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Sattar sobreviveu?

24 de fevereiro de 2010 às 01h47

por Luiz Carlos Azenha

A foto acima foi feita quando eu e nosso guia, o iraquiano Sattar, estávamos num subúrbio de Bagdá. Era sexta-feira, o domingo dos muçulmanos. Lá no fundo, dá para ver a cúpula e os minaretes de uma das mesquitas mais importantes da cidade. É a mesquita de Kadhimiya. Xiitas de todo o mundo visitam o lugar, onde está enterrado um parente do profeta Maomé.

Os mil peregrinos que morreram em Bagdá, num confronto sectário, estavam a caminho dela. Atravessavam uma ponte sobre o rio Tigre. Rumores provocaram a correria que matou muitas mulheres e crianças. A tragédia de agosto de 2005 foi a maior desde que o Iraque ficou sob tutela dos Estados Unidos.

Visitamos o país semanas antes do início da ocupação americana. O motorista Sattar foi buscar nossa equipe em Amã, na Jordânia, para a viagem de automóvel que nos levou a Bagdá.

Os inspetores da ONU ainda estavam na cidade, procurando as armas de destruição em massa, nunca encontradas. Sattar é engenheiro civil. Trabalhou em projetos de reconstrução de Bagdá depois da guerra do Golfo, a do Bush pai. De início nos pareceu tímido e amedrontado.

Depois, ganhou confiança em nós. Antes da ocupação americana, só havia um vôo charter, irregular, entre a Jordânia e o Iraque. Por questões de segurança, todos preferiam fazer a viagem de automóvel. Dez horas na ida, dez horas na volta. Sattar fazia o trajeto duas ou três vezes por semana.

Sattar viajava até Amã, a bela capital jordaniana, em busca de jornalistas, ativistas pela paz, delegações estrangeiras. Pagava todas as propinas necessárias para azeitar a burocracia iraquiana na travessia da fronteira.

O motorista é um muçulmano devoto. A caminho de Bagdá, enquanto eu e o cinegrafista Sherman Costa almoçávamos, pediu licença educadamente, apanhou um tapete no carro e foi para um canto do restaurante. Ajoelhou-se para orar em direção a Meca.

A guerra já era tida como certa. Sattar nos contou dos planos que a família dele fizera: iriam todos para uma fazenda, no interior, esperar pela invasão americana. Na fazenda, o pessoal do Sattar já tinha estocado o essencial: comida, combustível para um gerador, baterias para ouvir as notícias pelo rádio.

A viagem Amã-Bagdá-Amã foi feita num 4×4. Mas na capital iraquiana usamos o carro acima para perseguir os inspetores da ONU, enquanto as equipes das redes americanas voavam em jipes importados. Durante a viagem, contei ao Sattar que tinha ouvido a notícia de que os americanos pretendiam iniciar o ataque a Bagdá com uma bateria de milhares de mísseis. Sattar fechou os olhos e respirou fundo, como se tivesse tomado um tiro no coração.

Semanas depois, a informação que dei a Sattar se confirmou. Foi a operação Choque e Espanto, do Pentágono. Deixamos o Iraque antes da invasão americana.

Quando nos levava de volta a Amã, Sattar não se importou quando decidimos fazer gravações em lugares onde era proibido filmar. O espião destacado pelo governo de Saddam Hussein, que nos acompanhou durante os dez dias em Bagdá, já não estava conosco. Sattar não corria mais o risco de ser delatado.

Pelo que disse, estava dividido sobre a guerra: Saddam havia destruído o país, mas os americanos não tinham nada que ocupar o Iraque. E aí, Sattar, o que você acha que vai acontecer aqui? “Tenho medo de que isso aqui se transforme numa Palestina”, respondeu.

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Acertou na mosca. O último levantamento do site BodyCount, que conta o número de civis mortos no Iraque baseado em notícias publicadas pela imprensa, revela números impressionantes. No dia 20 de março de 2006, a invasão americana do Iraque completou três anos. Até então, segundo o BodyCount, foram ao menos 28.637 civis mortos.

