a mesma indignação pela morte do meu filho”, justificou Sônia.

Com o clamor, o delegado transformou o espetáculo em conversa privada. Na salinha da delegacia, Sônia e Arcelino reconheceram os objetos encontrados com Matheus de Ávila Silveira, 23 anos. A mochila, a camiseta, os tênis e as luvas azuis e brancas. O jovem foi preso no 1° dia do ano e aguarda a conclusão do inquérito policial, que levará 30 dias, na Unidade Prisional Avançada de Imbituba, em isolamento. O delegado não tem dúvida sobre a autoria do crime e descreve o autor como “frio e debochado”.

Apesar dessa definição, agentes prisionais contam que Matheus arranca a própria pele, é nervoso. A autoflagelação também ocorria na delegacia de polícia, onde tentou suicídio por asfixia engolindo a espuma do colchão.

O rapaz integrava um grupo de satanistas. Segundo seu amigo Ramon, eram mal vistos na cidade praiana por gostarem de preto e fumarem maconha na praça. Na página do Facebook, Moxa Zombie postava imagens macabras e frases como Nictofilia “qualidade daquele que encontra conforto na escuridão”. No entanto, seu maior culto era às drogas. Não várias publicações exaltando pirações e bebedeiras. Como no dia que conta aos amigos “bebi tanto que mijei toda minha legging”. Apesar do perfil, Matheus não levantou suspeita.

O ataque

Sônia alimentava o indiozinho com colheradas de arroz – era apenas o que tinha naquele momento – quando viu um rapaz “simpático se aproximar”. “Ele veio calmamente. Era bem vestido, classe média. Afagou os cabelos do piá, sorriu. Quando ele olhou para cima para ver quem o tocava aconteceu o pior”, disse Sônia.

Segundo Ronaldo Campos, 33 anos, dono da lanchonete da rodoviária, Matheus “pernoitou em um dos bancos no dia anterior e parecia inofensivo”. Foi Ronaldo e a auxiliar de limpeza, Marize, que estancaram o sangue do pescoço de Vitor enquanto a índia gritava por ajuda. “Não durou dois minutos. Se tivesse uma paramédico ao lado ele não teria sobrevivido, tamanha foi a violência”, disse Ronaldo.

O comerciante atendeu Vitor e sua família desde o dia que desembarcaram no município. “O menininho vinha a tarde inteira com o irmão mais velho, Jessé, buscar doces e geladinhos. Parecia uma formiguinha carregadeira”, contou.

Arcelino trabalhava em outra praia. Comia um salgado frito com refrigerante em um boteco quando ouviu na televisão “um índio foi morto na rodoviária de Imbituba”. Quando chegou no local do crime, viu os chinelos e brinquedos de Vitor espalhados no chão. Sônia não estava, eram quase 18h.

Antes de chegar à delegacia viu a mulher vagando de um lado para o outro, sozinha, na chuva. Ali soube o destino do seu “nenê”: “Foi morto por um branco”, disse a mãe. Na rodoviária, sem abrigo ou apoio, permaneceram até a manhã seguinte.

Para o delegado, não se trata de crime étnico. Os kaingang discordam. “Esse menino não é louco. Se fosse, teria matado o primeiro que viu pela frente. Ele escolheu o Vitor, um bebê, no colo de uma indígena. Escolheu porque eram vulneráveis, assim são os índios do Brasil ”, disse a vice-cacique da Condá, Márcia Rodrigues.

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Urbano

11/01/2016 - 16h57

Uma senhora safra de capitão do mato a soldo se contrapondo a uma democracia, que se rasteja há séculos, quase sem sair do lugar…

Responder

FrancoAtirador

09/01/2016 - 16h00

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O Número de Comentários
evidencia a Invisibilidade
dos Povos Nativos do BraSil.
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Responder

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