Parceria PUC-RJ, Viramundo e Rocinha dá samba, ops!, saúde

publicado em 27 de fevereiro de 2011 às 9:33

por Conceição Lemes

É muito comum as pessoas irem ao médico como se fossem a uma oficina mecânica. Entregam o “carro” para avaliação e depois o “pegam”, na crença de que, magicamente, montes de exames (o brasileiro é fã deles, veja aqui) e remédios por si solucionarão eventuais problemas de saúde e prevenirão um porção de outros.

Um tremendo equívoco. Saúde se constrói com check ups periódicos (veja aqui e aqui ), diagnósticos e tratamentos adequados, mas principalmente com adoção de hábitos e estilo de vida saudáveis. Acredite. Muito da nossa saúde – atual e futura – está nas mãos de cada um de nós. Isso implica informar-se. Educação em saúde.

“O modelo biomédico vigente há 100 anos, mais centrado na doença do que na saúde, tem contribuído para a perpetuação de diversas doenças infecciosas e crônico-degenerativas evitáveis, sobretudo na população de baixa renda”, afirma o médico Flávio Wittlin, coordenador executivo do curso de Educação em Saúde da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e presidente da ONG Viramundo.  “Afinal, esse modelo não prioriza a medicina preventiva, a promoção e a educação em saúde.”

“Para agravar, predomina na mídia a informação que privilegia a doença, como a publicidade de remédios e de planos de saúde”, prossegue Wittlin. “Portanto, é fundamental recuperar o tempo perdido e investir em Educação em Saúde, para ajudar a reverter essa perspectiva negativa.”

É justamente com essa visão que a PUC-RJ promoverá de março a julho de 2011 um curso de extensão universitária de Educação em Saúde. Visa à formação de pessoal para transmitir informações básicas de saúde; será em parceria com a ONG Viramundo e a comunidade da favela da Rocinha.

Público-alvo: estudantes universitários e profissionais com nível superior das áreas da saúde (médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, dentistas, fisioterapeutas), educação e comunicação, interessados em Educação em Saúde. O curso tem duas aulas semanais. Nesta entrevista, o professor Flávio Wittlin, que também integra as comissões de Saúde e  Saneamento Ambiental da recém-fundada Câmara Comunitária de Desenvolvimento Rocinha, Gávea e São Conrado, dá detalhes.

Viomundo – O curso implica trabalhar conteúdos básicos de saúde assim como as formas de levá-lo às diferentes populações?

Flávio Wittlin – É isso mesmo. Só que a agenda dos conteúdos de saúde é definida em conjunto com os moradores da Rocinha, que funciona como laboratório. Na maior parte das vezes, a Academia tenta se impor ao mundo, muitas vezes com receitas de bolo solado e de péssimo gosto. Já nós buscamos ampliar as possibilidades de conexão com a comunidade e suas diversas áreas de necessidade e interesse social.

Viomundo – Quais os objetivos educacionais do curso?

Flávio Wittlin – São vários, entre eles estes: 1) produção de conhecimento sobre questões de saúde pública e prevenção de doença e promoção de saúde; 2) a construção de novos paradigmas práticos que ampliem a eficácia de informação em saúde, sobretudo em comunidades socialmente excluídas; 3)  capacitação para manejo básico dos meios digitais para aplicação em Educação em Saúde.

Viomundo – Frequentemente no imaginário popular a disseminação de informações de saúde está associada a médicos. O projeto de vocês passa esse poder também para outros atores. Por quê?

Flávio Wittlin — A ação de saúde é muito maior do que o ato médico. Focar com exclusividade ou primazia no médico é algo muito tacanho e estúpido, um reducionismo que concorre para conservar baixo o nível de informação da população.

Há uma lacuna abissal quanto à comunicação de informação de saúde. Isso envolve desde colegas que não sabem e muitas vezes não querem comunicar nada em saúde até agentes comunitários do Programa de Saúde da Família, que têm deficiências nessa área. Mas uma vez encorajados e qualificados podem ampliar a conscientização das comunidades onde atuam.

Viomundo – Por que a Rocinha?

Flávio Wittlin – Proximidade com a PUC-RJ. O curso, aliás, é ministrado no campus da PUC e na Rocinha.  Agora, por seus indicadores sociais e de desenvolvimento humano, saúde, educação e ambientais, a Rocinha é por si só uma prioridade.

Viomundo — Como é a relação com a comunidade? E os traficantes?

