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Fora do Eixo: Revolução ou “empreendedorismo radical”?


09/08/2013 - 21h39

Fazendo grana com o desconforto alheio?

Mídia Ninja e Fora do Eixo: uma polêmica necessária

por Yuri Soares Franco*

A entrevista de Pablo Capilé e Bruno Torturra para o Roda Viva da última segunda ampliou o debate sobre a novidade representada pela Mídia Ninja e pelo Fora do Eixo.

Primeiramente vou tentar fazer uma breve explicação sobre o que são os dois, já que ninguém é obrigado a saber tudo de antemão.

O Fora do Eixo é uma rede de trabalhos criada por produtores culturais que estimulam a circulação de artistas e produtores, o intercâmbio de tecnologia de produção e o escoamento de produtos.

A Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) é um coletivo de jornalismo em rede que produz e distribui conteúdo de forma independente e dentro dos acontecimentos, sendo especializado na cobertura de mobilizações sociais.

Desde a criação destes coletivos eles estiveram rodeados de polêmicas, seja com direitistas defensores dos grandes conglomerados de produção e distribuição cultural e midiática, seja com setores mais ortodoxos da esquerda.

As acusações da direita são previsíveis, já que defendem o status quo: um modelo de cultura e comunicação em que toda a linha de produção e distribuição é voltada para o lucro e a reprodução do sistema, com a alienação objetiva (econômica) e subjetiva (da consciência, dos sentidos) das pessoas.

O que me surpreende é a postura defensiva de setores da esquerda, que reage assustada a estas novidades de uma forma que não contribui para que construamos sínteses, novos caminhos para a cultura, para as comunicações e para a sociedade como um todo.

Estes setores da esquerda criticam uma série de questões relativas ao funcionamento político interno e financiamento econômico do Fora do Eixo. Sobre o funcionamento político interno me abstenho de falar por puro desconhecimento. Sobre o financiamento econômico as críticas são várias, as duas principais me parecem ser a dependência do Estado e das empresas e a distribuição dos recursos obtidos.

Sobre a dependência do Estado e das empresas nenhuma novidade, vivemos em um sistema capitalista e todo mundo precisa comer. Artistas e comunicadores não são seres sobrenaturais que sobrevivem sem os meios concretos para tal. 

Não é possível viver à margem do sistema, tampouco criar alternativas dentro deste. A única alternativa verdadeiramente radical pressupõe necessariamente a superação do próprio sistema capitalista.

Não podemos exigir dos nossos artistas e comunicadores que morram de fome enquanto esperamos uma revolução social.

Nada mais justo que, enquanto não ocorre esta revolução social, os referidos coletivos busquem meios de financiamento público e privado para se sustentar e a seus integrantes de maneira profissional. Sempre devendo tomar o cuidado de manter sua independência.

Outro elemento que vem sendo colocado é sobre a distribuição dos recursos obtidos, que seriam destinados à própria rede. Esse me parece o argumento mais estranho vindo de pessoas de esquerda, já que o que a esquerda mais fez ao longo da História foi utilizar o tempo, as habilidades, subjetividades e mesmo os recursos financeiros dos indivíduos para financiar suas organizações.

Ou seja, não há pecado algum na destinação voluntária dos seus associados dos recursos obtidos para a sustentação da organização.

Sobre a disputa de hegemonia que o Fora do Eixo estaria realizando nos atos, assembleias e organizações, também não vejo isso como algo a ser criticado. O posicionamento político, a organização coletiva, a disputa de opinião, de espaços e de corações e mentes são saudáveis e devem ser feitos publicamente.

Na política o Fora do Eixo tem sido um aliado importante em pautas como a discussão dos direitos autorais, o Marco Civil da Internet, a democratização das comunicações, dentre tantas outras, sempre com posturas avançadas. Neste ponto devemos utilizar como critério de avaliação aquela máxima da prática como critério da verdade.

Minha crítica é que para conseguir avançar mesmo nestas pautas setoriais é preciso ter e se organizar numa visão sistêmica, discutindo o modelo político, econômico e social de forma ampla e global. O Fora do Eixo, Mídia Ninja e congêneres precisam avançar neste aspecto.

O Fora do Eixo me parece ser, em resumo, uma cooperativa. Não é um modelo tão revolucionário, mas também não é uma ferramenta a serviço do neoliberalismo e da exploração da mais valia como colocam alguns ultra ortodoxos.

Ao colocar as pessoas para morarem juntas, viajar, produzir, se integrar, se formar nas técnicas e no debate político e se doarem a uma organização coletiva, ele representa uma experiência válida e que deve ser apoiada e com a qual podemos aprender muito.

Registro o avanço que é terem formado uma universidade livre, fora das estruturas da tradicional e medieval universidade existente, e que ao meu ver precisa ser, senão superada, pelo menos radicalmente transformada.

Nas últimas décadas a esquerda tem se afastado desta questão da produção e distribuição cultural e de comunicação e da sustentação dos indivíduos envolvidos.

Os partidos e movimentos sociais se focaram em discussões nas conferências de políticas públicas, nos órgãos estatais e setoriais partidários, ou então resumiam a cultura a uma cobertura estética dos espaços de debate, como os shows e culturais que preenchem as noites de encontros estudantis ou sindicais. Na comunicação muitas vezes se via (e se vê) os profissionais de comunicação destas organizações e eventos como meras ferramentas de transmissão de informação em mão única.

Para termos uma nova sociedade precisamos construir uma nova cultura e uma comunicação nova. O Fora do Eixo e a Mídia Ninja não surgem com todas as respostas e não me parece se proporem a isso. Eu possuo uma série de críticas teóricas e estéticas ao trabalho deles, discordo de uma série de opiniões que eles tem colocado, mas eu prefiro fazer esse diálogo com eles, considerando-os aliados e buscando sínteses, do que empurrá-los para o outro lado do rio e me fechar nas alternativas auto proclamatórias já existentes.

Nos isolarmos em nossos coletivos e teorias é confortável, mas não nos levará a lugar algum. Precisamos experimentar, arriscar e criar novos rumos. Por ver esse pessoal experimentando e debatendo que eu sou um simpatizante do Fora do Eixo e da Mídia Ninja.

