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Carlos Lessa: Um plebiscito nacional sobre o petróleo


11/11/2013 - 11h41

Dom de Deus ou coisa do diabo

Por Carlos Lessa, no Valor Econômico, via SecGeral do MST

Em recente entrevista, a presidente Dilma considerou a reação ao leilão de Libra uma “absurda xenofobia”. Isso me permite acusá-la de fraca e mentirosa, pois em 10 de abril de 2010 declarou, em pronunciamento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC: “Não permitirei, se tiver forças para isso, que o patrimônio nacional, representado por suas riquezas naturais e suas empresas públicas, seja dilapidado e partido em pedaços”.

A entrega de 60% do campo de Libra às estatais chinesas e à Shell e Total reservou para a Petrobras 40% (embora caiba sublinhar que pelo menos 31% de suas ações estão em posse de estrangeiros.

As famílias Rothschild e Rockfeller já encarteiraram ações da Petrobras e estão também por trás da Shell e Total).

O pré-sal foi partido em pedaços e seu melhor campo entregue à propriedade estrangeira. Em tempo: para a “The Economist”, “simplesmente conseguir fazer o leilão é para ser comemorado”. A presidente entregou Libra.

Relembrar a história ajuda. Desde o final da Segunda Guerra Mundial um coro declarava que o Brasil não tinha competência financeira, econômica, técnica ou gerencial para assumir a economia do petróleo.

Walter Link, geólogo chefe aposentado da Standard Oil, declarou, à época, que o Brasil não tinha boas chances de encontrar petróleo nas bacias sedimentares terrestres e que, se houvesse petróleo, estaria no mar.

Esse juízo significava que o Brasil não tinha petróleo.

A partir da campanha “O petróleo é nosso”, chefiada pelo general Horta Barbosa, o povo brasileiro nas ruas apoiou a criação do monopólio do petróleo. 60 anos depois, a Petrobras é a 4ª maior companhia de energia do mundo e equivale a 6,5% do PIB nacional.

Algum petróleo foi achado em terra, porém os geólogos brasileiros, em 1974, localizaram o poço de Namorado, em mar aberto, na Bacia de Campos.

Em 2007, a Petrobras descobriu o pré-sal no litoral brasileiro, formações a sete mil metros de profundidade, com um potencial superior a 100 bilhões de barris (somente Libra, que é o maior campo descoberto no mundo na última década, provavelmente dispõe de mais de 10 bilhões de barris).

A presidente Dilma disse que “não é mole ser presidente” e que “exige estudar continuamente”. Agregaria que não deve esquecer o que já aprendeu. Como economista, sabe que:

1– Dispor de um mercado cativo é motor de crescimento de uma empresa. A Petrobras desfrutou do monopólio mercadológico do Brasil e, por isso, cresceu sem parar e ganhou competência técnica para descobrir o pré-sal, que é equivalente a divisas líquidas (com a vantagem de não correr o risco de desvalorização de reservas cambiais);

2 — Qualquer empresa pode calibrar seu ritmo de investimentos e abrir mão de ativos não estratégicos. É óbvio que o Brasil pode desenvolver Libra sem entregá-la a propriedade de estrangeiros. Por que a Petrobras não vende as refinarias de Pasadena e do Japão?

3 — Com energia abundante e relativamente barata, o Brasil pode aumentar a competitividade de suas exportações. Atualmente, a Petrobras subsidia gasolina importada, o que prejudica sua lucratividade e abre caminho para o discurso entreguista.

Dispor de amplas reservas mensuradas e acessíveis é deter o mais importante e crítico recurso energético esgotável do planeta; isso pode ser dom de Deus ou coisa do diabo.

A história dos países exportadores de petróleo é, quase sempre, assustadora — não é necessário mexer nos arquivos da história, basta observar a estrutura social e os recorrentes banhos de sangue nos países petroleiros.

A exceção (que confirma a regra) é a Noruega; no outro limite, está o Iraque; na corda bamba caminha o Irã.

Histórias pouco felizes se multiplicam: a Indonésia (país fundador da Opep) exportou petróleo a menos de US$ 2 o barril e atualmente importa petróleo a US$ 100 o barril; o México tem hoje uma situação inquietante.

ão assustadores os riscos geopolíticos e geoeconômicos de exportar energia não renovável. A Holanda aproveitou suas reservas de gás e, vivendo abundância de divisas — podendo importar produtos industriais e alimentos — desmantelou sua economia produtiva e, com a exaustão das reservas, percebeu que havia perdido forças de produção, o que ficou conhecido como “doença holandesa”.