Publicado originalmente em 21 de março de 2006

 

11 Comentários escrever comentário »

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augusto2

04/10/2012 - 16h30

Colin powell é basicamente um bom sujeito.
Tanto que ele mesmo escreveu que aquele seu famoso discurso na ONU em fev 2003, dando conta que o Saddam tinha uma penca de armas de destruiçao em massa… diz que aquilo era uma mancha (a blot) em sua biografia.

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hose gaspar chemin

19/06/2012 - 10h19

Viva o Iraque
ira que mata
ira que morre
ira que vence!

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Lucas Vila

14/11/2011 - 23h14

Alguém tem a conta de quantos civis iraquianos morreram sob o comando da "democracia" de de sadam hussein?

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    Afonso

    20/11/2012 - 20h29

    Caro Lucas. Entendi sua ironia. Mas acho que V. não vai encontrar nenhum sujeito sério que fale em democracia nos tempos de Sadam. O que se coloca é que os americanos não invadiram o Iraque para implantar uma democracia. O objetivo óbvio era o petróleo. Será que a morte de quase 30 mil civis vale isso? E quanto à sua pergunta, não posso garantir, mas ao que se sabe ele foi condenado à morte por enforcamento, pela morte de 148 iraquianos. Se foram mais, pode ser, temos é claro que lamentar. Foi o que encontrei…vamos continuar pesquisando Lucas?
    “Em 5 de novembro de 2006, ele foi condenado por acusações relacionadas ao assassinato de 148 xiitas iraquianos em 1982 e foi condenado à morte por enforcamento. A execução de Saddam Hussein foi realizada em 30 de dezembro de 2006.[6] “

    Marcos

    17/02/2013 - 20h06

    É impressionante com a versão plantada pelos americanos é comprada pela maioria. Sempre está é jogo os interesses geopolíticos da super potência, ela define onde tem que cair o poder, e onde instalar bases e a imprensa faz a parte de arrumar e propagar “bons” motivos para a intervenção.

    Wildner Arcanjo

    20/07/2013 - 14h29

    Quanto lucro as custas da miséria (e da morte) de inocentes… Essa é a raça humana!

    Filipe

    24/04/2014 - 00h27

    Se fossem os Russos que tivessem invadido o Iraque e feito o que fez os EUA estariam hoje respondendo por crimes de guerra. Não defenda genocidas!

    RONALD

    24/08/2015 - 14h50

    Sadam era um ótimo fantoche americano, mas caiu em desgraça quando resolveu negociar o petróleo em outras moedas não-dólar; aí se lascou e virou terrorista, ditador, sanguinário, blá, blá, blá. Quando usou gás mostarda da OTAN contra os curdos e dizimou milhares de mulheres e crianças, aí era herói. idem para Mubarak, Kadafi e assemelhados.

Márcio Peres

15/08/2011 - 22h27

E então: Sattar sobreviveu?

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janete

23/11/2010 - 15h14

É preciso que o mundo tenha a coragem de dizer que nao concordam com tudo que fazem os americanos,até hoje as tais armas de destruiçao em massa nao foram encontradas e milhares de inocentes morreram e o perigo de novos atentados ainda é real como a chuva, espero sinceramente que Sattar e sua familia tenham sobrevivdo. Parabéns Azenha por nos colocar a par dessa historia covarde do rico e forte contra o fraco que envengonha à muitos, infelizmente nao à todos.

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Ronise de Andrade

17/03/2010 - 17h42

Muito interessante o texto e serve pra confirmar o que sempre pensei: as pessoas comuns são perfeitamente capazes de fazer análises acertadas sobre momentos históricos em qualquer época.Não é necessários ser analista em política pra conhecer os abusos dos poderosos. Obrigada. Pra quem gosta de História esse texto é um pequeno presente!

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