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Diário da Resistência


Bolsonaro mentiu a você sobre pesquisa no Brasil; entenda
Tânia Rego/Agência Brasil
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Bolsonaro mentiu a você sobre pesquisa no Brasil; entenda


27/05/2019 - 12h35

…pesquisa até temos, na Mackenzie, no IME, no ITA, em poucas universidades. Jair Bolsonaro, em entrevista no Texas

UNIVERSIDADES PÚBLICAS RESPONDEM POR MAIS DE 95% DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA DO BRASIL

por Mariluce Moura, do Ciência na Rua

Quem minimamente acompanha a questão da produção científica no Brasil e do financiamento da pesquisa em ciência, tecnologia e inovação sabe que, ao lado da meta tão longamente sonhada da aplicação de 2% do PIB no setor, um bom equilíbrio entre investimentos públicos e privados nessas atividades constitui o segundo grande objeto de desejo de boa parte dos estrategistas e gestores da área – além, é claro, da parcela da comunidade científica nacional bem antenada às políticas de CT&I.

Isso se apresentou desde a redemocratização do país, na segunda metade dos anos 1980. O espelho em que todos miravam era obviamente o das nações mais desenvolvidas. O pensamento que então se espraiava, muito distante de recentíssimas tentações obscurantistas, era o de que o desenvolvimento científico e tecnológico constituía condição sine qua para um verdadeiro desenvolvimento socioeconômico e para a implantação de uma sociedade mais justa.

Na época, o Brasil andava ali pela casa de pouco mais de 0,7% do PIB em investimentos totais em ciência e tecnologia e a participação do setor privado, quer dizer, de empresas, ressalte-se, nesse bolo, mal ultrapassava a marca de 20%. De lá para cá, o país fez uma reviravolta nesses números, avançou muito, e pode-se mesmo dizer que cresceu espetacularmente, quando a métrica é o volume de artigos científicos indexados em bases de dados internacionais, um indicador mundialmente consagrado. Essa produção científica praticamente dobrou do começo para o fim da primeira década do século XXI. E continuou sua ascensão consistente (dados disponíveis até 2016).

A expansão notável, fruto de algumas políticas muito bem estruturadas que estão a merecer outros comentários no Ciência na rua, foi baseada na capacidade de produzir ciência das universidades públicas brasileiras, com a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ou seja, duas grandes universidades estaduais paulistas, mais algumas grandes universidades federais, como a do Rio de Janeiro (UFRJ), a de Minas Gerais (UFMG) e a do Rio Grande do Sul (UFRGS), na liderança desse processo. Mais de 95% dessa produção científica do Brasil nas bases internacionais deve-se, assim, à capacidade de pesquisa de suas universidades públicas.

Daí o espanto que causou a seguinte afirmação do presidente da República durante entrevista à rádio Jovem Pan, na noite da segunda-feira, 8 de abril:

“(…) e nas universidades, você vai na questão da pesquisa, você não tem, poucas universidades têm pesquisa, e, dessas poucas, a grande parte tá na iniciativa privada, como a Mackenzie em São Paulo, quando trata do grafeno”.

A resposta da Academia Brasileira de Ciências

A primeira e tranquila reação do presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, físico, professor da UFRJ, pesquisador dos mais respeitados por seus brilhantes trabalhos em emaranhamento quântico, foi observar que “é importante fornecer ao Presidente da República a informação correta sobre as universidades brasileiras, coletadas por órgãos internacionais”

Relata em seguida que, “de acordo com recente publicação feita por Clarivate Analytics a pedido da CAPES, o Brasil, no periodo de 2011-2016, publicou mais de 250.000 artigos na base de dados Web of Science em todas as áreas do conhecimento, correspondendo à 13a posição na produção científica global (mais de 190 países)”. As áreas de maior impacto, prossegue, “correspondem a agricultura, medicina e saúde, física e ciência espacial, psiquiatria, e odontologia, entre outras”.