Flávio Wittlin – A sensação é que estamos avançando na forma de a comunidade ver as questões de saúde. Mas ainda não conseguimos medir esses resultados.  Até recentemente as lideranças da Rocinha nos viam como outsiders. Mas estamos ganhando o respeito crescente da comunidade. Os traficantes pelo menos não nos molestam.

A propósito. Inspirando-me  nas companheiras italianas, comprometidas em construir uma rede de neopartisans contra Berlusconi et caterva, cabe a pergunta: se não agora, quando? O modelo biomédico precisa ser enfrentado com determinação, conjungando a força dos trabalhadores da saúde com a das comunidades socialmente deserdadas.

Sobre inscrições e mais informações sobre o curso de Educação em Saúde, clique aqui.

 

11 Comentários para “Parceria PUC-RJ, Viramundo e Rocinha dá samba, ops!, saúde”

  1. Eneida Azevedo disse:

    Um agradecimento aos organizadores do curso Educação em Saúde pela excelente iniciativa e oportunidade de participação, também aos professores colaboradores com seus textos/concepções, vivências e práxis, autores em vida e em memória.

  2. Heitor Rodrigues disse:

    Excelente iniciativa. O ato médico começa com a imposição da figura do médico sobre o paciente, o que retira do segundo a autonomia enquanto indivíduo. A submissão decorrente contraria a Constituição e a idéia de que somos todos iguais perante a lei. É um absurdo que um serviço público seja prestado por alguém acima dos cidadãos que o procuram por necessidade. A assimetria é óbvia. E é no bôjo dessa assimetria que ocorrem os inomináveis abusos e erros – não só dos médicos – que custam a saúde e até a vida das pessoas que os procuram. Os prejuízos, para a sociedade, e para as vítimas, são solenemente ignorados.

  3. Heitor Rodrigues disse:

    Excelente iniciativa. O ato médico começa com a imposição da figura do médico sobre o paciente, o que retira do segundo a autonomia enquanto indivíduo. A submissão decorrente contraria a Constituição e a idéia de que somos todos iguais perante a lei. É um absurdo que um serviço público seja prestado por alguém acima dos cidadãos que o procuram por necessidade. A assimetria é óbvia. E é no bôjo dessa assimetria que ocorrem os inomináveis abusos e erros – não só dos médicos – que custam a saúde e até a vida das pessoas que os procuram. Os prejuízos, para a sociedade, e para as vítimas, são solenemente ignorados.
    Imagino que o Dr. Flávio Wittlin tenha conhecimento de um vídeo feito sobre o sistema público de saúde inglês, que, entre outras coisas, remunera os médicos, em parte, de acordo com os indicadores de saúde dos pacientes sob seus cuidados, o que constitui poderoso contrapeso às práticas corruptoras das indústrias de produtos e serviços médicos, particularmente as farmacêuticas.
    Esta é uma idéia – penso eu – capaz de colocar os usuários do SUS do mesmo lado dos operadores – os profissionais da saúde – nas pontas do Sistema. Ao lado da gigantesca tarefa que o Sr. abraçou, de educar os usuários para que cuidem de si mesmos e aprendam a preservar sua autonomia diante dos profissionais de saúde, a separação entre a classe médica e a gigantesca e mentirosa máquina de propaganda que sufoca a saúde pública, seria um grande passo para melhorar nossos indigestos indicadores de saúde, sem a necessidade da submissão do Estado e da sociedade à extorsão em curso.

    O vídeo de que falo, está em: http://www.wikio.es/video/sistema-socializado-saude-4764...

    .

  4. Luiz Mario disse:

    Prezados Azenha e Conceição Lemes,
    Muito obrigado por proporcionar excelente entrevista. São iniciativas assim que deveriam colocar os holofotes. Parabéns ao Dr. Flavio Wittlin e Viramundo pelo trabalho e disposição em transformar (e virar) o mundo. Parabéns inclusive pela coragem em enfrentar a indústria farmacêutica e o corporativismo dos médicos. “A verdade é um remédio muito amargo, mas é o único que confere saúde moral.” Machado de Assis.
    Estou divulgando o curso com prazer.

