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Bruno Fernandes: Os professores em greve e a Copa de 2014


13/08/2011 - 01h56

Por Bruno Fernandes*

Caras professoras e caros professores,

Gostaríamos que dispusessem de um pouco de seu tempo para refletir conosco sobre um processo que vem ocorrendo no Brasil e, no nosso entender, lhes diz respeito diretamente, enquanto profissionais, em, pelo menos, dois aspectos. Tal processo liga-se à realização da Copa do Mundo de Futebol, mas não começa e tampouco termina com ela. O caso é que, mesmo que se tenha festejado a escolha do nosso país para sediar um dos mais suntuosos eventos esportivos do mundo, é preciso ver o que ele de fato aponta como legado para nós brasileiros.

Com relação ao primeiro aspecto da Copa que lhes diz respeito, professoras e professores, vocês sabem, melhor do que nós, que a qualidade da educação não começa nem termina dentro da sala de aula. Não é esse um dos motivos para que se reivindique melhores salários aos profissionais da educação pública?

Entendemos que a Copa do Mundo de Futebol vem aprofundar o processo histórico de arrocho salarial do professorado, uma vez que se está gastando bilhões, isso mesmo, BILHÕES, para a construção das infraestruturas exigidas pela FIFA que, além do mais, servem para produzir um modelo de cidade — do qual falaremos mais adiante — pernicioso para a maioria da população.

Quantas moradias, parques, ciclovias, praças, ginásios poliesportivos, teatros, escolas poderiam ser construídos com este dinheiro? Quantas reformas e aparelhamentos de hospitais? Quantas obras de saneamento básico, contenção de encostas e redução e prevenção às enchentes? Pode-se até realizar a Copa, mas ao invés de se gastar inutilmente com ela, poder-se-ia investir em promoção social.

Quem vai dizer que o Mineirão ou o Maracanã, embora pudessem precisar de “ajustes”, não eram excelentes estádios? O caso é que quando se trata de atender aos interesses dos ricos, o dinheiro aparece, mas quando, por exemplo, professores empunham sua justa bandeira de melhores salários, os governantes de plantão alegam que o orçamento está apertado e que o salário pago é bom e é o máximo que se pode oferecer– além de acionarem a polícia para cumprir seu papel fundamental de reprimir as necessárias lutas do povo.

Tudo bem, a Copa pode não ser a responsável pelo arrocho salarial, mas lembremos que estamos falando de um processo que não começa e tampouco termina com ela. Quantos anos serão precisos para pagar estes volumosos gastos em aeroportos, sistemas de transporte, estádios (todos visando às demandas da Copa e não da população) e com isso manter o orçamento apertado de modo a não possibilitar aumentos salariais?

E tem mais: além do estado arcar com enormes gastos (repisemos: todos visando às demandas da Copa e não da população. Lembremos: com dinheiro dos impostos pagos por toda a população, sobretudo os trabalhadores), a FIFA e seus parceiros foram agraciados com a isenção de impostos e a reforma e construção de hotéis receberão “incentivos”. A propósito, o prédio onde funcionava o Ipsemg na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, foi alugado por 35 anos para um amigo do ex-governador mineiro Aécio Neves ao custo mensal de meros 15 mil reais. Pena que não há outra palavra, porque fica difícil chamar de custo quando se considera que são apenas 15 mil reais para explorar comercialmente um prédio daquele tamanho numa das áreas mais valorizadas da capital mineira.

O segundo aspecto, mais amplo, refere-se aos atingidos pelas transformações que as cidades-sede do mundial estão passando. Como principais atingidos, milhares de famílias estão perdendo suas casas para construção de sistemas de transporte para atender às demandas dos turistas do mundial.

Vejam bem: brasileiros estão perdendo suas casas para o divertimento de estrangeiros!

Dentre outros, há também os que trabalhavam no entorno dos estádios vendendo desde camisas de times até bebidas e comidas que não mais poderão exercer sua atividade de subsistência. Vocês podem estar se perguntando: e o que a educação tem a ver com isso?

Ora, quem são aqueles para os quais vocês dão aulas nas escolas públicas? Não são os filhos dos trabalhadores empobrecidos? Embora muitos de vocês possam não ter alunos vivendo este drama, lembremos, mais uma vez, que estamos falando de um processo que não começa e tampouco termina com a Copa do Mundo de Futebol e também não diz respeito apenas às cidades-sede do megaevento.

