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Weisbrot: Cobertura da mídia sobre a Argentina esconde o essencial


05/05/2012 - 12h34

por Luiz Carlos Azenha

Mark Weisbrot, do Centro de Pesquisas Econômicas e de Políticas Públicas de Washington (CEPR) escreveu um interessante artigo para o jornal britânico Guardian a respeito do que “especialistas” consultados pela mídia falam sobre a Argentina. Resumo: o espetacular crescimento econômico do vizinho seria resultado do boom das commodities, notadamente da exportação da soja.

Weisbrot apontou como exemplo, entre outros, este artigo do New York Times, do qual destacou o trecho:

Navegando num boom de exportação de commodities como a soja, a economia da Argentina cresceu em média 7,7% de 2004 a 2010, quase o dobro da média anual de 4,3% do Chile, um país geralmente citado como modelo de políticas econômicas.

Weisbrot argumenta que a cobertura da mídia sobre a Argentina, especialmente em tempos de nacionalização da petrolífera YPF pela presidenta Cristina Kirchner, esconde o essencial:

O mito do boom das commodities é uma forma dos detratores da Argentina classificarem o crescimento econômico do país como fortuito. Mas a realidade é que a expansão econômica foi liderada pelo consumo e investimento domésticos. E aconteceu porque o governo argentino mudou a maioria das suas escolhes macroeconômicas mais importantes: políticas fiscal, monetária e de câmbio. É o que tirou a Argentina da depressão enfrentada entre 1998-2002 e a transformou na economia que mais cresce nas Américas.

Agora sobre a significância mundial do verdadeiro motivo da recuperação da Argentina: como eu e muitos outros economistas escrevemos, as políticas atualmente impostas às economias da eurozona — especialmente as mais fracas — são similares às da Argentina durante a depressão, que levaram à moratória e à desvalorização do peso. Aquelas políticas eram pro-cíclicas, significando que amplificaram o impacto da recessão. Juntas com o câmbio fixo e sobrevalorizado, pioraram a economia. Ao decretar a moratória e desvalorizar sua moeda, a Argentina ficou livre para mudar suas políticas macroeconômicas mais importantes.

Se as autoridades europeias (a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI) continuarem a bloquear a recuperação econômica da eurozona com medidas de austeridade sem sentido, os países serão levados a considerar alternativas mais racionais para restaurar o pleno emprego. O povo da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Irlanda e de outros países é informado todos os dias que precisa engolir o remédio amargo e que não há alternativa ao sofrimento prolongado e às altas taxas de desemprego enfrentadas. Mas a experiência argentina — a realidade, não os mitos propagados — indica que isso não é verdade. Definitivamente, existem melhores alternativas — e elas não têm nenhuma relação com a soja ou com o boom da exportação de commodities.

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20 comentários

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Mardones Ferreira

09 de maio de 2012 às 10h10

O Mark sempre faz uma análise técnica acessível. Uma pena que, no Brasil, a imprensa seja dominada por quem deseja passar a ideia de que não alternativa ao financismo brutal que enfrentamos.

A Argentina deu um exemplo ao mundo que é possível e necessário romper com as amarras do sistema financeiro internacional e defender um Estado indutor do crescimento baseado no mercado interno.

Infelizmente, os países em crise na Europa são chefiados por ex-funcionários de bancos privados e eles querem distância de opções que incluam o povo como beneficiário.

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Grécia ameaça detonar o partido do austeritarismo « Viomundo – O que você não vê na mídia

08 de maio de 2012 às 19h48

[…] Tudo indica que os partidos que se opõem aos planos de austeridade também serão incapazes (será preciso juntar comunistas e neonazistas). Os comunistas acusam o Syriza de ser social-democrata. O plano apresentado hoje por Alexis Tsipras fala em abolir o acordo de 174 bilhões de euros [o segundo, de resgate], estatizar o sistema bancário, reverter as reformas trabalhistas, declarar moratória e adotar a representação proporcional no governo. O jovem Tsipras, de 38 anos, está se revelando uma raposa. Ele sabe que vai fracassar na tentativa de formar um governo. Mas aproveitou o momento sob os holofotes para apresentar a plataforma eleitoral do partido para as novas eleições que, tudo indica, serão convocadas para junho. Dependendo dos resultados — ou de concessões da Alemanha, quem sabe, até lá –, a Grécia já tem data para voltar ao drachma. PS do Viomundo: A gente sabe que as coisas estão feias quando o FT chama o Syriza de “partido esquerdista radical”. PS do Viomundo2: Sei não, essa expansão brasileira baseada no endividamento… Weisbrot: Saída à Argentina […]

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FrancoAtirador

07 de maio de 2012 às 01h15

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Agora, a faxina que falta fazer é a da regulação da mídia, cuja pertinência mais que nunca foi evidenciada pelas escutas da Polícia Federal que flagraram um verdadeiro ‘consórcio da ilegalidade’ formado pelo trinômio ‘Veja/Cachoeira/Demóstenes’.