Os EUA consomem 28% do petróleo extraído anualmente no mundo, dispõem de reservas insignificantes (para mais três anos de consumo) e são absolutamente conscientes de sua vulnerabilidade.

Suas frotas, seus meios de bombardeio e sua espionagem têm, agora, uma espetacular possibilidade eletrônica (com drones, matam e destroem, sem qualquer perda de vida americana).

O Brasil, fronteiro à África e tendo a América do Sul à retaguarda, pode, a qualquer momento, integrar-se em uma hipotética “OTAS” (Organização do Atlântico Sul).

O pré-sal se distribui pela plataforma continental e, provavelmente, do lado africano existe seu equivalente geológico.

A Lei 8617, de 1993, afirma o domínio e o aproveitamento do leito e subsolo do mar territorial brasileiro; as áreas exclusivas estão a até 200 milhas marítimas do território brasileiro (cada milha marítima tem 1.853 metros).

A Petrobras foi objeto de uma extensa espionagem eletrônica. A presidente Dilma, também devassada, por que não adiou o leilão?

O Brasil dispõe do pré-sal e da vantagem do conhecimento de sua geologia. Por quanto tempo?

Por que não aceleramos a construção da refinaria Abreu e Lima e do Complexo de Itaboraí? Por que não admitimos que petróleo é uma questão de Estado e não apenas matéria de governo?

Por que não fazemos um plebiscito nacional sobre a questão do petróleo?

É óbvio que o petróleo pertence ao Brasil. Sou carioca e fico surpreso que o tema sobre os royalties ocupe espaço na mídia, aonde não se discute na profundidade necessária o tema do petróleo, acentuando as rivalidades provincianas, amesquinhando e mascarando a discussão-chave sobre o tema.

A presidente Dilma disse, quando candidata: “O Pré-sal é o nosso passaporte para o futuro; entregá-lo é jogar dinheiro fora. O Brasil precisa desse recurso”.

Não é saudável imitar FHC e renegar suas próprias palavras como candidata. Por que anuncia, agora, aumentar para 30% o volume de ações do BB em Nova Iorque? Sem xenofobia, não quero classificá-la como cripto-entreguista.

Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES; escreve mensalmente às quartas-feiras.

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10 comentários

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José Américo

12 de novembro de 2013 às 18h40

Parabéns ao grande brasileiro Carlos Lessa, artigo irretocável.

Aliás, permitiria-me sugerir um humilde adendo: ele deveria ter ampliado o leque para criticar o PT como um todo, que absteve-se covardemente de empunhar a bandeira do país nesse capítulo importantíssimo da história e política energética do Brasil, ainda que de forma contrária à postura do governo, o que demonstraria verdadeiro empenho e denodo.

Sabidamente, o articulista não citou a oposição e muito menos os demais partidos de “esquerda”. Destes não se pode esperar muita coisa…

Responder

Jayme Vasconcellos Soares

12 de novembro de 2013 às 07h11

O plebiscito sobre as ações do PT e suas políticas pública está próximo a ser realizado, e se fará através as eleições de 2014; ou Dilma e seus seguidores acham que o povo brasileiro, representado pelos eleitores serão de novo enganado?! Não Dilma, você seus representantes no Congresso sabem que não voltarão mais ao poder! O povo brasileiro não quer mais trocar seus ricos campos de petróleo, recursos q pelo superavit primário, uma dívida impagável, e fonte para atos de corrupção, e justificativas para o neoliberalismo perverso, de interesse alienígeno

Responder

FrancoAtirador

11 de novembro de 2013 às 23h23

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“3 — Com energia abundante e relativamente barata,
o Brasil pode aumentar a competitividade de suas exportações.
Atualmente, a Petrobras subsidia gasolina importada,
o que prejudica sua lucratividade
e abre caminho para o discurso entreguista.”

Esse tópico, corretamente destacado pelo professor Carlos Lessa,

é de fundamental importância para a Economia do País, nesta década,

pois diz respeito a uma questão estratégica crucial para o Brasil:

A AUTOSSUFICIÊNCIA EM DERIVADOS DO PETRÓLEO (DIESEL, GASOLINA, ETC),

sobretudo porque proporcionará estabilidade dos preços desses produtos,

independentemente das oscilações da cotação no mercado internacional,

garantindo a segurança interna necessária ao planejamento de longo prazo.

