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Diário da Resistência


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A indústria dos planos de saúde nos EUA contra Michael Moore


27/11/2010 - 23h33

Depois da realização do documentário “Sicko”, uma denúncia contra o sistema privado de saúde nos Estados Unidos, executivos de empresas de planos de saúde decidiram desencadear um plano contra o trabalho de Michael Moore. Um estudo recente da Faculdade de Medicina de Harvard indicou que quase 45 mil estadunidenses morrem anualmente (um a cada doze minutos) principalmente porque não têm seguro de saúde. Mas para o grupo de pressão das empresas, a única tragédia seria a possibilidade de uma verdadeira reforma do sistema de saúde. O artigo é de Amy Goodman, postado em 23 de novembro de 2010.

Amy Goodman – Democracy Now

Michael Moore, ganhador do Oscar como melhor documentarista, faz excelentes filmes que, em geral, não são consideradas obras de suspense que gerem a sensação de estar “à beira do abismo”. Tudo isso poderia mudar a partir de uma denúncia feita por um informante do noticiário de Democracy Now, segundo a qual executivos de empresas de planos de saúde pensaram que talvez fosse necessário por em marcha um plano para “atirar Moore pelo precipício”.

O informante era Wendel Potter, ex portavoz da gigante dos planos de saúde Cigna. Potter mencionou uma reunião de estratégia industrial na qual se tratou do tema de como responder ao documentário Sicko, de Michael Moore, produzido em 2007, filme que critica a indústria de seguros de saúde dos Estados Unidos. Potter me disse que não estava seguro da gravidade da ameaça, mas acrescentou em tom inquietante: “Ainda que não tenham pensado em fazer isso literalmente, para ser honesto, quando comecei a fazer o que estou fazendo, temi por minha própria saúde e bem estar; talvez tenha sido paranoia, mas essas empresas jogam para ganhar”.

Moore ganhou um Oscar em 2002 com seu filme sobre a violência armada intitulado Bowling for Columbine. Logo depois fez Farenheit 9/11, um filme sobre a presidência de George W. Bush que se transformou no documentário de maior arrecadação na história dos Estados Unidos. Quando Moore disse a um jornalista que seu próximo trabalho seria sobre o sistema de saúde estadunidense, a indústria de planos de saúde tomou nota.

A associação comercial Planos de Saúde dos Estados Unidos (AHIP, na sigla em inglês), principal grupo de pressão das empresas do setor, teve um enviado secreto na estreia mundial de “Sicko” no Festival de Cannes, na França. O agente saiu rapidamente da estreia e foi participar de uma teleconferência com executivos da indústria, entre eles Potter.

“Tínhamos muito medo”, disse Potter, “e nos demos conta de que teríamos que desenvolver uma campanha mais sofisticada e cara para conseguir rechaçar a ideia da cobertura de saúde universal. Temíamos que isso realmente despertasse a opinião pública. Nossas pesquisas nos diziam que a maioria das pessoas estava a favor de uma intervenção maior do governo no sistema de saúde”.

A AHIP contratou uma equipe de relações públicas, APCO Worldwide, fundada pelo poderoso escritório de advogados Arnold & Poter, para coordenar a resposta. A APCO formou o falso movimento de base de consumidores “Health Care America” para contrapor a prevista popularidade de “Sicko”, o filme de Moore, e para gerar medo em torno do chamado “sistema de saúde dirigido pelo governo”.

Em seu recente livro “Deadly Spin: An Insurance Company Insider Speaks Out on How Corporate PR is Killing Health Care and Deceiving Americans” (Giro mortal: um informante explica como as relações públicas das empresas de seguros estão acabando com o sistema se saúde e enganando os estadunidenses) Potter escreve que se encontrou “com um filme muito comovedor e eficaz na hora de condenar as práticas das empresas privadas de seguros de saúde. Várias vezes tive que fazer um esforço para conter as lágrimas. Moore conseguiu entender bem qual é o problema”.

A indústria de seguros anunciou que sua campanha contra “Sicko” havia sido um rotundo sucesso. Potter escreveu: “AHIP e APCO Worldwide conseguiram introduzir seus argumentos na maioria dos artigos sobre o documentário quando nenhum jornalista havia investigado o suficiente para descobrir que as empresas tinham fornecido a maior quantidade de dinheiro para a criação da Health Care America. De fato, todos, desde a cadeia de notícias CNN até o jornal USA Today, referiram-se a Health Care America como se fosse um grupo legítimo.

