VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Túlio Muniz: Portugal e a exportação de professores


18/12/2011 - 22h50

A mídia cartelista

por Túlio Muniz, via e-mail

Portugal, este domingo, 18 de Dezembro:

— Manchete na edição on-line do diário “i”: Passos Coelho sugere que professores desempregados emigrem para o Brasil e para Angola.

— Manchete na edição on-line do “Público”: Passos Coelho sugere a emigração a professores desempregados.

— Manchetes na edição on-line do “Diário de Notícias”: “Seguro chocado com declarações de Passos sobre professores” e “Líder da FENPROF aconselha Passos Coelho a emigrar”.

Fugir “a salto” era, no Portugal da ditadura fascista, migrar para França “pulando” a Espanha. Eis que o primeiro ministro da direita portuguesa, Passos Coelho (um político estreante e inábil) reifica a modalidade: se não se pode solucionar a Educação, livra-te dela, ainda que a custa da inteligência de um país.

Os links acima são exemplos da crueldade acerca do que é a genuína direita européia, que mergulha o continente numa era de incertezas e exploração capitalista poucas vezes vistas na História. Acentua-se a gravidade em contextos como os de Portugal, país com uma das maiores defasagens de escolaridade entre seus habitantes (quase 20% não completaram nível algum). A refletir e acompanhar.

Entretanto, uso do delicado acontecimento para remeter ao que abunda na Europa e claudica por cá. Portugal, em que pese a crise econômica e social que atravessa, nos lega uma lição primorosa de jornalismo, essa invenção fantástica do século XIX, na definição Foucault.

Nenhuma das manchetes acima foi gerada por matéria de um dos grandes jornais de Portugal citados no início deste texto, mas pelo “Correio da Manhã”, uma espécie de “O Dia” lusitano. Diferente do que cá ocorre, a imprensa portuguesa não deixa de repercutir um assunto que é de interesse público, ainda que o mote seja o de um concorrente. O mesmo se dá nas redes de TV, nas emissoras de rádio, mesmo que o assunto contrarie este ou aquele interesse privado. Afinal, eis a justificativa da existência do jornalismo, a difusão e o amplo debate público de determinada questão.

No Brasil, há uma interdição ao debate e a citação de um concorrente pelo outro, com exceção poucos de veículos de alcance nacional, como a revista Carta Capital ou a TV Record, raridade replicante nas mídias locais e regionais (em Fortaleza, “O Povo” eventualmente cita e repercute seu principal concorrente, o “Diário do Nordeste”/Globo, mas a recíproca inexiste). Ironia: a rede Recod, de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus é hoje o melhor e mais ético jornalismo televisivo do País, no âmbito das empresas privadas.

Contudo, a não-citação da concorrência, longe de ser uma questão de disputa de mercado, revela-se como estratégia cartelista de poder. “Cartel”, termo oriundo da economia que significa “acordo explícito ou implícito entre concorrentes para, principalmente, fixação de preços ou quotas de produção, divisão de clientes e de mercados de atuação. O objetivo é, por meio da ação coordenada entre concorrentes, eliminar a concorrência, com o conseqüente aumento de preços e redução de bem-estar para o consumidor” (a definição é do próprio Ministério da Justiça, http://portal.mj.gov.br/sde).

Fora do foco das redes e TV e dos jornalões, o lançamento e consequente repercussão do livro “A Privataria Tucana” do jornalista Amaury Ribeiro Jr , provavelmente, o maior fenômeno editoral do século (80 mil exemplares tirados e praticamente vendidos em uma semana), é também símbolo da importância de veículos credíveis de imprensa (Carta e Record).

Sobretudo, é prova da irreversível penetração da internet na sociedade, legando ao vexame público jornais e jornalistas ávidos por escândalos, desde que não contrariem aos interesses de seus patrões e/ou de patrocinadores de iniciativas e de suas publicações e projetos pessoais.

