Saul Leblon: A resposta é mais democracia na gestão de São Paulo

Tempo de leitura: 4 min

12/06/2013

por Saul Leblon, em Carta Maior

Não enxergar o elo entre as ruas e o ciclo histórico costuma ser fatal às lideranças de uma época.

Acreditar que o elo, no caso dos recentes protestos em São Paulo, está no aumento de 20 centavos sobre uma tarifa de transporte congelada desde janeiro de 2011, é ingenuidade.

Supor que a ordenação entre uma coisa e outra poderá ser restabelecida à base de cassetetes e pedradas é o passaporte para o desastre.

Desastre progressista, bem entendido.

A lógica conservadora nunca alimentou dúvidas existenciais ou políticas quanto a melhor forma de manter o caos nos eixos.

Esse é um apanágio do seu repertório histórico.

O colapso do trânsito, inclua-se nesse desmanche o custo e o tempo despendidos nos deslocamentos, é apenas o termômetro mais evidente de um metabolismo urbano comatoso.

Cerca de 1/3 dos paulistanos, aqueles mais pobres, residentes nas periferias distantes, levam mais de uma, a até mais de duas horas no trajeto da casa ao trabalho.

Os tempos indicados são referentes à ida; não consideram o gasto no retorno.

Os dados são de pesquisa recente do Ibope.

Não se produz uma irracionalidade desse calibre sem um acúmulo deliberado.

Estudos do Ipea reiteram a piora nas condições de transporte urbano das principais áreas metropolitanas do país desde 1992.

O Brasil tem a taxa de urbanização mais alta em uma América Latina que lidera o ranking mundial nesse indicador, diz a ONU.

O país concluiu a transição rural/urbana em três décadas, açoitado pela política de modernização conservadora do campo.

Isso se fez sob a chibata de uma ditadura militar .

E não poderia ter sido feito exceto assim.

A virulência do Estado ditatorial fez em um terço do tempo aquilo que as nações ricas levaram um século para realizar.

A coagulação da insensatez na atual ‘imobilidade urbana’ reflete o saldo de perdas e danos dessa marcha batida da história.

O crescimento populacional desordenado das grandes cidades, agudizado pelas referidas migrações é um dos alicerces da ruína.

Ancorada na omissão pública de décadas, a expansão irracional e especulativa da mancha urbana ganhou vida própria.

Com os desdobramentos logísticos sabidos: aumento das taxas de deslocamento e motorização; explosão dos congestionamentos e do custo do transporte.

Na vida da cidade e no bolso de cada cidadão.

Não é figura de retórica dizer que esses ingredientes acionam o pino de cada bomba de gás lacrimogênio e faíscam o pavio de cada enfrentamento irrefletido nas batalhas campais registradas na cidade de São Paulo em menos de uma semana.

Repita-se: o conservadorismo tem certezas esféricas quanto a melhor forma de lidar com a nitroglicerina social contida nas cápsulas de concreto que ergueu no país nas últimas décadas.

Suas escolhas não podem ser as mesmas das forças progressistas.

O nivelamento regressivo acontecerá caso a inércia política ceda o comando dos acontecimentos à lógica da violência.

No caso dos protestos em São Paulo, a responsabilidade da autoridade municipal é superlativa.

Cabe-lhe reafirmar o divisor entre a gestão progressista de uma sociedade e a visão conservadora sobre os seus conflitos.

Carta Maior saudou a vitória de Fernando Haddad em 2012 por entender, como entende, que ele representa o resgate do cimento da democracia na reconstrução de São Paulo.

Mais que isso.

Por entender que a sorte de São Paulo sob a liderança da nova administração marcará o destino da agenda progressista brasileira no período em curso.

A maior metrópole latino-americana constitui um gigantesco laboratório de desafios e recursos.

Tem a escala necessária para gerar contracorrentes vigorosas, a ponto de sacudir e renovar a agenda da esquerda brasileira, após mais de uma década no comando do país.

A deriva em que se encontram os serviços e espaços públicos da cidade é obra meticulosa e secular de elites predadoras.

Ao longo de décadas, a Prefeitura consolidou-se aos olhos da população como um anexo dessa lógica expropriatória, quando deveria funcionar como um escudo do interesse coletivo.

Incapaz de se contrapor à tragédia estrutural que marca a luta pela vida em São Paulo, tornou-se uma ferramenta irrelevante aos olhos da cidadania.

A tragédia se completa com o descrédito da população em relação ao seu próprio peso na ordenação institucional da cidade.

Daí para acender uma espiral de enfrentamentos bastam 20 centavos de diferença na tarifa.

Sim, há outras nuances e interesses entrelaçados ao destaque esquizofrênico com que a mídia convoca e, depois, alardeia o caos a cada protesto.

Tais motivações são as mesmas que fizeram do tomate um astro olímpico na modalidade ‘descontrole dos preços’, há menos de um mês.

As mesmas que hoje alardeiam ‘a explosão’ do dólar – e, ontem, denunciavam o ‘populismo cambial’ e os malefícios, verdadeiros, do Real sobrevalorizado.

Essas motivações exercitam sua sofreguidão cotidianamente na mesmice de uma mídia que se esboroa sob o peso de sua própria irrelevância jornalística.

A resposta da Prefeitura de São Paulo aos protestos não deve se pautar pelos uivos do jogral conservador.

Não se trata, tampouco, de conciliar com a violência gratuita.

Mas, sim, de encarar as manifestações como um mirante privilegiado para fixar uma nova referência na vida da cidade.

Qual seja, a de calafetar o abismo conservador que predominou secularmente na relação entre a Prefeitura e os moradores da metrópole, sobretudo a sua parcela mais pobre.

O trunfo do prefeito Fernando Haddad é ter sido eleito para isso.

Ele tem legitimidade para subtrair espaços à engrenagem opressora e devolvê-los a uma cidadania há muito alijada das decisões referentes ao seu destino e ao destino do seu lugar.

Um salto de qualidade e intensidade na participação democrática na gestão da cidade; essa é a resposta para a fornalha da insatisfação.

Da qual os incidentes de agora podem representar apenas um prenúncio pedagógico.

São Paulo é o produto mais representativo do capitalismo brasileiro.

Um labirinto de contradições, uma geringonça que emperra e se arrasta, desperdiça energia e cospe gente enquanto tritura e refaz o seu concreto de desigualdade.