O jornal New York Times publicou um artigo, uma espécie de resenha de “Sicko”, na qual citava o porta voz da Health Care America dizendo que isso representava um passo na direção do socialismo. Nem esse jornalista, nem nenhum outro que tenha visto, tentaram tornar público que, de fato, este movimento estava financiado em grande medida pelas empresas de seguro da saúde.

Moore disse que Potter era o “Daniel Ellsberg dos Estados Unidos corporativo”, uma referência ao famoso informante do Pentágono cujas revelações ajudaram a por fim à guerra do Vietnã. A corajosa postura de Potter gerou um impacto no debate, mas a indústria dos planos de saúde, os hospitais e a Associação Médica Estadunidense continuam debilitando os elementos do plano que ameaçam os seus lucros.

Um estudo recente da Faculdade de Medicina de Harvard indicou que quase 45 mil estadunidenses morrem anualmente (um a cada doze minutos) principalmente porque não têm seguro de saúde. Mas para o grupo de pressão das empresas, a única tragédia seria a possibilidade de uma verdadeira reforma do sistema de saúde. Em 2009, as maiores empresas do setor destinaram mais de 86 milhões de dólares à Câmara de Comércio dos Estados Unidos para que esta se opusesse à reforma do sistema de saúde. Este ano, as cinco maiores seguradoras do país aportaram uma soma de dinheiro três vezes maior tanto para candidatos republicanos como para democratas com a intenção de fazer retroceder ainda mais a reforma da saúde. O representante democrata por Nova York, defensor do sistema de saúde público, declarou no Congresso que “o Partido Republicano é uma subsidiária que pertence por completo à indústria de seguros”.

“Provavelmente estarão a favor da retórica das empresas privadas quando afirmam que necessitamos ter mais ‘soluções baseadas no mercado’ (como eles dizem) e menos regulações, que, sem dúvida, são o tipo de coisa que os republicanos vão tratar de conseguir porque regulação é o que essas empresas não querem”, disse Potter.

A indústria de seguros da saúde não está desperdiçando seu dinheiro. Moore disse: “Neste informe estratégico compilado pelas empresas acerca do dano que “Sicko” poderia ocasionar, há uma linha que basicamente diz que no pior dos casos o filme poderia desencadear um levante populista contra as companhias. Essas empresas, em 2006 e 2007, já sabiam que os estadunidenses estavam fartos das empresas de seguros com fins lucrativos e que um dia o povo poderia se levantar e dizer ‘isto terminou’. Este é um sistema enfermo: permitimos que as empresas lucrem a nossa custa quando ficamos doentes!”

Isso é estar doente de verdade.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer





22 comentários

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Prevent Senior

22 de dezembro de 2010 às 10h38

Ele sim e um homem de coragem….

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Roberto Locatelli

29 de novembro de 2010 às 16h33

Michael Moore, além de desnudar a sociedade estadunidense, o faz com um humor e sarcasmo ímpar.

Aqui vemos o próprio falando de seu filme Capitalismo: uma História de Amor:

[youtube 5erUojTMs3o http://www.youtube.com/watch?v=5erUojTMs3o youtube]

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Roberto Locatelli

29 de novembro de 2010 às 14h13

Michael Moore, Oliver Stone e Benicio Del Toro são cineastas corajosos. Parabéns aos três.

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Aracy_

29 de novembro de 2010 às 13h48

Sicko é um documentário muito bom.
Como dizia um conhecido meu, o melhor plano de saúde é não ficar doente.

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Daniel Roiha

29 de novembro de 2010 às 00h09

E tem gente que reclama da saúde no Brasil. Aqui não é nenhuma maravilha, aliás tem bastante o que melhorar, mas o sistema mercenário da saúde dos EUA é realmente nefasto!!!

Já assisti. Brilhante o documentário de Michael Moore, e a cara de pau dos políticos estadounidenses é impagável.

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Pedro

28 de novembro de 2010 às 23h01

Doença é que dá lucro.

