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Umberto Eco: O contragolpe no Grande Irmão


10/12/2010 - 10h35

O caso WikiLeaks
Piratas vingadores e espiões em diligência

2/12/2010, Umberto Eco, Libération, Paris (traduzido em PresseEurop, Portugal)

Disseminado pelo pessoal da Vila Vudu e adaptado para o português brasileiro pelo Viomundo

O caso WikiLeaks tem uma dupla leitura. Por um lado, revela-se um escândalo aparente, um escândalo que só escandaliza por causa da hipocrisia que rege as relações entre os Estados, os cidadãos e a Comunicação Social. Por outro, anuncia profundas alterações a nível internacional e prefigura um futuro dominado pela recessão.

Mas vamos por partes. O primeiro aspecto revelado pelo WikiLeaks é a confirmação do fato de cada processo constituído por um serviço secreto (de qualquer nação) ser composto exclusivamente por recortes de jornal.

As “extraordinárias” revelações norte-americanas sobre os hábitos sexuais de Berlusconi apenas relatam o que há meses se anda a ler em qualquer jornal (exceto naqueles de que Berlusconi é proprietário), e o perfil sinistramente caricatural de Kadhafi era já há muito tempo matéria para piadas dos artistas de palco.

A regra segundo a qual os processos secretos não devem ser compostos senão por notícias já conhecidas é essencial à dinâmica dos serviços secretos, e não apenas neste século. Se for a uma livraria consagrada a publicações esotéricas, verá que cada obra (sobre o Graal, o mistério de Rennes-le-Château, os Templários ou os Rosa-Cruz) repete exatamente o que já tinha sido escrito nas obras precedentes. E isso não apenas porque o autor de textos ocultos não gosta de fazer investigações inéditas (nem sabe onde procurar notícias sobre o inexistente), mas porque os que se dedicam ao ocultismo só acreditam naquilo que já sabem e que confirma o que já tinham aprendido.

É o mecanismo do sucesso de Dan Brown. E vale para os arquivos secretos. O informador é preguiçoso, e preguiçoso (ou de espírito limitado) é o chefe dos serviços secretos (caso contrário, podia ser, quem sabe, editor do Libération), que não reconhece como verdade a não ser aquilo que reconhece. As informações ultrassecretas sobre Berlusconi, que a embaixada norte-americana em Roma enviava ao Departamento de Estado, eram as mesmas que a Newsweek publicava na semana anterior.

Então porquê tanto barulho em torno das revelações destes processos? Por um lado, dizem o que qualquer pessoa informada já sabe, nomeadamente que as embaixadas, pelo menos desde o final da Segunda Guerra Mundial e desde que os chefes de Estado podem telefonar uns aos outros ou tomar um avião para se encontrarem para jantar, perderam a sua função diplomática e, à exceção de alguns pequenos exercícios de representação, transformaram-se em centros de espionagem. Qualquer espectador de filmes de investigação sabe isso perfeitamente e só por hipocrisia finge ignorar.

No entanto, o fato de ser exposto publicamente viola o dever de hipocrisia e serve para estragar a imagem da diplomacia norte-americana. Em segundo lugar, a ideia de que qualquer pirata informático possa captar os segredos mais secretos do país mais poderoso do mundo desfere um golpe não negligenciável no prestígio do Departamento de Estado. Assim, o escândalo põe tanto em cheque as vítimas como os “algozes”.

Mas vejamos a natureza profunda do que aconteceu. Outrora, no tempo de Orwell, podia-se conceber todo o poder como um Big Brother, que controlava cada gesto dos seus súbditos. A profecia orwelliana confirmou-se plenamente desde que, controlado cada movimento por telefone, cada transação efetuada, hotéis utilizados, autoestradas percorridas e assim por diante, o cidadão se foi tornando na vítima integral do olho do poder. Mas quando se demonstra, como acontece agora, que mesmo as catacumbas dos segredos do poder não escapam ao controle de um pirata informático, a relação de controle deixa de ser unidirecional e torna-se circular. O poder controla cada cidadão, mas cada cidadão, ou pelo menos um pirata informático – qual vingador do cidadão –, pode aceder a todos os segredos do poder.

