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Diário da Resistência


Política

Túlio Muniz: Portugal, ame-o ou deixe-o?


20/12/2011 - 09h56

por Túlio Muniz

Exportar gente parece ser mais que uma afirmação estúpida do  esdrúxulo primeiro ministro direitista de Portugal, Passos Coelho, e sim um projeto de governo da direita portuguesa.

Após defender a “exportação de professores” no fim de semana, Coelho foi replicado hoje (19 de Dezembro) por seu ministro dos Negócios Estrangeiros (equivalente brasileiro das Relações Exteriores), Miguel Relvas, que tentou vender uma pérola falsa ao afirmar   “o seu ‘orgulho’ nos portugueses que ‘em dificuldades’ partiram para Moçambique e ‘agora estão a ter sucesso na construção do país’, comentando as declarações do primeiro-ministro publicadas no domingo (conforme o jornal  i http://www.ionline.pt/portugal/miguel-relvas-afirma-orgulho-nos-portugueses-foram-mocambique).

Esses senhores demonstram como mantêm viva a mentalidade colonial, imaginando-se a ocupar territórios hoje puramente imaginários, irreais e inexistentes (imagine professores portugueses nos contextos escolares do Brasil). Genuína mentalidade pós-colonial, segundo a qual é preferível expatriar seus concidadãos  às incertezas do território do “outro” (aqui o da alteridade e não o da subalternidade) do que dividir a riqueza nacional para manter o bem estar social conquistado.

Portugal, onde a maioria da população não age nas urnas tampouco nas ruas. Saramago foi pura e genial licença poética ao iniciar “Ensaio sobre a Lucidez” com um dilúvio torrencial no dia das eleições para o governo, e ainda assim a afluência às urnas foi imensa como a chuva.

Até quando os estudantes universitários portugueses vão se manter aquietados, morgados em suas capas pretas que não  mais encobrem a precariedade de seu presente, sem perspectiva de futuro?

Sem ação, os senhores da direita portuguesa, um bocado de almofadinhas recém lançados na política, em breve, sentir-se-ão à vontade para aplicar  à toda população a “modesta proposta” de Swiftt, no século XVIII. Arguto como uma víbora, Swift imortalizou a sempre explícita intenção dos ricos em eliminar os que lhe são estorvo, os pobres e a classe média, ainda que tenha de imolá-los.

Diante do excesso de pobres a procriar, Swift sugeriu que as crianças fossem devoradas. “Os que são mais frugais (como devo confessar que o exigem os tempos) podem esfolar a carcaça, cuja pele, artificialmente tratada, dará luvas admiráveis para as senhoras, e botas de Verão para os cavalheiros elegantes”.

A direita portuguesa zomba e tripudia de seus concidadãos.  Expõe os portugueses ao vexame internacional de tal maneira que faria um Berlusconi corar de pudores. Assim será, sempre, se prevalecerem as ruas vazias e as universidades aquietadas.

Força, portugueses, força. Vosso país é bem mais valoroso e valioso que esse momento infeliz e cruel que lhes impõem o que há de pior na política contemporânea.

Notas

* O título, proposital, remete ao lema da ditadura militar brasileira (1964-1985) que legitimava o exílio, a expatriação,  as expulsões e o massacre dos cidadãos que lhe davam combate.

* Swift: Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República – 1729 – in:

http://www.fcsh.unl.pt/docentes/hbarbas/SwiftProposal.htm [Out.2004. Tradução: Helena Barbas

“Os homens ficariam a gostar tanto das suas mulheres durante o tempo da gravidez como gostam agora das suas éguas prenhas, das vacas com crias, das porcas prontas a parir – nem se proporiam bater-lhes ou dar-lhes pontapés (como é prática tão frequente) com medo de um aborto”.

“Professo, na sinceridade do meu coração, que não tenho o menor interesse pessoal em tentar promover este trabalho necessário, não possuindo outro motivo além do bem publico do meu país e, pelo avanço do nosso comércio, de prover pelas crianças, aliviar os pobres, e dar algum prazer aos ricos. Não tenho crianças com as quais possa conseguir um único tostão, pois o meu filho mais novo tem nove anos e a minha mulher está além da idade de procriar”.

Túlio Muniz, jornalista, historiador, doutor em Sociologia/Pós-Colonialismos e Cidadania Global pela Universidade de Coimbra (Portugal),  professor (temporário) da Universidade Federal do Ceará (Brasil).