No início deste ano, depois de uma matéria publicada no jornal O Globo,

a Petrobrás se pronunciou no Blog Fatos e Dados, da própria Companhia,

especificamente sobre a Autossuficiência do Brasil em Petróleo e Derivados,

ao transcrever as perguntas formuladas pelo veículo de comunicação dos Marinho

e as respectivas respostas encaminhadas pela Petrolífera à empresa jornalística:


FATOS E DADOS

Autossuficiência em petróleo: respostas ao Globo
18 de abril de 2013 / 13:19
Tag: Respostas à Imprensa

Leia a reportagem “Petrobras: Brasil voltará a ser autossuficiente em petróleo em 2014″ (versão online: http://migre.me/gBalb), publicada nesta quinta-feira (18/04) no site do jornal O Globo, e confira, abaixo, as respostas encaminhadas pela Petrobras ao veículo.

Pergunta [1]: O Brasil perdeu sua autossuficiência em petróleo?
se positivo, desde quando?

Resposta [1]: O Brasil atingiu a autossuficiência em petróleo em 2006: a produção de petróleo no País equiparou-se ao volume de derivados consumidos à época.

Entre 2007 e 2012, no entanto, o crescimento da demanda por derivados cresceu 4,9% no Brasil, contra um crescimento de 3,4% na produção de petróleo.

A partir de 2014, a produção de petróleo no Brasil voltará a atingir a autossuficiência volumétrica, ou seja, volumes iguais de petróleo produzido e de derivados consumidos, contando a produção da Petrobras + Parceiros + Terceiros.

O Brasil, no entanto, nunca foi autossuficiente em derivados (como por exemplo gasolina e diesel).

O País sempre importou e continuará importando derivados até que entrem em operação as novas refinarias previstas no Plano de Negócios e Gestão 2013-17 da Petrobras.

A curva de produção da Companhia apresentará um crescimento contínuo, até atingir 2,5 milhões de barris por dia em 2016, chegando a 2,75 milhões de barris em 2017 e 4,2 milhões de barris por dia em 2020.

A produção de petróleo passará, então, a superar a produção de derivados, o que dará ao País, também, autossuficiência em derivados.

Em 2020, a Petrobras planeja ter 4,2 milhões de barris de petróleo por dia contra uma capacidade de refino de 3,6 milhões de barris por dia e um consumo de 3,4 milhões de barris por dia.

Somente em 2013, sete novas plataformas entrarão em operação. Duas delas já chegaram às suas locações, e a terceira – Cidade de Paraty – está a caminho do Campo de Lula Nordeste, no Pré-Sal da Bacia de Santos, onde começará a produzir em 28 de maio.

O resultado desses novos projetos será o crescimento sustentado da curva de produção da Petrobras a partir de 2014.

Até 2020, a Petrobras colocará em operação 38 novas plataformas, das quais 25 começarão a produzir até 2017.

A Petrobras dispõe hoje do maior portfólio e da carteira de projetos mais robusta e diversificada entre as empresas do setor. Estão previstos, para o período 2013-2017, investimentos de US$147,5 bi nas atividades de exploração e produção no Brasil, o que representa 62,3% dos investimentos programados pela companhia.

Com os programas de Otimização de Custos Operacionais, de Aumento da Eficiência Operacional nas Unidades de Operações da Bacia de Campos e do Rio de Janeiro, e o Programa de Redução de Custos de Poços, a Companhia prevê alcançar, em 2017, uma produção de 2 milhões 750 mil barris de petróleo por dia (bpd), o que representa um acréscimo de 750 mil bpd a mais do que produzimos hoje.

Pergunta [2]: Em números, qual é o volume médio de produção de petróleo do país e qual o volume médio do consumo de combustíveis?

Resposta [2]: A produção média de petróleo da Petrobras no Brasil em 2012 foi de 1,980 milhão de barris de óleo por dia (bpd).
Dados sobre volume médio do consumo de combustíveis devem ser obtidos com a ANP.

Pergunta [3]: Tem previsão de quando se poderá recuperar a autossuficiência?

Resposta [3]: Já respondido na pergunta 1.

