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Advogada se arrepende publicamente de voto em Bolsonaro, que define como “de personalidade controversa”
Duas cenas públicas de Jair Bolsonaro antes de 2018 e a advogada que se arrependeu do voto. Reprodução
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Advogada se arrepende publicamente de voto em Bolsonaro, que define como “de personalidade controversa”


02/04/2021 - 18h03

Mea-culpa

Becky S. Korich, advogada e dramaturga, na Folha

Voltando a outubro de 2018: 55% dos votos; quantos idiotas, incluindo eu

Foi um ato de puro impulso. Um ato insano. Faço aqui a minha confissão e a torno pública: tenho a minha parcela de culpa!

Aconteceu em outubro de 2018. Vai ver que mudando, as coisas melhoram, pensei. Constrangimento.

Vontade de mudar de assunto.

Todavia, me apoio na minha dignidade para ter a coragem de prosseguir com a assunção do meu erro, talvez assim eu durma melhor esta noite.

Cena do crime. Olhei para os dois lados, dei um dane-se e apertei. Primeiro o 1, depois o 7, formando o terrível 17.

Em seguida, o tiro derradeiro: a tecla verde de confirma. Pronto, estava consumado o ato político mais estúpido que eu poderia ter cometido na vida.

Saí da sala de votação a passos rápidos, olhando para baixo para não esbarrar com nenhum conhecido. Nem desconhecido eu tinha coragem de encarar.

Cheguei em casa e instintivamente fui para o banho. Meu marido me perguntou: “E aí?”.

Repeti a escusa que tinha dito a mim, vai ver que mudando as coisas melhoram, e acrescentei: “Aparentemente ele tem uma boa equipe de ministros”.

Enquanto formalizo a presente confissão, meus batimentos cardíacos se apressam. É vergonha com raiva, com arrependimento, com sentimento de culpa. Raiva de mim, muita raiva dele.

Voltando a outubro de 2018: 55% dos votos. Quantos idiotas, incluindo eu. Não fiquei feliz, a verdade é que eu estava torcendo para ninguém vencer o pleito. Mas ele ganhando, quem perdeu foram os 100%.

Raiva dele, muita raiva de mim. Respiro fundo para conseguir continuar.

Peço-lhes apenas que não me julguem. Leio jornais, sou mulher direita, mãe de família e não estava sob efeito de drogas no fatídico outubro de 2018. E é justamente isso que agrava a minha culpa.

Eu não podia adivinhar, sussurro para mim mesma, na tentativa de me absolver e ficar livre, também, dessa dolorosa confissão. Mas logo volto a me acusar.

Não tenho como negar: suas manifestações, em 2018, já revelavam uma mente pequena.

Ocorre-me agora: quem sabe foi por causa da facada? Mulheres são seres instintivamente protetores. Mas não, nem cheguei a sentir pena.

Até porque ele se mostrava forte e invencível quando sorria da cama do hospital, coisa que hoje entendo melhor: para ele machos não adoecem e não se abatem, isso é coisa de maricas. Raiva. Nojo.

Ao meu pecado, o merecido castigo: dor na consciência, que cresce exponencialmente. E agora, com a quebra do silêncio, o vexame nacional.

Mais palpitação. Enjoo. Enjoo de ato estragado é pior do que enjoo de comer coisa estragada, pois esta o corpo expele; o outro, o corpo retém.

Pesa ainda contra mim que o contemplado tinha uma qualidade. Sim, ele nunca mentiu sobre suas intenções autoritárias.

Nunca escondeu sua personalidade controversa e seu temperamento colérico. Ingênua, portanto, eu não fui. Não posso, pois, usar em meu favor, desconhecimento como fator atenuante.

Errei, e faço o mea-culpa. E vou até o fim nessa confissão, assim como os torturados resistem quando optam pela verdade.

Confesso ainda que conheço pessoas que votaram igual, mas mesmo que esteja aqui sob tortura voluntária, me recuso a mencionar nomes.

Sou hoje coautora de crimes dolosos, por ter sido autora de um crime culposo em 2018. Carrego essa mácula.

Perdoem-me, porque eu ainda não consegui me perdoar.





6 comentários

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Ramon Cruz

04 de abril de 2021 às 11h24

O que faz um ditador ?
Sobretudo maldades contra o seu povo.
Atentados contra a vida.
É isso. Um ditador.
O Brasil não sofre um embargo econômico de nenhum país no mundo. Tem dinheiro. Não compra a vacina pq não quer comprar.
E ainda tem a cara de pau de dizerem que ditadura é na Venezuela.

