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Paulo Moreira Leite: A diferença entre os autos e a opinião publicada


02/08/2012 - 12h01

Constrangimentos no mensalão

06:40, 2/08/2012

por Paulo Moreira Leite, em seu blog

Sabemos que  os esquemas financeiros da política brasileira são condenáveis por várias razões, a começar pela principal: permitem ao poder econômico alugar o poder político para que possa atender a seus interesses. Os empresários que contribuem com campanhas financeiras passam a ter deputados, senadores e até governos inteiros a seu serviço, o que é lamentável. O cidadão comum vota uma vez a cada quatro anos. Sua força é de 1 em 100 milhões. Já o voto de quem sustenta os políticos é de 100 milhões contra 1.

Por isso sou favorável a uma mudança nas regras de campanha, que proíba ou pelo menos controle essa interferência da economia sobre a política. Ela é, essencialmente, um instrumento da desigualdade. Contraria o princípio democrático de que 1 homem equivale a 1 voto.

Pela mesma razão,  eu acho que todos os fatos relativos ao mensalão petista precisam ser esclarecidos e examinados com serenidade. Casos comprovados de desvios de recursos públicos devem ser punidos. Outras irregularidades também não devem passar em branco.

Não vale à pena, contudo, fingir que vivemos entre cidadãos de laboratório. Desde a vassoura da UDN janista os  brasileiros têm uma longa experiência com campanhas moralizantes para entender um pouco mais sobre elas. Sem ir ao fundo dos problemas o único saldo é um pouco mais de pirotecnia.

No tempo em que Fernando Henrique Cardoso era sociólogo, ele ensinava que a opinião pública não existe. O que existe, explicava, é  a “opinião publicada.” Esta é aquela que você lê.

O julgamento do mensalão começa em ambiente de opinião publicada. O pressuposto é que os réus são culpados e toda deliberação no sentido contrário só pode ser vista como falta de escrúpulo e cumplicidade com a corrupção.

Num país que já julgou até um presidente da República, é estranho falar que estamos diante do “maior julgamento da história.” É mais uma opinião publicada.  Lembro dos protestos caras-pintadas pelo impeachment de Collor. Alguém se lembra daquela  da turma do “Cansei”?

Também acho estranho quando leio que o mensalão foi “revelado” em junho de 2005. Naquela data, o deputado Roberto Jefferson deu a entrevista à  Folha onde denunciou a existência do “mensalão” e disse que o governo pagava os deputados para ter votos no Congresso. Falou até que eles estavam fazendo corpo mole porque queriam ganhar mais.

Anos mais tarde, o próprio deputado diria – falando “a Justiça, onde faltar com a verdade pode ter mais complicações  – que o mensalão foi uma “criação mental”. Não é puro acaso que um número respeitável de observadores considera que a existência do mensalão não está provada.

A realidade é que o julgamento do mensalão começa com um conjunto de fatos estranhos e constrangedores. Alguns:

1. Roberto Jefferson continua sendo apresentado com a principal testemunha do caso. Mas isso é o que se viu na opinião publicada. Na opinião não publicada, basta consultar seus depoimentos à Justiça, longe dos jornais e da TV, para se ouvir outra coisa.  Negou que tivesse votado em projetos do governo por dinheiro. Jurou que o esquema  de Delúbio Soares era financiamento da campanha eleitoral de 2004. Lembrou que o PTB, seu partido, tem origens no trabalhismo e defende os trabalhadores, mesmo com moderação. Está tudo lá, na opinião não publicada. Ele também diz que o mensalão não era federal. Era  municipal. Sabe por que? Porque as eleições de 2004 eram municipais e o dinheiro de Delúbio e Marcos Valério destinava-se a essa campanha.

