por Luiz Carlos Azenha
A foto acima foi feita quando eu e nosso guia, o iraquiano Sattar, estávamos num subúrbio de Bagdá. Era sexta-feira, o domingo dos muçulmanos. Lá no fundo, dá para ver a cúpula e os minaretes de uma das mesquitas mais importantes da cidade. É a mesquita de Kadhimiya. Xiitas de todo o mundo visitam o lugar, onde está enterrado um parente do profeta Maomé.
Os mil peregrinos que morreram em Bagdá, num confronto sectário, estavam a caminho dela. Atravessavam uma ponte sobre o rio Tigre. Rumores provocaram a correria que matou muitas mulheres e crianças. A tragédia de agosto de 2005 foi a maior desde que o Iraque ficou sob tutela dos Estados Unidos.
Visitamos o país semanas antes do início da ocupação americana. O motorista Sattar foi buscar nossa equipe em Amã, na Jordânia, para a viagem de automóvel que nos levou a Bagdá.
Os inspetores da ONU ainda estavam na cidade, procurando as armas de destruição em massa, nunca encontradas. Sattar é engenheiro civil. Trabalhou em projetos de reconstrução de Bagdá depois da guerra do Golfo, a do Bush pai. De início nos pareceu tímido e amedrontado.
Depois, ganhou confiança em nós. Antes da ocupação americana, só havia um vôo charter, irregular, entre a Jordânia e o Iraque. Por questões de segurança, todos preferiam fazer a viagem de automóvel. Dez horas na ida, dez horas na volta. Sattar fazia o trajeto duas ou três vezes por semana.
Sattar viajava até Amã, a bela capital jordaniana, em busca de jornalistas, ativistas pela paz, delegações estrangeiras. Pagava todas as propinas necessárias para azeitar a burocracia iraquiana na travessia da fronteira.
O motorista é um muçulmano devoto. A caminho de Bagdá, enquanto eu e o cinegrafista Sherman Costa almoçávamos, pediu licença educadamente, apanhou um tapete no carro e foi para um canto do restaurante. Ajoelhou-se para orar em direção a Meca.
A guerra já era tida como certa. Sattar nos contou dos planos que a família dele fizera: iriam todos para uma fazenda, no interior, esperar pela invasão americana. Na fazenda, o pessoal do Sattar já tinha estocado o essencial: comida, combustível para um gerador, baterias para ouvir as notícias pelo rádio.
A viagem Amã-Bagdá-Amã foi feita num 4×4. Mas na capital iraquiana usamos o carro acima para perseguir os inspetores da ONU, enquanto as equipes das redes americanas voavam em jipes importados. Durante a viagem, contei ao Sattar que tinha ouvido a notícia de que os americanos pretendiam iniciar o ataque a Bagdá com uma bateria de milhares de mísseis. Sattar fechou os olhos e respirou fundo, como se tivesse tomado um tiro no coração.
Semanas depois, a informação que dei a Sattar se confirmou. Foi a operação Choque e Espanto, do Pentágono. Deixamos o Iraque antes da invasão americana.
Quando nos levava de volta a Amã, Sattar não se importou quando decidimos fazer gravações em lugares onde era proibido filmar. O espião destacado pelo governo de Saddam Hussein, que nos acompanhou durante os dez dias em Bagdá, já não estava conosco. Sattar não corria mais o risco de ser delatado.
Pelo que disse, estava dividido sobre a guerra: Saddam havia destruído o país, mas os americanos não tinham nada que ocupar o Iraque. E aí, Sattar, o que você acha que vai acontecer aqui? “Tenho medo de que isso aqui se transforme numa Palestina”, respondeu.
9904534_choqueeespanto.jpg
Acertou na mosca. O último levantamento do site BodyCount, que conta o número de civis mortos no Iraque baseado em notícias publicadas pela imprensa, revela números impressionantes. No dia 20 de março de 2006, a invasão americana do Iraque completou três anos. Até então, segundo o BodyCount, foram ao menos 28.637 civis mortos.
Publicado originalmente em 21 de março de 2006
Ditadura, graças a Deus
Sobre o regime militar
Minha vida digital. Em pânico
Toda cautela é pouca
Uma história que testemunhei em Nova York.
Do tempo em que eu acompanhava Émerson Fittipaldi nas pistas.
Salvos por um triz de uma multidão enfurecida.
Nosso guia em aventuras no Iraque.
Jovem repórter toma susto em Bauru.
Dos privilégios que a profissão nos dá.
Reflexões sobre minhas filhotas – e o mundo.
Nos tempos da Globo, uma viagem à selva colombiana