*Historiador e professor formado pela Universidade de Brasília, Secretário-Executivo do Conselho de Juventude do Distrito Federal.

*****

 Lulismo fora do eixo

por José Arbex Jr.*

“Imaginem um liquidificador em que se possa colocar as ramificações da esquerda, com estraté­gias e lógicas de mercado das agências de publi­cidade, misturando rock, rap, artes visuais, teatro, um bando de sonhadores e outro de pragmáti­cos, o artista, o produtor, o empresário e o públi­co. Tudo junto e misturado. O caldo dessa batida é uma nova tecnologia de participação e engaja­mento que funciona de forma exemplar para a circulação e produção musical, mas que, acima de tudo, é um grande projeto de formação política. O Fora do Eixo cria, portanto, uma geração que se utiliza sem a menor preocupação ideológica de aspectos positivos da organização dos movimen­tos de esquerda e de ações de marketing típicas dos liberais. É, como disse o teórico da contracul­tura Cláudio Prado, a construção da geração pós-rancor, que não fica presa à questões filosóficas e mergulha radicalmente na utilização da cultura digital para fazer o que tem que ser feito”.

O fantástico liquidificador das ideologias é as­sim descrito por Alexandre Youssef, articulista da revista Trip (de onde foi extraído o trecho acima citado, publicado em 12 de maio de 2011), mem­bro do Partido Verde e coordenador do setor de Juventude durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo. Ele tem o mérito indis­cutível da franqueza.

Não é todo dia que alguém reúne graça e entusiasmo para cantar as virtudes de um “projeto de formação política” que combi­na, sem qualquer pudor ideológico, métodos organizativos da esquerda com “ações de marketing típicas dos liberais”.

Claro: tudo isso é feito sem rancor, sentimento ultrapassado e cultivado pe­las pessoas que teimam em se prender a “questões filosóficas” antigas, incapazes de perceber que a cultura digital mudou o mundo.

Não foi o FaceBook que provocou a revolução árabe? Não. Não foi a mais moderna tecnologia que provocou a revolução árabe, mas os mais arcai­cos entre os problemas enfrentados pela humani­dade: a fome e a pobreza. A imensa maioria dos árabes nunca teve acesso à Internet, ao FaceBook e a nada que se pareça com “cultura digital”. Nem teve acesso a mesas fartas e empregos dignos.

Se­ria melan-cômico presenciar o resultado de uma preleção contra o rancor endereçada aos milhões de manifestantes que, colocando em risco as pró­prias vidas, foram às ruas para derrubar ditado­res em algumas das principais capitais árabes.

Em contrapartida, os soldados e oficiais da Otan que, historicamente, lançaram e ainda lançam milha­res de toneladas de bombas sobre uma população civil indefesa, esses não agem movidos pelo ran­cor, mas subordinados a frios interesses geopolíticos, e estão perfeitamente integrados à “cultura digital”. Os seus brinquedinhos de guerra são produtos da tecnologia de ponta, e incluem robôs e bombardeiros não pilotados. Tudo muito avançado.

O texto de Youssef não teria a menor impor­tância, se ele não fosse expressão de um processo em curso, no Brasil e em todo o planeta, de cooptação de amplos setores da juventude e da es­querda para políticas de conciliação e abandono da guerra ao capital.

Toda essa conversa de “su­peração do rancor” está a serviço de uma ideolo­gia (embora, obviamente, Youssef afirme o con­trário) segundo a qual já não é mais possível falar em luta de classes. Os grandes cenários de em­bates, agora, são os circuitos culturais, não mais o chão de fábrica, o campo e as praças públicas. Ou melhor: todos servem de palco para a grande guerra simbólica.

E como isso aconteceu? É simples. O capitalis­mo pós-fordista, desenvolvido no pós-guerra, te­ria superado a divisão entre trabalho intelectual e manual, para integrar funcionários cada vez mais qualificados a funções que combinam gerência e produção. Além do mais, o vasto acesso ao ensi­no superior, franqueado às populações de baixa renda, teria mudado radicalmente o perfil da for­ça de trabalho, em particular nos países de capi­talismo mais desenvolvido.

Essas transformações teriam sido fundamentais para a “culturalização” das classes médias urbanas, para o surgimento da contracultura (incluindo o movimento hippie, en­tre outros) e de novas demandas, que não se limi­tam mais a emprego, salário e conquistas sociais. Do ponto de vista dos novos “setores urbanos médios”, nas palavras do ativista Pablo Ortellado, “as demandas são crescentemente ‘pós-materiais’ para usar um jargão sociológico.”

Desgraçadamente, as manifestações de cente­nas de milhares de jovens e trabalhadores desem­pregados na Grécia, Portugal, Espanha e, mais re­centemente, Itália mostram que as reivindicações são bastante “materiais”. Assim como são “ma­teriais” as demandas de trabalhadores franceses, que não aceitam os contínuos ataques promovi­dos pelo capital às suas conquistas históricas ou as de alguns setores do movimento sindical es­tadunidense, que começa a dar crescentes sinais de vida.

E mais “materiais” ainda as necessida­des de cerca de um bilhão de seres humanos famin­tos (segundo dados da própria ONU) e outro tan­to de subnutridos. Alguém teria que avisá-los de que eles poderiam saciar a própria fome a carên­cia de nutrientes com bus virtuais. É fantástico o show da vida.

POLÍTICA “PÓS-RANCOR”

Para outros advogados da política “pós-rancor”, o proletariado teria sido substituído pelo “precariado”, uma massa difusa, formada pelos milhões de trabalhadores e jovens que habitam as imensas fa­velas e bairros da periferia. Tais “multidões” (para usar um conceito proposto pelo italiano Toni Negri, segundo quem não existe mais imperialismo, em­bora haja império) já não se identificariam como classe, mas como grupos que defendem interesses específicos (genero, raça, opção sexual, sujeitos de direitos difusos etc.), e que ganham força a partir do momento em que adquirem visibilidade social.

