VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Política

Rodrigo Vianna: Boatos contra Chávez agora partem do Brasil


15/04/2012 - 23h25

Boatos contra Chavez agora partem do Brasil

publicada quarta-feira, 11/04/2012 às 01:46

por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador

Nessa quarta-feira, 11 de abril, faz dez anos que a direita venezuelana, com apoio dos EUA, tentou derrubar Hugo Chavez. Foi um golpe – é sempre bom lembrar – com ampla participação midiática, como mostrou o documentário “A Revolução Não Será Televisionada”.

E a guerra continua.

Serviços de inteligência do governo venezuelano notaram, nos últimos meses, uma mudança significativa nas ondas de boato a serviço da oposição: as especulações contra Chavez, agora, já não partem de Miami ou de Madrid, como era o mais comum ao longo dos últimos dez anos. Não. Agora, o foco tem sido o Brasil.

De que forma isso acontece? Normalmente, meios de comunicação brasileiros citam “fontes” importantes na Venezuela para embasar “reportagens” ou “comentários” – que depois acabam reproduzidos pela imprensa e pelas redes sociais oposicionistas venezuelanas. É um jogo de vai e volta muito bem montado.

Na semana passada, tivemos mais um exemplo. Às vésperas do feriado de Páscoa, meios de comunicação brasileiros deram a notícia “bombástica”: Chavez viria fazer tratamento contra o câncer no Brasil, mais especificamente no Hospital Sirio-Libanes.

Aqui, a “reportagem” do G1/Globo.

Reparemos em dois detalhes.

1) A fonte primária do G1 era o blogueiro venezuelano Nelson Bocaranda. Quem é ele? Se o leitor tiver curiosidade, pode acessar o twitter @nelsonbocaranda. Mas vale lembrar: reportagem do Wall Street Journal (jornal dos EUA) diz que Bocaranda deve ser leitura obrigatória pra quem vai “investir” na Venezuela.

Hum…

Ele recebe a chancela da imprensa dos EUA. Torna-se assim fonte “confiável” e “obrigatória”. Voltaremos a isso logo adiante…

2) No quarto parágrafo do texto do G1/Globo, aparece a informação de que a notícia sobre a vinda de Chavez ao Brasil havia sido “antecipada” por um personagem bem conhecido dos leitores brasileiros: ”a provável visita de Chávez já havia sido antecipada na véspera pelo jornalista Merval Pereira em seu blog no site do jornal “O Globo”, no qual ele inclusive cita comentários de Bocaranda.”

Vamos retomar o fio da meada. Bocaranda é fonte “obrigatória”, chancelada pela imprensa dos EUA. Bocaranda diz que Chavez prepara-se para tratamento no Brasil. É uma forma de gerar incerteza e abastecer a oposição com boatos sobre a saúde do presidente. Quem “repercute” a informação de Bocaranda? Não a imprensa dos EUA (muito “manjada”). Mas o imortal Merval Pereira.

A notícia publicada em “jornais brasileiros” tem mais efeito (para uso na Venezuela) do que se saísse em jornais dos EUA.  O Brasil não é visto como “inimigo”, mas como um país “amigo” da Venezuela. A população local não conhece as nuances da imprensa brasileira, nem a história de alinhamento com os EUA de “O Globo”, “Veja” e outros…

Ora, mas Merval apenas fez o serviço que se espera de um jornalista, certo? Deu informação…

Não é assim, por um pequeno detalhe. Chavez não veio se tratar no Brasil. Os fatos desmentiram Bocaranda e Merval. Na Páscoa, como previsto, Chavez seguiu para mais uma sessão de radioterapia em Cuba. Merval e “O Globo” fizeram o que? Nada. Não registraram o erro na informação. O objetivo, parece, não era informar – mas gerar boato pra ser usado na campanha eleitoral da Venezuela.

Aparentemente, isso não tem dado resultado.

As últimas pesquisas mostram Chavez com cerca de 57% dos votos, contra cerca de 33% para o candidato da oposição, Radonsky Capriles.

Sobre o caso específico, vale ressaltar: Chavez teria mesmo conversado com Lula, que sugeriu a possibilidade de um tratamento em São Paulo. Chavez agradeceu e ficou de pensar. Partiu para Cuba. A oposição usou uma meia-verdade para disseminar a dúvida.

Vale dizer – tambem – que a falta de informação, por parte dos chavistas, ajuda a alimentar os boatos.

Sobre Capriles, alguns fatos curiosos:

– na juventude, ele teria sido próximo à TFP (organização católica de extrema-direita), mas na atual campanha tenta se mostrar como um “social-democrata” moderado, que se inspira em… Lula!;
– no golpe de 2002 contra Chavez, Capriles esteve no grupo que cercou a Embaixada cubana em Caracas, numa clara afronta à legalidade internacional;
– Capriles vem de uma família muito rica; na tentativa de se popularizar, dizem os chavistas, teria se submetido até a sessões de “bronzemanto artificial”, para parecer mais moreno.

