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Marcelo Zero: Discurso de miliciano de subúrbio na ONU mostra que Bolsonaro é ameaça ao Brasil e à comunidade internacional
Marcelo Zero: "Ou o Brasil acaba com Bolsonaro ou Bolsonaro acaba com o Brasil. E o Brasil está acabando depressa". Foto: Reprodução de TV
Política

Marcelo Zero: Discurso de miliciano de subúrbio na ONU mostra que Bolsonaro é ameaça ao Brasil e à comunidade internacional


21/09/2021 - 15h58

Discurso na ONU mostra que Bolsonaro é Incontrolável

Por Marcelo Zero*

A chamada “carta da rendição”, após a fracassada tentativa de golpe do 7 de setembro, criou a expectativa, entre os discípulos do Doutor Pangloss, de que  Bolsonaro poderia, de alguma forma, ser controlado pelas instituições e domesticado pelos grandes interesses econômicos, que desejam um chefe de Estado que não atrapalhe os importantes negócios internacionais.

A tênue ilusão durou pouco.

Na abertura da Assembleia Geral da ONU, Bolsonaro voltou a usar o maior palco mundial como palanque eleitoreiro e como plataforma privilegiada para divulgação de fake news destinadas a açular os fanáticos que ainda o seguem.

O Itamaraty havia preparado um pronunciamento destinado a reverter a péssima imagem atual do Brasil e a recolocar o país como player responsável  e racional no cenário internacional.

Esperava-se que o discurso servisse de pontapé inicial para a superação do isolamento diplomático do governo Bolsonaro.

Mas o capitão, que comunga do desprezo à ONU que predomina na extrema direita mundial, jogou tudo no lixo.

Usou a tribuna que foi antes ocupada por gente do calibre de Oswaldo Aranha para fazer um discurso digno de um miliciano de subúrbio.

Recheado de mentiras, o discurso começou, como sempre, com diatribes contra o suposto “comunismo” dos governos passados, que emprestavam dinheiro para ditaduras (mentira, o BNDES nunca financiou outros países, financiou e financia empresas brasileiras) e provocavam déficits bilionários nas estatais (outra mentira).

Feito em tom desafiador e provocativo, totalmente em desacordo com a tradição diplomática do Brasil, o pronunciamento sequer apresentou propostas de cooperação para o tema da Assembleia Geral deste ano: Construindo resiliência por meio da esperança – para se recuperar de Covid-19, reconstruir a sustentabilidade, responder às necessidades do planeta, respeitar os direitos das pessoas e revitalizar as Nações Unidas.

Afinal, Bolsonaro é a antítese da esperança.

Bolsonaro chegou a apresentar o Brasil como “exemplo ambiental”, afirmando, inclusive, que o desmatamento em agosto foi reduzido em 32% em relação a agosto do ano passado.

Não é isso, entretanto, o que afirma o Imazon. De acordo com esse instituto, em agosto de 2021, o SAD detectou 1.606 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal, um aumento de 7% em relação a agosto de 2020.

Não vou aqui cansá-los com as mentiras proferidas no discurso. Precisaria de dezenas de páginas para comentá-las. Posso destacar, entre as muitas, a de que o Brasil está há 2 anos e oito meses sem casos de corrupção.

Posso afirmar, também, que a visão rósea e delirante do Brasil que ele apresentou ao mundo não convenceu ninguém com um mínimo de informação.

Certamente, não convenceu nenhum investidor sério de que o Brasil é o melhor país para se investir.

Impossível deixar de comentar que Bolsonaro terminou seu pronunciamento defendendo o “tratamento precoce” contra a Covid-19, assinalando que ele mesmo o fez.

Ele, que foi para Nova Iorque orgulhoso de não ter atestado de vacinação, passou recibo mundial de ignorância, irresponsabilidade e negacionismo. Tal “recibo” se estende ao país que ele representa. Bolsonaro, mais uma vez, envergonhou o Brasil.