A imprensa européia não é imune de controle por parte do mercado, mas não zomba da inteligência do público, tampouco prescinde da presença de intelectuais em suas páginas, diariamente e não a conta gotas semanais, prescrição comum no Brasil (mesmo em certo jornalismo universitário), cuja imprensa é inimiga do pensamento.

“Privataria” e sua desconsideração evidenciam a estratégia orquestrada de poder dos grupos privados de comunicação de massa. O silêncio para com o “concorrente” (aspas, pois aqui não se trata de concorrência e sim de aliado cartelista) ocorre para não promover ao hipotético adversário de mercado, mas para também, e sobretudo, legitimar o próprio silêncio em torno de assunto que contrarie aos interesses do cartel (não confundir com “máfia”, apesar das semelhanças).

Grosseiramente invisibilizado pela mídia convencional, “Privataria” demonstra como o cartel foi assimilado pela grande (?) mídia nacional não só em termos de disputa mercado, mas também de negação de um imaginário já consolidado entre a população, que lhe presta assistência e audiência, mas não mais se deixa guiar acriticamente como há duas décadas.

Lembremos da reeleição de Lula em 2006: sob massacre e bombardeio da mídia cartelista, ele não só venceu o segundo turno como seu adversário (Alckmin) teve menos votos que obtivera no primeiro.

Portanto, o caso de “Privataria” não é o primeiro. Será o último?

Túlio Muniz, jornalista, historiador, doutor pela Universidade de Coimbra (Portugal) e professor (temporário) da Universidade Federal do Ceará.

Leia também:

Amaury: Convites para eventos em todo o Brasil

Luciano Martins Costa: Renúncia ao bom jornalismo


Protógenes e a CPI da Privataria





24 comentários

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Túlio Muniz: Portugal, ame-o ou deixe-o? | Viomundo - O que você não vê na mídia

20 de dezembro de 2011 às 09h56

[…] gente parece ser mais que uma afirmação estúpida do  esdrúxulo primeiro ministro direitista de Portugal, Passos Coelho, e sim um projeto de governo da direita […]

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Mateus_Beatle

19 de dezembro de 2011 às 22h50

Além da questão do silêncio midiático, vale salientar o que o ministro português sugere aos professores! Estarrecedor…praticamente uma atualização daquela frase do "Dr." Paulo (Malfu): "Professora não é mal paga, é mal casada"…vê-se que a direita é muito parecida em qualquer lugar do mundo.

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Pedro

19 de dezembro de 2011 às 14h55

Mas, Túlio, a dialética às vezes vem em nosso socorro. Não será que podemos tomar o silêncio da mídia como compromisso com a "privataria"? O que vai ser muito esclarecedor. Embora a gente possa repetir que a história não é mestra da vida, mas, às vezes, ela ensina. Vamos confiar nela.
E se fosse apenas este o caso de silêncio da mídia, até que poderíamos crer em algo que ela veicula. Acho que, em nossos dias, a mídia se pôs uma mordaça. Se pôs, simplesmente porque os fatos não lhe estão muito favoráveis.

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Alessandro

19 de dezembro de 2011 às 13h49

Pelo comportamento da grande mídia no Brasil é seguro dizer que vivemos uma Democracia?Podemos expressar e divulgar livremente nossas opiniões?Me lembro de uma coisa que aconteceu comigo.Sem eu saber o que era PIG,minha mãe era assinante da Folha e eu estudante de História.Na carta do leitor, um sargento de pijama tecia elogios à ditadura e eu escrevi respondendo a esse sargento.Conclusão:minha carta não foi publicada.Achei inicialmente ter sido erro do jornal,equivoco,erro de envio de e-mail,qualquer outra coisa menos censura.Enviei um e-mail à seção pedindo explicações.Também não obtive resposta.Comprei na a coleção Caros Amigos Ditadura Militar no Brasil,onde fiquei sabendo do papel da Folha.Entendi tudo e paramos de assinar. Desculpe pelo comentário extenso,mas achei que valeria compartilhar.

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Paulo Roberto

19 de dezembro de 2011 às 13h44

A Europa finalmente encontra o seu destino. Pobre Portugal.