Não há solução administrativa ou orçamentária imediata para o caos deliberadamente construído aqui.

A resposta à lógica que sequestrou a cidade dos seus cidadãos é devolvê-la a eles fortalecendo os canais existentes e abrindo outros novos, que dilatem o seu discernimento e a capacidade de erguer linhas de passagem entre o presente e o futuro.

A alternativa é a anomia, eventualmente sacudida de gás lacrimogênio e pedradas.

Leia também:

Adriano Diogo: “Infiltraram policiais civis e militares no meio da garotada para incitar a violência”

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Comentários

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Jose Mario HRP

http://maureliomello.blogspot.com.br/2013/06/a-nova-democracia-representativa.html

Essa esquerda me representa!

Jose Mario HRP

http://esquerdopata.blogspot.com.br/2013/06/o-fascismo-emergente.html

Essa esquerda não me representa!

Urbano

Após tantos e tantos anos de tunganagem, querer, nesse momento, democracia por aquelas paragens é o mesmo que se extrair leite da rocha…

Hildermes José Medeiros

Não percebo ainda nada de fins de um ciclo histórico, já que o capitalismo, embora enfraquecido, em dificuldades para continuar nos moldes que tem feito até o presente, continua o sistema dominante, impondo o neoliberalismo, inclusive aqui no Brasil, com bases nas diretrizes do consenso de Washington. Essa questão dos transportes públicos no país, totalmente operado através do regime de concessões, mostra que o mesmo se constitui num sistema para que empresários, que enfrentam baixos riscos, com mercado cativo, com tarifas altíssimas, indexadas, com garantias de reajustes anuais, presta-se muito mais para enriquecer ainda mais esses empresários que atuam no setor, que são fortíssimos contribuintes aos partidos no poder nos Estados e Municípios, financiadores de campanha enfim. É um serviço concedido, onde pouco se exerce o controle, onde a norma são veículos velhos, muitos caindo aos pedaços, sem os requisitos mínimos de segurança, com frota insuficiente para atender a linha concedida. Dá insuficiência e precariedade da frota advém longa espera nos pontos, acidentes, e longos percursos (nas grandes cidades, é muito comum o trabalhador gastar mais de cinco horas por dia para ir e vir para trabalhar.) É uma descentralização sem meios, ou vontade de controle (controlar com o rigor devido os financiadores de campanha?), este que é o básico para se obter no mínimo uma operação sistêmica razoável. E o pior de tudo são os preços, que por serem indexados, não importando os aumentos de custos operacionais, simplesmente já alcançam níveis escorchantes, que são bem próximos no país todo. Tendo o Rio de Janeiro como referência, uma simples passagem de ida e volta a qualquer lugar, consome no mínimo 20% do salário mínimo só no trajeto para trabalhar, representando mais de 40% de uma cesta básica no município. As barcas então, podem absorver até 30% do salário mínimo. E note-se que os cálculos admitiram só 20 dias e o líquido recebido após desconto do INSS, significando que pouco sobra ao trabalhador brasileiro para visitar um parente ou amigo mais distante num fim de semana, muito menos com familiares. Parques com os filhos só se for na vizinhança. Há o direito de ir e vir, mas não são garantidos a população os meios para exercer esse direito. Quando o trabalhador se desemprega submete-se a inúmeras humilhações para pagar a passagem para tentar outro emprego. Muitos preferem, coitados, andar quilômetros diariamente para se reempregar. Haja sapato! O sistema ainda não entrou em colapso porque a grande maioria dos empregadores, inclusive empregadores de domésticas, pagam as passagens, esquema que deixa alguns trabalhadores fora do mercado, ou então o pobre coitado assume os custos adicionais que o patrão não está disposto a assumir. Esses números deixam também muito mal o salário mínimo, cujos reajustes veem sendo cantado em verso e prosa como a última maravilha da ordem iniciada em 2003. Num sistema de tamanha perversidade, claro que a oposição, os Millenium da vida e as esquerdas que atuam ombro a ombro com essas forças da direita que querem voltar ao poder em 2013 já perceberam esse tamanho flanco, esse calcanhar de aquiles do PT e aliados no poder. A mídia tudo amplifica dando respaldo a essas forças, das quais são aliadas. Quem sabe se a forma de financiamento de campanha tornar-se público não permita que prefeitos, inclusive progressistas, possam deixar de se constranger-se dizendo que não há o que negociar nesse absurdo que se obrigam a impor às populações mais pobres, porque os ricos e as classes médias, mesmo reclamando, que têm reflexos políticos, preferem o automóvel, a condução individual, já que o sistema público de transporte funciona mal e é muito caro. Esse veio foi aberto pela oposição e não será fechado com ameaças nem recusas para negociar. Só para tentar ajudar, que tal ser examinado o fato mais de que concreto de os empregadores já pagarem grande parte dos custos de transporte dos trabalhadores, através de dinheiro, auxílios mensais e vales etc. examinar uma forma de esses recursos serem direcionados para subsidiar no sistema de transporte e permitirem um tarifa bem menor na roleta, como é o objetivo da existente da legislação, que procura deixar só 6% do custo para o trabalhador?

Jose Mario HRP

#vemprajanela no face book.

José X.

blablabla

Jose Mario HRP

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=KSYR9RN7LyI
ANONYMOUS

FrancoAtirador

.
.
Revista Brasileira de História

A LÓGICA DA SUSPEIÇÃO:
SOBRE OS APARELHOS REPRESSIVOS
À ÉPOCA DA DITADURA MILITAR NO BRASIL (*)

Por Marionilde Dias Brepohl de Magalhães
(http://bit.ly/13PcWbS)

“Do rio que tudo arrasta se diz que ele é violento.
Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”
(Bertold Brecht)

INTRODUÇÃO

Para muitos intelectuais que se propõem analisar a ditadura militar no Brasil, a questão da tortura é especialmente destacada; segundo diversos trabalhos, essa prática constituiu o núcleo do sistema repressivo: de uma ação arbitrária por parte de alguns interrogadores, transformou-se em método científico, criteriosamente planejado, com a finalidade de obter informações sobre atividades e/ou indivíduos considerados inimigos internos da nação (1).

Através da tortura, garantiu-se também a eliminação de muitos líderes de movimentos de resistência e de oposição, o que permitiu ao regime orientar suas ações sem que precisasse buscar, para suas decisões, qualquer legitimação da sociedade civil.