Davidovich resalta que “todos os estados brasileiros estão representados” nessa produção, “o que mostra uma evolução em relação a períodos anteriores e o papel preponderante desempenhado pelas universidades públicas que estão presentes em todos os estados”.

Outro ponto fundamental de sua fala: “Mais de 95% das publicações referem-se às universidades públicas, federais e estaduais. O artigo lista as 20 universidades que mais publicam (5 estaduais e 15 federais), das quais 5 estão na região Sul, 11 na região Sudeste, 2 na região Nordeste e 2 na Centro-Oeste”.

Essas publicações, destaca o presidente da ABC, “estão associadas a pesquisas que beneficiam a população brasileira e contribuem para a riqueza nacional. Graças a essas pesquisas, o petróleo do pré-sal representa atualmente mais de 50% do petróleo produzido no país, a agricultura brasileira sofisticou-se e aumentou sua produtividade, epidemias, como a do vírus da zika, são enfrentadas por grupos científicos de grande qualidade, novos fármacos são produzidos, alternativas energéticas são propostas, novos materiais são desenvolvidos e empresas brasileiras obtêm protagonismo internacional em diversas áreas de alto conteúdo tecnológico, como cosméticos, compressores e equipamentos elétricos”.

A realidade que os dados mostram

Coordenador do projeto Métricas, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o professor Jacques Marcovich, ex-reitor da USP (1997-2001), enviou a pedido do Ciência na rua duas tabelas também muito reveladoras da produção científica das universidades brasileiras. A primeira (aqui), baseada no Leiden Ranking, “mostra que das 20 universidades que mais publicam no Brasil, não há nenhuma privada”, ele comentou.

A segunda (aqui), modificada do capítulo de autoria de Solange Santos na obra coletiva Repensar a Universidade (Repensar a universidade: desempenho acadêmico e comparações internacionais, organizado por Jacques Marcovitch, 256 pp, São Paulo, ComArte, 2018, disponível para download em http://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/224), mostra resultados de todas as universidades no Brasil em rankings internacionais e, ele observa, “aparecem apenas as PUCs em termos de privadas, e em posições relativamente baixas”.

Uma terceira tabela (veja o PDF), mais extensa e bastante atualizada, foi obtida pelo diretor científico da Fapesp, professor Carlos Henrique de Brito Cruz, a partir da base de dados Incites (https://jcr.incites.thomsonreuters.com). O que ele observa é que, “das 100 universidades brasileiras que mais publicaram artigos científicos no quinquênio 2014-2018, há 17 privadas. A melhor colocada é a PUC Paraná, em 37º lugar”.





7 comentários

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Zé Maria

28 de maio de 2019 às 20h37

.
Após engavetar estudo sobre drogas,
ministro Osmar Terra ataca Fiocruz:
“tem viés ideológico de liberação”

https://twitter.com/revistaforum/status/1133308710028173312
https://www.revistaforum.com.br/apos-engavetar-estudo-sobre-drogas-ministro-osmar-terra-ataca-fiocruz-tem-vies-ideologico-de-liberacao/

https://pbs.twimg.com/media/D7qGODOW0AERrnC.png
“O ministério resolve engavetar uma pesquisa NACIONAL da Fiocruz
que levou 3 anos e custou 7 milhões pq ela não comprova
o que o ministro vê nas ruas de Copacabana.”
https://twitter.com/aconzatti/status/1133366730171060224

“A Fiocruz faz 16 mil entrevistas, utiliza 500 pesquisadores e gasta 7 milhões,
mas evidência científica mesmo é uma caminhada em Copacabana vazia!!
Idade das trevas!!”

https://twitter.com/Hugo_Bado/status/1133336035591675904

Responder

Zé Maria

28 de maio de 2019 às 20h24

“Ministro descartou uma pesquisa sobre drogas que custou R$ 7 milhões.
A justificativa: ‘não confio nas pesquisas da Fiocruz’.