  5. JotaCe disse:

    BELO TRABALHO

    Parabéns, Azenha, pra você, Conceição Lemes, e o Dr. Flávio Wittlin, por divulgarem da forma primorosa com que o fizeram, tão importante ação. A iniciativa é realmente de grande mérito e de extraordinário alcance, não só pelo público-alvo que pretende preparar, mas também porque visa de uma forma especial e pioneira os excluídos que ainda temos. Oxalá que o exemplo seja imitado por outras universidades e ongs, em outras áreas brasileiras, particularmente do Nordeste legal e da Amazônia, que detêm uma grande parte dos necessitados do país.
    Abraços,

    • Caro JC:

      Obrigado por suas reflexões. Quando participamos do FSM 2009 em Belém, pudemos reconhecer o impacto quase desesperado dos necessitados na Amazônia promovendo um debate popular muito vivo sobre a saúde pública. Nós que já tínhamos trabalhado alguns anos no norte do Ceará e igualmente nas periferias do município de São Paulo, do ABC, da cidade do Rio de Janeiro e da baixada fluminense, que não diferem muito entre si na carência da área da saúde (visite o nosso portal http://www.viramundo.org que descreve parte da nossa epopéia).
      Agora, se trata de trabalhar a Promoção de Saúde ao mesmo tempo em que se avança o SUS na esfera dos cuidados assistenciais para quem precisa deles.
      O Curso de Educação em Saúde da PUC-Rio é filho da Promoção de Saúde e pretende explorar dois aspectos centrais: a elaboração de uma agenda concertada de temas de saúde na comunidade da Rocinha e o uso de tecnologia de comunicação comunitária feita pelos moradores. A liga com a comunidade vai ser dada pela participação de seis bolsistas custeados pela própria PUC que vivem, moram e trabalham na Rocinha.

      Forte abraço,
      Flavio

      PS: Para contrapor nossa iniciativa ao hegemônico modelo biomédico, estou sugerindo aos meus companheiros docentes batizar o curso com o nome de CURSO DE EDUCAÇÃO EM SAÚDE MOACYR SCLIAR.

  6. Fernando disse:

    Muito boa a iniciativa.

    E melhor ainda por ser em uma comunidade sem UPP, pra mostrar que o povo trabalhador da favela precisa de saúde e informação, e não de homens de preto apontando fuzis e revistando bolsas.

  7. O_Brasileiro disse:

    Excelente iniciativa do grupo de extensão da universidade.
    Sem informação correta o indivíduo tem mais dificuldade em tomar a decisão correta.
    Porém, a mídia "glamouriza" ações que são extremamente nocivas à saúde das pessoas, tais como portar armas, usar bebidas alcóolicas, fumar (principalmente no cinema), comer "fast-food", não usar transporte público (estimulando o sedentarismo), entre outras.
    Por isso, a estratégia de abordagem da população é fundamental para o sucesso da ação, principalmente entre os mais jovens.

  8. betinho2 disse:

    Se quizeram acabar com o déficit ($) do sistema de saúde e melhorar a saúde da população terão que enfrentar o lobby e a máfia das multi-farmacéuticas, liberando e tornando prática normal a AUTOHEMOTERAPIA. Procurem no Google "Luiz Moura – Autohemoterapia". No Orkut tem a comunidade "Autohemoterapia".
    Já tem cura comprovada de AIDS, bem como de outras doenças consideradas incuráveis.
    Eu uso a mais de 5 anos, e nunca mais tomei remédio químico, nunca mais tive gripe, nem dor de cabeça.
    Acontece que a Autohemoterapia esvasia consultórios médicos e farmácias, dai a atuação do lobby para criminalçizar a aplicação, que é usada a mais de 100 anos, abandonada com o advento da pinicilina

  9. Dr Marcelo Silber disse:

    Conceição Lemes
    Querida Amiga
    Que prazer um assunto como este pautado no Vi o Mundo
    Sempre digo para os meus pacientes que o importante não é " desconstruir a doença" mas sim " construir sua própria saúde" . Flávio Wittlin e a ONG Viramundo estão de parabens.
    Com iniciativas como esta, os brasileiros com certeza, valorizarão mais a Medicina Holística.
    Neste quesito em particular, A Pediatria Brasileira é pioneira (Campanhas de imunização, valorização do aleitamento materno,etc…)
    Beijo afetuoso do amigo Marcelo

    • Conceição Lemes disse:

      Que bom que vc gostou, dr. Marcelo. Precisamos marcar aquela nossa conversa. Eu não esqueci, nao. Vamos ver se depois do carnaval conseguimos agendá-la. Grande abraço

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