Neste trabalho, procuraremos destacar um outro mecanismo repressivo de que se valeu o regime militar no Brasil, e que em muitos casos demonstrou ser mais eficiente e produtivo:
a repressão preventiva, que consistia na vigilância e controle cotidiano sobre a sociedade, prática consolidada pela criação do que foi denominado “Comunidade de Informações”.

Ao destacarmos este dispositivo, buscaremos contribuir ainda para a compreensão de atores políticos que normalmente são pouco enfatizados pelos estudiosos desta temática: referimo-nos àqueles que, em diversos sistemas políticos e mesmo em diversas relações sociais, não pertencem às elites dirigentes nem aos que a ela fazem oposição, mas demonstraram-se dispostos a colaborar, de forma direta ou indireta, com os poderes instituídos.

A COMUNIDADE DE INFORMAÇÕES

Com o advento da ditadura militar no Brasil, e em nome da “Segurança Nacional”, instalou-se um complexo sistema repressivo para combater a subversão e, ao mesmo tempo, reprimir preventivamente qualquer atividade considerada suspeita por se afigurar como potencialmente perturbadora da ordem.

À diferença dos aparatos repressivos preexistentes, em que as unidades de força militares ou policiais guardavam autonomia de ação entre si, este pretendeu consolidar uma estrutura única e coesa, como uma rede inextricável, cujas ações eram coordenadas a partir de um núcleo central, o “Serviço Nacional de Informações – SNI”.
Criado em 1964, este organismo subordinou rapidamente todos os outros órgãos repressivos, como os centros de informações das três armas, a polícia federal e as polícias estaduais.
Para integrá-los e harmonizar suas ações, criou-se o “Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, DOI-CODI”, uma instituição tornada oficial em 1970, que aglutinava representantes de todas as demais forças policiais. Dotada de recursos financeiros e tecnológicos, suas atividades eram estrategicamente planejadas e orientadas pela lógica da disciplina militar, com vistas a enfrentar o que seus próprios agentes entendiam como uma “guerra revolucionária”.

A seleção de pessoal para o exercício de funções repressivas submetia-se a um conjunto de critérios cuidadosamente elaborado, seguindo uma rígida hierarquia: no topo da pirâmide situava-se o presidente da República e como seu ‘staff’ para assuntos de segurança, o Conselho de Segurança Nacional e a equipe executiva do SNI.
A este organismo subordinavam-se os órgãos de repressão alocados em todas as regiões do país, cada um deles coordenado por um militar.
Para assessorá-lo, contrataram-se “analistas de informações”, concebidos como a elite do sistema;
estes subsidiavam seus superiores com dados e informações já processados e recomendavam programas e planos de ação. Para tanto, tinham de freqüentar cursos ministrados pela “Escola Nacional de Informações – EsNI”, uma instituição cujos currículos foram delineados com o apoio técnico de profissionais ligados às áreas de segurança da Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos.

No estrato intermediário situava-se o interrogador, função que se dividia em duas atividades: a de responsável direto pelos interrogatórios e a de monitor.
Este se escondia atrás de um espelho falso para observar o andamento do interrogatório e, por meio de um aparelho de transmissão, sugeria perguntas, técnicas de intimidação, hora de interromper a sessão, etc.

Segundo o depoimento de um militar que realizou um curso sobre técnicas de informações no Panamá,

“Os interrogatórios, em geral, eram feitos por pessoal mais especializado, e uma das técnicas utilizadas era fazer cansar o interrogado. Por exemplo, começa-se o interrogatório às duas horas da tarde e, às cinco horas da manhã seguinte, o indivíduo ainda está sendo interrogado. (…) Em todos os cursos de informações aprende-se a fazer isto. Uns chegam e ameaçam: ‘Você vai sofrer punição por isso’. Aí, o outro diz: ‘Não, eu sou seu amigo. Ele é muito bruto, muito nervoso’. Então procura ser amigo do interrogado para colher informações. Quando fica padrinho, amiguinho, chega outro mais violento, mais zangado: ‘Nada disso, você tem de dizer a verdade. O que ia fazer com o fulano?’ Dali a pouco aparece outro. Então, faz-se ele repetir vinte vezes a mesma coisa” (2).

Abaixo dos interrogadores, com uma formação menos especializada, estavam os captores – policiais responsáveis pelo aprisionamento dos suspeitos -, o pessoal administrativo e o de carceragem (3).

Em paralelo a estas atividades, e exercendo um maior ou menor poder de influência sobre aqueles, estavam os informantes, aos quais podia-se, de acordo com sua competência, delegar também a função de analista, interrogador ou captor.
Para efeitos de confiabilidade, estes homens denominados “fontes” eram classificados segundo uma escala de seis níveis:

“Há seis níveis de fontes e seis graus de veracidade do informe: A,B,C,D,E,F e 1,2,3,4,5,6. Um informante A1 é um informe de uma fonte sempre idônea e com grande probabilidade de verdade. (…) Se o informe é F6, significa que não pode se saber a idoneidade da fonte, pode ser de um maluco qualquer (…) O grosso caía no C. Quer dizer, fonte razoalvelmente idônea e o informe tem possibilidades de ser verídico. O trabalho do analista é juntar tudo numa pasta ou, agora, num computador, e fazer uma análise (…) o que ele dá ao chefe do escalão e com o máximo que pode alcançar de precisão” (4).

Geralmente, o agente do tipo ‘C’ era do próprio exército, na maior parte das vezes um sargento formado pela EsNI, o qual, vestido à paisana, infiltrava-se nos mais diversos locais para coletar o maior número possível de dados.

Os agentes do tipo ‘D’, ‘E’ e ‘F’ eram, em sua maioria, informantes eventuais (remunerados ou não) ou informantes “espontâneos”, vale dizer, pessoas que possuíam certa cumplicidade com o regime e que voluntariamente se dispunham a cooperar, fosse por convicção, fosse para receber algum apoio de caráter pessoal.

A técnica de infiltração consistia em suspeitar, em princípio, de todos, coletar e arquivar quaisquer dados obtidos e entregá-los, por escrito, à polícia.
Ali estes seriam classificados com palavras-chave extremamente sugestivas, por caracterizarem uma gradação em que se colocava num extremo o inimigo mais perigoso, e em outro, aqueles que estariam, provavelmente, dispostos a cooperar.

