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Santayana: Islandeses abrindo caminho para uma pacífica revolução mundial dos povos?


22/10/2012 - 11h58

O referendum islandês e os silêncios da mídia

Os cidadãos da Islândia referendaram, ontem, com cerca de 70% dos votos, o texto básico de sua nova Constituição, redigido por 25 delegados, quase todos homens comuns, escolhidos pelo voto direto da população, incluindo a estatização de seus recursos naturais.

por Mauro Santayana, em Carta Maior

Os cidadãos da Islândia referendaram, ontem, com cerca de 70% dos votos, o texto básico de sua nova Constituição, redigido por 25 delegados, quase todos homens comuns, escolhidos pelo voto direto da população, incluindo a estatização de seus recursos naturais.

A Islândia é um desses enigmas da História. Situada em uma área aquecida pela Corrente do Golfo, que serpenteia no Atlântico Norte, a ilha, de 103.000 km2, só é ocupada em seu litoral. O interior, de montes elevados, com 200 vulcões em atividade, é inteiramente hostil – mas se trata de uma das mais antigas democracias do mundo, com seu parlamento (Althingi) funcionando há mais de mil anos. Mesmo sob a soberania da Noruega e da Dinamarca, até o fim do século 19, os islandeses sempre mantiveram confortável autonomia em seus assuntos internos.

Em 2003, sob a pressão neoliberal, a Islândia privatizou o seu sistema bancário, até então estatal. Como lhes conviesse, os grandes bancos norte-americanos e ingleses, que já operavam no mercado derivativo, na espiral das subprimes, transformaram Reykjavik em um grande centro financeiro internacional e uma das maiores vítimas do neoliberalismo. Com apenas 320.000 habitantes, a ilha se tornou um cômodo paraíso fiscal para os grandes bancos.

Instituições como o Lehman Brothers usavam o crédito internacional do país a fim de atrair investimentos europeus, sobretudo britânicos. Esse dinheiro era aplicado na ciranda financeira, comandada pelos bancos norte-americanos. A quebra do Lehman Brothers expôs a Islândia que assumiu, assim, dívida superior a dez vezes o seu produto interno bruto. O governo foi obrigado a reestatizar os seus três bancos, cujos executivos foram processados e alguns condenados à prisão.

A fim de fazer frente ao imenso débito, o governo decidiu que cada um dos islandeses – de todas as idades – pagaria 130 euros mensais durante 15 anos. O povo exigiu um referendum e, com 93% dos votos, decidiu não pagar dívida que era responsabilidade do sistema financeiro internacional, a partir de Wall Street e da City de Londres.

A dívida externa do país, construída pela irresponsabilidade dos bancos associados às maiores instituições financeiras mundiais, levou a nação à insolvência e os islandeses ao desespero. A crise se tornou política, com a decisão de seu povo de mudar tudo. Uma assembléia popular, reunida espontaneamente, decidiu eleger corpo constituinte de 25 cidadãos, que não tivessem qualquer atividade partidária, a fim de redigir a Carta Constitucional do país. Para candidatar-se ao corpo legislativo bastava a indicação de 30 pessoas. Houve 500 candidatos. Os escolhidos ouviram a população adulta, que se manifestou via internet, com sugestões para o texto. O governo encampou a iniciativa e oficializou a comissão, ao submeter o documento ao referendum realizado ontem.

Ao ser aprovado ontem, por mais de dois terços da população, o texto constitucional deverá ser ratificado pelo Parlamento.

Embora a Islândia seja uma nação pequena, distante da Europa e da América, e com a economia dependente dos mercados externos (exporta peixes, principalmente o bacalhau), seu exemplo pode servir aos outros povos, sufocados pela irracionalidade da ditadura financeira.

Durante estes poucos anos, nos quais os islandeses resistiram contra o acosso dos grandes bancos internacionais, os meios de comunicação internacional fizeram conveniente silêncio sobre o que vem ocorrendo em Reykjavik. É eloqüente sinal de que os islandeses podem estar abrindo caminho a uma pacífica revolução mundial dos povos.