Como se aguenta um poder que deixou de ter a possibilidade de conservar os seus próprios segredos? É verdade, já o dizia Georg Simmel, que um verdadeiro segredo é um segredo vazio (e um segredo vazio nunca poderá ser revelado); é igualmente verdade que saber tudo sobre o caráter de Berlusconi ou de Merkel é realmente um segredo vazio de segredo, porque releva do domínio público; mas revelar, como fez o WikiLeaks, que os segredos de Hillary Clinton são segredos vazios significa retirar-lhe qualquer poder. O WikiLeaks não fez dano nenhum a Sarkozy ou a Merkel, mas fez um dano enorme a Clinton e Obama.

Quais serão as consequências desta ferida infligida num poder muito poderoso? É evidente que, no futuro, os Estados não poderão ligar à Internet nenhuma informação confidencial – é o mesmo que publicá-la num cartaz colado na esquina da rua. Mas é também evidente que, com as tecnologias atuais, é vão esperar poder manter conversas confidenciais por telefone. Nada mais fácil do que descobrir se e quando um Chefe de Estado se desloca de avião ou contatou um dos seus colegas. Como poderão ser mantidas, no futuro, relações privadas e reservadas?

Sei perfeitamente que, no momento, a minha visão é um pouco de ficção científica e, por conseguinte, romanesca, mas vejo-me obrigado a imaginar agentes do governo a deslocar-se discretamente em diligências de itinerários incontroláveis, portadores de mensagens que têm de ser decoradas ou, no máximo, escondendo as raras informações escritas na sola de um sapato. As informações serão conservadas em cópia única, em gavetas fechadas à chave: afinal, a tentativa de espionagem do Watergate teve menos êxito do que o WikiLeaks.

Já tive ocasião de escrever que a tecnologia avança agora a passo de caranguejo, ou seja para trás. Um século depois de o telégrafo sem fios ter revolucionado as comunicações, a Internet restabeleceu um telégrafo com fios (telefônicos). As fitas de vídeo (analógicas) permitiram aos investigadores de cinema explorar um filme passo-a-passo, andando para trás e para diante, descobrindo todos os segredos da montagem; agora, os CD (digitais) permitem saltar de capítulo em capítulo, ou seja por macro porções. Com os trens de alta velocidade, vai-se de Roma a Milão em três horas, enquanto, de avião, com as deslocações que implica, é necessário três horas e meia. Não é, pois, descabido que a política e as técnicas de comunicação voltem ao tempo das carruagens.

Uma última observação. Antes, a imprensa tentava compreender o que se tramava no segredo das embaixadas. Atualmente, são as embaixadas que pedem informações confidenciais à imprensa.





28 comentários

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» Invocação exagerada a Orwell

27 de março de 2011 às 11h28

[…] necesita confidencialidad”. No  Liberátion, Eco faz apenas uma ressalva sobre o poder do cidadão. Por precaução, talvez, escreve o autor: “A relação de controle deixa de ser […]

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Marat

11 de dezembro de 2010 às 15h34

Os EEUU são hipócritas e isso é facilmente perceptível, graças à imprensa nacional e internacional. Eles sempre escolhem o verbo, o aposto, o adjunto adnominal, adverbial, as adversativas etc., como é melhor para o império, bem como filtra o que será e o que não será divulgado. Qualquer pessoa de inteligência mediana percebe isso. É só ler os jornais e ver os jornais da TV: as notícias internacionais são as mesmas, idênticas, só mudam os divulgadores. É sinistro e tétrico viver num mundo assim: a qualquer momento o império pode bombardear um país, um prédio, um instituto etc., que terá a guarida daqueles que deveriam zelar pelo bem do mundo, que é a imprensa!

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VLO

11 de dezembro de 2010 às 14h20

Eco, como sempre, é genial.

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WikiLeaks vaza Santayana & Eco « Ficha Corrida

11 de dezembro de 2010 às 09h37

[…] Umberto Eco: O contragolpe no Grande Irmão […]

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José Ricardo Romero

11 de dezembro de 2010 às 09h13

Ao invéz de Big-brother, Big-pop. O abismo nos olhando de volta é ótimo! E se a humanidade experimentasse ser honesta e sincera. Se os governos fossem totalmente transparentes e não tivessem nada a esconder. Acabaria com a futricagem cibernética. Será que os governos serão obrigados a isto? Sim, porque não há possibilidade de se controlar a internete.

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Mariana

11 de dezembro de 2010 às 08h30

Mas nós já estamos acostumados a ver e saber que a Tribuna do Senado, por exemplo, é pautada pela Imprensa. Para nós não devia causar estranheza isso, já que todos os escândalos que ameaçaram a nossa República tiveram início em futricas e intrigas de jornais – mentirosas, em sua maioria.

