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Abrasco: O modelo atual de combate ao Aedes está superado; o uso de produtos químicos é ineficaz e perigoso

03 de fevereiro de 2016 às 12h19

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Cidades sustentáveis e saudáveis: microcefalia, perigos do controle químico e o desafio do saneamento universal

Em nota de alerta, Abrasco diz NÃO às mesmas medidas ineficazes e perigosas e SIM às ações socioambientais transformadoras

da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)

A Abrasco manifesta-se através da atuação dos Grupos Temáticos de Saúde e Ambiente, Saúde do Trabalhador, Vigilância Sanitária, Promoção da Saúde e Desenvolvimento Sustentável e Educação Popular em Saúde, sobre a epidemia de microcefalia.

O documento pretende aprofundar reflexões, questionamentos e fazer proposições que possam orientar as políticas públicas na intervenção preventiva frente ao surto.

O crescimento exponencial da epidemia de dengue (em 2015, o Ministério da Saúde registrou 1.649.008 casos prováveis desta virose no país e houve um aumento de 82,5% dos óbitos em relação ao ano anterior).

A expansão territorial da infestação pelo Aedes aegypti atesta o fracasso da estratégia nacional de controle. Com o surgimento da epidemia do zika vírus, com repercussões ainda mais danosas ao ser humano, urge a revisão de nossa política e do programa de controle da infestação dos Aedes, visando impedir a ocorrência de epidemias por arbovírus.

Vários fatores estão envolvidos na causa dessa tragédia sanitária. Trata-se de um fenômeno complexo.

Para a Abrasco, a degradação das condições de vida nas cidades, saneamento básico inadequado, particularmente no que se refere à dificuldade de acesso contínuo a água, coleta de lixo precária, esgotamento sanitário, descuido com higiene de espaços públicos e particulares – são os principais responsáveis por esse desastre.

Observa-se que a distribuição espacial por local de moradia das mães dos recém-nascidos com microcefalia (ou suspeitos) é maior nas áreas mais pobres, com urbanização precária e  saneamento ambiental inadequado.

Nestas áreas, o provimento de água de forma irregular ou intermitente leva essas populações ao armazenamento domiciliar de água de modo inadequado, condição muito favorável para a reprodução do Aedes aegypti.

Associa-se a isto a debilidade do Sistema Único de Saúde – SUS e do Estado brasileiro para enfrentar este problema. Não há integração entre municípios, estados e União, o que impede a implementação de ações sincronizadas. Defendemos a constituição de estruturas de Vigilância à Saúde, em cada uma das 400 Regiões de Saúde, com unificação de recursos, visando planejamento e gestão das ações tanto dos municípios quanto de estados e União.

O enfrentamento destas epidemias necessita de ações que atuem em curto e médio prazo:

– Apoio e articulação de pesquisas voltadas para produção de vacinas, com prioridade para o zika vírus;

— Estudos para produzir  conhecimentos da epidemia desta doença, definindo cientificamente seu (s) modo(s) de transmissão, danos ao sistema nervoso, desenvolvimento em escala de testes clínicos, dentre outras inciativas.

– Controle da infestação de Aedes, por meio do desenvolvimento de ações imediatas em larga escala de destruição de criadouros e melhoria das condições socioambientais de nossas cidades. É importante assinalar que estas intervenções urbanas precisam ser realizadas de forma contínua e sistemática, e não como campanhas sanitárias pontuais. O terceiro tipo de ação se refere ao cuidado preventivo e atenção à saúde das pessoas expostas ao risco e infectadas.

O Ministério da Saúde declarou Estado de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional, desencadeando a intensificação do controle do Aedes aegypti pelos mesmos métodos ineficazes e perigosos utilizados há 40 anos.

É preciso problematizar o uso de produtos químicos numa escala que desconsidera as vulnerabilidades biológicas e socioambientais de pessoas e comunidades. O uso de tais substâncias pela Saúde Pública não tem tido efetividade, não diminui a infestação pelo Aedes e provoca danos sérios às pessoas.

Os compostos organofosforados e piretróides causam graves efeitos deletérios para o sistema nervoso central e periférico, além de provocarem náusea, vômito, diarreia, dificuldade respiratória e sintomas de fraqueza muscular.

No Brasil, municípios e estados têm utilizado estes produtos de maneira desastrosa. Infelizmente, não se produziu ainda consenso sobre o uso destes produtos em Saúde Pública. Agências internacionais de Saúde Pública, como o Fundo Rotatório da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda incluem o uso destes venenos, particularmente larvicidas e fumigação para diminuir a população de insetos voadores.

Preocupa-nos o uso intensivo de produtos químicos sabidamente tóxicos, como o Malathion, um verdadeiro contrassenso sanitário. Este produto é um agrotóxico organofosforado considerado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) como potencialmente cancerígeno para seres humanos.

No Estado de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional, recentemente decretado pelo Ministério da Saúde, está sendo preconizado o uso de larvicida diretamente nos carros-pipas que distribuem água nas regiões do Agreste e Sertão do Nordeste. Alertamos que esta é a mais recente ameaça sanitária imposta pelo modelo químico dependente de controle vetorial.

A Abrasco questiona: por que não foram priorizadas até agora as ações de saneamento ambiental, estratégia que parece ficar ainda mais distante? O que de fato está sendo feito para o abastecimento regular de água nas periferias das cidades? Como as pessoas podem proteger a água para consumo? Por que apesar de muitas cidades terem coleta de lixo regular, ainda se observa uma quantidade enorme de lixo diariamente presente no ambiente? E a drenagem urbana de águas pluviais? E o esgotamento sanitário?

