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Marcelo Zero: Brasil caminha para ser uma grande Colômbia e Forças Armadas parecem não perceber o perigo que correm
Política

Marcelo Zero: Brasil caminha para ser uma grande Colômbia e Forças Armadas parecem não perceber o perigo que correm


22/02/2020 - 12h48

Uma Grande Colômbia

por Marcelo Zero*

Com o bolsonarismo, o Brasil caminha para se transformar numa espécie de grande Colômbia.

Notadamente aquela Colômbia dos anos 90 e do início deste século, mas que ainda se mantém.

Um país regido por um modelo político assentado no tripé forças armadas, milícias paramilitares e partidos de extrema direita.

Concebido e direcionado não só para combater a guerrilha, mas para sufocar as organizações de esquerda de um modo geral e para reprimir revoltas populares, esse modelo recebeu o apoio decidido dos EUA e, paradoxalmente, foi financiado, em grande parte, por atividades ilícitas, especialmente o narcotráfico.

A estreita associação entre as forças armadas e as milícias acabou por contaminar os militares colombianos com o narcotráfico e outras atividades criminais.

A contaminação era também ideológica: as forças armadas e demais instituições colombianas, principalmente as ligadas à justiça e ao aparelho de repressão, converteram-se em organismos com finalidade política específica, a saber, combater os inimigos do regime.

Essa cooptação das instituições, inclusive das instituições policiais, para o exercício da repressão política havia se dado com notável rapidez na Alemanha nazista.

Quando Hitler chegou ao poder, havia certa desconfiança das polícias alemãs com o nazismo, dado o caráter destrutivo do movimento nos anos 20.

Contudo, os nazistas rapidamente cooptaram as polícias.

Como?

Em primeiro lugar, reaparelhando as polícias e dando-lhes aumentos salariais.

Mas isso não foi o mais importante.

O mais importante foi o “empoderamento” das polícias.

Com o nazismo, as polícias receberam carta branca para reprimir.

Elas foram encorajadas a realizar “atividades preventivas”, frequentemente à margem de quaisquer controles judiciais.

Em pouco tempo, as polícias alemãs se converteram no principal aparelho repressor contra judeus, comunistas e outros indesejáveis do regime.

Realizavam o grosso do trabalho sujo, sob a direção da Gestapo e das SS.

Como na Colômbia, as polícias se converteram em polícia política.

No Brasil, essa “colombianização” das polícias e das forças armadas e a “fascistização” dos órgãos do aparelho repressor acontece a olhos vistos com Bolsonaro.

Com epicentro no Rio de Janeiro, o domínio das milícias bolsonaristas, se estende, agora, a quase todo o Brasil, estimulado pelo discurso e as práticas oficiais.

Discursos e práticas originados não apenas na “famiglia”, mas também em governadores que hoje lhe fazem oposição, como Witzel e Doria.

No Congresso há toda uma bancada de milicianos, composta por majores, capitães, delegados, juízes etc., que apoiam a ascensão desses grupos fascistoides e sua conversão em órgãos de repressão política.

As nossas oligarquias tradicionais não parecem perceber o buraco em que se meteram ao apoiar o golpe e a ascensão de Bolsonaro ao poder, buraco que poderá ser aprofundado com o uso atabalhoado, embora corajoso, de escavadeiras.

Após esse processo desavergonhado, tudo se tornou permitido, como diria Dostoievski.

Até mesmo atirar em senador.

Mas, convenhamos, para quem já assassinou impunemente uma vereadora, atirar em senador e em outras autoridades é fácil.

Tão fácil como era na Colômbia.

E as Forças Armadas não parecem perceber o perigo que correm ao associar-se ao bolsonarismo.

Cegas pelo ódio ideológico de Helenos e que tais, rumam para a contaminação com atividades ilícitas e para a subserviência estratégica aos EUA.

Talvez venham a repetir, como farsa, as tragédias de militares colombianos e mexicanos.

As elites políticas alemãs achavam que os nazistas seriam úteis para livrar a Alemanha do comunismo.