(SAUL LEBLON, no BLOG DAS FRASES, CARTA MAIOR)

http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=973

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Partido de esquerda que propõe romper com a troika ultrapassa socialistas na Grécia « Viomundo – O que você não vê na mídia

06 de maio de 2012 às 20h46

[…] Weisbrot: Argentina é a saída para a crise que tentam esconder […]

Responder

Fabio

06 de maio de 2012 às 20h33

Azenha qual é o histórico de estatização e privatização na Argentina, não sei quantas vezes estas empresas foram privatizadas e nacionalizadas,aqui no Brasil que eu saiba a Petrobras nunca foi privatizada.Este modelo funciona como? Quando eles precisarem dinheiro vão pegar aonde.

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Richard

06 de maio de 2012 às 13h18

Globo, Veja, Folha, Estadão. Ok, não valem nada e são um mal ao país no presente momento. Mas, pera lá! Na boa, sua análise sobre as monarquias europeias são de um simplismo que afrontam a inteligência. E, de fato, a Europa, nunca quis ensinar nada a ninguém, desde os gregos, a ambição europeia é outra.

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Marat

05 de maio de 2012 às 23h50

Eles publicam o que os chefes mandam e escondem o que os chefes mandam. Retrato mais que verdadeiro da mídia ocidental!

Responder

    Willian

    06 de maio de 2012 às 12h08

    Marat, o problema para vocês não é que se publique o que o chefe mande. O problema é quem é o chefe. O chefe sendo alguém da patota, tudo bem para vocês que se publique o que ele mande. Ou não?

FrancoAtirador

05 de maio de 2012 às 21h34

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Pesquisa dá 40 pontos de vantagem a Chávez em eleições na Venezuela

São Paulo – Uma pesquisa publicada na sexta-feira (4) dá 40 pontos de vantagem para o presidente Hugo Chávez nas eleições de outubro.

Segundo a VOP Consultores, o líder tem 63,7% das intenções de voto,
contra 23,2% do opositor Henrique Capriles.

http://www.redebrasilatual.com.br/temas/internacional/2012/05/pesquisa-da-40-pontos-de-vantagem-a-chavez-em-eleicoes-na-venezuela

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    Willian

    06 de maio de 2012 às 12h09

    Importante saber quem é o vice de Chávez.

    Rodrigo Falcon

    06 de maio de 2012 às 20h50

    Que ser humano pequeno e infeliz…

    lulipe

    06 de maio de 2012 às 12h18

    Meus pêsames aos venezuelanos!!!!

    Nelson

    06 de maio de 2012 às 22h37

    Lulipe.
    Os venezuelanos vêm, já há um bom tempo, optando pela figura de Hugo Chávez para o comando de sua caminhada em direção à construção de um país melhor para todos.
    O governo Chávez comete erros? Mas, qual governo não comete, qual governo governo é perfeito?
    O certo é que a Venezuela já passou por outros governos anteriormente e o povo venezuelano, em sua maioria – para desgosto dos governos, supostamente democráticos, dos EUA e da Europa Ocidental – aprendeu a distinguir aqueles que o servem daqueles que governam em prol dos interesses de uma minoria de já ricaços. Por essa razão, Lulipe, Chávez está, uma vez mais ponteando nas pesquisas.
    Assim, temos é que apoiar o povo daquele país em sua decisão democrática e soberana. No momento em que passarem a acreditar que Hugo Chávez já não serve mais para liderá-los, os próprios venezuelanos tratarão de barrá-lo, elegendo um outro candidato/governo.
    Afinal, ao contrário da impressão que a mídia tentou e tenta passar para todos nós, Chávez não é presidente vitalício. Para continuar no poder, ele tem que, periodicamente, se submeter ao crivo popular. Ao contrário, também, do que a mídia hegemônica intenta nos convencer, não há ditadura; segue com o povo o direito da definição de quem será o eleito.