Obedecendo a esta ordem, cite-se um exemplo desta técnica de arquivamento: “terrorista”, “fanático comunista”, “esquerdista” ou “socialista”, “subversivo”, “autor de atos indiretamente subversivos”, “inocente útil”, “idôneo” ou “confiável”.

Além de aumentar a eficiência do processo repressivo, os informes obtidos podiam também assumir um papel preventivo, uma vez que instruíam os poderes sobre as tendências, em cada microconjuntura, dos movimentos de oposição.

Esta prática adquiriu relevância após 1968, quando os militares assumiram uma posição mais profissional, se assim podemos dizer, com relação às técnicas de repressão. Segundo o depoimento de um militar que foi chefe do SNI nos anos setenta, a tortura devia ser preterida em favor da “infiltração” pelo menos por dois motivos:
primeiro, por macular a imagem do governo e, segundo, porque os próprios suspeitos já haviam desenvolvido uma certa experiência que lhes permitia driblar os interrogadores (5).
Isto se confirma no trecho de um relatório do SNI, redigido em 1969:

“Os subversivos têm se negado, cada vez mais, a dar quaisquer informações. Os últimos elementos detidos, apesar de submetidos aos mais cerrados interrogatórios, negaram-se a declarar até o próprio nome. Decorrido um determinado tempo, falam sem problemas, mas porque este é o tempo demarcado para que os demais companheiros saiam dos seus aparelhos” (6).

Se a tortura tinha ainda alguma utilidade, conforme um militar que esteve à frente do DOI-CODI entre 1972 e 1974, era no sentido de intimidar aqueles que não estavam preparados para aquela guerra:

“O medo é o grande auxiliar do interrogatório. Os ingleses, por exemplo, recomendam que só se interrogue o prisioneiro despido porque, segundo eles, uma das defesas do homem e da mulher é a roupa, e tirando a sua roupa, fica-se muito agoniado, num estado de depressão muito grande.

Depois (de um interrogatório) grande parte abandona suas atividades e retorna à boa vida de pequeno burguês. (…) Os frios, evidentemente que não. Esses eram muito estruturados, muito rancorosos, e só pensavam na volta, no troco. Quando liberados, retornavam ao grupo terrorista” (7).

Daí se depreende que a tortura, além de servir como técnica para obter algumas informações, funcionava também como instrumento para desmobilizar as oposições por meio da intimidação, atingindo não apenas aqueles que eram a ela submetidos, mas também, e talvez principalmente, os grupos e movimentos de que faziam parte tais indivíduos, uma vez que a experiência com os interrogatórios era transmitida aos demais.

Já a infiltração, levada a efeito pelo informante (remunerado ou espontâneo, profissional ou amador) era uma prática sigilosa que, ademais, arregimentava indivíduos dispostos a colaborar, fosse para obter algum proveito pessoal ou porque, devido a propaganda, acabava por identificar-se com o regime.

A seguir, procuraremos entender os vínculos que se formaram entre os informantes e a cúpula do sistema.

A FABRICAÇÃO DO INFORMANTE

No que se refere aos aparelhos repressivos, pode-se detectar alguns mecanismos, discursos e procedimentos que se inspiraram, seguramente, em experiências totalitárias [Nazi-Fascistas], notadamente a experiência da propaganda política e o emprego do terror…

Não estamos nos referindo à propaganda do governo sobre suas intervenções oficiais na esfera pública, que eram veiculadas nos jornais de consumo difundido (9).
Também ela se afigurava como um recurso para a ampliação das bases de apoio ao regime, mas não era neste espaço, obviamente, que os militares buscavam conquistar colaboradores para as práticas repressivas.

Referimo-nos a uma propaganda de alcance restrito, dirigida a uma pequena parcela da população por meio de documentos sigilosos, que eram dados a conhecer segundo a confiabilidade que o regime dispensava aos receptores, e que possuía uma finalidade mais organizativa.

Para entendermos esta máquina de propaganda recorramos, primeiramente, ao historiador Pierre Ansart que, analisando as diferentes feições do trabalho ideológico, instância em que é operada não a violência física, mas a violência simbólica, distingue três campos a partir dos quais os discursos são elaborados:

“a ortodoxia apoiada”, que é alcançada pela difusão de mensagens aceitas, na maioria das vezes, de forma espontânea;
“a ortodoxia consentida”, que significa uma forma organizada e sistemática de inculcação e controle sobre a opinião pública,
e “a ortodoxia terrorista”, em que os discursos racionais são substituídos por uma linguagem prenhe de mitos, com o objetivo de garantir total obediência aos poderes oficiais.
Neste nível, os indivíduos deixam de ser meros receptores das mensagens, e passam à condição de entusiastas defensores da ‘verdade’ (10).

Sob um regime autoritário, torna-se imprescindível aos poderes oficiais, além de difundir certezas, inculcar em seus governados que os valores transmitidos pelo discurso ideológico podem e devem ser representados pelos detentores do poder – apresentados não somente como governantes, mas como “protetores da nação”.

A relação que se procura estabelecer é semelhante àquela mantida com o “pai severo”, porém “protetor”. Esta depende, no entanto, de um sentimento de identidade, de ser parte de uma comunidade afetiva (a grande família, a nação, a pátria), cultuada como um ente acima de quaisquer interesses privados.

A sacralização de imagens como a bandeira, a pátria, o hino nacional, a própria história, subjaz, com maior ou menor intensidade, em todos os sistemas políticos, e pode explicar a dimensão afetiva da submissão.

Por estas razões, os poderes instituídos, mesmo num regime autoritário, elaboram uma série de mensagens que visam senão o total apoio da população, pelo menos a sua tolerância.

Orientados por esta tipologia, parece-nos plausível afirmar que o governo militar buscou, recorrentemente, o apoio ou o consentimento da população por meio de sua propaganda oficial.

Mas no que se refere aos “homens de confiança”, o trabalho ideológico pautou-se, segundo nosso entendimento, na ortodoxia terrorista. Pois, neste nível, segundo Pierre Ansart,o terror ideológico designa o inimigo, que passa a ser visto como o outro da verdade, e transforma-o em um objeto a ser destruído.