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Rafael

19 de dezembro de 2011 às 12h50

Acredito que o começo do fim para a manipulação da globo e abril. Tomara para o bem do Brasil que o povo saiba quem é quem nessa história.

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Deusdédit R Morais

19 de dezembro de 2011 às 12h29

Não custa lembrar que esta "direita", assim como a sua semelhante, a direita envergonhada travestida de esquerda, nominadamente chamada de "social democracia", que reinou absoluta no continente europeu nas últimas décadas, chancelando tudo que foi proposto pelos arrivistas neo-liberais, foi posta e mantida no poder pelos seus cidadãos. Não custa também lembrar que inúmeros analistas reiteradamente pronunciaram o que se estava formando no cerne da sociedade européia, sem que se lhes dessem ouvidos e então mudassem seus votos. Parecia ser mais importante regozijar-se com a ilusória posição de 4ª ou 5ª ou 6ª economia mundial do que ver o que de fato estava ocorrendo. Portanto, que agora não venham cá espanhóis, italianos e portugueses chorar seus infortúnios. Por aqui já os temos demais, inclusive uma esquerda eivada de sonhos "sociais democratas" à européia, mas que não tem coragem de por ordem sequer à terra de ninguém institucionalizada na mídia e na sociedade em sí.

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Armando S Marangoni

19 de dezembro de 2011 às 11h52

Vai ficando cada vez mais clara a ligação do poder econômico com o poder político.
Começo a pensar que a omissão da verdade é a nossa realidade.
E olha que só falta um "c" para mudar tudo.
Um "c" de Constituição, talvez. Ou de Comissão, quem sabe.

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Reg

19 de dezembro de 2011 às 10h29

A ironia é que muitos empregados do pig, ainda tem a cara de pau, ou o maucaratismo mesmo de falar em liberdade de imprensa.
Tratam leitores e blogueiros como idiotas.
A novidade, não tão novidade agora, é simular brigas nas redes sociais, a fim de buscar os incautos.
Não caímos nesta maracutaia.
Não clicamos idiotices.

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luiz pinheiro

19 de dezembro de 2011 às 10h22

É de fato impressionante essa constatação, incrivelmente verdadeira, de que a rede Recod, de propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus, é hoje o melhor e mais ético jornalismo televisivo do País, no âmbito das empresas privadas.

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    Lu_Witovisk

    19 de dezembro de 2011 às 13h27

    Pois é, e QUEM imaginaria?? Dá pra acreditar?? Poderia seguir o fluxo alienante e ponto, mas não, está fazendo a diferença. Parabéns a record.

dukrai

19 de dezembro de 2011 às 09h58

num desses convescotes da velha mídia foi divulgado que a internet significa apenas 10% das suas receitas. isto foi colocado para ressaltar e contrapor a importância dos jornais e revistas impressos, daí a pouca importância da rede eletrônica para os grandes grupos midiáticos. Esta postura tem meia dose de auto-engano, uma dose de escamoteação do problema e um barril pra se afogar no desespero. Auto-engano porque a velha imprensa ainda é a locomotiva a vapor que reboca os velhos grupos midiáticos e impressiona pela sua potência, pelo seu poder. Escamoteiam o problema de que as tiragens de jornais e revistas despencaram nos últimos dez anos, o fenômeno é mundial e irreversível e afogam-se no desespero porque não sabem como construir uma alternativa e estão sendo ultrapassados por um vespeiro de blogs.