Para tanto, podem e devem se valer das novas tecnologias de comunicação e produção de bens sim­bólicos e culturais. A “antiga” e “superada” luta de classes passaria a ser travada nos circuitos midiáticos, em que mesmo os protestos de rua viram espetáculo e “performance”. A “vanguarda”, agora, se­ria formada pêlos “gestores culturais”, justamente os mais capacitados a articular os esquemas desti­nados a dar visibilidade a determinados eventos e grupos (e a captação de recursos e patrocínios, ob­viamente, ganha um papel estratégico e, como tal, regiamente remunerado nesse processo).

No Brasil, especificamente, a política “pós-ran­cor” ganhou um impulso formidável em 2002, com a campanha do “Lulinha paz e amor”. O sindicalis­ta barbudo foi substituído por um senhor modera­do e sorridente, trajando terno e gravata e juran­do respeito ao capital, mediante o compromisso firmado pela Carta ao Povo Brasileiro. Com a ser­vil capitulação ideológica petista, a avenida para o “vale tudo” estava escancarada.

No admirável novo mundo do lulismo, tor­nou-se particularmente emblemática a história do grupo Fora do Eixo (FDE), mencionada por Youssef como um exemplo fulgurante de como se faz política nos novos tempos.

O FDE foi criado em 2005, pelo publicitário cuiabano Pablo Santiago Capilé, como um “coletivo de gestores da produ­ção cultural”, inicialmente com pólos em Cuiabá, Rio Branco, Uberlândia e Londrina (portanto, fora do eixo tradicional formado por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília).

Com a proposta de revelar no­vos valores culturais “independentes”, e adotando o modelo organizativo baseado na formação de “coletivos” (núcleos orgânicos sem patrões nem empregados), o FDE conseguiu o apoio do progra­ma Cultura Viva do Ministério da Cultura, durante a gestão de Gilberto Gil e depois sob Jucá Ferreira. Ao mesmo tempo, trabalhou com o patrocínio de empresas e grupos privados vinculados aos circui­tos cultural e digital, espelhando-se na experiên­cia de grupos semelhantes, como o Creative Commons estadunidense.

Como resultado, hoje, segundo os dados da pró­pria organização, o FDE é uma próspera empresa de gestão cultural que agrega 57 coletivos em todo o país, com capacidade para realizar 5 mil shows em 112 cidades. Teoricamente, os “gestores” não são assalariados, mas, claro, recebem pelo seu tra­balho, o que transforma a participação nos “co­letivos” em meio de vida (os “coletivos” adotam moedas próprias e normas internas de distribuição de recursos).

A retórica dos “gestores” é, aparente­mente, combativa, com alguns vernizes de rebel­dia: evoca o estímulo à arte independente, o direito de usar drogas, a luta contra o racismo e todo tipo de discriminação etc etc etc. Seu “público alvo”, portanto, são os milhões que formam o “precariado”.

Coerente com tal retórica, o FDE, em contato com outros grupos assemelhados, participa da or­ganização de atos e manifestações, mas tudo de­vidamente “enquadrado” e delimitado pela conve­niência política.

Um exemplo foi a sua atuação na organização da “Marcha da Liberdade”, realizada no dia 28 de maio, em protesto contra a repressão feroz que se abatera sobre a “Marcha da Maconha”, no começo do mês. Capilé, um dos organizadores, agora nega, mas durante a reunião que preparou o ato de 28 de maio mencionou a possibilidade de patrocínio da Coca-Cola à marcha, sem necessariamente ter que expor a marca (a empresa estaria apenas cul­tivando “boas relações” com os ativistas).

A pro­posta foi vetada pelo coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR) e Movimento Passe Livre, segundo re­latos divulgados pelo coletivo Passa Palavra. Além disso, o FDE e grupos congéneres posicionaram-se contra a proposta de incluir, como pauta da mar­cha, a reivindicação de proibir aos policiais o uso de armas de fogo para reprimir manifestações. Não haveria mesmo razão para uma proposta tão ran­corosa: liberdade é apenas uma calça velha, azul e desbotada, certo?

A experiência do FDE é o próprio retraio do lu­lismo: combina a mais pérfida prática reacionária com um discurso aparentemente “libertário”. Suas ações são motivadas por interesses pecuniários próprios, mas apresentadas como se fossem ges­tos de altruísmo.

Na lógica mercantüista tão bem apresentada por Yousseff, mesmo as manifestações são transformadas em happenings e oportunidades de bons negócios com patrocinadores interessados em vender uma imagem dinâmica e “progressista”.

As “antigas” e “rancorosas” reivindicações dos tra­balhadores e jovens pelo acesso real e material ao mundo da cultura e das artes são açambarcadas, administradas e domesticadas por um vasto em­preendimento, que envolve fundos públicos, patrocínios de corporações e de empresas privadas e “gestores culturais” que se encarregam de encon­trar os artistas e promover os eventos.

Finalmente, a técnica da “gestão cultural” é transportada para o ativismo militante e justificada com um discur­so “pós-rancoroso”, o mais adequado ao mundo das reivindicações “pós-materiais”. O FDE e congêneres constituem a expressão Mista do movimen­to “cansei”.

Se existe algo de real nas alegações dos “pós-rancorosos”, incluindo os “lulinhas paz e amor”, é a afirmação de que a batalha ideológica trava­da nos “circuitos culturais” adquiriu importância muito maior e central do que à época de Karl Marx. Isso é óbvio, já que as tecnologias de comunicação experimentaram um desenvolvimento vertiginoso no século 20.

E, além disso, a humanidade sofreu as experiências de genios do mal da comunica­ção, como é o conhecido caso de Joseph Goebbels, cujas técnicas de propaganda passaram a ser adotadas e aprimoradas por Hollywood e outros cen­tros produtivos da indústria cultural (outro concei­to “rancoroso” e ultrapassado, aliás).

Mas nada disso autoriza a afirmação de que o proletariado foi dissolvido no “precariado” e que desapareceu a luta de classes, agora substituída por uma difusa batalha cultural, se tanto. A extração da mais valia continua sendo o “segredo” do capital, e o imperativo do crescimento da taxa de lucro a sua lei compulsória.