Com esta linguagem,

“A ideologia oferece bem mais do que uma identificação com a lei, oferece a exaltante identificação na submissão a uma força pronta a enfrentar a violência. O apelo faz de cada qual um ser que se ultrapassa a si mesmo, arrebatado à mediocridade do cotidiano, vencendo o medo inculcado pela cumplicidade com o déspota. O membro do grupo legitimado é obscuramente chamado a se identificar com o agente da violência e, quando a perseguição se aproximar do sujeito fanatizado, a fronteira entre a identificação com o herói e a interiorização do perseguidor se confundirá” (1978, p. 153).

A partir destas considerações, podem ser detectados os vínculos existentes entre a violência simbólica e a violência física.
Para os funcionários ou colaboradores da repressão, o inimigo é apresentado, cotidianamente, como dotado de uma força demoníaca, contra quem não adianta querer combater ou controlar, mas impõe-se destruir, para que assim, e só assim, seja garantido o bem-estar da sociedade.

Ainda que oculto ou mesmo desconhecido, o inimigo é citado cotidianamente como sempre pronto a atacar.
A linguagem empregada para designá-lo (‘perigoso’, ‘fanático’, ‘terrorista’, etc.) desperta, por sua vez, sentimentos paranóicos na sociedade, o que provoca em muitos a disposição à violência.

Esta linguagem pode ser encontrada com uma clareza meridiana nos relatórios e instruções do SNI à época do regime militar no Brasil, como por exemplo no seguinte texto, distribuído sob forma de panfleto:

“Decálogo da Segurança

1 – Os terroristas jogam com o mêdo e o pânico. Somente um povo prevenido e valente pode combatê-los. Ao ver um assalto ou alguém em atitude suspeita, não fique indiferente, não finja que não viu, não seja conivente, avisa logo a polícia. As autoridades lhe dão todas as garantias, inclusive do anonimato.

2 – Antes de formar uma opinião, verifique várias vezes se ela é realmente sua, ou seja, se não passa de influência de amigos que o envolveram. Não estará sendo você um inocente útil numa guerra que visa destruir você, sua família e tudo o que você mais ama nesta vida?

3 – Aprenda a ler jornais, ouvir rádio e assistir TV com certa malícia. Aprenda a captar mensagens indiretas e intenções ocultas em tudo o que você vê e ouve. Não vai se divertir muito com o jogo daqueles que pensam que são mais inteligentes do que você e estão tentando fazer você de bobo com um simples jogo de palavras.

4 – Se você fôr convidado ou sondado ou conversado sobre assuntos que lhes pareçam estranhos ou suspeitos, finja que concorda e cultive relações com a pessoa que assim o sondou e avise a polícia ou o quartel mais próximo. As autoridades lhe dão todas as garantias, inclusive do anonimato.

5 – Aprenda a observar e guardar de memória alguns detalhes das pessoas, viaturas e objetos, na rua, nos bares, nos cinemas, teatros e auditórios, nos ônibus, nos edifícios comerciais e residenciais, nas feiras, nos armazéns, nas lojas, nos cabeleireiros, nos bancos, nos escritórios, nas estações ferroviárias, nos trens, nos aeroportos, nas estradas, nos lugares de maior movimento ou aglomeração de gente.

6 – Não receba estranhos em sua casa, mesmo que sejam da polícia – sem antes pedir-lhes a identidade e observá-los até guardar de memória alguns detalhes: número da identidade, repartição que expediu, roupa, aspecto pessoal, sinais especiais, etc . O documento também pode ser falso.

7 – Nunca pare seu carro solicitado por estranhos, nem lhes dê carona. Ande sempre com as portas de seu carro trancadas por dentro. Quando deixar o seu carro em algum estacionamento ou posto de serviço, procure guardar alguns detalhes das pessoas que o cercam.

8 – Há muitas linhas telefônicas cruzadas. Sempre que encontrar uma delas, mantenha-se na escuta e informe logo a polícia ou o quartel mais próximo. As autoridades lhe dão todas as garantias, inclusive do anonimato.

9 – Quando um novo morador se mudar para o seu edifício ou para o seu quarteirão, avise logo a polícia ou o quartel mais próximo. As autoridades lhe dão todas as garantias, inclusive do anonimato.

10 – A nossa desunião será a maior fôrça de nosso inimigo. Se soubermos nos manter compreensivos, cordiais, informados, confiantes e unidos, ninguém nos vencerá” (11).

Observa-se aí uma linguagem típica da ortodoxia terrorista: segundo o panfleto, a sociedade brasileira está dividida entre algozes e vítimas.
E a única forma de defesa é a cooperação com o regime, que se apresenta como autoridade protetora da nação.
Todos eram convidados a participar da “Comunidade de Informações”, suspeitando de tudo e de todos que os cercassem, como que movidos por um sentimento de ameaça permanente. Como um interrogador que tem diante de si um espelho falso que lhe permite ver sem ser visto, as atividades do informante devem se tornar invisíveis para a sociedade, tanto quanto para os poderes oficiais, que lhe garantem o anonimato.
Só assim ele pode exercer um poder efetivamente produtivo: o de orientar o governo à ação. Pois que o inimigo jamais descansa, está sempre ali e acolá, mudando de tática, aliciando pessoas, incitando à desordem.

Suspeite-se, por exemplo, do tráfico de entorpecentes. Este não é um crime comum, uma vez que
“é muito fácil conquistar o país com a utilização de tóxicos. Estes afetam a masculinidade dos moços e fazem as moças perderem seu instinto de defesa moral. Por isto são um perigo real, um mal que se alastra (…) trata-se de um plano para enfraquecer a nação, um plano subversivo” (12).

Suspeite-se dos estudantes quando participam de passeatas, momento em que são instigados a desacatar as autoridades policiais, “com o objetivo muito claro: de produzir uma vítima, o que lhes permitirá criar um clima de comoção social a seu favor” (13).

Suspeite-se até mesmo de brincadeiras aparentemente inocentes, como o trote dos calouros nas universidades, o que é compreendido como uma tática de aliciamento dos subversivos, pois
“No momento do trote (…) raspam-lhes os cabelos, fazem-nos desfilar com cartazes contendo palavras obscenas, pintam-lhes o rosto para que pareçam palhaços, ensinam-lhes a desacatar as autoridades, para que depois, enfraquecidos espiritualmente, estes adolescentes encontrem no líder estudantil um dominador capaz, um substituto de seu pai…” (14)

Suspeite-se dos hospitais, que podem estar tratando de subversivos feridos sem comunicar nada às autoridades, das livrarias que clandestinamente vendem livros subversivos, do ‘rock and roll’, esta música eletrizante, e portanto subversiva, dos advogados, jornalistas, professores.

