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Blog da Saúde
26 de maio de 2010 às 19:50

Ciladas que homens criam para a própria vida sexual

por Conceição Lemes

O medo de infertilidade e principalmente de disfunção erétil (antigamente denominada impotência sexual) ronda a cabeça de homens das mais diferentes idades. Ambas podem decorrer de fatores orgânicos e/ou emocionais.

“O problema é que, por desinformação, muitas vezes os homens caem em ciladas que eles criam para si próprios no dia a dia”, afirma o urologista Sidney Glina. “Na prática, são o grande obstáculo à fertilidade e à potência sexual masculinas plenas. Infelizmente já vi muitos pacientes com problemas sexuais ou de fertilidade por causa de alguns  ‘hábitos’.”

Sidney Glina é muito respeitado pelos próprios colegas. Já foi presidente da Sociedade Internacional de Pesquisa de Disfunção Erétil e da Sociedade Brasileira de Urologia.  Atualmente, é professor livre-docente de Urologia da Faculdade de Medicina do ABC e chefe da Clínica Urológica do Hospital Ipiranga, em São Paulo.

Viomundo –  O senhor atende em serviços públicos e no consultório particular. Qual a cilada mais comum entre os jovens, por exemplo ?

Sidney Glina – É o uso sem necessidade das facilitadoras de ereção [Cialis, Helleva Levitra, Viagra, Vivanza]. Eles correm o grande risco de ficar psicologicamente dependentes, e, aí, só funcionarem na base da medicação. Portanto,  uma armadilha.

Viomundo – Por favor, explique melhor.

Sidney Glina –  Há basicamente três tipos de usuários dessas pílulas. Os pacientes que vão ao médico devido a dificuldades de ereção, e o médico prescreve. Há os homens maduros que querem dar uma turbinadinha para uma relação sexual eventual, principalmente na hora do almoço. Normalmente, eles não usam a medicação freqüentemente. E há um contingente, provavelmente o maior,  de homens que utilizam o remédio devido a medo ou insegurança. São principalmente jovens, inclusive adolescentes.

Viomundo – Como  eles podem vir a ter disfunção erétil?

Sidney Glina – Esses homens, jovens e adolescentes têm um ponto em comum: ereção perfeita mas que, seduzidos pela propaganda, recorrem a uma das pílulas existentes no mercado, para “mostrar serviço” ou “ter certerza de que o pênis vai funcionar”. Eles sabem que o remédio pode dar ajudazinha. Então, na primeira vez, usam geralmente com a namorada nova. Aí, na próxima saída, eles usam também, pois receiam que não dê certo. E, assim, vão usando sucessivamente. A brincadeira pode acabar mal. Com o tempo, esses indivíduos têm grande probabilidade de ficar dependentes psicologicamente da medicação. Começam a achar que só funcionam na base da medicação. E, se não usarem, podem realmente falhar. É uma das causas de disfunção erétil psicológica.

Viomundo – Que outras ciladas os homens armam contra a própria potência sexual e/ou fertilidade?

Sidney Glina – Há várias. A boa ereção depende não apenas do psiquismo “inteiro”, mas de nervos, artérias, veias, hormônios e músculos envolvidos no processo também íntegros. Por isso, ao usar cocaína o homem corre risco de promover danos à ereção. Explico. A cocaína mesmo consumida eventualmente e em pequenas doses pode levar à atrofia da musculatura dos corpos cavernosos, ou seja, das estruturas do pênis que, uma vez cheias de sangue, permitem a ereção. Com a manutenção do hábito, a lesão é irreversível. Aí, só prótese peniana. A cocaína afeta pouco a fertilidade masculina.

Viomundo – E a maconha?

Sidney Glina – Compromete menos a ereção do que a cocaína. O que a maconha pode provocar, assim como a cocaína, é alteração na ejaculação. Ambas atrapalham a concentração, dificultando a excitação.  Assim, sob efeitos delas o indivíduo ejacula mal. Agora, a maconha, o crack e a heroína  contêm substâncias tóxicas aos espermatozóides, afetando-os profundamente. Mesmo usuários de fins de semana dessas drogas têm diminuição da qualidade dos espermatozóides. A maconha, especificamente, pode levar também à infertilidade masculina, reduzindo os níveis de testosterona [hormônio masculino produzido pelos testículos].

Viomundo – E a bebida alcoólica?

Sidney Glina – Em excesso, o álcool, entre outras conseqüências à saúde, lesa os nervos penianos. Assim, a ordem enviada pelo cérebro aos corpos cavernosos para que se encham de sangue, não chega direito. O resultado é dificuldade para conseguir ter uma ereção. Segundo pesquisas, de 8% a 54% dos homens alcoólatras são impotentes. Além disso, homens que bebem freqüentemente têm mais dificuldade de engravidar suas parceiras por causa de dois problemas: ejaculação para trás, o que diminui o volume de espermatozóides no sêmen; ou insuficiência hepática, que pode levar à diminuição dos hormônios responsáveis pela produção dos espermatozóides.

Viomundo – E o cigarro?