Nós, sanitaristas e pesquisadores da Saúde Coletiva, reivindicamos das autoridades competentes a imediata revisão do modelo de controle vetorial.

O foco deve ser a eliminação do criadouro e não do mosquito adulto. Os Grupos Temáticos da Abrasco desenvolveram estudos e exigem a suspensão do uso de produtos químicos e outros biocidas, com profundas mudanças na operacionalização do controle vetorial mediante a adoção de métodos mecânicos de limpeza e de saneamento ambiental. É necessário proteger a qualidade da água para consumo humano e garantir sua potabilidade.

O amparo às famílias acometidas pelo surto de microcefalia deve ser dado mediante  uma política pública perene, com especial atenção ao pré-natal. Uma agenda de pesquisa deve ser proposta prevendo ampla oportunidade para que grupos interdisciplinares possam aportar novos conhecimentos em uma perspectiva transparente e participativa.

Destaca-se que todas as medidas de controle vetorial devem ser realizadas com ampla mobilização social no sentido da proteção da Saúde Pública, priorizando-se as medidas de saneamento ambiental, e orientadas pelos princípios da Política Nacional de Educação Popular em Saúde.

Não pode ser adotado um discurso de responsabilização unilateral das famílias pelo controle do Aedes, eximindo o poder público de seu dever de realizar uma ampla reforma urbana em curto espaço de tempo: Cidades saudáveis e sustentáveis: este é o desafio urgente.

Rio de janeiro, 2 de fevereiro de 2016,

Abrasco – Associação Brasileira de Saúde Coletiva

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Nelson

04/02/2016 - 23h49

Conceição.

Eu é que fico agradecido pela oportunidade de colaborar com o sítio e com a conscientização das pessoas a respeito do mundo real em que vivemos. penso que esta é uma tarefa inarredável de um militante social.

Responder

Otto

04/02/2016 - 13h10

Só mesmo os ecochatos para criticar o uso de inseticida contra os mosquitos.

Responder

    Nelson

    04/02/2016 - 16h06

    Você toparia toma umas gotinhas de Malathion junto com os dois litros de água que deves tomar todo dia Otto?

José Carlos Vieira Filho

04/02/2016 - 09h16

http://www.globalresearch.ca/who-owns-the-zika-virus/5505323

Responder

Sérgio Rodrigues

03/02/2016 - 19h07

O uso controlado do DDT resolveria no curto prazo essa situação, sem prescindir, claro de políticas de saneamento e educativas!…

Responder

Nelson

03/02/2016 - 17h52

É louvável o trabalho da Abrasco em defesa da saúde do povo brasileiro.

Porém, no caso do zika, parece que o buraco, ou a picada, é mais em baixo. Já saíram informações de que o vírus começou a se espalhar a partir da zona, no Nordeste brasileiro, na qual uma empresa inglesa espalhou um mosquito transgênico justamente para …conter o mosquito aedes aegypti.

A matéria “Virus del Zika: ¿Es un mosquito modificado genéticamente el causante de la epidemia?”, pode ser lida em http://www.aporrea.org/actualidad/n285048.html.

De outra parte, uma das possíveis causas da propagação rápida do zika seria a utilização de armas biológicas, afirmam autoridades russas. A matéria “Rusia: “El virus Zika se asemeja a un arma biológica” pode ser lida em http://www.aporrea.org/internacionales/n285169.html.

Responder

    Conceição Lemes

    03/02/2016 - 18h52

    Nelson, obrigada pelos links. Foi submetê-los à Abrasco. abs

FrancoAtirador

03/02/2016 - 12h58

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Nos Estados Unidos,
0.56% da População
Apresenta Microcefalia.
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(http://neuroinformacao.blogspot.com.br/2013/03/malformacoes-cerebrais-microcefalia.html)
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Responder

    FrancoAtirador

    03/02/2016 - 13h14

    .
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    18/01/2016 10h00
    Portal Brasil
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    Em entrevista, os especialistas do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente
    Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) Ana Elisa Baião, Márcio Nehab, Tânia Saad
    e Leonardo Menezes respondem as algumas dúvidas sobre o assunto.
    .
    O que pode gerar uma microcefalia?
    .
    A microcefalia é uma situação bastante antiga dentro da medicina.
    Justamente porque ela não tem uma única causa. Os vírus, de uma forma geral, podem causar microcefalia.
    .
    O que a gente mais conhece é o vírus da rubéola, um dos mais antigos e que a gente já tem campanhas para evitá-lo, como a vacinação.
    .
    Mas o citomegalovírus, que parece uma gripe para a mãe, também pode ser causa de microcefalia.
    .
    O herpes vírus, a toxoplasmose, alguns estágios da sífilis, menos frequentemente,
    .
    Mas além desses quadros que são infecciosos, você também pode ter alterações
    do metabolismo do bebê, causando isso;
    você pode ter alterações do fluxo da placenta, da quantidade de sangue com nutrientes que passa da mãe para esse bebê.
    .
    Por exemplo, problemas de pressão alta, que muitas vezes acontecem durante o pré-natal,
    podem acabar gerando um crescimento intrauterino restrito, além da própria situação genética…
    .
    (http://www.brasil.gov.br/saude)
    .
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    Lukas

    03/02/2016 - 14h32

    FrancoAtirador sempre cuidadoso com as fontes de suas postagens.

    FrancoAtirador

    03/02/2016 - 19h33

    .
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    Microcefalia Afeta Mais de 25.000 Crianças nos Estados Unidos a Cada Ano.
    .
    (http://www.news-medical.net/news/20090915/46/Portuguese.aspx)
    .
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