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15 comentários

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CMundim

21 de dezembro de 2011 às 16h17

Atualizando um antigo posting meu:

Nos começos dos anos 80, então um garotão brazuca, fui morar e estudar em Portugal, o país estava vivendo um período muito difícil vindo do processo de descolonização e do influxo dos ‘retornados’, os cidadãos de segunda categoria da época Salazarista, e como eram classificadas as pessoas que nasciam nas colônias Africanas ou Asiáticas, de primeira categoria somente os nascidos na matriz, nos Açores e na Madeira.

Lembro-me de uma Lisboa cinzenta e triste, onde o lamento da falta de oportunidades da juventude e da perda das colônias pelas viúvas de Salazar e Marcelo Caetano ganhavam uma dimensão ainda mais sombria quando aliada a uma taca de vinho e a tristeza dos fados. De tanto ouvir dos meus antigos colegas na Universidade Nova de Lisboa, que a melhor saída de Portugal era o Aeroporto de Portela do Sacavém seguida pela Estacão de Santa Apolônia eu acabei mudando de pais.

Fiquei imensamente feliz quando o Mário Soares conseguiu o ingresso de Portugal junto com a Espanha na União Européia, lá pelos idos de 1984 e o meu último ano em Portugal, e esta felicidade continuou até mesmo em minha última visita à terrinha, mesmo ficando assustado com o alto grau de xenofobismo e arrogância do novo, rico, europeu e revigorado Portugal.

Agora, a tristeza volta a bater pelo bom e hospitaleiro povo português, que certamente ainda deve ser a maioria dos habitantes da terrinha. E só espero que o Aeroporto de Portela de Sacavém ou a estacão de trem/comboios não volte a ser a melhor saída para a juventude e o povo português

Que este fato seja um alerta a mais para o Brasil e os formuladores de nossa política econômica que tanto privilegia o Mercado, os tubarões da banca internacional e os seus agentes nacionais. Quanto o Mercado te elogia é porque já estão a chupar até o seu último centavo, depois eles te jogam no lixo, assim com fizeram com Portugal, Irlanda e Grécia, o PIG europeu, e que tudo indica será em breve, e infelizmente, saboreado junto com uma paella espanhola e uma grande macarronada italiana.

O negócio do Mercado é o lucro a todo custo, o resto é manchete da Globo, da Folha de São Paulo e da chamada grande imprensa brasileira. E a direita européia além de comer o PIG, a paella e a macarronada, ainda por cima vomita na cabeca dos seus eleitores do mesmo jeito que a sua irmã brasileira.

Pergunto ondes estãos os desenvolvidos cidadões lusitanos neste momento? Será que estão comprando passagens para Mozambique e Angola, será que os retornados estão retornando à terra que bem ou mal sempre os acolheu.

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Palmas

21 de dezembro de 2011 às 07h54

Atitude de primo pobre da eurozona demostra quem está dirigindo aquele continente. De um lado os ricos protecionistas e autistas na condução de seus países. De outro caolhos ultraconservadores destilando suas perólas no escuro.Europa é uma colcha de interesses individualistas com plano de fundo chamado de "União Européia". Vamos no popular, pois esses ainda está presente no povão. É raposa cuidando de galinheiro.

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Zamora

20 de dezembro de 2011 às 22h31

Alçguém me explique, por favor: "Como Portugal pretende sair da crise se o maior representante da diplomacia lusitana é um tremendo Durão"?

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Marcio H Silva

20 de dezembro de 2011 às 22h08

Pra que resolver o problema, livre-se dele.

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Alberto1

20 de dezembro de 2011 às 21h19

Portugal, como todo país norte africano, sofre da síndrome do vazio interior – procura, procura, procura e não acha nada. O Pombal hoje estaria relegado a uma reles gaiolinha. As mazelas portuguesas impuseram ao Brasil cinco séculos de atraso, de pilhagens, de estupros e toda a série de mazelas do além Tejo. E o que fizeram em Timor? Quem sabe Portugal deva voltar a ser colônia da Inglaterra ou filial do Brasil para ter os seus problemas resolvidos…

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Francisco

20 de dezembro de 2011 às 21h04

Portugal me troxe da Africa.
Portugal me escravizou.
Portugal invadiu minha taba.
Portugal me emprenhou.

Portugal me vendeu aos ingleses.
Portugal me esqueceu.
Portugal copulou com os ingleses.
Portugal enriqueceu.

Portugal: brasileiro não é daqui!
Portugal: brasileiro é vagabunda!
Portugal: brasileiro não fala bem!
Portugal: brasileiro é língua imunda!