Isto é, não há re­produção do capital sem a exploração cada vez maior do trabalho humano livre. Mudaram os pa­râmetros que condicionam a luta de classes, as circunstâncias culturais e ideológicas em que ela se desenvolve, assim como as formas de articula­ção entre as várias classes exploradas e oprimidas. Mas nenhum “circuito cultural” aboliu as classes, que não podem ser sociologicamente quantifica­das (classes não constituem um mero dado esta­tístico), mas que dão o ar da graça em momentos de crise e de ameaças às conquistas sociais, como demonstram a revolução árabe e a Zona do Euro.

Bastaram duas semanas de mobilizações em Barcelona e Madri para desarticular três décadas de retórica conciliadora de Luiz Zapatero e com­panhia.

Os “precariados” do Oriente Médio, Nor­te da África e Zona da Euro mostram que não é nos circuitos digitais que se trava a guerra con­tra o capital, mas nas ruas. Nas barricadas. Estas sim, são as mesmas que se erguiam nos tempos de Marx, assim como é o mesmo rancor que se ex­pressa nas palavras de ordem contra a miséria e os gestores do neoliberalismo.

Nenhum liquidificador abolirá a luta de classes.

*José Arbex Jr. é jornalista

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36 comentários

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Feministas acusam Fora de Eixo: Machismo,uso político do sexo, assédio - Viomundo - O que você não vê na mídia

26 de agosto de 2013 às 21h00

[…] Fora do Eixo: Revolução ou “empreendedorismo radical”? […]

Responder

Rolin: "Gastaram R$ 21 mil no meu cartão. Compraram um Macbook para o Capilé" - Viomundo - O que você não vê na mídia

16 de agosto de 2013 às 14h10

[…] Fora do Eixo: Revolução ou “empreendedorismo radical”? […]

Responder

Douglas da Mata

11 de agosto de 2013 às 22h49

Nem uma coisa, nem outra.

Este troço está mais para “pirâmide” ou “corrente”, tipo Madoff ou Telexfree.

O que espanta é a fetichização que a “tecnologia”, revestida com verniz de “novo” causa em pessoas tidas e havidas como equilibradas, como Nassif e outros.

Responder

João

11 de agosto de 2013 às 07h25

No blog do Nassif, “fora do eixo ou dentro da ordem”,

Por Antônio Ateu

Por ANTONIO ATEU

“Fora do Eixo”, mas dentro da Máquina

Regis Argüelles

“La obra de arte reproducida se convierte, en medida siempre creciente, en reproducción de uma obra artística dispuesta para ser reproducida.. (…) Pero en el mismo instante em que la norma de la autenticidad fracasa em la produción artística, se transtorna la función íntegra del arte. En lugar de su fundamentación en un ritual, aparece su fundamentación em uma práxis distinta, a saber en la política.” (Walter Benjamin, La obra de arte en la época de su reproductividad tecnica)

Nas últimas semanas, as informações sobre os protestos nas grandes cidades ganharam um novo protagonista. Trata-se da Mídia Ninja, um coletivo de mídia independente que passou a transmitir as manifestações das grandes capitais em tempo real, a partir de aparelhos celulares. Boa parte do barulho causado pelo coletivo pode ser compreendido como uma resposta de parte do público às práticas antidemocráticas da mídia corporativa, especialmente quando a notícia passa pela afirmação da vontade popular nas ruas. A repercussão de transmissões que valorizam a perspectiva dos manifestantes levou Pablo Capilé e Bruno Torturra, dois dos idealizadores do coletivo, ao programa Roda Viva de 5 de agosto último, onde foram sabatinados por alguns dos principais representantes da mídia corporativa. No programa ficamos sabendo que a Mídia Ninja é, na verdade, uma iniciativa capitaneada pelo Coletivo Fora do Eixo (FdE). Nos parágrafos que se seguem procuro criticar a atuação política do FdE no terreno da produção cultural, a partir da exploração de suas premissas teórico-práticas, de suas associações com o Estado e com as grandes corporações.[1]

Não se passaram mais de quatro anos desde que soube da existência de certo coletivo de cultura que atuava especialmente na esfera da música independente. Naquela época, dizia-se que as ações de tal coletivo concentravam-se na realização de festivais pelo Brasil, de preferência em localidades que estivessem à margem do eixo cultural hegemônico. Assim, bandas e demais profissionais coletivamente divulgariam seus trabalhos, aproveitando-se do imenso vazio cultural que estão submetidos aqueles que, por devido infortúnio, viviam desprovidos da produção musical independente do país.

O “Circuito Fora do Eixo”, o coletivo em questão, define-se como uma “rede de trabalhos concebida por produtores culturais das regiões centro-oeste, norte e sul no final de 2005” que, inicialmente, conectou produtores das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR). De lá pra cá, entretanto, o coletivo ampliou sua área de atuação: está hoje em 25 dos 27 estados da federação – inclusive no “eixo” Rio-São Paulo, como faz questão de destacar em seu sítio – e busca conexões mais orgânicas com outros países da América Latina.[2] Ao que tudo indica, o Fora do Eixo obteve êxito em relação a sua proposta inicial de fomentar o trabalho de artistas e produtores culturais de regiões diversas, que comumente estariam alijados de participar dos circuitos tradicionais de financiamento de cultura.

Uma das figuras-chave do FdE é Pablo Capilé, produtor cultural originário de Cuiabá. Segundo ele,[3] o coletivo começa a tomar forma por volta de 2000/2001, naquela cidade, a partir de uma casa alugada com o objetivo de agregar músicos, estudantes de publicidade e afins – futuros produtores culturais? -, e de enfrentar os desafios da nova configuração do mercado de música. Servindo como espaço de ensaio para as bandas (e também, imagino, para o estudo compenetrado de textos de Baudrillard por parte da galera que não sabia tocar, os universitários), a convivência na casa estimulou a discussão entre músicos e demais “agitadores” sobre as leis de incentivo para que, de maneira colaborativa, conseguissem “ocupar mais espaço”. Em outras palavras, o coletivo se organizou no sentido de ganhar editais públicos e privados de financiamento, capazes de capitalizar voos mais altos de bandas e produtores associados.