Fico aqui me perguntando o que os investidores internacionais poderão pensar de um país cujo presidente é uma clara dissidência do Homo Sapiens. Boa coisa não será.

Com toda certeza, com Bolsonaro no poder, o Acordo Mercosul/UE não será aprovado e o país não entrará na OCDE. Chances nulas.

E chance nula também ele ter um bom diálogo com chefes de Estado sérios e relevantes.

Ficará estrito ao circuito diminuto da extrema direita mundial, composto por países como Polônia, a quem, em Nova Iorque, pediu pateticamente apoio para ingressar na OCDE.

E as chances de o Brasil manter o que restou de sua democracia parecem diminuir a cada dia. 

Bolsonaro, acossado pela imensa crise econômica, social e política que ele mesmo criou, pelas inúmeras denúncias de corrupção e pela popularidade em forte queda, fará o que sempre fez: partir para o confronto.

Não lhe resta alternativa.

Ao contrário da mentira sobre o crescimento do Brasil no próximo ano, proferida desavergonhadamente no discurso, a economia brasileira ficará estagnada em 2022. Assim, a crise tende a se aprofundar.

Bolsonaro parece estar entrando em fase terminal.

Isso o torna muito perigoso, pois tem pouco a perder.

A tentação de tentar um novo putsch, quando ainda tem um número significativo de seguidores fanáticos e mobilizados poderá ser muito grande, caso seu derretimento político continue.

Putsch esse que poderá até ser apoiado por setores da chamada “terceira via”, caso Lula e seu projeto progressista se tornem, de forma irreversível, francos favoritos para o pleito de 2022.

Brecht dizia que a porca fascista está sempre no cio.

De fato, os movimentos fascistas em sentido lato, como o bolsonarismo, são incontroláveis.

Tem lógica própria, baseada no confronto permanente, que desconhece, muitas vezes, limites ditados pela racionalidade e pela própria realidade.

O bolsonarismo é, nesse sentido, uma espécie de “terraplanismo político”, uma “cloroquina ideológica”.

O dilema parece cada vez mais claro: ou o Brasil acaba com Bolsonaro ou Bolsonaro acaba com o Brasil. E o Brasil está acabando depressa.

O país não pode mais conviver pacificamente com sua Nêmesis institucional, econômica, social e sanitária.

Hoje, o mundo percebeu de novo o que Bolsonaro realmente é. Uma ameaça à comunidade internacional.  

O Brasil precisa perceber que Bolsonaro é uma séria ameaça ao país, à democracia, às instituições e às brasileiras e brasileiros.

Não se pode ensinar razão a um delirante. Não se pode ensinar democracia a um candidato a tirano.

Bolsonaro é incontrolável. A única maneira de controlá-lo é retirá-lo do poder.

* Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.





9 comentários

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Nelson

22 de setembro de 2021 às 23h39

Bem. Pelo que vimos há poucos anos, quando o sistema e toda a parcela da sociedade que o sustenta – consciente ou inconscientemente – quer tirar um governo do poder, toma as devidas providências e … babaus. Ainda que não houvesse motivo convincente ou constitucional, lá se foi, ladeira abaixo, tal governo.

A pergunta, então, a fazermos, é: por que o atual governo, de Jair Bolsonaro, que o mundo inteiro tem ciência de sua descomunal sordidez, segue desfrutando do poder e a cometer barbaridades?

Eu digo que é porque o sistema e também parcela significativa da sociedade – consciente ou inconscientemente – o querem no poder, ainda que a cometer reiteradas ignomínias. Gente que jura amor eterno à democracia e aos direitos humanos, etc.

Assim, creio que é um erro – espero, sinceramente, que seja só isso mesmo – a esquerda ficar a apontar para Bolsonaro como o nosso grande problema. Eu digo que se “Bolsonaro é uma séria ameaça ao país, à democracia, às instituições ….”, aqueles que o sustentam no poder, que são os que o levaram até lá, são uma ameaça mutíssimo maior.