E assim, por meio da produção continuada de “notícias” que estão a falar de um perigo iminente, o cidadão comum é convidado a participar da “comunidade de informações”, que lhe dá a um só tempo proteção e sentido para a sua existência, pois pelo menos no momento da delação ele tem a prazerosa sensação de estar exercendo um poder cuja natureza é idêntica à de seu chefe.

A FABRICAÇÃO DO MEDO

Os documentos que foram escritos para orientar a ação dos informantes eram produzidos pelos “analistas de informações”.
Tais documentos, pelo que se depreende de sua análise, prestavam-se a uma dupla função: a de assessorar as elites dirigentes do regime e a de produzir material de propaganda dirigida aos informantes.

Tratemos de verificar, apesar das limitações impostas pela natureza de nossos documentos, como os informantes “amadores” compreendem essas mensagens, e como aplicam, na prática, suas recomendações.

Nossa atenção se dirige, principalmente, para os informantes classificados pelo sistema como ‘D’, ‘E’ e ‘F’.
São eles uma fonte duvidosa, porém digna de registro, posto que compartilham dos “ideais da revolução” – homens invisíveis que, ao mesmo tempo em que cooperam com a repressão, constituem uma base de sustentação do regime.

Apesar das limitações das fontes de que dispomos (o nome do informante raramente é mencionado, os registros que produz são bastante sucintos, as causas de suas denúncias raramente reveladas, etc.), pudemos detectar, através da leitura de 172 informes, alguns denominadores comuns, e que podem contribuir para a compreensão de suas motivações subjetivas, visões de mundo, personalidade.

Além disto, entendemos, como Michel Foucault, que quando se trata de analisar o processo de sujeição em qualquer sistema político, é necessário “captar o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações” (15), pois é nesta instância que ele é efetivamente exercido.

Como já foi mencionado, o sistema possuía funcionários e colaboradores de diferentes ‘status’ e com diferentes atribuições.

Os informantes ‘D’, ‘E’ e ‘F’ não pertenciam formalmente ao sistema, mas suas informações contribuíam para que a repressão preventiva fosse praticada.

Muitos membros deste segmento eram recrutados pelos poderes oficiais entre os quadros do funcionalismo público.
Para tanto, sua vida pregressa era avaliada e, após serem considerados confiáveis, eram arrolados como eventuais fontes de informação (16).
Tratava-se, de uma certa maneira, de um clientelismo às avessas: se o funcionário não cooperasse, poderia perder alguns benefícios inerentes à sua função, ou pior, tornar-se, ele mesmo, um suspeito.

Um outro grupo era composto por membros de entidades e associações da própria sociedade civil, comprometidos com ideologias conservadoras e radicalmente anticomunistas, como por exemplo, a “Tradição, Família e Propriedade – TFP” – grupo ligado à ala ultraconservadora da Igreja Católica, o “Comando Geral Democrático” e o “Comando de Caça aos Comunistas” (17).
Prestavam informações espontaneamente, como uma forma de colaboração ao regime.
Ao mesmo tempo, sentiam-se representados por aquele governo, como se fossem o partido da situação.

Finalmente, os informantes voluntários, cujas origens são mais difíceis de precisar, uma vez que atuavam individualmente, mas que, como os demais, mantinham vínculos de cooperação com o sistema.

Como se comportam estes informantes, quais suas expectativas no ato de vigiar e quais suas interpretações sobre esta tarefa?
Ao compararmos os registros, cartas, pareceres e formas de inserção no sistema, pudemos constatar diversas semelhanças em seus procedimentos, que podem ser assim caracterizados:

“- O informante sempre age sozinho. Seus planos de infiltração, suas desconfianças, os contatos que faz com os órgãos de repressão não são conhecidos por ninguém. Ele não expõe suas opiniões, aliás, o que é de resto opinião pessoal, transforma-se em uma sentença. Mesmo quando não está seguro de sua acusação, sugere que pelo menos o suspeito que ele denunciou seja chamado a prestar esclarecimentos.

– Seu campo privilegiado de investigação é o seu próprio ambiente de convívio: vizinhos, colegas e amigos são seu objeto de suspeição. Isso se depreende pela intimidade com a qual ele faz referência aos seus suspeitos e pelo conhecimento que demonstra ter dos hábitos mais corriqueiros de cada um deles. E ainda mais: ao denunciar, pede que seu nome não seja jamais mencionado, pois o acusado o conhece, e pode prejudicá-lo ou mesmo persegui-lo. Em alguns casos, justifica sua denúncia por querer o bem daquela pessoa, apresentada como uma vítima nas mãos dos subversivos.

– Está sempre a sugerir às autoridades outros suspeitos, ou lugares que não estejam devidamente vigiados, armadilhas não descobertas. Faz recomendações e reflexões sobre a sociedade, a economia, a cultura. Além de informar, ele quer participar mais ativamente dos poderes decisórios, quer ser reconhecido pelas autoridades, por quem sempre expressa sua admiração e respeito.

– Não poucos acabam por revelar, nas entrelinhas, diversos preconceitos, dentre os quais o mais destacado é o racial. O subversivo, quando judeu, por exemplo, merece mais severidade no tratamento que os demais;o polonês ou ucraniano são sempre comunistas (18); o negro, desordeiro. E os estrangeiros, em geral, são qualificados como portadores de idéias estranhas ao sistema.”

Ressalte-se ainda o apego à moral conservadora.

“- Tanto quanto os analistas de informações, o informante amador associa invariavelmente a subversão à promiscuidade. Cite-se um episódio ilustrativo: mesmo quando uma prostituta denunciou subversivos que queriam contratá-la para manter relações sexuais com um militar e dele retirar informações, seu depoimento não só foi rejeitado como ela mesma foi colocada sob suspeita (19).

– Às mulheres é dispensado um tratamento diferenciado no ato de informar: se consideradas subversivas, sua vida privada é quase sempre devassada, como se a atividade política fosse uma decorrência de sua moral sexual; se os homens conquistam adeptos para a sua causa por meio de técnicas de propaganda, aquelas se valem da sedução. Amasiam-se, prostituem-se, usam drogas. Pelo conteúdo dos registros, pode-se afirmar que a maioria dos informantes possui um radical desprezo pela mulher subversiva, considerada, a um só tempo, degradada e perigosa. Neste caso, o seu espaço de convívio privilegiado, – o lar, e o papel de esposa e mãe de família, foram sufocados em nome de uma postura agressiva, tipicamente masculina.