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O_Brasileiro

28 de novembro de 2010 às 20h22

Todos lucram com a desgraça alheia:
Os fabricantes dos caros equipamentos de diagnóstico!
As operadoras de planos de saúde!
Os laboratórios fabricantes de remédios!
Alguns profissionais de saúde, apesar dos baixos salários da maioria!
Os governos, que não repassam o que devem para a população na forma de um sistema de saúde eficiente!
Uns mais, outros menos!
O triste é saber que a pessoa será duplamente penalizada: com a doença, e com a falta de assistência!

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Ana Cruzzeli

28 de novembro de 2010 às 19h50

Azenha
Esta historia do Moore é muito boa. Saúde não é e não pode ser tratado como mercadoria.
Eu por exemplo não tenho seguro de saúde, tive por 6 mese até visitar um pronto-socorro publico e outro privado. Não tenho mais e tenho minhas razões :
Primeiro, tenho uma saúde perfeita. Só vou ao médico para fazer prevenção. Fiz as contas a uns 15 anos atras quanto eu pagaria com o seguro durante um ano e caso eu precisasse fazer consulta e exames das minhas prevenções quanto gastaria. Resultado um terço do seguro anual. Faço exames e consultas particulares ainda, mas sei que isso está com meses contados.
Segundo, uma vez eu tive uma torção no meu tornozelo, inchou aí eu precisei da emergencia. Fui a um hospital particular as 20 horas de uma quarta- feira. Não havia um unico ortopedista de plantão. O hospital é o Anchieta de Taguatinga/DF. Sai desse belo hospital e me dirigi ao hospital regional de Taguatinga, 100% publico. Parecia uma zona de guerra . Dois medicos em um mesmo consultorio. Fui atendida 15 min. depois que cheguei. Ele me colocou em uma maca, pressionou meu pé , fez as perguntas e o exame clinico. Encaminhou-me para o Raio X lá eu esperei por 2 horas. Voltei com o raio X em mão ele analisou e diagnosticou sem fraturas apenas uma torção, e me medicou. Corrigindo, no primeiro momento parecia uma zona de Guerra mas é assim mesmo que é um pronto Socorro. Eu que nunca tinha usado um, estranhei. Agora estranhei mais ainda , um hospital chique sem ortopedista.
Terceiro, se o sistema publico de saúde existe, se o dinheiro sai da fonte por que o atendimento é tão demorado? Aí o problema é do povo . Que não fiscaliza, que não reclama, que não reclama, que não fiscaliza …
Em 2009 eu começei a fiscalizar , começei a reclamar e não vou descansar enquanto não conseguir fazer todos os meus preventivos em um posto de prevenção com todos os exames gratuitos que eu tenho direito e em tempo aceitável. E secretário de saúde ou governador que não der jeito na saude publica de Brasilia vai ter sempre um protocolo de reclamação encaminhado para explicação.
Quarto, aqui em Brasilia há dois grandes orgulhos: O Hospital Sara Kubitschek , referencia no Brasil e no exterior por excelencia em reabilitação motora , e o Hospital de Base referencia nacional em transplante de rins. Não vamos nos esquecer que Xuxa Menegel veio fazer reabilitação motora aqui no Sara. Tem muita gente que vem fazer transplante no Hospital de Base tudo 100% publico.
É possivel Azenha saúde publica de qualidade , cabe aos mais esclarecidos impor gestão de qualidade, cabe aos mais esclarecidos dizer onde está o erro caso logicamente o executor parecer incompetente demais, mas o mais importante é fiscalizar e reclamar quando o executor tiver cheiro de CORRUPTO.
Ninguém pode acreditar que não tem força para colocar um CORRUPTO na cadeia. É possivel Azenha temos muito mais força do que imaginamos.

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iamoraes

28 de novembro de 2010 às 15h54

Ver tambem http://www.nytimes.com/2010/11/28/opinion/28rich….
"Ainda o Melhor Congresso que o Dinheiro Pode Comprar" no NYTimes hoje.

Lobbistas sao ESPIOES DE SABOTAGEM DA POPULACAO. Eles nao fazem nada mais.

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Gustavo

28 de novembro de 2010 às 15h21

Parabéns!!! excelente e profunda análise!!!

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Bertold

28 de novembro de 2010 às 14h17

O SUS não é perfeito mas é reconhecidamente um dos sistemas de atendimento universal de saúde mais abrangente e eficaz do mundo, ficando atrás apenas de Cuba. Quem só vê problemas no SUS ou não conhece ou não depende nehum pouquinho dele. Eu não pago serviços privados de saúde e tenho muitos amigos que tem planos privados mas também sempre se valem do SUS para adquirir tratamentos mais complexos e remédios muito caros na rede pública mesmo tendo recursos para comprá-los.