Por isso, vale corrigir: este megaevento tem servido, na verdade, para aprofundar um modelo de cidade que marca a urbanização em nosso país, isto é, modelo no qual o pobre não tem vez, a não ser, porque não tem outro jeito, para trabalhar — quando ele tem um trabalho, claro.

É um modelo de cidade cujo sentido não é o de atender às necessidades e direitos da população, tais como saúde, esporte, lazer, moradia, educação, e sim auferir lucros para uma parte da população historicamente privilegiada — porque não dizer, é um modelo de cidade produzido pela e para a elite dominante. Sendo assim, se observa que produzem a cidade demarcando espaços destinados exclusivamente aos ricos, com toda infraestrutura e conforto, enquanto os trabalhadores perdem seus lares e, por consequência, trabalho e laços sociais, ao serem mandados para longínquas periferias normalmente sem a menor infraestrutura.

Os alunos estão dando muito trabalho na sala de aula? Mais do que nós, vocês sabem quem são eles e o que passam enquanto filhos de trabalhadores empobrecidos.

Por estas considerações, e por entendermos que educação pública e de qualidade exige salários dignos, manifestamos nosso total apoio à luta das professoras e dos professores em greve para que o governo do estado de Minas Gerais cumpra a lei do Piso Salarial Profissional Nacional (Lei n° 11.738/08).

Enfim, procuramos aqui apontar dois aspectos que imaginamos estejam relacionados com as condições de trabalho na educação básica pública, dentre elas a condição salarial, mas cremos que a questão vai muito além. Nesse sentido, que tal se vocês vierem conversar conosco sobre a Copa afim de elaborarmos juntos um entendimento sobre este megaevento que dialogue com a realidade concreta dos alunos? Ao final deste texto, consta nosso calendário de reuniões até o final deste ano. Sejam muito bem vindos!

Saudações,

Comitê  Popular dos Atingidos pela Copa 2014 BH

*Bruno Fernandes é professor de Geografia no ensino médio em Minas Gerais

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10 comentários

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COPAC

15 de agosto de 2011 às 01h46

O Comitê Popular dos Atingidos pela Copa 2014 BH (COPAC) está com suas reuniões com datas marcadas até o final do ano. As reuniões ocorrem no 14º andar do prédio da Faculdade de Direito da UFMG, situado à Avenida João Pinheiro, 100, sempre às terças ou quintas-feiras, às 19:00h, nas datas 25/08 (quinta); 06/09 (terça) e 22/09 (quinta); 04/10 (terça) e 20/10 (quinta); 01/11 (terça), 17/11 (quinta) e 29/11 (terça); 08/12 (quinta) e 20/12 (terça).
Confira o site http://atingidoscopa2014.wordpress.com/
Para enviar mensagem eletrônica ao COPAC: [email protected]

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Boa surpresa no #foraricardoteixeira paulista | Viomundo - O que você não vê na mídia

13 de agosto de 2011 às 23h40

[…] Professor Bruno Fernandes sugere que professores discutam a Copa com alunos   […]

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Scheldon

13 de agosto de 2011 às 21h30

A minha pergunta é, porque os professores não falaram abertamente com os alunos sobre a greve, justamente aqueles que vão tomar na taraqueta por conta disso??? Como diz o sábio "aquele que não tem coragem de falar ao seu próximo revela o caráter que tem".

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Alessandra

13 de agosto de 2011 às 18h05

Só queria lembrar que aqui no Ceará a situação é semelhante aos estados citados. Prefeitura e estado não têm recursos p/aplicar na educação, mas têm dinheiro sobrando p/investir nas obras da copa, estadios, o maior aquário da América Latina (pretensão do megalomaníaco governador cearense), melhoria das vias que ligam a rede hoteleira aos estádios, etc…Enquanto isso os postos de saúde continuam sem médicos, o transporte coletivo é ineficiente, a engenharia de trânsito é caótica. Mas nada como uma boa maquiagem p/agradar a "gringalhada" e faturar milhões, quem sabe até trazer tb a copa sulamericana, e o Ceará vai deixar de ser a Terra do Sol e vai virar a Terra do Futebol. Afinal, quem precisa de educação????? Professor não dá lucro!