Sidney Glina – O cigarro interfere no número e na motilidade dos espermatozóides, reduzinho-os. Mas, não há nenhum trabalho científico demonstrando que  diminui a fertilidade. Já a potência sexual reduz, sim. A nicotina dificulta a entrada de sangue no pênis, conseqüentemente  a ereção. A quantidade de nicotina contida em dois cigarros é suficiente para inibir a ereção de adolescentes.  Para agravar, a longo prazo o cigarro leva à formação de placas de gordura nas artérias, estreitando-as, ou seja, pode comprometer a ereção no futuro. Cachimbo, charuto e cigarrilha acarretam os mesmos malefícios que o cigarro.

Viomundo – Que outras armadilhas tem detectado?

Sidney Glina –As “bombas ”de anabolizantes, muito comuns em academias. No Brasil, são crescente causa de infertilidade. Por um mecanismo hormonal, fazem com que o indivíduo páre de produzir testosterona, impedindo a produção de espermatozóides. Em 10% a 20% dos casos, o dano é irreversível. Também por um mecanismo hormonal, as “bombas” levam à impotência sexual.

Viomundo É verdade que remédios contra quedas de cabelos à base de finasterida [Propecia, Pracap, Pro Hair, Finasterida Calvin, Finasterida Finastec, Finasterida Euro ou Finasterida Merck] podem causar infertilidade?

Sidney Glina – No estudo em que a Food and Drug Administration, a agência americana controladora de alimentos e remédios, se baseou para aprovar a finasterida, não afetou a fertilidade. O estudo da FDA foi feito com voluntários sadios durante seis meses.  Porém, num trabalho que fiz com pacientes com infertilidade, ficou comprovado que o uso crônico altera o sêmen. Trabalhos feitos por outros colegas no exterior comprovaram a mesma coisa: em homens inférteis, a finasterida pode agravar a infertilidade. Algumas vezes o paciente tem alguma outra causa de infertilidade, como a varicocele [varizes no escroto]. Aparentemente o uso da finasterida pode aumentar o efeito desta outra causa. Por isso, a recomendação a todo usuário de finasterida, que está tentando engravidar e não consegue, é suspendê-la. A produção de espermatozóides volta ao normal.

Viomundo – Os efeitos de álcool, maconha, cocaína e cigarro sobre a potência e a fertilidade também são reversíveis?

Sidney Glina –  Nunca se pegou um indivíduo absolutamente adicto para fazer contagem de espermatozóides e verificar seis meses depois como estava a quantidade. Mas, é claro, que os efeitos dependem do tempo de uso, quantidade e sensibilidade individual a essas substâncias. Quanto maior o uso maior o risco e menor a possibilidade de reversão. O que a gente vê no consultório com usuários de fins de semana de maconha e cocaína, por exemplo, é alteração na motilidade dos espermatozóides.  Os espermatozóides  “andam” mais devagar, diminuindo a probabilidade de engravidar. Quando detecto isso, peço  para o paciente suspender a droga.

Viomundo – Então o tratamento da infertilidade masculina e da impotência pode passar  pela suspensão dessas substâncias ?

Sidney Glina – Com certeza. E muitas vezes só isso basta para reverter o problema.

Viomundo –  A esta altura, alguns leitores talvez estejam dizendo que isso é “caretice”, “nunca viram ninguém com impotência e/infertilidade por causa disso” e até que o senhor “está querendo tocar horror”. O que diria para eles?

Sidney Glina – Infelizmente já vi, sim, muitos pacientes com problemas sexuais ou de fertilidade por causa destes “hábitos”. Recentemente atendi um que começou a tomar uma das pílulas para facilitar a ereção. No início, apenas um pedacinho do comprimido de 25mg. Dizia que era para dar uma turbinadinha. Agora, ele diz que a dose de 100mg já não funciona mais. Este paciente não tem nenhum problema orgânico! Tem apenas uma falta de confiança muito grande em si próprio.

Viomundo – Afinal, qual a receita para o homem manter a potência sexual e a fertilidade?

Sidney Glina – É a mesma receita para ter boa saúde física e mental: 1) n ão abusar do álcool; 2) evitar maconha, cocaína, heroína, crack, ecstasy; 3) dar adeus ao tabagismo, qualquer que seja a sua idade; 4) evitar a obesidade ou emagrecer se estiver acima do peso.  Ao combater a combater a obesidade, por tabela, diminui-se o risco de impotência sexual e infertilidade masculina. A obesidade favorece ambas; 5) controlar a pressão arterial, os níveis de colesterol e de “açúcar” no sangue. São medidas fundamentais para manter a integridade de nervos, artérias e vasos sangüíneos de todo o corpo, inclusive do pênis, ajudando a evitar disfunção erétil; 6) praticar algum tipo de atividade física. O homem que caminha três vezes por semana durante 30 minutos tem mais chance de manter a potência sexual do que aquele que não faz exercício.

Viomundo – O que receitaria mais?

Sidney Glina – Educação sexual. Não existe medida preventiva mais efetiva contra a disfunção erétil. Todo homem tem medo potencial de ficar impotente. Não há como não ter. Mas, se entender como funciona a sexualidade, menor a probabilidade de ter impotência por problemas psicológicos, que é a maior parte dos casos. Por exemplo, não se obrigar a um número x de relações sexuais só para cumprir calendário. Transar em condições  adversas perturba o envolvimento erótico, portanto a ereção. Se falhar porque estava estressado, bebeu demais ou a garota, de repente, lhe desagradou, desencanar. Vai dormir, no dia seguinte levantará bem e terá uma relação sexual tranqüila. É vital também compreender e aceitar as alterações normais do desenvolvimento contínuo do homem.

 

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