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cleverson

03 de abril de 2021 às 11h35

Quantos por cento deste artigo é verdadeiro? Só ela sabe, mas, eu tenho o direito de nao acreditar em noventa por cento do que ela escreve.
As grandes verdades sao duas:
uma – ela votou no bozogenocida
duas- ela se arrependeu do voto.
Sao fatos. ok.
E as mentiras? Bem, as mentiras é que ela votou por impulso. Mentira, certamente a muitos dias ela já sabia em quem votar. E nao era, definitivamente, num petista.
Nojo? Claro que nao, ela nao tinha noje nenhum, caso contrario ela nao teria saido de casa pra votar.Teria ido junto com o Ciro para Paris. Certamente daria menos nojo.
Tomou um banho para se “limpar”. Ah, corta essa. seguramente ela estava na torcida para o patife ser eleito e eles fazerem sua festa comemorando a derrota petista.
Porque era disso que verdadeiramente se tratava, evitar a volta dos petistas. Podia ser o diabo (e era, digo, é), que o capeta teria seu voto -como teve.
Mas, ela que nao vai dizer antes o que esta querendo agora, o que ela esta desejando ardentemente é uma terceira via. Claro! Uma “intelectual” que deixa de votar num professor universitario que fez uma revoluçao (sem uma gota de sangue) no acesso a educaçao atraves do ENEM pra votar num politico dos mais baixos e escrotos de Brasília. Oras, façam-me o favor!
Se arrependeu, ok, beleza. Agora vir dizer que foi um voto “agonico”, que esse seria melhor que o outro. Putz, é querer tirar os outros de otário.
E eu nao sou otário, voce advogada nao vai me fazer de otario.
A unica mulher que me fez de otário tem nome e sobrenome.
Dilma Roussef.
E mesmo puto, com raiva, vitima flagrantemente de um estelionato eleitoral, fui la e cravei 13.
Porque mesmo com meu parco segundo grau escolar, eu sabia -por exemplo- da diferença de um gas de cozinha a R$ 45,00 de o mesmo gas de cozinha custar R$80,00 no golpista governo vampiro Temer.
,Mas, pobre advogada, foi uma vitima do “momento”. Devemos perdoa-la.
E continue buscando a sua terceira via, a mesma que vai continuar matando pobres, só que de uma maneira “mais civilizada”.

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Haroldo Cantanhede

03 de abril de 2021 às 08h46

“Personalidade controversa” ?? Mas que FOFO!!!! Isso é um PSIICOPATA e GENOCIDA. Quem votou neste monstro o fez porque, egoísta e cognitivamente indiigente, identificou-se com o seu discurso golpista e nazi-facista!

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carlo ponti

03 de abril de 2021 às 01h17

Agora já era, não tem mais nenhum território para defender. O que defender? O Ministério do Trabalho, foi para o saco, o BB, o petróleo, a PETROBRAS, a BR Distribuidora, a CLT do Getúlio, a Caixa, o Gasoduto Transnorte, as refinarias, a aposentadoria,o Pré Sal, a aposentadoria, as terras, a Amazônia, os quilombolas, o trabalho como conhecíamos, defender o que? Ganhe quem ganhar em 2022, não mudará nada. Outras dramaturgas e advogadas,. outras 20 milhões de Beckys aparecerão em 2022. Nenhuma das 20 milhões que apertaram 0 17 em 2018 não viram o pobre estudar, viajar, viajar de avião, comprar carros, trabalhar em todo o Brasil, comprar carros, orem pra faculdade, talvez saberão quando já quase senis, em livros de história, que ajudaram o mudar o curso.

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Zé Maria

02 de abril de 2021 às 18h52

Talvez não lhe conforte, mas possivelmente
umas 20 Milhões de Pessoas, no mínimo,
estão hoje com o mesmo sentimento.
Entretanto, se em 2022 o Antipetismo Lavajatista não passar, provavelmente
em 2025 igualmente Milhões de Eleitores estarão sentindo tal Arrependimento.
Aliás, foi também assim em 1989, com
Fernando Collor de Mello (PRN), e em 1998, com Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/com-100-das-urnas-apuradas-bolsonaro-teve-577-milhoes-de-votos
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Responder

    Zé Maria

    02 de abril de 2021 às 19h27

    .
    .
    Pena que os Donos das Empresas do Grupo G.A.F.E.*
    não têm a Coragem de fazer a mesma Contrição.
    Ao contrário, continuam tramando contra o Brasil.

    *G.A.F.E. = Globo, Abril, Folha, Estadão
    .
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