O governo não acredita
– na Fiocruz
– no IBGE
– estudos científicos em geral

Mas acredita em:
– Kit Gay
– Mamadeira de piroca
– Corrente de Zap
– Olavo”

https://twitter.com/GuilhermeBoulos/status/1133393764620406784

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Zé Maria

28 de maio de 2019 às 17h01

Perseguição Escancarada às instituições Oficiais de Pesquisa …

Fiocruz assegura qualidade de pesquisa nacional sobre drogas
vetada por órgão do Ministério da Justiça

Jornal GGN – A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou um comunicado
defendendo a metodologia do 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, pesquisa feita com 16 mil entrevistados envolvendo
500 pesquisadores.

A nota é uma resposta ao veto da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad),
ligada ao Ministério da [in]Justiça.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) está vinculada ao Ministério da Saúde,
e é considerada a mais destacada instituição de ciência e tecnologia em saúde
da América Latina. (https://portal.fiocruz.br/fundacao)

íntegra do Comunicado da Fiocruz :

“A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por prezar pela transparência e em razão de seu compromisso com a sociedade brasileira, vem a público prestar alguns esclarecimentos sobre o 3° Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, pesquisa realizada pela Fundação a partir de edital público lançado, em 2014, pela Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad), órgão ligado ao Ministério da Justiça.

A pesquisa teve início ainda em 2014 e se estendeu até o final de 2017, quando
foi enviado à Senad relatório completo com os resultados previstos em edital de licitação.
Ao todo, o projeto envolveu cerca de 500 profissionais de diferentes áreas, dentre
entrevistadores de campo, pesquisadores da área de epidemiologia e estatística,
e compreendeu as seguintes fases: planejamento, estruturação, logística,
treinamento, coleta de dados, apuração, ponderação, calibração, tabulação,
análise de dados, escrita de relatórios e tradução para outros idiomas.
Quanto aos recursos, foram utilizados cerca de R$ 7 milhões do total
de R$ 8 milhões disponibilizados pelo edital.
A prestação de contas foi enviada ao órgão financiador em junho de 2018.

O 3° Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira
é mais robusto e abrangente que os dois anteriores, pois inclui, além dos
pouco mais de 100 municípios de maior porte presentes nos anteriores,
municípios de médio e pequeno porte, áreas rurais e faixas de fronteira.
Foram entrevistados mais de 16 mil indivíduos.

Essa abrangência só foi possível graças à utilização, exigida no próprio edital,
do mesmo plano amostral adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) para realização da já reconhecida Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios (Pnad).

O plano amostral adotado permite, portanto, um cruzamento desses resultados
com dados oficiais do país.
Vale destacar que a abrangência amostral foi solicitada pelo próprio edital
e que todos os critérios solicitados foram devidamente atendidos.

Quanto à possibilidade de comparação dos dados, o grupo de pesquisa
responsável esclarece que, em função do intervalo temporal,
já que os levantamentos anteriores foram realizados em 2001 e 2005,
houve mudanças na demografia do país e nos critérios adotados
para classificação de dependência, segundo nova edição do
Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-4).

Portanto, uma comparação dos dados atuais com os anteriores não poderia ser feita
de maneira simplista e direta, mas sim a partir de análises estatísticas específicas.
Essa etapa também foi realizada, com entrega de análises comparativas
que utilizaram três abordagens diferentes.

Informamos ainda que o plano amostral empregado no 3º Levantamento foi,
em 2018, submetido, aprovado e publicado nos anais do Joint Statistical Meeting,
reunião das diversas Associações Estatísticas Mundiais, sendo referendado,
portanto, pelo Consórcio Internacional de Estatística.

O reconhecimento faz parte da trajetória dos pesquisadores que constituem
o Laboratório de Informação em Saúde (LIS), do Instituto de Comunicação
e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), onde toda
a pesquisa foi desenvolvida.

O Laboratório é reconhecido, desde 2008, como Centro de Referência do
Ministério da Saúde para as atividades de vigilância em saúde e realiza diversos
estudos, já há algumas décadas, sobre as condições de saúde da população
brasileira, com destaque para a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), um grande
inquérito de abrangência nacional, também em parceria com o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que permitiu traçar o perfil de saúde
da população brasileira, a exposição a fatores de risco, a prevalência de doenças
crônicas e o uso do sistema de saúde.