– Aos olhos do informante, a delação mais preciosa é a de um verdadeiro comunista. Quando isto ocorre, ele descreve suas informações de forma extremamente minuciosa, seja para comprovar a veracidade de seu informe, seja para deixar clara a importância de sua descoberta.”

Nestes casos, é particularmente interessante observar como a vida pregressa do acusado é cuidadosamente descrita. Enquanto do mero subversivo ou esquerdista são mencionados apenas seus atos, do comunista impõe-se esquadrinhar toda a sua história.

Esta prática nos aproxima de uma importante reflexão de Michel Foucault, quando ele analisa a figura delinqüente: o delinqüente, conceito elaborado pelas instituições penais no século XIX, é um criminoso que existe antes mesmo do seu próprio crime, uma vez que traz consigo tendências psicológicas que o predispõem ao delito.

“À medida que a biografia do criminoso acompanha na prática penal a análise das circunstâncias, (…) vemos os discursos penal e psiquiátrico confundirem suas fronteiras: e aí, em seu ponto de junção, forma-se aquela noção de indivíduo perigoso que permite estabelecer uma rede de causalidade na escala de uma biografia inteira e estabelecer um veredicto de punição-correção” (20) .

Esta observação nos parece fundamental e passível de ser aplicada aos dias atuais. Mesmo que se trate de uma categoria identificável também em regimes não-autoritários, a designação de um determinado grupo como “elemento perigoso” suscita sentimentos de rejeição e medo, passíveis de serem instrumentalizados politicamente por diversos organismos, sejam ou não de caráter oficial.

Desta maneira, atribui-se responsabilidade pela desordem a mendigos, menores de rua, trabalhadores imigrantes, pessoas de outra etnia ou quaisquer outros, de acordo com os diferentes contextos políticos de cada sociedade.

No período da ditadura militar, mais do que em qualquer outro, o comunista representou esse “elemento perigoso”, perturbador e nocivo; no limite, alguém possuído por forças malignas e incontroláveis.
Um elemento a quem se devia temer.

Tal sentimento foi seguramente experimentado pelo informante, um medo que se demonstrou tão ou mais mobilizador do que suas convicções políticas.

Ao lado de sua fidelidade a idéias, do comportamento arrivista quando estava em causa a possibilidade de uma ascensão profissional, ou, ao contrário, o receio de perder o emprego, não se pode desconsiderar os traços de medo que se refletiam em seus escritos: o medo da retaliação, de ser descoberto como delator, da desordem, do poder, enfim, o medo que o fantasma da subversão lhe provocava.

Por isto, o sistema, que ao apostar na ciência para criar uma máquina repressiva desprovida de qualquer subjetividade teve de conviver, para seu desgosto, com homens que denunciavam seus chefes, suas ex-esposas, seus vizinhos, o próprio governo, e não poucas vezes, outros informantes: denunciavam todos a quem temiam.

O medo do outro, entendido como detentor de um poder absoluto provoca, em seus extremos, atitudes que desfazem as fronteiras entre realidade e fantasia, esfera pública e privada, passado e presente.
Como se pode verificar num exemplo-limite que nos chamou a atenção justamente pela sua incongruência:
trata-se de uma carta bastante sugestiva, de oito páginas, escrita à mão, em que um informante espontâneo, após arrolar 22 nomes e descrever detalhadamente as atividades de cada um, codinomes, hábitos cotidianos, motivo de suas suspeitas e supostos endereços, termina pedindo como retribuição pelo serviço ao regime que as autoridades o protejam de seu próprio pai:
“um homem terrível, confidente secreto de Salazar, amigo de Hitler, nazista e comunista … amigo do governador do Estado do Amazonas, em nome de quem presta favores a subversivos, como a seu próprio irmão, um padre que treina jovens para a guerrilha …”
um homem que o chamava de retardado durante a sua infância, e que ele solicita que seja, “finalmente, castigado” (21).

Não pretendemos com esta última citação concluir pela ineficiência do sistema. É bem provável que cartas como esta fossem ignoradas, apesar de arquivadas, como “a de um louco qualquer…”, conforme aludiu Adyr Fiúza de Castro (22).

Ela é importante para a nossa análise à medida que revela as expectativas e sentimentos que determinados indivíduos nutriram pelo regime, este “bom pai” alternativo à sua experiência de infância.
E para demonstrar que mesmo os informantes que faziam uso do sistema para manifestar seus ódios pessoais podiam ser úteis, em alguma medida, à “Comunidade de Informações”. Afinal, eles faziam parte de uma cadeia cujas ações eram propositadamente segmentadas e hierarquizadas, como num sistema “taylorista”, o que permitia que nenhum agente tivesse plena responsabilidade ou mesmo consciência dos resultados de suas ações.

E é justamente esta técnica que nos leva a identificar o caráter produtivo da suspeição praticada tanto por “profissionais” como por “amadores”, bem como sua semelhança com as técnicas de divisão de tarefas adotada nos sistemas carcerários da Alemanha nazista.

Neste caso, racionalidade e irracionalidade se confundem, conformando personalidades, gestos e palavras plenamente solidárias à prática da violência política.

NOTAS

(*) Tema originalmente apresentado no III Congresso da BRASA – Brazilian Studies Association, em Cambridge, Inglaterra, setembro de 1996.