E mais um dado curioso a registrar: os marqueteiros de Capriles são brasileiros. Trabalhavam no Rio, na assessoria de comunicação de Sergio Cabral. Mantem ótimo trânsito com “O Globo”.

A campanha de Capriles, ao que tudo indica, vai testar as mesmas técnicas que já foram usadas por Serra na última campanha brasileira: parceria com a grande mídia antichavista (abastecida com “notícias, em parte, geradas pela mídia brasileira, como vimos no exemplo acima) e onda de boatos disseminada pelas redes sociais.

Por último, vale dizer que a turma de Capriles e da direita venezuelana parece bem articulada inclusive aqui nas redes sociais do Brasil. Fiz um teste. Publiquei um video – bastante crítico – sobre Capriles no blog. Em poucos minutos, recebi comentários (no blog e no twitter) de gente defendendo Capriles e me acusando de apoiar um “ditador” esquerdista. Parecia uma esquema profissional.

A batalha será duríssima na Venezuela. E é estratégica pra toda America Latina. Não custa lembrar que foi com a vitória de Chavez, em 98, que se iniciou a “virada” à esquerda que depois avançaria para Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai.

A direita – com apoio dos EUA e do conservadorismo brasileiro – sabe o que está em jogo na eleição de outubro de 2012.

A esquerda também sabe. Vamos acompanhar a “guerra de Caracas” com muita atenção. Até porque algumas batalhas, pelo visto, passam pelas redações da imprensa brasileira.

Leia também:

Theófilo Silva: “Cometi o mais imperdoável dos crimes”

Últimas unidades

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.

Por Laurindo Lalo Leal Filho



19 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Weisbrot: Cobertura da mídia sobre a Argentina esconde o essencial « Viomundo – O que você não vê na mídia

05 de maio de 2012 às 14h09

[…] Rodrigo Vianna: Boatos contra Chávez agora partem do Brasil […]

Responder

Mário SF Alves

19 de abril de 2012 às 18h44

Parabéns e obrigado pela informação e pelo texto. E… "Vamos retomar o fio da meada." Quando me disseram que a imprensa corporativa divulgou a dita notícia. Minha reação, assim, de imediato, foi de dúvida: parece que alguém tá querendo sacanear com a história da medicina cubana. E, agora, vem o Rodrigo e … detona com com mais essa novela chinfrim e de DNA tupiniquim. Bom. Muito bom.

Responder

Júlia

16 de abril de 2012 às 20h42

Muito bom o texto. E esse Gustav Pamplona tá bebum ou leu muita Veja (o que dá na mesma)?

Responder

Thomas Nok

16 de abril de 2012 às 20h01

Viva Chaves. Resistir sempre. Não desistir nunca.
A Globo odeia o Chaves porque ele teve a coragem de enfrentar a mídia golpista da Venezuela.
Aqui a mídia é igualzinha. Só faltou ( e falta) coragem para desmentir estes falsário. Tanto por parte de Lula como de Dilma.
Torço tanto por Hugo chaves que me sinto um venezuelano.
Por aqui, ficam de joelhos para EUA, Israel, FIFA, Heineken, etc…

Responder

Zhungarian Alatau

16 de abril de 2012 às 11h53

Merval, segundo o próprio, é um nome que veio com erro de grafia. Concordo. A quarta letra não deveria ser um V.

Responder

mfs

16 de abril de 2012 às 11h48

Não vou ensinar o padre a rezar missa. Logo eu, que sequer sou jornalista nem analista político!
Mas sugiro refinar um pouco a colocação: o problema do blogueiro não é ser recomendado pela grande imprensa ianque (não seria demais ver nela um bloco monolítico sempre pró-imperialismo?) mas pela imprensa de Wall Street. Afinal, esta imprensa tem a sinceridade (que não se confunde com honestidade) de se colocar abertamente ao lado dos grandes investidores.
Recolocando: investidores ianques devem se informar com o Bocaranda porque ele é fonte de informação e (nessa conjunção aditiva há muita coisa) e formador de opinião.
Quem quer lucrar deve ficar atento. O Bocaranda dá dicas, aponta pra que lado o vento sopra, qual versão deve ser difundida.

Responder

Sérgio Ruiz

16 de abril de 2012 às 10h19

Não é de hoje que a suja mídia brasileira atenta contra Hugo Chávez.