2. Embora a opinião publicada do procurador geral da República continue afirmando que José Dirceu é o “chefe da quadrilha” ainda é justo esperar por fatos além de interpretações. Deixando de lado a psicologia de botequim e as análises impressionistas sobre a personalidade de Dirceu  é preciso encontrar a descrição desse comportamento nos autos. Vamos falar sério: nas centenas de páginas do inquérito da Polícia Federal – afinal, foi ela quem investigou o mensalão – não há menção a Dirceu como chefe de nada. Nenhuma testemunha o acusa de ter montado qualquer esquema clandestino para desviar qualquer coisa. Nada. Repito essa versão não publicada: nada. São milhares de páginas.  Nada entre Dirceu e o esquema financeiro de Delúbio.

3. O inquérito da Polícia Federal ouviu  337 testemunhas. Deputados e não deputados. Todas repetiram o que Jefferson disse na segunda vez. Nenhuma falou em compra de votos para garantir votos para o governo. Ou seja: não há diferença entre testemunhas. Há concordância e unanimidade, contra a opinião publicada.

4. A opinião publicada também não se comoveu com uma diferença de tratamento entre petistas e tucanos que foram agrupados pelo mesmo Marcos Valério. Como Márcio Thomaz Bastos deve lembrar no julgamento, hoje, os  tucanos tiveram direito a julgamento em separado. Aqueles com direito a serem julgados pelo STF e aqueles que irão para a Justiça comum. De ministros a secretárias, os acusados do mensalão petista ficarão todos no mesmo julgamento. A pouca atenção da opinião publicada ao mensalão mineiro dá a falsa impressão de que se tratava de um caso menor, com pouco significado. Na verdade, por conta da campanha tucana de 1998 as agências de Marcos Valério recebiam verbas do mesmo Banco do Brasil que mais tarde também abriria seus cofres para o PT. Também receberam aqueles empréstimos que muitos analistas consideram duvidosos, embora a Polícia Federal tenha concluído que eram para valer.  De acordo com o Tribunal de Contas da União, entre 2000 e 2005, quando coletava para tucanos e petistas, o esquema de Marcos Valério recebeu R$ 106 milhões. Até por uma questão de antiguidade, pois entrou em atividade com quatro anos de antecedência, o mensalão tucano poderia ter preferência na hora de julgamento. Mas não. Não tem data para começar. Não vai afetar o resultado eleitoral.

É engraçada essa opinião publicada, concorda?

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20 comentários

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Afonso

02 de agosto de 2012 às 23h25

Conheci Paulo Moreira Leite por volta de 68/69, quando ele cobria lutas de box no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Se não me engano para o jornal da tarde ou estadão (que na época dava para se ler). Ele era um garoto. Mas lembro que tive boa impressão de sua pessoa.Nunca mais o vi. E fico contente que não tenha vendido sua alma ao Diabo. O raciocínio dele é óbvio. Marcos Valério inventou um método de financiamento de campanhas políticas (caixa 2, me parece) que foi usado com total sucesso pelo ex-governador Azeredo, em Minas Gerais. Ele, em seguida, vendeu o método aos tontos do PT, que caíram feitos patinhos. Por que então não julgar e condenar, se fosse o caso, os “malandros” do PSDB primeiro. E depois os “malandros” do PT? Por aí já se percebe o papel subserviente, desonesto, partidário, sujo, da Justiça brasileira. Portanto jovens, não esperem imparcialidade, obediência às leis…não esperem nada de honesto desses senhores que vão julgar o que a mídia apelidou de mensalão. Eles com certeza vão fazer o jogo da mídia que perdeu dinheiro quando Lula resolveu dividir a grana da publicidade federal com um maior número de jornais,revistas,rádios e TVs, pelo Brasil afora. As cinco ou seis “famiglias” da mídia não perdoam. Querem a volta do PSDB, custe o que custar. Até um golpe, mesmo que fosse paraguaio, seria bem vindo.(prá eles, claro). Graças a Deus, e ao meu trabalho, hoje estou na boa. Meus filhos não passarão o que eu sofri. Ditadura? Vou-me embora para Passárgada, com eles. Lá eu sou amigo do rei. Tenho pena é do sofrido povo brasileiro. Mas lutar com essa corja criada pela mídia…não tenho mais idade, nem força!

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José X.