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    Renato

    28 de novembro de 2010 às 18h13

    Cuba, aquele país socialista, que mata sonhos individuais de ficar rico, que um sintoma de enfarto agudo do miocárdio é confundido com uma gastrite.
    Prefiro viver nos EUA e pagar por um bom plano de saúde.

    SUS, aquele sistema que deixa um doente esperando seis meses para realizar um exame, prefiro pagar plano de saúde e fazer um exame em horário quei eu quises.

    Adilson

    28 de novembro de 2010 às 20h11

    Gente da Direita parece pardal, tem em todo lugar.

    Bruno

    29 de novembro de 2010 às 11h15

    O SUS é em teoria um belo plano, mas esse Bertold só fala que o SUS na prática é bom porque nunca ficou esperando operação de emergência na fila do Miguel Couto. Embora citar Cuba seja uma piada de péssimo gosto, tenho que ficar do lado de Moore. O sistema de saúde universal, como existe aqui em teoria e em alguns welfare states europeus na prática – o próprio filme do Moore passa vários minutos dissertando sobre o sistema britânico -, é ótimo, e já se provou que se bem feito, está longe de ser caro.

Fernando

28 de novembro de 2010 às 14h16

Tariq Ali, sobre a participação do Brasil no Haiti:

Qual a sua opinião sobre a ocupação das tropas da ONU, capitaneadas pelo Brasil, no Haiti?

Eu fui totalmente contra isso. Foi um plano franco americano para tirar o Aristide [presidente deposto em 2004] do poder, porque ele não queria privatizar as águas para uma empresa francesa. Desde o século XIX muitos governos pagavam aos franceses por plantações fechadas desde a escravidão, e o Aristide reivindicou esse dinheiro para as políticas do país.

Foi um grande erro do governo Lula ir para lá policiar essencialmente em nome dos Estados Unidos. Um general brasileiro cometeu um suicídio, decepcionado por policiar um país em nome de uma oligarquia. Ouvi dizer também que outro general pediu demissão, e o que está acontecendo lá é um desastre. Chávez, por outro lado, denunciou o golpe e ofereceu asilo a Aristide. Espero que reconheçam o erro e que isto não vai gerar um assento no Conselho de Segurança da ONU.
http://www.fazendomedia.com/tariq-ali-realiza-con

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ejedelmal

28 de novembro de 2010 às 13h19

Manda ele vir pra cá. Além de não poder ser atingido pelos planos de lá, há uma(s) festa(s) acontecendo aqui contra SUS, genéricos, patentes, biopirataria, etc. Tudo preparado para mais um documentário do gênero.

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José A. de Souza Jr.

28 de novembro de 2010 às 12h59

Enquanto isso, qual é mesmo o percentual do Orçamento da União destinado a pagar o "serviço" (intermediação financeira) da dívida pública? E qual é o da da Saúde? A todos os brasileiros: A corda, mané!

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Jose Medida

28 de novembro de 2010 às 12h32

Será que aqui no Brasil a situação é melhor? Um exemplo dramático é da assistência médica para idosos. Muitos planos não aceitam idosos, e quando aceitam cobram fortunas de mensalidade e com várias restrições na cobertura do plano O SUS continua "funcionando" na medida certa para matar os pobres, velhos e indigentes, enquanto os remediados que quizerem algum atendimento "mais dígno", que paguem caro por planos de saúde com nomes sofisticados e cartõezinhos de plástico colorido. No final de tudo aqui como lá nos EUA, devem estar morrendo muitas pessoas por não poderem ter acesso a serviço médico público de qualidade e em quantidade e, claro, por não poderem pagar para retardar a morte com os cartõezinhos coloridos dos planos privados de saúde.

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Guanabara

28 de novembro de 2010 às 12h27

Brasil vai (ou já foi) pelo mesmo caminho. Ao menos, da chamada classe média pra cima.

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Astrologia http://concienciaazul.es.tl

28 de novembro de 2010 às 07h58

[…] […]

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RBM

28 de novembro de 2010 às 04h34

Por favor, informe a data do artigo.

Responder

    Conceição Lemes

    28 de novembro de 2010 às 11h16

    RBM, 23 de novembro de 2010. abs


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