Responder

Julio Silveira

16 de abril de 2012 às 09h01

Azenha, o Brasil é o melhor país do mundo para a canalhice midiatica trabalhar. Aqui estão livres da responsabilização sobre essas tramas, e tem trabalhado isso a tanto tempo que já formaram expertise em leviandade midiatica.
Tudo por conta de um congresso onde lideranças importantes de certa forma são parceiros economicos desses grupos, gerando uma simbiose maligna. Congressistas que perderam a autonomia para legislar sobre o assunto por que se o fizessem estariam prejudicando os proprios negócios, na forma de seus interesses em empresas afiliadas desses grupos. Essa promiscuidade de interesses que desfavorece a cidadania, permitindo os abusos desses grupos mdiaticos aéticos. É ai que eles navegam por conta da sabida impunidade. Por isso cometem esse tipo de crime, de forma insuspeita, utilizando o direito a informação dos cidadãos, a liberdade de imprensa, a liberdade da expressão. Avançam até em assuntos internos de paises cujos interesses politicos divirjam da linha ideologica que defendem nessa associação mundial, nessa linha ideológica importada que nenhum beneficio traz a maioria, apenas a alguns eleitos, criam fantasmas para justificar. Lógico que aqui eles são os fantasmas e os principais beneficiarios desse conto da carochinha.

Responder

Marat

16 de abril de 2012 às 07h20

Pode colocar o PIG todo, que ainda assim vão perder, e o Caprilles voltará ao rebanho do tio Sam, para ser amestrado para as próximas eleições!

Responder

Marat

16 de abril de 2012 às 07h20

O PIG brasileiro está cada vez mais asqueroso, mais sujo que pau de galinheiro. O que certas pessoas não fazem por um punhado de dólares, sujos de sangue alheio? – Deprimente!

Responder

Moacir Moreira

16 de abril de 2012 às 04h06

A Dilma devia cassar a concessão da globo – porque aquilo deve estar totalmente irregular – e não conceder entrevistas exclusivas.

Responder

    Renato

    16 de abril de 2012 às 12h48

    O poder executivo não tem esse poder soberano. Quem realiza isso é o senado.

carlos quintela

16 de abril de 2012 às 02h26

No futebol, aquela jogada em que se mete a bola pelo meio das pernas do adversário é também chamada de övinho". O Merval levou um "ovinho"e, pior, não foi de adversário mas de um seu próprio parceiro. Ou vocês acham que o Merval e o Bocaranda servem a patróes diferentes…

Responder

Polengo

16 de abril de 2012 às 01h35

Os caras não conseguiram nem conseguem acertar o Lula, e ficam nessa, com o medo que têm dele aumentando. Pode ser uma tentativa inútil e infantil de vincular a imagem dos dois, ou um "desabafo moral" dos derrotados.
Enquanto isso, a gente toma um banho de cachoeira.

Responder

Gustavo Pamplona

16 de abril de 2012 às 01h12

É este o Chávez que ameaça bancos e empresas que apoiarem a oposição?
http://noticias.r7.com/internacional/noticias/cha

É só isto que vocês pensam… acabar com a oposição… vocês não são tão diferentes de quem vocês mais odeiam… falo do PORCO, PSDB, o quase moribundo DEM e seus aspones.

Amigos… lá vai mais outra verdade para vocês… sei que vocês não suportam.. mas lá vai assim mesmo…

Se os EUA quisessem, já teriam deposto este aí… ainda não o depuseram pelo simples fato que este soube ser "inteligente" e ainda continua vendendo o petróleo da PDVSA para os "esteites" e com o detalhe que o preço de cada barril quem define é o império norte americano.

O Chávez hoje não passa de mais um outro ditadorzinho sustentado e financiado pelos EUA… é muito simples… se ele deixar de vender o petróleo ele é deposto no outro dia.

Pobrezinho… acha que tem poder e ainda acha que está fazendo uma revolução na Venezula…. HAHAHAHAAHAHHAA

—-
Desde Jun/2007 empobrecendo ditadorzinhos que se acham no "Vi o Mundo"! ;-)
Fundador do PORCO – Partido de Oligarcas Representantes de Capitalistas Opressores (PIG)

Responder

    Mat

    20 de abril de 2012 às 22h50

    /

    "Por último, vale dizer que a turma de Capriles e da direita venezuelana parece bem articulada inclusive aqui nas redes sociais do Brasil. Fiz um teste. Publiquei um video – bastante crítico – sobre Capriles no blog. Em poucos minutos, recebi comentários (no blog e no twitter) de gente defendendo Capriles e me acusando de apoiar um “ditador” esquerdista. Parecia uma esquema profissional."

    Obrigado por nos oferecer um exemplo tão vivo para este trecho do texto!

FrancoAtirador

15 de abril de 2012 às 23h58

.
.
Bem que a Hillary poderia nomear logo o Merval Cônsul dos EUA em Baruta.
.
.

Responder

    Marat

    16 de abril de 2012 às 07h19

    Prezado Franco, creio que o tal de Merval está mais próximo de ser (logo, logo) assessor especial do Reagan. Só não sei em qual vala, pois ele se enquandra em todas, do Inferno de Dante…

Marcio H Silva

15 de abril de 2012 às 23h37

A nossa Ley de medios, não seria benéfica somente ao Brasil, mas a toda America do sul……

Responder

Deixe uma resposta para Thomas Nok

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Loja
Compre aqui
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.