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paulo gimenes

13 de agosto de 2011 às 12h13

O que é muito triste é ver os ditos professores as vezes fazerem criticas como a eventos como as copas sem se perguntarem ou entenderem o que se ganhará ou ficará em melhoria da infraestrutura depois da copa. Como se o problema da educação fosse salários ou tivesse começado agora. Por motivos como estes de miopia crônica e coorporativismo exarcebado e falta de espirito de luta é que chegamos nisto. Além é claro de gente como o enganador do Cristovão, que foi ministro e nada fez.

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    COPAC

    15 de agosto de 2011 às 01h56

    Sim, "ver os ditos professores as vezes fazerem criticas como a eventos como as copas sem se perguntarem ou entenderem o que" a Globo, o Estadão, a revista Veja e afins dizem que "se ganhará ou ficará em melhoria da infraestrutura depois da copa"… Ajuda aí, né?! Já passou da hora do povo perceber que esse lero-lero de "investimentos no país" favorece sempre os mesmos. Até quando a paciência aguenta esperar o "crescimento econômico" significar melhorias nas condições de vida? Até quando vamos nos estafar de trabalhar em toca do que nunca vem? Trabalhar igual burro de carga para que uns circulem com seus carrões e morem em condominios fechados? Ajuda aí…

CELIO

13 de agosto de 2011 às 11h37

É PRECISO DIZER QUE A GREVE NÃO ACONTECE SÓ POR MELHORES SALÁRIOS, MAS POR UM PROGRAMA DE VALORIZAÇÃO DOTRABALHO DO EDUCADOR, VEJA O EXEMPLO NA SEGURANÇA PÚBLICA, A GREVE DOS PMS DO PÍAUÍ, TEM BATALHÃO QUE NAO TEM VIATURA, AS QUE TEM TAO REMENDADA O PARA BRISA COM PLASTICO ,SEM ARMAMENTO ADEQUADO E MATERIAIS BÁSICOS PARA TRABALHAR, O TELEFONE USADO É UM ORELHAO E O PRÉDIO TODO SUCATEADO, PARA ONDE ESTÁ INDO O DINHEIRO DO NOSSO PAÍS???? AS DENUNCIAS DE CORRUPÇÃO EVIDENCIAM!!! SEM DIGNIDADE, SEM COPA DO MUNDO!!!

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Wagner Freitas

13 de agosto de 2011 às 10h58

Como professor da Rede Pública de Alvorada/RS, fico triste em ver colegas de todo o Brasil ficarem sentados e passivos às normativas e decisões que os Governos tomam em relação a Educação. Somos uma categoria que precisa acordar ou ficaremos na mesma poça. Um país que não valoriza seus professores é um país que está fadado a ser "escravo" de tecnologias estrangeiras.

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Sr. Indignado

13 de agosto de 2011 às 10h51

O mesmo ocorre na esfera federal. Professores das Ifes estão mobilizados e podem decretar uma greve geral. Os técnicos administrativos já estão. E isto NÃO é noticiado em lugar nenhum!!!!!
Os professores federais estão com os salários congelados desde 2008 (em 2010 teve um reajuste mas que era lááááá de 2007) e o governo federal quer congelar até depois das olimpíadas. Já ganhamos menos que outras categorias de nível médio da receita federal ou do judiciário. Questão de prioridade, e eu achando que educação era prioridade, que inocente.
E quanto a constituição. Art. 39 Inciso X que deveríamos ter reajuste (reajuste e não aumento) todos os anos? Ah é… não pode indexar a economia. Mas juros bancarios não são indexação. Reajuste das teles não são indexação… humm… como vou explicar isso para os alunos? Mandem o Mantega pra cá!

Eu não sei o que passa na cabeça do governo federal quando discursa sobre a necessidade de inovação, sobre a importância da tecnologia, enquanto temos alunos que chegam às universidades sem saber regra de três (o Senador Cristovam Buarque, INFELIZMENTE, tem razão), o dinheiro para pesquisa no Brasil é pouquinho, se comparado com outros países ou mesmo sem comparar, os salários são reduzidos todos os anos e os concursos estão suspensos, inclusive para os cursos criados neste ano.

Será que não está na hora do PT voltar à oposição?

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josaphat

13 de agosto de 2011 às 02h11

Gostei muito como referencial para os professores que não estão apoiando a greve. Essa gente precisa acordar!
Os trabalhadores só podem esperar melhores condições a partir do próprio empenho.
É pessoal.

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