A coisa não para por aí. Capilé destaca que, recentemente, o FdE passou a atuar no aparelho de Estado stricto sensu, “trabalhando para a eleição de vereadores em alguns estados, posicionando secretários de cultura em outros”.[4] Trata-se, portanto, da efetiva transformação de mero concorrente de editais de financiamento em um aparelho orgânico de atuação no tecido político institucional, com todas as benesses e contradições que tal posição, necessariamente, engendra.

Um movimento com essas características precisou ampliar os processos de replicação de um discurso capaz de fornecer suporte necessário à agregação dos interesses diversos de produtores de cultura de todo país. Nesse sentido, o “conceituador” Capilé aponta para dois projetos ambiciosos: primeiro, a criação de uma Universidade, a UniFDE, responsável pela sistematização de todo o processo de formação do circuito; e a organização do Partido da Cultura (Pcult), “um núcleo de contaminação constante de um processo de organização das políticas públicas desenvolvidas por esses coletivos”.[5] Em outro lugar, o Pcult é definido como

“um fórum informal, ambiente supra-partidário permanente [que] trabalha para que a Cultura, tanto quanto educação e saúde, seja tema central dos debates políticos eleitorais, nas campanhas que acontecem a cada dois anos no país e no desenvolvimento do Sistema Nacional de Cultura, aglutinando diversas entidades, redes, movimentos e pessoas de todos os estados do país em torno de temas diversos, sempre na esfera cultural.”[6]

Parece que estamos diante de um quadro no qual o FdE eleva-se à condição de portador de uma nova proposta de organização material da cultura, ainda que subordinada à organização partidária institucional e às leis mais amplas de reprodução do sistema do capital. Um dos indícios desta condição é a moeda Cubo Card, um sistema de créditos que funciona como forma de pagamento entre os participantes da rede de trabalhos: “O Sistema tornou-se referência para a replicação (leia-se remuneração?) nos coletivos do Circuito FdE, gerando a construção do Banco Fora do Eixo Card”, informa o sítio do coletivo.

Universidade, Banco, Partido…existem limites para o FdE? Um radiante Capilé constata que as adesões à rede são cada vez mais conscientes e voluntárias, evidenciando que hoje se vive na era do “pós-rancor”, em contraposição à “sociedade do rancor, típica do século XX”. A profª Ivana Bentes (ECO-UFRJ) – notória por suas posturas antigreve na universidade – aponta que o FdE é uma das experiências coletivas mais capazes de influenciar políticas públicas, além de constituir (junto com outros movimentos, como as marchas)

“a base de um novo ativismo contemporâneo, a emergência do precariado cognitivo, (…) da percepção que o sistema trabalhista fordista e previdenciário não dão mais conta da dinâmica de ocupações livres (mesmo que frágeis e sem segurança) no capitalismo de informação”.[7]

Nessa linha de raciocínio, os modelos contemporâneos de circulação de valores monetários e de sociabilidade justificam a organização “solidária e em rede” do FdE e de demais lutas. Afinal, “não é só o capitalismo financeiro que funciona em fluxo e em rede, veloz e dinâmico. As novas lutas e resistências passam por essas mesmas estratégias”, afirma Ivana Bentes.[8] Para aderir às “novas” lutas é simples: basta ressignificar-se, ou seja, compreender que a sociedade da cognição (cognitariado, informação, multidão, pós-marca, etc.) impõe determinados fluxos, e que os movimentos sociais e de cultura devem adequar-se aos mesmos, sob pena de perderem o bonde da história.

Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Afinal, diante de tal guerrilha semiótica, o chamado à realidade de Machado de Assis me parece mais que apropriado. É fácil perder-se diante de um emaranhado de conceitos aparentemente (propositalmente?) desconexos que, através de retórica apocalíptica (o fim da sociedade do rancor, que nada mais é que o fim da luta de classes, de acordo com a lúcida análise de José Arbex Jr[9]), almeja em verdade a integração orgânica ao sistema, estabelecida a partir de um consenso de amplas bases no campo da produção cultural. Resta saber se o crescimento vertiginoso do FdE autoriza-o a figurar nas posições de intérprete vivaz do mundo contemporâneo e direcionador de políticas públicas de cultura. A seguir, procuro demonstrar que, nesses casos, recomenda-se máxima cautela.

As mais contundentes críticas à avalanche discursiva pós-ideológica produzida pelos intelectuais ligados ao FdE pousam, curiosamente, em questões materiais. China, músico pernambucano e VJ da MTV, um dos pivôs do dissenso, fulmina:

“Eu vivo da música e preciso receber os cachês dos shows para conseguir sobreviver. Ainda não estão aceitando cubo card na padaria e em nenhuma conta que eu tenho (sic) que pagar no fim do mês”.[10]

Vejam só, aqueles que produzem arte, ou ainda, aqueles que investem a maior parte de suas energias em objetos artísticos estão também inseridos em uma economia de mercado e, por isso, dependem de rendimentos para continuarem vivos e produzindo aqueles objetos. Até aí, nada de novo no front. A proposta de oferecer uma moeda qualquer como pagamento tenta inovar na remuneração e na circulação de formas artísticas, o que pode até soar interessante, mas esbarra em um problema material: “não estão aceitando cubo card na padaria”.[11]

Não é difícil compreender que a organização de um festival de música é custosa. Além do cachê dos artistas e demais profissionais, existe uma série de questões que precisam ser equacionadas, tais como alimentação, segurança, atendimento médico, transporte etc. Custa grana, e não é pouca, o que torna incontornável o problema do financiamento de cultura. Os movimentos pós-ideológicos, a despeito da postura cínico-crítica em direção à sociedade do século XX, apelam sem maiores pudores para o velho Estado quando o assunto é capital para suas empreitadas culturais.