 

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13 comentários

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O referendum islandês e os silêncios da mídia « O jornaleiro

23 de outubro de 2012 às 00h30

[…] podem estar abrindo caminho a uma pacífica revolução mundial dos povos. Transcrevi trechos. Veja vídeo. Share this:TwitterFacebookGostar disto:GostoBe the first to like […]

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Julio Silveira

22 de outubro de 2012 às 21h35

Se tem uma coisa que aprecio nos escritos do Santayana, é que ele alem trazer importantes fatos, exemplares para nossa cidadania, traz também conhecimentos que ilustram o cidadão. É um mestre.

Responder

Mário SF Alves

22 de outubro de 2012 às 20h11

De uma coisa tenho certeza: essa matéria tem o poder de afugentar troll. Não vai aparecer um aqui.

Responder

Mário SF Alves

22 de outubro de 2012 às 15h28

“Durante estes poucos anos, nos quais os islandeses resistiram contra o acosso dos grandes bancos internacionais, os meios de comunicação internacional fizeram conveniente silêncio sobre o que vem ocorrendo em Reykjavik. É eloqüente sinal de que os islandeses podem estar abrindo caminho a uma pacífica revolução mundial dos povos.”
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“os meios de comunicação internacional fizeram conveniente silêncio sobre o que vem ocorrendo em Reykjavik. É eloqüente sinal de que os islandeses podem estar abrindo caminho a uma pacífica revolução mundial dos povos.”
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“É eloqüente sinal de que os islandeses podem estar abrindo caminho a uma pacífica revolução mundial dos povos.”

SÍNTESE: o silêncio dos meios de comunicação, PiG(s) de modo geral, em relação a tema de interesse coletivo/do povo é sinal eloqüente e inequívoco de que o tema é, sim, de fato importante. E mais, a recíproca é verdadeira. Vide julgamento do improvado mensalão. Tanto estardalhaço… pode desconfiar. É antipovo. Ainda que dissimuladamente pareça ser apenas contra o PT.

Responder

    FrancoAtirador

    22 de outubro de 2012 às 20h15

    .
    .
    “A REVOLUÇÃO NÃO SERÁ TELEVISIONADA, IRMÃO!”

    (Gill Scott Heron; The Revolution Will Not Be Televised, 1970)

    http://www.youtube.com/watch?v=UqWMmwH4p6w

    (http://www.globaldarkness.com/articles/gill_scott_heron_revolution_willnotbe_televised.htm)
    .
    .
    The Revolution Will Not Be Televised
    (Gil Scott-Heron, in Small Talk at 125th and Lenox)

    You will not be able to stay home, brother.
    You will not be able to plug in, turn on and cop out.
    You will not be able to lose yourself on skag and
    skip out for beer during commercials,
    Because the revolution will not be televised.

    The revolution will not be televised.
    The revolution will not be brought to you by Xerox
    In 4 parts without commercial interruptions.
    The revolution will not show you pictures of Nixon
    blowing a bugle and leading a charge by John
    Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat
    hog maws confiscated from a Harlem sanctuary.

    The revolution will not be televised.
    The revolution will not be brought to you by the
    Schaefer Award Theatre and will not star Natalie
    Woods and Steve McQueen or Bullwinkle and Julia.
    The revolution will not give your mouth sex appeal.
    The revolution will not get rid of the nubs.
    The revolution will not make you look five pounds
    thinner, because the revolution will not be televised, Brother.

    There will be no pictures of you and Willie May
    pushing that shopping cart down the block on the dead run,
    or trying to slide that color television into a stolen ambulance.
    NBC will not be able predict the winner at 8:32
    or report from 29 districts.
    The revolution will not be televised.

    There will be no pictures of pigs shooting down
    brothers in the instant replay.
    There will be no pictures of pigs shooting down
    brothers in the instant replay.
    There will be no pictures of Whitney Young being
    run out of Harlem on a rail with a brand new process.
    There will be no slow motion or still life of Roy
    Wilkens strolling through Watts in a Red, Black and
    Green liberation jumpsuit that he had been saving
    For just the proper occasion.

    Green Acres, The Beverly Hillbillies, and Hooterville
    Junction will no longer be so damned relevant, and
    women will not care if Dick finally gets down with
    Jane on Search for Tomorrow because Black people
    will be in the street looking for a brighter day.
    The revolution will not be televised.