Porém, foram varridas pelo vendaval que criaram.

Não se controla um fascista, ainda mais um fascista acuado por sérias denúncias de corrupção e de ligação com “escritórios do crime”.

Até hoje, a Colômbia luta para sair da guerra e da armadilha política e estratégica em que se meteu.

Ou o Brasil reage com escavadeiras democraticamente organizadas, ou só nos restará cantar uma cumbia triste.

Ou assobiar a Cavalgada das Valquírias.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

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5 comentários

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Nelson

23 de fevereiro de 2020 às 21h56

“E as Forças Armadas não parecem perceber o perigo que correm ao associar-se ao bolsonarismo.”

Bem, a meu ver, as Forças Armadas sabem muito bem o que querem. Pelo menos a parte das FA que hoje está no comando.

E elas querem justamente o que está sendo implantado em nosso país: um Estado policial totalmente subordinado aos ditames do Sistema de Poder que domina os EUA.

Pautadas por um anticomunismo fanatizado ao extremo, as FA impuseram-se, como prioridade primeira, aniquilar com qualquer resquício de forças de esquerda ou de resistência popular que tenha alguma capacidade de retomar o comando do país.

Quanto à Colômbia, não houve mudança, não. A violência contra as organizações e lideranças populares prossegue. 230 ativistas de direitos humanos foram assassinados em 2019 no país.

É o que nos informa a matéria “Colombia cierra 2019 con más de 10 mil homicidios y 230 líderes de DDHH asesinados” que pode ser lida em https://www.aporrea.org/ddhh/n350502.html.

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Zé Maria

23 de fevereiro de 2020 às 02h27

https://youtu.be/wthSEl4gvCo

Realmente o País está atingindo
o ponto de não-retorno.
Uma Desembargadora do Trabalho do TRT15 (Campinas-SP) fez um discurso político no Tribunal com elogios efusivos ao Governo Bolsonaro a quem chamou de ‘brilhante’.
Mais do que isso, reportou-se a um suposto período em que o Brasil foi uma ‘Potência’, ‘há 30 ou 40 anos atrás’, sugerindo que Jair Bolsonaro levaria o Brasil ao mesmo estágio de desenvolvimento.
Só que há 30 anos, em 1990, o Presidente do Brasil era Fernando Collor de Mello.
Há 40 anos, em 1980, quem estava no Poder Central do Pais era o Ditador General João Figueiredo, que foi sucedido por José Sarney, a partir de março de 1985 até março de 1990.
Aliás, foi precisamente nesse Governo em que houve Híper-inflação, e o País, incapacitado de saldar as dívidas, teve de decretar moratória, ou seja, quebrou.
Sob esse aspecto, a Magistrada do TRT15 – apesar da ignorância histórica – até tem razão, pois é exatamente a esse buraco que o desgoverno Bolsonaro/Guedes/Moro vai levar o Brasil.
Quem, na verdade, salvou essa sessão de frivolidades judiciais da vergonha absoluta foi uma Advogada representante da OAB no Tribunal, que rebateu com fatos concretos o discurso pueril da tal juíza “fanzona do Bolsonaro” [Vergonha Alheia].

https://twitter.com/jb1969cinema/status/1231293233508048898

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a.ali

22 de fevereiro de 2020 às 21h30

a milicada sabe e faz parte do esquema…

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abelardo

22 de fevereiro de 2020 às 17h14

Acho que as Forças Armadas sabe muito onde se meteu, sabe muito bem o que está se passando e sabemos nós, que ela não é nenhuma ingênua pra não saber onde o governo quer fazer o Brasil chegar. Em tempos passados, de outros comandos, além de rejeitar a participação no governo imagino que já teriam acabado com essa farra da incompetência, da entrega de nossas riquezas e do gravíssimo crime de perda dasoberania.

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Luiz Fernando

22 de fevereiro de 2020 às 12h56

Precisaremos de muitas escavadeiras para enfrentar o Fascismo uma combinação sinistra que CIA e as oligarquias estão fazendo em toda a América Latina.

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