A posição de campeões dos editais públicos de cultura foi responsável por mais questionamentos às práticas do FdE. Na visão de Álvaro Pereira Jr., o Brasil virou a terra dos indies estatais, onde “o viés ideológico direciona os recursos estatais [e] estar aliado à política cultural do poder é crucial”, sendo o FdE apontado como expressão maior, a personificação do indie de Estado.[12]De acordo com um dissidente da Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN), a entidade, sob a gestão do FdE, vem concentrando seus esforços em direção aos incentivos estatais, não avançando no mesmo sentido quando o assunto é a iniciativa privada.[13] Um coletivo que recentemente saiu do FdE deu a entender que a atividade política tem consumido de tal forma alguns agentes, ao ponto de se tornar uma ameaça aos ideais fundantes do movimento.[14]

Na verdade, relações orgânicas entre intelectuais e Estado stricto sensu não são novidade no Brasil. O peso específico do Estado na formação social brasileira foi um dos elementos determinantes da relação de “cooptação” de intelectuais que, a fim de efetuarem suas compras diárias na padaria e na botica, acabavam por ocupar algum cargo na burocracia civil ou militar. Uma vez “à sombra do poder”, como lukacsianamente bem colocou Carlos Nelson Coutinho, não era imperativo que o homem de cultura do Império, da República Velha ou do Estado Novo flexionasse sua prática criadora rumo à ideologia dominante (embora muitas vezes o fizesse); em realidade, lhe era aberto todo um leque de modos de pensar não-apologéticos, contanto que a discussão sobre a estrutura do Estado prosseguisse intocada pelo nosso intrépido artista, que poderia então se dedicar às suas criações “livres” e “intimistas” (tal qual se observa no culto à subjetividade promovido pelo romantismo e pela contracultura) (COUTINHO, 2011, p. 49).

Apesar da perenidade observada nas relações entre intelectuais e Estado, elementos interessantes complexificaram o quadro esboçado acima, a partir de meados dos anos 70, em plena ditadura militar. A Política Nacional de Cultura, institucionalizada pelo governo do general Geisel, teve por objetivo o investimento direto do Estado em produção cultural, aproximando-a de moldes empresariais, cuja profissionalização e a conquista de mercado eram pontos essenciais. Nos anos Figueiredo, artistas e produtores culturais vivenciavam um momento de maior espaço para a produção que, por sua vez, já se enquadrava dentro dos parâmetros de uma indústria cultural de massas. Desta feita, a associação entre produto cultural e mercadoria encontrava-se, naquele período, em bases suficientemente sólidas. A simbiose entre mídia e mercado, amplamente disseminada desde então pela TV, aumentou as possibilidades de associação entre mercadoria e produto cultural, ao colocar, por exemplo, a propaganda daquele sabão em pó no enredo de sua novela favorita.[15] Estava, portanto, pavimentado o caminho para a ampla atuação de um tipo de intelectual no cenário cultural brasileiro: o produtor cultural, responsável pela conexão entre os trabalhos de arte e os detentores dos meios de difusão das obras (monetários e materiais), e a consequente capitalização dessa relação para ambas as partes – alem de, é claro, a garantia de remuneração pelo próprio trabalho.

Enquadrada dentro de uma indústria cultural convulsionada pela livre troca internética de arquivos digitais, restou à rede de trabalhos do FdE apelar ao porto seguro do Estado, o velho mecenas da cultura nacional. Decerto, o Estado que financia as ações do coletivo não tem mais aquela carranca associada à ditadura militar; repaginado pela Terceira Via, pelas teorias políticas pós-modernas, pelo “Lulinha paz e amor” – evidências da inversão ideológica ocorrida dentro do PT e de outros setores da esquerda brasileira – ostenta aparência de um “vovô garoto”, livre do ranço burocrático e ideológico da “sociedade do rancor”. Todavia, esse novo Estado investe em determinada produção cultural incapaz de colocar em questão a estrutura material de dominação assegurada pelo próprio Estado, cujo efeito é encapsular a produção artística aos condicionamentos objetivos das relações de poder.

A associação acrítica ao aparelho de Estado e à lógica empresarial são operações comuns em movimentos socioculturais alimentados por certos esquemas teóricos pós-marxistas e pós-modernos, como é o caso do FdE. E dificilmente poderia ser de outro modo, na medida em que boa parte daqueles esquemas prega a autonomização absoluta da cultura e do trabalho imaterial em relação às condições materiais de produção e ao trabalho material. Nesses termos, a dificuldade de negociação de cachês ficaria atribuída a um problema de cognição dos pernambucanos; a importância do FdE estar na cidade de São Paulo residiria no fato desta ser um “simulacro da Babilônia”. A própria noção de materialidade das teorias “pós” fica obscurecida pela subsunção da matéria a um significante, a uma contingência radical, ou a pura heterogeneidade. Esse tipo de argumentação promove o colapso do mundo material em um tipo de exterioridade/meio que abre caminho para a produção abstrata de ideias (McLAREN e FARAHMANDPUR, 2002).

O projeto ambicioso do FdE parece agora refém de seu próprio nó conceitual, pois todo este aparato parece não responder satisfatoriamente aos questionamentos econômico-políticos promovidos por músicos que resistem à ideia de virarem “artistas-pedreiros” – e vale lembrar que a profissão concreta de pedreiro, massificada no “século do rancor”, ao menos ainda oferece remuneração aceita na padaria –, ou que veem com reservas tanto uma associação deveras orgânica ao Estado quanto o próprio método de atuação política do coletivo. Ou melhor, as respostas oferecidas até então apenas reforçam a circularidade do discurso do FdE, mesmo quando o assunto é a produção cultural de todo um estado da federação (“o problema de Pernambuco é cognitivo”).