Ai Portugal…
E ainda assim é dificil de te odiar!
Ô língua desgraçada, a minha, Portugal,
Que não cessa de lhe falar!

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Bernardino

20 de dezembro de 2011 às 18h55

A CULTURA POrtuguesa é a causa de muitos dos nossoas males!Acomodaçao,subserviencia e ate covardia di nos outros.Portugal no sec xvlll era espoleta da inglaterra para se livrar do jugo espanhol e por tabela fomos entregues aos ditos ingleses pela nossa divida externa.
Vide os exemplos em 1975 as colonias portuguesas sse llibertaram na Africa,bastou 30000 cubanos para fazer correr a portuguesada de lá.Aguentaram o VELHOTE SALAZAR ´´por 40anos e nao reagiram!!!
E nos aqui aguntamos uma DITADURA 20 anos,sem reaçao e oCOLLOR tomou nosso Dinheiro da noite para o dia e nem sequer um levante foi feito.Quer exemplo maior de COVARDIA?NEM A MASTURBAÇAO Sociologica EXplica tal Comportamento.Daí a`PIADA o País é maravilhoso,mas verao o Povinho que la foi colocado!!!!!!

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Dina

20 de dezembro de 2011 às 18h29

Que vergonha, meu Deus, que vergonha!….

Acreditem que aqui a maioria não pensa assim. Se assim fosse, já cá não estaria ninguém… Havemos de dar a volta à situação. Já saímos de buracos maiores! Há que acreditar em si… e trabalhar! Eu trabalho, e milhares como eu trabalham. Só o PM e a corja dele é que não…

Desculpem qualquer coisinha (como se dizia no tempo da "outra senhora")

Saudações cordiais de Lisboa.

(uma portuguesa muito envergonhada com a ignorância esdrúxula do PM dela, que, apesar disso, não foi eleito com o voto dela)

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Bonifa

20 de dezembro de 2011 às 17h43

Portugal não precisa ser europeu. A Europa é que necessita ser substancialmente portuguesa. Os adesistas devem ser escorraçados, quando a ilusão neoliberal que venderam ao povo português finalmente for desmascarada.

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Luz del Fuego

20 de dezembro de 2011 às 16h19

Portugal é muito, mas muito mais democrático, mais culto e menos violento do que o Brasil. Fato.

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    Bonifa

    20 de dezembro de 2011 às 18h46

    Luz del Fuego, porquê a comparação? Não faz sentido fazer esta comparação. E se sentido fizesse, necessitaria de muitas referências sobre as quais se apoiar.

julio

20 de dezembro de 2011 às 15h00

Houve um tempo, se é que acabou, que os nordestinos eram embalados em ônibus fretados pelas oligarquias locais e enviados para cidades do sul, como São Paulo, Rio, etc. Os pobres só interessam quando podem servir aos senhores. Afora isso é bom se livrar do fardo. Essa mentalidade ainda existe na direita, que eu pensava só a nossa, mas Portugal também tem a mesma receita. Muito triste.

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jaime

20 de dezembro de 2011 às 11h30

Há alguns anos soube para minha decepção que os portugueses migram para países da mesma Europa, como a Suíça, para servirem como garçons e em outros empregos "menores", já que a diferença de salário é grande. É como um país de terceiro mundo, incrustado no bloco europeu, ou um país que ali estivesse por um favor dos donos da casa. Lamentável. Alguma coisa a ver com o complexo de vira lata brasileiro?

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    Almeida Bispo

    20 de dezembro de 2011 às 16h15

    Tudo a ver, caro Jaime. Portugal, especialmente o rico, entregou-se ao nascente império inglês que o consumiu por centro. Os ricos portugueses só queriam saber de ganhar dinheiro com o menor esforço do mundo. O que prometiam os ingleses enquanto lhes tiravam pouco a pouco tudo. O maior império colonial do século XVI se transformou de fato numa mera colônia no século XVII. E não foi pior porque a exploração do Brasil deu breve alento quando nas mãos dos patriotas como Pombal. Que foi apeado do poder; a Rainha que teimou em preservar alguma coisa criada por ele "transformada" numa louca, e logo a seguir a Inglaterra assumiu o Brasil diretamente, aliás quase: tinha um Rei por aqui.

Lu_Witovisk

20 de dezembro de 2011 às 10h51

Enquanto isso em SP: o governo queria "exportar" os viciados em crack para suas cidades de origem.

Triste.

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