VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Tariq Ali: A revolta dos vassalos do Reino Unido


04/09/2013 - 12h15

Cameron não conseguiu convencer nem o seu próprio partido a apoiar Obama na guerra contra a Líbia

Pela primeira vez em cinquenta anos, a Câmara dos Comuns do Reino Unido votou contra a participação do país numa guerra imperial. Consciente da profunda e persistente oposição no país e no aparelho militar, os deputados decidiram representar a vontade do povo. Por Tariq Ali

por Tariq Ali, em Carta Maior

Alegrai-vos. Alegrai-vos. A primeira corrente de vassalagem foi quebrada. Eles vão arrumá-la, sem dúvida, mas festejemos a independência enquanto dura. Pela primeira vez em cinquenta anos, a Câmara dos Comuns votou contra a participação numa guerra imperial. Consciente da profunda e persistente oposição no país e no aparelho militar, os deputados decidiram representar a vontade do povo.

Os discursos dos três líderes foram quase patéticos. Nem a emenda da oposição nem a proposta de guerra conseguiram reunir o apoio suficiente. Foi tudo o que precisávamos. Os cerca de trinta dissidentes conservadores que tornaram impossível a participação britânica, votando contra a sua liderança, merecem o nosso agradecimento. Talvez agora a BBC comece a refletir a opinião popular em vez de agir como a voz dos belicistas.

Tendo em conta o estatuto internacional britânico como comparsas de Washington no derramamento de sangue, esta votação terá um eco global. Nos próprios Estados Unidos, a votação em Londres fará crescer a inquietação, já bem evidente nos briefings off-the-record à imprensa dizendo que não existem provas sólidas que liguem o regime ao ataque com armas químicas. “O quê?”, perguntarão entre si os cidadãos norte-americanos. “O nosso seguidor mais leal está a desertar nas vésperas dos ataques?”

O que significa isto, não deveríamos estar a debater o assunto? A linguagem de Obama nas entrevistas de 29/8 não foi diferente da de Bush. Ele disse mesmo que a razão para o assalto previsto era que aquelas armas químicas “poderiam ser usadas contra os Estados Unidos”. Por quem? Pela Al-Qaeda, etc. Desculpem. Mas eles não estão ao seu lado neste conflito e o objetivo dos ataques não é o de fortalecer um dos lados contra o outro nesta guerra civil repulsiva?

Entretanto, também na Europa a votação do parlamento britânico repercute como uma onda de choque. A elite alemã (à exceção do seu elemento Verde) tende a ficar nervosa com as guerras. Isso deixa François Hollande no papel do único apoiador entusiasta de Washington na primeira linha da UE.

Quem é agora o cavalo de Tróia na Europa? Cameron culpou Blair e a Guerra do Iraque pelo ceticismo que predomina no país. É verdade. Mas não nos esqueçamos de que os conservadores também apoiaram solidamente essa guerra. Lembro-me de ter debatido na televisão nessa altura com Gove [atual ministro da Educação]: ele era pior que a maioria dos apologistas de Bush nos Estados Unidos.

É verdade que se lhes mentem uma vez, as pessoas ficam menos inclinadas a acreditar novamente no governo sobre esses assuntos. Cameron até fez uma imitação aceitável de Blair, mas os tempos estão a mudar. E não conseguiu convencer o seu próprio partido.

Enquanto isso, Washington está determinada a avançar sozinha com a França a reboque. É por isso que demasiados festejos são prematuros. A ‘Stop the War Coalition’ britânica não tem equivalente na Europa ou na América. Mesmo em épocas de isolamento (a invasão e bombardeio da Líbia, por exemplo), a pressão manteve-se em alta.

*Publicado em Information Clearing House. Tradução de Luís Branco, do Esquerda.net.

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Por Laurindo Lalo Leal Filho



19 comentários

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José X.

04 de setembro de 2013 às 19h53

Confesso que me surpreendi com essa votação, dado que a sabujice dos europeus em relação aos EUA é uma coisa inacreditável. Mas tenho certeza que o Cameron vai dar um jeito de ajudar os americanos por baixo dos panos.

Aliás, dada a crescente insanidade que os americanos vêm demonstrando, e a subalternidade vergonhosa dos europeus, será que o Brasil ainda vai comprar aqueles caças franceses ? O negócio é voltar atrás e comprar dos russos mesmo.

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Álvares de Souaz

04 de setembro de 2013 às 18h45

E pensar que Obama foi agraciado com o Nobel da Paz!!!!

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    NY

    05 de setembro de 2013 às 13h27

    Acho que ele foi apenas indicado ao premio

alvaro

04 de setembro de 2013 às 15h46

Se isso se confirmar, vai ser difícil para o Jabor justificar o ataque norte-americano à Síria utilizando a surrada e cabotina expressão “as forças aliadas do Ocidente…”.

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Rodolfo Machado

04 de setembro de 2013 às 13h53

Pepe Escobar – “EUA: Nação indispensável (para bombardear)”

http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/09/pepe-escobar-eua-nacao-indispensavel.html

Síria: “A charada dos Troodos” Foi Israel! Foi Israel mais uma vez!

http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/09/siria-charada-dos-troodos.html

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    Mário SF Alves

    04 de setembro de 2013 às 22h33

    Rodolfo,
    Segui a sugestão de link. E… na melhor das intenções, e em consideração ao último parágrafo da análise do Pepe Escobar, disse o seguinte:

    “O ministro russo de Relações Exteriores Sergei Lavrov falou de “caos controlado”. Não. O Império do Caos está totalmente fora de controle.” Pepe Escobar.
    _________________________
    Ponto.
    _________________________________
    E a culpa é de quem mesmo?
    ___________________________________________
    Do vírus, claro; teria dito Marx, que há mais de um século “profetizou” quanto a isso. Só não disse que o vírus seria constituído de zeros e uns, de bits e bytes, mas, enfim, e ainda assim, vírus.
    _______________________________________
    E por falar nisso, logo, logo, possivelmente, teremos notícias de a “rebeldia dos drones”.
    _______________________________________________
    Errei feio. Marx que me perdoe. O vírus ao qual ele se referiu foi o vírus da ambição desmedida e motor do capitalismo. E o que bits e bytes têm a ver com isso? Nada além de dinamizar, de acelerar e potencializar o processo.
    _____________________________________________________
    Seja como for, obrigado.


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