Evitando estar tão certo da minha posição como os intelectuais que pregam o fim das metanarrativas (paradoxalmente) estão das suas, penso que o problema da cena musical independente de Pernambuco passa por uma questão material. Negá-la – ou obscurecê-la com um conjunto de argumentos e conceitos – significa perder a proteção discursiva autorreferente e “revelar suas próprias afiliações de classe e a ideologia que faz sua lógica interna aparentar um sistema lógico universal” (EBERT e ZAVARZADEH, 2008, p. xxi). Talvez seja a própria negação da influência das relações materiais no plano sociocultural que permita a Capilé sugerir o apoio da Coca-Cola à “Marcha da Liberdade”,[16] argumentando que hoje as empresas buscam um contato direto com os movimentos sociais, sem que seja necessária a exposição de sua marca. Da mesma ordem foi posicionar-se contra a possibilidade da Marcha reivindicar ao poder legislativo um projeto de lei que obrigue à polícia fazer uso de armas “menos letais”, quando se trata de reprimir manifestações – afinal, não era necessário, para o coletivo, pautar qualquer coisa além da “própria ideia de liberdade”.[17]

Em suma, a posição política do FdE acaba por capitular diante da lógica totalizante e homogeneizante do capitalismo, e do papel do Estado na reprodução desta lógica. Como afirmou, em tom laudatório, Ivana Bentes, “o FdE entendeu que o modelo da produção cultural é o modelo de funcionamento do próprio capitalismo”[18]. Tal argumentação chega a ser alarmante, dado que esse modelo de funcionamento vem convulsionando-se em larga escala nos últimos 20 anos e, mais recentemente, submeteu a economia global a uma crise sem precedentes, cujos efeitos ainda são sensíveis. O que pensar então da produção musical independente submetida a tal lógica autodestrutiva?

O mais curioso nisso tudo é que as manifestações mais inovadoras em resposta à crise do capital (e a consequente tendência em aumentar seu caráter predatório) vêm pautando o papel das grandes corporações, do Estado e da grande mídia na manutenção de um sistema de exclusão econômico-política real da maioria. Um exemplo é o Occupy Wall Street (OWS) e suas derivações por todos os EUA que, conquanto que usem e abusem das novas possibilidades de conexão e distribuição de mídia disponíveis no mundo virtual, convocam greves gerais, boicotes às grandes empresas, realizam assembleias ao ar livre (com presença de movimentos sociais de todas os matizes, partidos de extrema esquerda etc.) e apontam para uma democracia horizontal (“We are the 99%”). A resposta do Estado – atuando com apoio explícito das corporações – a esses movimentos tem sido dura, dado as demonstrações violentas de desocupação pela polícia, as prisões em massa, e demais arbitrariedades.[19]

Não podemos nos esquecer de que o “pós-modernismo”, hoje (ainda) considerado theoretical chic por boa parte da academia, já possui nada menos que 20 anos de disseminação na realidade cultural brasileira. Não é pouco tempo. Assim, cabe a pergunta: no mundo global volátil e randômico, dado a crises e mudanças repentinas, ao sabor do fluxo virtual de ideias, não seria a política de “esquerda nos eixos” que estaria perdendo o “bonde da história”?

Responder

Gerson Carneiro

11 de agosto de 2013 às 07h23

E as vozes dissidentes de ex-moradores da casa, aonde estão? É fundamental que ouçamo-las. Análises acadêmicas muitas vezes não são suficientes para traduzir a realidade fática. Vide tudo que já se falou sobre o pavão Joaquim Barbosa.

Responder

von Narr

10 de agosto de 2013 às 21h22

Arbex tem razão. É por isso que sempre tive nojo de Adorno, Horkheimer e toda essa cambada da Escola de Frankfurt, incluindo satélites como Benjamin, Marcuse e Habermas. O motivo é que essa camarilha foi financiada por um comerciante milionário. Um sujeito que ficou rico com comércio internacional de cereais argentinos e que por causa da conta bancária elevada certamente passou a abominar o marxismo e a negar as lutas de classes e portanto a Escola de Frankfurt negava as lutas de classes e portanto Adorno e Benjamin foram defensores nas formas mais brutais do capitalismo e, com consequência óbvia, do nazi-fascista. O raciocínio de Arbex é primoroso.

Responder

nigro

10 de agosto de 2013 às 18h53

O que? Revolução social? Tá brincando né?

Responder

FrancoAtirador

10 de agosto de 2013 às 18h09

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O texto abaixo foi escrito há 95 anos (*).

Acredito eu, porém, que algumas premissas,

nele constantes, ainda são verdadeiras.
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O NOSSO MARX

Por Antonio Gramsci, no Semanário ‘Il Grido del Popolo’ [O Grito do Povo]

Somos marxistas? Existem marxistas?

Estupidez, somente tu és imortal!

A questão será provavelmente retomada nestes dias, em função do centenário do nascimento de Marx, e fará correr rios de tinta e de tolices.

A retórica vazia e o bizantinismo são uma herança permanente dos homens.

Marx não produziu uma doutrinazinha, não é um messias que nos legou uma série de parábolas impregnadas de imperativos categóricos, de normas indiscutíveis, absolutas, fora das categorias de tempo e de espaço.

Único imperativo categórico, única norma:

“Proletários de todos os países, unam-se!”.

O dever da organização, a propaganda da obrigação de se organizar e se associar deveria assim ser um critério de discriminação entre marxistas e não marxistas.

É muito e muito pouco: quem, então, não seria marxista?

Mas, na verdade, é isto mesmo: todos são marxistas, um pouco, inconscientemente.

Marx foi grande, sua ação foi fecunda, não porque inventou a partir do nada, não porque extraiu de sua fantasia uma visão original da história, mas porque nele o fragmentário, o incompleto e o imaturo se tornaram maturidade, sistema e tomada de consciência.
Sua tomada de consciência pessoal pode se tornar de todos, já se tornou de muitos: por causa disso, ele não é somente um estudioso, mas também um homem de ação; é grande e fecundo tanto na ação como no pensamento, seus livros transformaram o mundo, assim como transformaram o pensamento.

Marx significa ingresso da inteligência na História da Humanidade, advento da consciência.
(…)
Marx se planta na História com a sólida estatura de um gigante.

Não é nem um místico nem um metafísico positivista, mas um historiador, um intérprete dos documentos do passado, de todos os documentos, não apenas de uma parte deles.