Até o presente momento, no entanto, a Senad se nega a reconhecer oficialmente
o estudo em questão.

Conforme enviado em ofício à Secretaria, a Fiocruz continuará respeitando
o edital que baliza a pesquisa e tornará público o relatório apenas após anuência do órgão ou mediante outra via prevista formalmente na legislação pertinente.

Diante dessa situação, a Presidência da Fiocruz, por intermédio da Procuradoria Federal
junto à Fundação, acionou a Câmara de Conciliação e Arbitragem da
Administração Federal (CGU/AGU), que faz intermediação de conflitos
entre órgãos públicos, e aguarda posicionamento.

A Fiocruz orgulha-se do trabalho realizado pelos seus pesquisadores e assegura
que o 3° Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira
cumpriu o proposto em edital, respeitando todo o rigor metodológico, científico
e ético pertinentes a este tipo de estudo, produzindo informações de extrema
importância para o país e a sociedade brasileira.”

https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-assegura-qualidade-de-pesquisa-nacional-sobre-drogas-0
https://jornalggn.com.br/politica/fiocruz-assegura-qualidade-de-pesquisa-nacional-sobre-drogas-vetada-por-orgao-do-ministerio-da-justica/

Responder

Morvan

28 de maio de 2019 às 11h43

Bom dia. O problema não é só o capetão. É todo o bando zumbi. O astronauta Marcos Pontes, se não vivesse fora de órbita, informaria, sem dúvida, que a Universidade Federal do Ceará terá seus estudos com couro (pele) de tilápia testados no espaço, pela NASA! Veja aqui, por favor. Quando o importante é enaltecer o Brasil, não fale com esses escroques. Biroliro é só um débil a serviço da odiosa matriz. Ele e seus sinistros.

Responder

Zé Maria

27 de maio de 2019 às 21h31

Liminar suspende venda sem licitação de ações de subsidiária da Petrobras

Ministro do Supremo suspendeu a Venda de Refinarias da Petrobras,
da unidade de fertilizantes Araucária Nitrogenados (Ansa)
e da TAG (Transportadora Associada de Gás), subsidiárias da Petrobras

A decisão do ministro Edson Fachin na Reclamação 33292
segue o entendimento do STF de que a venda de ações de estatais
que implique perda do controle acionário exige a licitação.

De acordo com o ministro, a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ)
que havia permitido a continuidade da alienação de ativos da Petrobras
sem licitação, afrontou a decisão anterior do ministro Ricardo Lewandowski.

http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=412246
https://jornalggn.com.br/petroleo-e-gas/fachin-impede-venda-de-refinarias-da-petrobras-e-da-tag/

Entendeu agora, por que os Fascistas atacam tanto o STF…

Responder

Sergio Furtado Cabreira

27 de maio de 2019 às 15h44

Bolsonaro é apenas mais um canalha golpista fascista entreguista militar à serviço de interesses estrangeiros no Brasil!
De resto, pouco se preocupam os militares e os políticos da direita “patrióticos” com os interesses nacionais…
Vamos direto até o fundo do poço!

Responder

Eugenio

27 de maio de 2019 às 14h05

Sejamos honestos, vivemos em um país de mentira, em um país estruturado sobre a coleta de riquezas e expropriação do trabalho! Até mesmo a esquerda, se recusa a fazer o mea culpa desta desavergonhada forma de enriquecimento. Também sobre a ciência há esta apropriação indébita. Pesquisadores são ridicularizados e sempre foram submetidos a escassez de verbas e baixos salários, já que neste país, tem valor os funcionários públicos, jogadores de futebol, cantores e jornalistas, que produzem… oras, mais este vexame que o povo e governantes impõem. Para que pesquisar? para trazer benefícios a quem os despreza. Isto não é trabalho é sacrifício. Mas sacrificar exige que faça sentido. Qual o sentido de melhorar uma população ignóbil? que chafurda na sua própria ignorância e preguiça?

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