(1) ARQUIDIOCESE de São Paulo. Brasil; nunca mais. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 32.
(2) João Paulo Moreira Burnier. In: D’ARAÚJO, Maria Celina et all. Os anos de chumbo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. p. 207.
(3) Adyr Fiúza de Castro. idem, p. 62 e ss.
(4) Idem, p.47
(5) Carlos Alberto da Fontoura. idem, p. 91 e ss.
(6) Departamento Estadual de Arquivo e Microfilmagem do Paraná – DEAP/Departamento de Ordem Política e Social – DOPS, Pasta SNI.
(7) Adyr Fiúza de Castro. In: D’ARAÚJO, Maria Celina et all. Os anos de chumbo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994, pp. 64-66.
(8) A este respeito ver especialmente TRINDADE, Hélgio. “O radicalismo militar em 64 e a nova tentação fascista”. In: SOARES, Glaucio Ary D. e D’Araújo, M. Celina (org). 21 anos de regime militar: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1994. pp.123-41.
(9)Cite-se, como um dos exemplos mais importantes,o slogan “Milagre Brasileiro”, termo repetidamente empregado para enunciar o crescimento econômico acelerado por que passou o Brasil no início da década de setenta.
(10) ANSART, Pierre. Ideologia, conflito e poder. Rio de Janeiro:: Zahar, 1978, p. 112 e ss.
(11) DEAP/DOPS, Pasta SNI, 1969.
(12) DEAP/DOPS, Pasta 1547. [ Links ]
(13) DEAP/DOPS, Pasta SNI, Informe n. 184.
(14) DEAP/DOPS, Pasta SNI – Contribuição ao conhecimento da guerra revolucionária.
(15) FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder.4.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1984, p.182.
(16) À guisa de ilustração, cite-se uma lista de 540 nomes de funcionários públicos do Estado do Paraná, enviados ao DOPS pelo SNI para que este órgão selecionasse aqueles que, dada a sua vida pregressa, poderiam estar dispostos a cooperar com o sistema (DEAP/DOPS, 1966 – Pasta 1543).
(17) Sobre este último grupo, que dada a sua importância, mereceria um estudo mais aprofundado, mencione-se apenas um registro: para os poderes oficiais, segundo o parecer de um analista de informações, mesmo que suas informações sejam úteis ao sistema, tal grupo deve ser colocado sob suspeita, porquanto seus membros querem por si mesmos eliminar os comunistas, além de prejudicarem a imagem do governo, uma vez que suas ações são confundidas, pela opinião pública, com as dos órgãos de segurança (DEAP/DOPS, 1978, Pasta 256).
(18) Esta observação deve ser interpretada como uma especificidade do Paraná, Estado que recebeu diversos imigrantes destas origens, e que provinham de regiões pobres da Europa, e foram muitas vezes discriminados como elementos de raça e cultura inferiores. À época do regime militar, àqueles preconceitos se somara também a suspeita de subversão, uma vez que seus países de origem ou de seus ascendentes estavam alinhados com o bloco soviético.
(19) DEAP/DOPS, Pasta 1.547.
(20) FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1986, p.224.
(21) DEAP/DOPS. Carta ao Brigadeiro Nelson de Souza Mendes e Coronel Maciel. Assinatura ilegível – 19-10-1972.
(22) Ver citação n. 4.

Rev. bras. Hist. vol. 17 n. 34 São Paulo 1997

(http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-01881997000200011&script=sci_arttext)

willian

César Maia organiza vaias contra Dilma no Mané Garrincha.

    Niterói RJ

    Quanto custou o ingresso para entrar lá, na abertura da Copa das Confederações? Só para constar, no jogo do Flamengo com o Santos no mesmo estádio, o ingresso mais barato custava 160 reais…
    Quem é que estava lá para vaiar? Um doce para quem responder…
    Se quiser se iludir com isso, continue assim. Dilma e o povo brasileiro (real) agradecem.

    willian

    O PT fez um Copa para a elite.

FrancoAtirador

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Os baderneiros, os vândalos e a lógica do terrorismo
Fora das ruas tomadas pela população descontente, a violência continua sendo exercida de maneira simbólica:
a grande mídia, o senso comum, e algumas autoridades têm se referido aos manifestantes como “baderneiros”, “vândalos” e outros qualitativos, construindo a imagem de um inimigo, muito semelhante ao processo que foi feito durante a ditadura civil-militar:
a construção do “subversivo”.

Por Caroline Silveira Bauer(*), na Carta Maior

As manifestações contra o aumento das tarifas de transporte urbano, que se iniciaram em Porto Alegre e agora se disseminam por todo o Brasil, tem sido marcadas não somente pela violência física durante os atos.

Fora das avenidas e ruas tomadas pela população descontente, a violência continua sendo exercida de maneira simbólica:
a grande mídia, o senso comum, e algumas autoridades têm se referido aos manifestantes como “baderneiros”, “vândalos” e outros qualitativos, construindo a imagem de um inimigo, muito semelhante ao processo que foi feito durante a ditadura civil-militar:
a construção do “subversivo”.

O filósofo francês Pierre Ansart chamou este processo de “ortodoxia terrorista”, onde o exercício do terror através da ideologia estabelece uma dicotomia simplória entre o legítimo e o ilegítimo, o justo e o injusto, o certo e o errado.

“O ilegítimo é tudo aquilo que convém controlar, combater e excluir.
A ideologia terrorista leva ao extremo essa dimensão […];
o ilegítimo já não é apenas o inferior que é preciso controlar,
e sim o mal que cumpre destruir para que a sociedade legítima se realize”, afirma Ansart.

O discurso sobre a “baderna” e o “vandalismo” do movimento contra o aumento das passagens carece de informações e argumentações lógicas, pois seu objetivo não é convencer através do raciocínio,
mas sim de estigmatizar através do apelo às emoções e à violência simbólica, utilizando-se esses recursos linguísticos de difícil precisão.

Ora, a desinformação também foi um elemento de persuasão que não deixou de ser empregado com o fim do período autoritário-ditatorial no Brasil.

Em outras palavras, não se trata de explicar quem são os manifestantes, mas sim de designar os inimigos, aprofundar as distâncias entre os cúmplices da repressão e suas vítimas.

Nas primeiras manifestações, os “baderneiros” e os “vândalos” eram aqueles que empregavam algum tipo de violência em seus atos, fazendo com que o movimento perdesse um pretenso caráter de “pacifista”.

Agora, essas designações tornaram-se mais permeáveis, e a repressão passa a combater um número maior de dissidentes, em uma espiral repressiva crescente:
o descontentamento e suas expressões passam a ser criminalizados.

Existir um “criminoso” fundamental para sustentar o medo.

Nada mais expressivo de uma cultura autoritária, marcada pela lógica do terror, e, por isso, antidemocrática; “sujeitos sem direitos”, nas análises do filósofo italiano Giorgio Agamben.

(*) Caroline Silveira Bauer é professora de História Contemporânea na Universidade Federal de Pelotas. Doutora pela Universidade Federal do Rio Grade do Sul e pela Universitat de Barcelona, é autora do livro “Brasil e Argentina: ditaduras, desaparecimentos e políticas de memória”.

(http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22189)

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