    There will be no highlights on the eleven o’clock
    news and no pictures of hairy armed women
    liberationists and Jackie Onassis blowing her nose.
    The theme song will not be written by Jim Webb,
    Francis Scott Key, nor sung by Glen Campbell, Tom
    Jones, Johnny Cash, Englebert Humperdink, or the Rare Earth.
    The revolution will not be televised.

    The revolution will not be right back
    after a message about a white tornado, white lightning, or white people.
    You will not have to worry about a dove in your
    bedroom, a tiger in your tank, or the giant in your toilet bowl.
    The revolution will not go better with Coke.
    The revolution will not fight the germs that may cause bad breath.
    The revolution will put you in the driver’s seat.

    The revolution will not be televised, will not be televised,
    will not be televised, will not be televised.
    The revolution will be no re-run brothers;
    The revolution will be live.

    (http://letras.mus.br/gil-scott-heron/1288939)

    http://en.wikipedia.org/wiki/The_Revolution_Will_Not_Be_Televised

wendel

22 de outubro de 2012 às 13h57

É amigo, o fato da Islandia ter agido assim, e a imprensa ocidental corrupta e atrelada nada noticiar, não deveria ser surpresa à ninguém!
a mim não surpreendem há muito tempo!
Também se considerarmos que os conglomerados/corporações, são seus proprietários, esperar o quê?
Contudo, para agir como os islandeses, como disse o Collor, há que ter àquilo roxo, e muitos no ocidente, nem sei se os tem!
Até lá…., estaremos sendo saqueados e roubados, com o aplauso da oligarquias entreguistas e os banqueiros tubarões predadores!!!!

Responder

augusto2

22 de outubro de 2012 às 13h24

Vixe!
cOnstituinte exclusiva, aceita pelo povo e com 70% dos votos. Parece sonho.
nao vi uma linha nem assisti um minuto sobre isso.
Vamos nos mudar pra rejkavik?

Responder

francisco pereira neto

22 de outubro de 2012 às 13h17

O povo islandês deve ser 320 mil petistas que imigraram para aquelas terras.

Responder

    Mário SF Alves

    22 de outubro de 2012 às 15h48

    Francisco,

    É isso que que pode chamar de dedução. Brilhante, cara. Ainda que sejamos tão diversos em relação aos islandeses; ainda que sejamos diuturnamente pressionados pela corrupção imposta ou condicionada pela selvageria do capitalismo local; ainda que sejamos tão mais jovens enquanto povo; ainda que sejamos tão criminosamente iludidos por máfio-mídia dos espelhinhos.
    .
    E viva a verdadeira democracia praticada pelos islandeses. E viva aquele País que se mostrou capaz de enfrentar o estado de fato que – ainda que brevemente – lhe impôs a mídio-máfia internacional.

    Luiz Stinghen

    22 de outubro de 2012 às 20h55

    Francisco, seu preconceito é patético e revela uma falta de argumentação impressionante. Não tem o que comentar, fique em silêncio. Decisão de povo soberano é um assunto difícil de entrar na cabeça dura de alguns extremistas de direita…

    francisco pereira neto

    23 de outubro de 2012 às 00h08

    Xiiii cara!!!
    Voce não entendeu nada, nada, nada…
    Tu sabes ler nas entrelinhas?
    Peça pro Mario SF Alves te ensinar.
    É dessa maneira que voce quer argumentar contra a dieita reacionária?
    Tolos iguais a voce, na direita abundam.
    O resultado está mais do que na sua cara e vc não vê.
    Serra e PSDB descendo ladeira abaixo na banguela e sem freios.

    Mário SF Alves

    23 de outubro de 2012 às 14h47

    Êpa! Quem sou eu pra ensinar. Eu apenas entendi sua dedução; que por sinal foi bem rápida. Quanto ao Luiz, o que rolou foi essa coisa de defensiva. Produto das circunstâncias; do momento histórico. Só isso.

Luís Carlos

22 de outubro de 2012 às 13h03

Para a grande mídia mundial isso não é notícia. Fere seus interesses e de seus “sócios” na atividade de saquear a economia planetária. Querem esconder como uma nação se faz soberana diante da pilhagem internacional feita pelos “piratas” do século XXI, os especuladores e seu sagrado ” mercado” financeiro.

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