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Luciano Prado

10 de dezembro de 2010 às 22h26

As pessoas ainda não entenderam os motivos dos Estados Unidos às reações ao WikiLeaks.

É o “game over” imbecil. É o fim do Império. Ou alguém já viu uma gota de democracia e civilidade diante da tragédia do “game over”? É sintomático… O mundo não suporta mais o Império. E o Império reage.

Diferentemente dos filmes/documentários que trazem excesso de dramaturgia e sentimentalismo para explicar o quase inexplicável, agora estamos assistindo e vivenciando, em tempo real a ruína de mais um Império. E ainda não nos damos conta dessa realidade.

Sorria, você está assistindo ao fim de um Império.

Quanto tempo dura?

Segundo o que nos conta a história toda uma geração, mas nos tempos atuais tudo pode ser bem mais rápido.

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Luciano Prado

10 de dezembro de 2010 às 22h03

Gente inútil que vive para fococar e ser pago para isso. É no que se tornaram certamente os "diplomatas" – americanos. Se alimentam das próprias feridas.

Inúteis.

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José Manoel

10 de dezembro de 2010 às 22h02

Azenha: ou seja, a m…….. está escorrendo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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José Manoel

10 de dezembro de 2010 às 22h01

Azenha: os "malas" do norte se deram conta que têm telhado de vidro!!!!!!!!! Agora, não há saída!!!!!!!!!!!!!!!

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Nilva

10 de dezembro de 2010 às 22h00

Umberto Eco é o nome.

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Regina

10 de dezembro de 2010 às 20h41

Nem do pp livro precisamos mais…Mas a puniçaõ e o isolamento do ASSANGE numa prisaõ é igual a fogueira.Só uma coisa é que discordo do Umberto…apenas 1000 documentos foram publicados até agora…nenhuma novidade…mas faltam 250.000.Acho que o Admirável Mundo Novo vai mostrar melhor a imensidaõ do abismo.ASSANGE FREE.

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Sem legitimidade

10 de dezembro de 2010 às 20h39

Quem sou eu pra criticar o senhor Eco, mas… internet por acaso tem fios? Psra mim internet é uma rede que usa TODOS os meios, satelite, cabo, radio, etc. E a tecnologia digital nao apenas te deixa ver cada micro pedaco de filme, assim como seus bits mais basicos. Acho que a tecnologia nao anda pra tras nao. Acho que ate grandes escritores cometem generalizaçoes sensacionalistas… Humildemente, eu.

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Lucas Cardoso

10 de dezembro de 2010 às 19h54

"No entanto, o fato de ser exposto publicamente viola o dever de hipocrisia e serve para estragar a imagem da diplomacia norte-americana. Em segundo lugar, a ideia de que qualquer pirata informático possa captar os segredos mais secretos do país mais poderoso do mundo desfere um golpe não negligenciável no prestígio do Departamento de Estado. Assim, o escândalo põe tanto em cheque as vítimas como os “algozes”."

Esses não são os segredos mais secretos. Mais de três milhões de pessoas têm acesso aos arquivos que foram vazados. É a rede SIPRNET. Como você pode ver, todos os "cables" têm a sigla SIPDIS em sua introdução. Isso indica que são distribuídos pela rede SIPRNET, criada para fazer comunicação entre os departamentos do governo estadunidense. É por isso que um soldado no Afeganistão teve acesso à correspondência diplomática.

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Tito Bahiense

10 de dezembro de 2010 às 19h18

Que maestria, que mestre Humberto Eco é!

Me diz agora o que dirão os roteiros desses super filmes de espionagem que acabam de receber um "olé" da realidade…Filmes estes que propagandeiam a esmo os exitos da CIA e companhia desde sempre.

Que admirável mundo agora virá?

Novos tempos pós Orwell.

Alvorrai…

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Raphael Tsavkko

10 de dezembro de 2010 às 19h13

O WikiLeaks desnudou o Império. Não que não soubéssemos com quem estávamos lidando, mas agora provamos. A rede provou.

O WikiLeaks, enfim, foi a prova maior de que Liberdade de Expressão, nos EUA, só para os amigos do Rei, ou melhor, do Imperador. Republicano ou Democrata, branco ou negro, não importa, democracia é algo abstrato e que só serve para patrocinar guerras ilegítimas.