Aliás, isso já ficou provado antes de Bolsonaro se lançar candidato à presidência. Essa patota que hoje sustenta o governo dele foi capaz de, deliberadamente, a partir de 2015, jogar, empurrar nosso país para uma séríssima crise econômica com o objetivo de viabilizar, de pavimentar o caminho para o impedimento do governo Dilma Roussef.

Fizeram tudo isso sabendo que o país afundaria na direção de uma gravíssima crise institucional da qual só vai conseguir se safar, talvez, daqui a várias décadas.

Além disso, depois de aplicado o golpe, não se fizeram de rogados e passaram a pilhar e a rapinar as riquezas pertencentes ao povo e a roubar seus mais elementares direitos, apoiando um governo [MiShell Temer] que, em termos de podridão, pouco ou nada fica a dever ao de Bolsonaro.

Resumindo, por incrível que possa parecer o que vou afirmar, Bolsonaro é o menor dos nossos problemas.

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abelardo

22 de setembro de 2021 às 12h57

Eu imagino que por trás do discurso proferido por Bolsonaro, na ONU, exista uma intencional trama de desconstrução do respeito, da ética e da união entre os países membros e, principalmente, com o próprio Brasil. O que transpareceu para mim foi uma intenção de deboche e pouco caso com a corte presente. É a velha tática de provocar para sofrer punição e tirar proveitos imediatos e interesseiros, ao explorar a condição de ser um país vítima e perseguido pela comunidade internacional.

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Zé Maria

22 de setembro de 2021 às 08h24

https://pbs.twimg.com/media/E_03Vz7VcAAM4pd?format=jpg.

O Bozo descobriu que o Véio da Havan
tem uma Loja numa ilha em Manhattan

https://twitter.com/malvados/status/1440368306658037763

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Zé Maria

22 de setembro de 2021 às 02h24

“O Ridículo continua sendo o Maior Capital Político dos Fascistas.”

https://twitter.com/MarciaTiburi/status/1440343662014046222

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Zé Maria

21 de setembro de 2021 às 22h49

Doutor Pangloss, do Voltaire, é muito Sofisticado
pra ser comparado com os Milicianos da Província.

Parecem mais os Personagens Coronel Quinzinho,
Candinho, Policarpo e os Discípulos do Professor
Pancrácio, da Paródia Cinematográfica do Gênio
Amácio Mazzaropi: (https://youtu.be/SXiejS7O31k).

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Henrique Martins

21 de setembro de 2021 às 22h22

https://rd1.com.br/michelle-bolsonaro-chama-o-marido-de-principe-e-revela-renuncia-gente-perde/

Então seu marido é um príncipe né dona Michelle? Tô entendendo viu…

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José Carlos R. Campos

21 de setembro de 2021 às 18h27

Tirá-lo do poder como? Se a elite (os 1%) ainda o apoia, como tirá-lo do poder? Se o PIG(partido da imprensa golpista) não faz uma crítica acerba e diária, que esclareça a população dos desvios megalomaníacos do sujeito , como tirá-lo do poder? Se a elite política(Pacheco, Lira et caterva) não o denuncia pelos crimes cometidos contra os brasileiros, como tirá-lo do poder? Sinceramente não vejo a luz no fim do túnel.

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Ibsen Marques

21 de setembro de 2021 às 18h23

Ficou seu me perguntando como o Brasil, em suas variadas camadas representativas, acusam o genocida de genocida, mas ainda o mantém no poder? Bolsonaro não nos envergonha. Nós deveríamos nos envergonhar por ter eleito e estar garantindo ” democraticamente” a permanência desse genocida no poder. Eu tenho vergonha de ser brasileiro porque se fossemos maioria tão esmagadora já o teríamos deposto. Somos uma vergonha, não para o mundo, mas para nós mesmos.

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