02 de agosto de 2012 às 23h07

Tô desconfiado que a aposta no mensalão vai ser um tiro no pé para o PIG e o PSDB. Pra começar é coisa antiga, a maioria das pessoas que assiste tv nem sabe do que se trata, nem sabe quem é o Zé Dirceu. Por mais estardalhaço que o Bonner faça acho que a maioria dos Homers nem vai entender do que ele está falando…

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Marinalva

02 de agosto de 2012 às 18h45

CARTILHA PARA ACOMPANHAR O MENSALÃO

Esse é o nome da matéria publicada no Conversa Afiada, de PHA, e deve ser lida por todos os brasileiros que querem ter uma ideia das sacanagens do PIG-PSDB, etc, sobre a farsa do mensalão.

Acesse: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2012/08/02/cartilha-para-acompanhar-o-mensalao/#comment-847996

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Marinalva

02 de agosto de 2012 às 18h39

CARTILHA PARA ACOMPANHAR O MENSALÃO
(Matéria Obrigatória)

Esta é a matéria publicada no Conversa Afiada que deve ser lida por todo o brasileiro inteligente e bem informado. Não se deixe enganar. Acesse:

http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2012/08/02/cartilha-para-acompanhar-o-mensalao/#comment-847996

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Francisco

02 de agosto de 2012 às 17h44

Mas o PT parece considerar que ter acesso, se comunicar, com os trabalhadores é uma tarefa desinportante para um partido dos trabalhadores.

Já não tenho mais pena do PT. Recebe o que, afinal de contas, merece. A Lei de Médios não serve ao PT serve aos brasileiros, serve a mim, que tenho direito à informação.

PT, cadê a Lei de Meios?

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Péricles

02 de agosto de 2012 às 16h04

O Paulinho tá doido. A Época vai fazer com ele o que a Globo fez com o Franklin.
No fundo Paulinho nos lembra que a informação publicada é, em muitos casos, pura difamação. Eu acrescentaria, se não for censurado, que a informação publicada costuma ser digerida como honesta por idiotas e incautos. E disseminada como boa pelos interessados, para cuja fé há que colocar as barbas de molho. Grande Paulinho. Um abraço.

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Chico Bicudo

02 de agosto de 2012 às 15h08

Caro Azenha, texto lúcido e preciso do Paulo, como sempre. A discussão sobre a “opinião publicada” é fundamental. Há que se construir contrapontos. Publiquei também texto sobre o tema em meu Blog – “No mensalão, jornalismo condena. Mas não explica”. Link – http://bit.ly/NaCbwE. Se tiver um tempinho, passe por lá. Será um prazer. Abraços e obrigado, Chico Bicudo

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ricardo silveira

02 de agosto de 2012 às 14h35

Simples e direto, a melhor análise que li sobre o “mensalão”

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Willian

02 de agosto de 2012 às 14h24

O Mensalão é a Olimpíada da Globo.

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Renato

02 de agosto de 2012 às 14h23

Respondendo simples e diretamente, CONCORDO.
Falou tudo.

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Antônio Mário

02 de agosto de 2012 às 14h06

Corretíssimo. O mensalão já foi julgado pela mídia e por parte da população que por ingenuidade ou má fé quer o STF condene os réus. Sabemos que setores da mídia, como a Veja, tem ligações suspeitíssimas com o crime organizado e que o fato não sensibilizou outras publicações a adotarem uma atitude de condenação ao suposto descalabro da semanal da Abril. São dois pesos e duas medidas e uma oposição agonizante que precisa da ajuda do STF para não afundar de vez nas próximas eleições. Claro que não caio nessa não.

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Helenice

02 de agosto de 2012 às 13h27

“É engraçada essa opinião publicada, concorda?”
Deixando de lado o tom irônico da pergunta, os melhores adjetivos para qualificar a tal “opinião publicada” seriam “cínica” e “desonesta”.

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Bruce Guimarães

02 de agosto de 2012 às 13h22

Mais um defendendo a impunidade contra políticos.