    Roberto Locatelli

    07 de maio de 2012 às 10h11

    Os venezuelanos sabem muito bem quem age a favor do povo e quem age contra.
    A exceção é uma parte da classe média branca que odeia Chávez. São os 23%

Rafael

05 de maio de 2012 às 19h23

Essa reportagem para ficar boa tinha continuar com o seguinte assunto: nos países nordicos e Alemanha não existe uma emissora que nem a globo que apoiou um regime militar, nesses países não têm uma emissora que monopoliza a informação, não têm uma emissora que distorce a realidade, que esconde casos de corrupção de parceiros políticos, lá não existe uma emissora que defende um partido político, la não existe uma emissora que protege uma revista com porvas de envolvimento e conivênc com o crime, lá não existe uma emissora que tenta derrubar um governo eleito democraticamente, lá não existe uma emissora que editou um debate eleitoral decisvo e mudou o resultado de uma eleição. Enfim nos países nordicos e Alemanha não permitiriam que uma emissora tivesse tanto poder a ponto de nomear ministros e até o presidente, se existesse tal emissora nesses países eles não seriam um bom exemplo para nada.

Responder

Gustavo Pamplona

05 de maio de 2012 às 15h16

Ok… já que você está falando de esconder o essencial, segue uma “análise” de uma reporcagem do JN de ontem.

http://g1.globo.com/jornal-nacional/videos/t/edicoes/v/uso-do-dinheiro-publico-na-alemanha-e-exemplar/1933801/

Bom… tenho que reconhecer que na Alemanha as coisas lá são diferentes, mas o que mais me chama a atenção é ver o Losekann (o correspondente da Globo em Londres) falando de exemplo a ser seguido e generalizando dizendo que todos os governantes da Europa também fazem o mesmo.

E quanto a tal vossa majestade Rainha Elizabeth II, e quanto àquelas monarquias arcaicas sobretudo a espanhola que no fundo não passa de uma ditadura travestida já que depois da queda do Franco implementaram outra ditadura porém com um primeiro-ministro.

Eu fico analisando este povo aí destes países que ficam sustentando estas monarquias a séculos, sobretudo o Reino Unido, país de onde o tal Losekann finge dar exemplo. (Talvez seja um Loser! -> Perdedor! hahhahaha)

E mais uma coisa: A Europa não ensina mais nada a ninguém! O atual modelo de neo-liberalismo deles já era.

—-
Desde Jun/2007 analisando reporcagens no “Vi o Mundo”! ;-)

Responder

    Rafael

    05 de maio de 2012 às 19h30

    Discordo num ponto: apesar do neoliberalismo deles, o Estado lá é muito mais prsente que aqui, Inglaterra por exemplo tem um sistema de saúde pública que é um exemplo para o mundo, lá as leis funcionam, Murdoch está sendo processado, uma de suas revistas foi fechada, se fosse aqui nunca aconteceria isso, a Veja prova isso. Os países nórdicos têm sistema de educação público muito bom. No final das contas mesmo eles com o neoliberalismo o Estado lá é mais presente que aqui e funciona bem por enquanto pelo menos. Aqui caímos no conto que os tucanos passaram que o estado é inchado, é muito grande e na verdade o Estado é completamente ausente.

    astrogildo godofredo

    06 de maio de 2012 às 00h14

    …ok, mas quanto : “a Inglaterra por exemplo tem um sistema de saúde pública que é um exemplo para o mundo”, posso te apresentar o depoimento de uma amiga que trouxe o filho de lá para cá, para fazer um tratamento contra cancêr…Quanto ao Estado ser mais presente, credito a um sentimento maior de Nação e cidadania que se tenha por lá…O problema é que tudo isso pode acabar, pois colocaram as raposas no galinheiro (ex-funcionários de grandes bancos na direção de suas políticas ecônomicas…ah, você deve conhecer essa situação, ocorreu num país cuja letra inicial é B…)Ou, de outra forma: o que era pressão por trás dos panos virou roteiro principal…

    Caracol

    06 de maio de 2012 às 10h19

    Muito bem observado, Rafael. Política neoliberal é política de Governo, e não de Estado. As monarquias representativas não tem nada a ver com isso.

    Raphael

    07 de maio de 2012 às 09h19

    Tentando ajudar…

    Neoliberalismo e Estado são termos antagônicos se um cresce o outro diminui.
    Londres hoje depende muito mais da sua “City” financeira do que qualquer outra coisa. Agradeçam a Dama de Ferro.

    Casos isolados não podem ser referência quando se fala de um sistema, principalmente de saúde. O sistema inglês é bom e gratuito, deve cometer falhas como todos os outros, mas de forma geral é bom.

    Monarquia representativa é um dos termos mais bizarros que eu já ouvi falar…

    Abraços


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