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Jeferson Miola: O golpe militar avança em câmera lenta
Manifestação no Rio de Janeiro em 1968. Foto: Arquivo Nacional, Correio da Manhã.
Política

Jeferson Miola: O golpe militar avança em câmera lenta


09/05/2022 - 21h53

Golpe militar em câmera lenta

Por Jeferson Miola, em seu blog

Em fevereiro de 1962 o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos [1935-2019] escreveu o ensaio Quem dará o golpe no Brasil?.

Wanderley partia do pressuposto de que o fracasso da tentativa de golpe militar para impedir a posse de João Goulart, em 25 de agosto de 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, não encerrava o movimento golpista, e tampouco desencorajaria o ímpeto golpista.

O texto de Wanderley mostrou-se premonitório: dois anos depois, em 31 de março de 1964, Jango foi derrubado e se iniciou a ditadura sanguinária que durou 21 anos, até 1985.

Nas circunstâncias do Brasil de 2022, a pergunta já não é sobre “quem dará o golpe?”, mas “como será o golpe?”. Como disse Eduardo Bolsonaro [27/5/2020], “o problema não é mais se, mas quando haverá uma ruptura”.

Podemos não encontrar as respostas objetivas e, inclusive, podemos levantar hipóteses variadas à pergunta sobre “como será o golpe”, mas os elementos da conjuntura evidenciam que um novo golpe militar está, efetivamente, em curso no Brasil.

Sabe-se que não deverá ser como uma quartelada típica dos anos 1960/1980, porque o golpe atual incorpora elementos contemporâneos da guerra híbrida – – não será preciso nem mesmo um soldado e um cabo para fechar o STF..

Um golpe anunciado com enorme antecipação e que avança de modo gradual; porém, constante. Um golpe, enfim, perpetrado em câmera lenta.

Como disse o general Mourão ainda em 16/9/2017, antes dos militares assumirem o poder por meio da eleição fraudada com a prisão do Lula, seus “companheiros do Alto Comando do Exército avaliam que ainda não é o momento para a ação [leia-se, para a intervenção militar], mas ela poderá ocorrer após ‘aproximações sucessivas’”.

Em 6/5/2021, depois da anulação da farsa da Lava Jato e da reabilitação dos direitos políticos do ex-presidente Lula, Bolsonaro deu a senha de que o bote estava armado.

“Se não tiver voto impresso é sinal de que não vai ter eleição, acho que o recado tá dado”, disse ele, consciente de que, dentro das regras da democracia, a continuidade do projeto de poder dos militares é inviável.

Pouco mais de dois meses depois, em 21/7/2021, o então general-ministro da Defesa Braga Netto ameaçou o Congresso: “A quem interessar, diga que, se não tiver eleição auditável, não terá eleição”, disse ele, sendo endossado por Bolsonaro, que no mesmo dia afirmou que “ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”.

Hoje está claro como a luz do sol que, no fundo, o partido dos militares preferia que a PEC 135/2021, que instituía o voto impresso, fosse recusada pela Câmara dos Deputados. Porque, com isso, Bolsonaro e os militares ganhariam a retórica que precisavam para barbarizar a eleição, como fazem hoje.

Os perpetradores deste golpe – as cúpulas partidarizadas que converteram as Forças Armadas em Milícias Fardadas – já não escondem seus propósitos golpistas e antidemocráticos.

Nas últimas semanas o partido dos generais dispensou intermediários, abandonou o véu do falso disfarce legalista e profissional, saiu das sombras e passou a emparedar diretamente o judiciário, como ficou explícito na ofensiva contra o TSE e o STF.

É preciso reconhecer que os ministros do STF cometeram erros primários, que alimentaram, sob medida, a crise desejada pelos generais conspiradores [aqui e aqui].

Os ministros do STF e TSE, que assim como as cúpulas partidarizadas das Milícias Fardadas, que não possuem mandato popular e são instituições de Estado, se intrometeram onde jamais deveriam – na política –, e cometeram equívocos graves, como o pecado capital de convidarem os generais para participarem da fiscalização do sistema eleitoral.

O golpe militar que avança em câmera lenta ainda pode ser contido.

Para isso, no entanto, é essencial que haja uma forte mobilização social em defesa da democracia, do Estado de Direito e pelo imediato retorno dos militares aos quartéis, de onde jamais deveriam ter saído.





3 comentários

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Cesar Lenzi

11 de maio de 2022 às 05h05

Algo me diz que o golpe se dará no próprio dia das eleições com a criação da factóides sugerindo fraude em várias seções eleitorais em diversos ponto do país, com os militares saindo da caserna e fechando STF e Congresso.

Responder

Zé Maria

10 de maio de 2022 às 16h58

Essa não é a premonição que se gostaria de fazer,
mas que existem incontáveis evidências, isso há;
inclusive com vários precedentes históricos.

Responder

    Zé Maria

    10 de maio de 2022 às 17h15

    Como disse o Gourmet Candidato a Vice do Master Chef:

    “E, aqui, faço um chamado público às demais forças políticas
    do país que trabalham por essa mesma mudança:
    venham se juntar a nós!

    As próximas eleições guardam uma perigosa peculiaridade:
    será um grande teste para a nossa democracia.

    E que ninguém duvide disso:
    sem Lula, não haverá alternância de poder no país.
    E sem alternância de poder, não haverá garantias
    para a nossa democracia.

    Lula é, hoje, a esperança que resta ao Brasil.
    Não é a primeira, a segunda nem a terceira.
    Ele é a única via da esperança para o Brasil.
    E como se não bastasse o risco para a democracia,
    o futuro do Brasil também está em jogo.

    Por isso, quando a ignorância se une à mentira
    como estratégia política para demonizar eleições livres
    e aviltar a democracia, não devemos vacilar:
    o caminho é com Lula.

    Quando brasileiros são relegados à própria sorte
    em meio às mazelas de uma pandemia letal,
    não devemos aceitar:
    vamos responder com Lula.

    Quando as injustiças sociais grassam por omissão do governo,
    e a pobreza e a miséria assumem dimensões vergonhosas
    e intoleráveis, não podemos hesitar:
    a solução virá com Lula.

    Quando as instituições nacionais sofrem agressões
    e ameaças contra o desempenho de suas funções
    soberanamente asseguradas pela Constituição,
    não nos cabe duvidar:
    a razão deve falar mais alto e devemos todos estar
    do mesmo lado.

    E esse lado é o lado dos brasileiros que sofrem;
    dos que perderam seu trabalho, sua renda;
    dos que viram suas economias desaparecerem
    ou diminuírem; dos que se veem hoje privados
    de perspectiva e de esperança;
    do lado dos brasileiros que estão inconformados
    com a incompetência dos que hoje conduzem o país,
    com a divisão social, com o reiterado desperdício
    de chances e oportunidades que poderiam permitir
    ao Brasil alcançar a sua posição de grandeza no mundo.”

    Íntegra:

    https://www.viomundo.com.br/politica/em-discurso-alckmin-agradece-a-confianca-de-lula-e-aposta-no-prato-lula-com-chuchu.html


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