Responder

    nilcemar

    05 de agosto de 2012 às 08h59

    Bruce, em 1º lugar, dos 38 réus do mensalão, 3 são políticos, os outros são ligados a Marcos Valério, Duda Mendonça e bancos. Em 2º lugar, ninguém aqui defende impunidade alguma. Defendem-se julgamentos justos, conforme do Estado de Direito, e, isônomos para todos os partidos. Em 3º lugar, exige-se que os meios de comunicação, entidades de utilidade pública, se comportem como tal, e não como um partido político, sempre querendo impôr seu candidato contra os legitimamente escolhidos pelo povo.

Marinalva

02 de agosto de 2012 às 13h15

MANCHETE DE O POVO (DE FORTALEZA) ONLINE

“O julgamento que marcará uma etapa da história do Brasil
Sete anos após a bombástica entrevista de Roberto Jefferson, os envolvidos no suposto esquema começam a ser julgados com as consequências sendo imprevisíveis”.

É… Mas os lerdos “jornalistas” do jornal O POVO, de Fortaleza, não leram ainda a matéria acima, principalmente no que diz respeito ao depoimento de ROBERTO JEFERSON:

1. Roberto Jefferson continua sendo apresentado com a principal testemunha do caso. Mas isso é o que se viu na opinião publicada. Na opinião não publicada, basta consultar seus depoimentos à Justiça, longe dos jornais e da TV, para se ouvir outra coisa. Negou que tivesse votado em projetos do governo por dinheiro. Jurou que o esquema de Delúbio Soares era financiamento da campanha eleitoral de 2004. Lembrou que o PTB, seu partido, tem origens no trabalhismo e defende os trabalhadores, mesmo com moderação. Está tudo lá, na opinião não publicada. Ele também diz que o mensalão não era federal. Era municipal. Sabe por que? Porque as eleições de 2004 eram municipais e o dinheiro de Delúbio e Marcos Valério destinava-se a essa campanha”.

E tem mais: “Anos mais tarde, o próprio deputado (Roberto Jeferson) diria – falando “a Justiça, onde faltar com a verdade pode ter mais complicações – que o mensalão foi uma “criação mental”. Não é puro acaso que um número respeitável de observadores considera que a existência do mensalão não está provada”.

E eu pergunto: qual é a opinião que uma pessoa inteligente (assim como eu, por exemplo) pode ter de um jornal do tipo O POVO, de Fortaleza?

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Mateus

02 de agosto de 2012 às 12h58

Se depender da opinião publicada, Dirceu “et caterva” serão condenados na certa, e por todos os crimes do mundo.

Vamos ver como reagem os Senhores Juízes da Suprema Corte.

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Luiz

02 de agosto de 2012 às 12h43

São os MORALISTAS SAFADOS, VAGABUNDOS em ação, o povo não ver mais a BANDIDA GLOBO!!!!!!!

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João Vargas

02 de agosto de 2012 às 12h42

Neste episódio, no meu entender ficará provado apenas uma coisa: O PT não é diferente de qualquer outro partido. Todos indistintamente, quando no poder utilizam diversos meios escusos pata obterem recursos para as campanhas milionárias de seus candidatos e,assim, poderem se manter no poder. Nada de novo no front.

Responder

RicardãoCarioca

02 de agosto de 2012 às 12h32

Sou contra financiamento público. Meus impostos devem ir para os serviços essenciais e não para campanhas políticas, mesmo porque, financiamento público não afasta ou anula o assédio dos empresários mal intencionados e demais agentes corruptores.

Sou a favor de um teto de contribuição igualitário para cada tipo de cargo eletivo e severo controle de custos. Se a RF consegue estabelecer desvios e demais discrepâncias em declarações de imposto de renda, com cruzamentos de dados e demais técnicas, a Justiça Eleitoral pode muito bem pedir assessoria à RF e implantar tais tecnologias adaptadas.

Responder

Bonifa

02 de agosto de 2012 às 12h11

O dinheiro compra votos. Ou compra diretamente ou por meio de uma campanha cara, não há diferença alguma. Financiamento Público exclusivo já!

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