Documentos vazados, todas as teses que a esquerda vinha denunciando há décadas – e que muitos gostavam de acreditar ser só teoria da conspiração ou algum plano Comunista de dominação mundial (alô Olavo de carvalho!) – se mostraram verídicas.

É engraçado como o mundo – ou pelo menos muita gente – precisou do WikiLeaks pra finalmente se convencer de que os EUA são um Estado Terrorista… Será que ainda restam dúvidas?

Read more: http://tsavkko.blogspot.com/2010/12/eua-e-o-imper

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    Luciano Prado

    10 de dezembro de 2010 às 22h35

    Não Raphael, não há dúvidas. O que há é um processo de absorção da realidade que insistimos em não querer aceitar. Os Impérios demoram a ruir exatamente porque não acreditamos na sua ruína. Estamos presenciando – historicamente – a desejada ruína de um Império. Mais um.

    O terrorismo de Estado é um sintoma da ruína de um Império.

    Sorria, você está assistindo a ruína dos Estados Unidos.

El Cid

10 de dezembro de 2010 às 18h22

… enquanto isso no twitter, o senador "água de salsicha" (Eduardo Azeredo), vomita essa bobagem:

@azeredosenador: Só faltava essa! Pres.Lula defende hacker! (postado ás 17:08h)

… alguém diga pra esse imbecil e mal-informado senador que a Wikileaks não são crackers. Divulgam textos RECEBIDOS!

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mariazinha

10 de dezembro de 2010 às 17h35

Grande, Umberto Eco!
Agora sim, uma análise perfeita da onda uikilique.

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Bernardo Peres

10 de dezembro de 2010 às 16h58

Sempre imaginei a internet como uma espécie de inconsciente coletivo cibernético. Um ambiente onde reinaria (ou será que já reina?) uma anarco-democracia extrema.

Tenho a impressão de que não me havia enganado. O fenômeno WikiLeaks representa justamente esse conceito, a partir do momento em que a liberdade de informação é levada às últimas conseqüências por essas pessoas.

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Vera Silva

10 de dezembro de 2010 às 14h10

Ótimo. O poderosos estão descobrindo que o poder foi dessacralizado e que ninguém mais os leva a sério.
Fariam bem em não se levarem mais tão a sério.
Por outro lado, a sugestão do H. Eco cai muito bem em quem gosta da escuridão: copiar a pompa dos impérios antigos e continuar a acreditar em segredos de Polichinelo.

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Leider_Lincoln

10 de dezembro de 2010 às 14h10

Sábio mesmo foi Nietzsche que afirmou que, ao se olhar para o abismo, o abismo olharia de volta para você. O Grande Irmão vinha há anos tudo vigiando, tudo observando e anotando. Como Orwell previra; o que nem o os tentáculos do Grande Irmão (governos, bancos, mídia tradicional…) nem Orwell previram, mas o alemão sim, é que o abismo olharia de volta. Voilà!

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Gisela

10 de dezembro de 2010 às 12h08

Umberto Eco, sempre genial.

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Scan

10 de dezembro de 2010 às 12h05

Muito boa análise.
Acho que foi o melhor texto do Umberto Eco que li até o momento.

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Jorge

10 de dezembro de 2010 às 11h51

Que tal voltar aos velhos tempos das malas diplomáticas para a troca deste tipo de correspondncia? Lógico que em malas reais, de couro, com um mensageiro portando e com algemas entre mala e mensageiro.

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    Myrthes

    10 de dezembro de 2010 às 12h36

    E se precisarem de malas, podemos suprir a demanda de todas as nações.
    Porque se há uma coisa que não falta por aqui é mala.
    Aqui vc pode escolher modelo, quantidade e preço : http://www.pmdb.org.br/

    ZePovinho

    10 de dezembro de 2010 às 13h06

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!É melhor oferecer,também,Myrthes,para o eleitor,aqueles carrinhos de aeroporto para carregar esses malas com mais facilidade.A Dilma vai precisar!!

Gerson Carneiro

10 de dezembro de 2010 às 11h49

WikiLeaks é o nome da rosa.

Com o agravante de que, além de não ser mais possível, não faz mais efeito colocar veneno nas páginas, com o intuito de impedir a disseminação do conhecimento, eis que não mais utilizamos o dedo e a língua para irmos à próxima página.

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