(http://fatosedados.blogspetrobras.com.br/2013/04/18/autossuficiencia-em-petroleo-respostas-ao-globo/#sthash.DaDaEzxY.dpuf)
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Leia também:

(http://fatosedados.blogspetrobras.com.br/category/respostas-a-imprensa)
(http://www.petrobras.com.br/pt/quem-somos/perfil/organograma)
(http://dados.gov.br/dataset/petroleo-processamento-producao-de-derivados)
(http://www.anp.gov.br/?pg=59047&m=&t1=&t2=&t3=&t4=&ar=&ps=&cachebust=1327357979291)
(http://www.investidorpetrobras.com.br/pt/plano-de-negocios-e-gestao/plano-de-negocios-e-gestao/ano/2013.htm)
(http://www.udop.com.br/download/estatistica/anp__mercado_de_combustiveis_e_derivados/2013/2002a2012_evolucao_mercado_combustiveis_derivados.pdf)
Para download: (http://www.anp.gov.br/?dw=64307)
.
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Responder

paulo bueno

11 de novembro de 2013 às 22h46

porque o PT não monta uma “MILITANCIA DIGITAL” para anular as criticas que o partido recebe na INTERNET
o PSDB mantem um grupo com mais de 5 mil pessoas logadas na INTERNET 24 horas por dia criticando O PT e atacando o partido e quem é favor nas redes sócias e em toda a INTERNET,não aparece ninguém a favor do PT na INTERNET cadê a militância DIGITAL?
porque o PT não monta uma?
cadê as pessoas que mantém cargo de confiança no governo federal ,pra defender o partido?
acorda PT,2014 ,as eleições serão definidas pelas redes socias (FACEBOOCK) ,quem souber usar tá feito,quem não souber tá ferrrado.

Responder

Fabio Passos

11 de novembro de 2013 às 22h26

Carlos Lessa tem toda razão.

Dilma traiu seus eleitores ao não cumprir seus compromissos públicos.
A entrega do pré-sal para exploração de mega-corporações transnacionais é um absurdo que seria rejeitado pela população.

Deixa o povo decidir!

Responder

M D

11 de novembro de 2013 às 18h50

Sou completamente contrário ao plebiscito!
primeiro, porque acredito piamente que nem todo mundo é capaz de fazer um juízo sensato desse assunto.
Segundo, porque muita gente é manipulável pela mídia, e a mídia tem interesses diferentes do povo brasileiro.
Além disso , não sei quais são os interesses do Carlos Lessa.Já do Valor econômico eu sei bem!

Responder

    José X.

    11 de novembro de 2013 às 19h51

    Falar em plebiscito agora é oportunismo e má-fé. Quem era contra deveria ter levantado a população à época que a lei da partilha estava no senado.

    E essa agressividade do Carlos Lessa contra a Dilma é suspeita: “Isso me permite acusá-la de fraca e mentirosa,” Tá parecendo até a Rosa Weber condenando o Zé Dirceu…

    É estranho o tanto que tem aparecido de “nacionalista” ultimamente, preocupados com o patrimônio da União. Quando FHC liberou o setor de petróleo para o capital externo não me lembro que tenha havido tantan indignação.

    É o mesmo caso da Copa do Mundo: quando o Brasil se candidatou e ganhou, também não me lembro de ter havido manifestações contra. Agora que está chegando a hora, a Copa d o Mundo é responsável por todos os problemas do Brasil.

    Resumindo: nada de novo, só exploração eleitoreira da oposição à Dilma e ao PT.

Julio Silveira

11 de novembro de 2013 às 17h27

Parabéns ao cidadão Lessa pela coragem de dizer verdades inconvenientes. Possivelmente por isso aumentarão ainda mais o, já, exercito de seus detratores, antes só encastelados no conservadorismo estreguista. Hoje, possivelmente se somarão neo entreguistas, mas esses que se assumem como esquerda. Interessante é ver como eles em linhas gerais se encontram no poder, destoando apenas no acessório verborrágico, são como zebras, diferentes listras mas a mesma espécie.

Responder

Kleber

11 de novembro de 2013 às 15h26

A verdadeira questão por trás disso tudo, meu caro Carlos Lessa, é que o mundo só não abandonou ainda o petróleo porque existem grandes e obscuros interesses da mesmas “famiglias” citadas no seu artigo.Isto sem contar que o “ouro negro” só pode ser comercializado em dólares.O que faz com que os americanos lastreiem sua moeda no petróleo do outros…

Alternativas viáveis já existem há muito tempo.Fontes de energia renováveis, baratas e confiáveis estão guardadas a sete chaves.
Porque penso assim?
Ora bolas, como posso crer que há 44 anos o homem teve o know-how para ir até a lua, e ao mesmo tempo seja incapaz de queimar petróleo para mover seus meios de transporte e movimentar a economia do planeta?

Responder

    Kleber

    11 de novembro de 2013 às 15h28

    Errata:

    Onde se lê incapaz de queimar petróleo;
    Incapaz de parar de queimar petróleo….


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