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Maria Fulô

19 de dezembro de 2011 às 09h33

A Rede Globo tem que ser posta abaixo… É um perigo para o desenvolvimento do Brasil. Continuam tentando reescrever a nossa história e não bastasse a indicação deste mentecapto, Merdal Pereira, temos uma série de livros sendo produzidos, tentando contaminar via literatura, a história recente do Brasil. O livro do Boni é emblemático. Com a aparência de memórias bibliográficas, na verdade Boni tenta (ainda está viculado à Globo com sua estação do Vale do Paraíba) nos convencer de que a Globo jamais dependeu do Grupo Time Life (a leitura do livro tenta mostrar o contrário… que eles atrapalhavam…) e que o "Dr." Roberto Marinho era a própria encarnação do Arcanjo Gabriel. Para não dar muito na vista relata alguns incidentes, como o da Proconsult e o da eleição de Collor, mas com texturas delicadas e inconclusivas. Apesar de conter algumas passagens interessantes, particularmente o que diz respeito ao começo da TV no Brasil, o que sobra do livro é um gosto ruim na boca. O de que Boni, um publicitário, criou uma TV para idiotas consumistas e que sua única finalidade é ser uma janela para o mercado da propaganda. E ai de quem tentar levantar a voz alertando para a formação de nossa juventude…
PS: É de dar ânsias de vômito a forma como Boni tentar "resgatar" a imagem de Regina Duarte como uma importante personagem da TV brasileira. Fiquei com a sensação de que aquele famoso "comercial" feito por ela para Serra em 2.002 foi idéia do próprio Boni que, ciente do estrago feito na imagem da moça, tenta agora reparar uma das mais desastradas tentativas de se eleger um crápula como bem nos mostra o livro A Privataria Tucana de Amaury Ribeiro Jr.

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    Lu_Witovisk

    19 de dezembro de 2011 às 13h30

    Apoiada. Olha, eu não acredito em guerras entre povos, mas dos povos contra a máfia midiatica, a máfia das coorporações, ou seja, do povo contra esta Matrix, tô dentro.

Marcio H Silva

19 de dezembro de 2011 às 01h52

A Europa vai voltar a era medieval!

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    João-PR

    19 de dezembro de 2011 às 10h41

    O Márcio, até que a Idade Média era interessante. Tem muita coisa boa que aconteceu naquela época, pode ter certeza (como por exemplo a existência de um pensador chamado Tomás de Aquino, depois santificado pela Igreja).
    Logo, a Europa vai ficar pior do que a idade média, acredite.

    Marcio H Silva

    19 de dezembro de 2011 às 16h49

    Caro João-PR, na história Universal, a idade média é considerada a idade das trevas….

    Mateus_Beatle

    19 de dezembro de 2011 às 22h38

    Sim márcio. Ocorreram atrocidades terríveis durante a Idade Média, mas este juízo e denominações, como Idade das Trevas, já tem sido considerado senso comum e revistos pela própria história…como em todas as épocas da história humana, ao longo da Idade Média (lembrando que estamos falando de um período grande, por volta de 10 séculos) houve coisas lamentáveis, mas também houve coisas extraordinárias. (um exemplo pode ser depreendido do texto de Mário Maestri sobre a invasão da PM na USP, publicado aqui no Viomundo mesmo: https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/mario-mae….

    Marcio H Silva

    19 de dezembro de 2011 às 23h21

    Valeu Mateu, acho que vou mudar meu nome para Marcio Pink Floyd…..

    Mateus_Beatle

    20 de dezembro de 2011 às 10h34

    Opa, não tem por onde! Eu também tinha esta visão acerca da idade média e depois de fazer uns estudos sobre o período comecei a olhá-lo por outros vieses…

    Quanto ao Floyd, sinceramente não curto muito, só gosto da primeira fase da banda com o Syd Barret!

    Um abraço.

    Daniel

    19 de dezembro de 2011 às 11h25

    Vai ficar igualzinha a um certo país dos trópicos.

    Lu_Witovisk

    19 de dezembro de 2011 às 12h10

    Se continuar assim, a barbárie com o povo de lá superará a Idade Média… tempos estranhos.

Roberto Weber

19 de dezembro de 2011 às 01h47

Enquanto a rede globo mantiver camelos e merdais em sua equipe, esta linha de silêncio será mantida.

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Fábio

19 de dezembro de 2011 às 01h27

Parabéns professor, artigo genial!! Acredito que o fim do PIG vai chegar, e não está tão longe assim!!

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