Era este o defeito intrínseco das histórias, das investigações sobre os
acontecimentos humanos: examinar e levar em conta somente uma parte dos documentos.
E esta parte era escolhida não por critérios históricos, mas pelo preconceito partidário, ainda que isso fosse feito inconscientemente e de boa fé.
As investigações tinham como fim não a verdade, a exatidão, a recriação integral da vida do passado, mas a ênfase numa determinada atividade, a valorização de uma tese apriorística.

A história era apenas domínio das idéias.
O homem era considerado como espírito, como pura consciência.
Duas conseqüências errôneas derivavam desta concepção:
as idéias valorizadas eram, com freqüência, idéias apenas arbitrárias, fictícias, enquanto os fatos aos quais se dava importância eram mero anedotário, não história.
Se foi escrita história, no sentido real da palavra, isso se deveu a intuições geniais de indivíduos isolados, não a uma atividade científica sistemática e consciente.

Com Marx, a História continua a ser domínio das idéias, do espírito, da atividade consciente dos indivíduos isolados ou associados.
Mas as idéias, o espírito, ganham substância, perdem sua arbitrariedade, não são mais fictícias abstrações religiosas ou sociológicas.
A sua substância está na economia, na atividade prática, nos sistemas e nas relações de produção e de troca.
A história como evento é pura atividade prática (econômica e moral).

Uma idéia se realiza não enquanto é logicamente coerente do ponto de vista da pura verdade, da pura humanidade (que existe somente como programa, como finalidade ética geral dos homens), mas enquanto encontra na realidade econômica sua justificação, o instrumento para afirmar-se.

Para se conhecer com exatidão quais são as finalidades históricas de um país, de uma sociedade, de um agrupamento, é preciso conhecer, antes de mais nada, quais são os sistemas e as relações de produção e de troca daquele país, daquela sociedade.

Sem este conhecimento, será possível redigir monografias parciais, dissertações úteis para a história da cultura; será possível recolher reflexos secundários, conseqüências longínquas, mas não se fará história, não se conseguirá apreender o núcleo da atividade prática em toda a sua solidez.

Os ídolos caem de seus altares, as divindades vêem dissipar-se as nuvens de perfumado incenso.
O homem adquire consciência da realidade objetiva, apodera-se do segredo que move a sucessão real dos eventos.
O homem conhece a si mesmo, sabe o quanto pode valer sua vontade individual e como ela pode se tornar poderosa na medida em que, obedecendo à necessidade, submetendo-se a ela, termina por dominar a própria necessidade, identificando-a com a finalidade que ele mesmo se propõe.

Quem conhece a si mesmo?
Não o homem em geral, mas aquele que conhece o jugo da necessidade.
A busca da substância histórica, o estabelecimento dessa substância no sistema e nas relações de produção e de troca, revela que a sociedade dos homens está cindida em duas classes.

A classe que detém o instrumento de produção já conhece necessariamente a si mesma, tem a consciência (ainda que confusa e fragmentária) de seu poder e de sua missão.
Tem finalidades individuais e as realiza através de sua organização, friamente, de modo objetivo, sem se preocupar com o fato de seu caminho estar coberto por corpos extenuados pela fome ou por cadáveres produzidos nos campos de batalha.

A sistematização da causalidade histórica real adquire valor de revelação para a outra classe, torna-se princípio de ordem para o imenso rebanho sem pastor.
O rebanho adquire consciência de si, da tarefa que deve efetivamente cumprir para que essa outra classe se afirme, adquira consciência de que suas finalidades individuais não passarão de puro arbítrio, de pura palavra, de veleidade vazia e pretensiosa enquanto ela não detiver os instrumentos, enquanto a veleidade não se transformar em vontade.

Voluntarismo?
A palavra não significa nada, ou é usada no significado de arbítrio.

Vontade, do ponto de vista marxista, significa consciência da finalidade, o que, por sua vez, significa noção exata do próprio poder e dos meios para expressá-lo na ação.
Significa portanto, em primeiro lugar, distinção, diferenciação da classe, vida política independente daquela da outra classe, organização compacta e disciplinada visando às suas próprias finalidades específicas, sem desvios ou vacilações.

Significa impulso retilíneo para a finalidade máxima, sem excursões pelos verdes prados da cordial fraternidade, sem nenhuma ternura pela grama verde e pelas doces declarações de estima e de amor.

Mas é inútil a expressão “do ponto de vista marxista”; aliás, ela pode dar lugar a equívocos e a exageros vazios e verborrágicos. “Marxistas”, “do ponto de vista marxista”: expressões tão desgastadas como moedas que passaram por várias mãos.

Karl Marx é para nós mestre de vida espiritual e moral, não um pastor brandindo o seu cajado.
É aquele que sacode a preguiça mental, que desperta as boas energias que dormiam e que devem ser mobilizadas para o bom combate.
É um exemplo de trabalho intenso e tenaz para atingir a clara honestidade das idéias, a sólida cultura necessária para não dizer palavras vazias, abstrações.
É bloco monolítico de humanidade que sabe e pensa, que não pensa duas vezes para falar, que não põe a mão no coração para sentir, mas que constrói rigorosos silogismos que captam a realidade em sua essência e a dominam, que penetram nos cérebros, que fazem ruir as sedimentações de preconceitos e idéias fixas, que fortalecem o caráter moral.

Karl Marx não é para nós nem o bebê que chora em seu berço nem o homem barbudo que apavora os sacristãos.
Não é nenhum dos episódios anedóticos de sua biografia, nenhum gesto brilhante ou grosseiro de sua aparente animalidade humana.

É um vasto e sereno cérebro humano, é um momento individual da trabalhosa busca secular que a humanidade empreende para adquirir consciência do seu ser e do seu devir, para apreender o ritmo misterioso da história e dissipar o mistério, para ser mais forte em seu pensamento e em sua ação.

É uma parte necessária e integrante de nosso espírito, que não seria o que é, se Marx não tivesse vivido, se não tivesse pensado, se não tivesse feito eclodir centelhas de luz com o impacto de suas paixões e de suas idéias, de suas misérias e de seus ideais.

Ao glorificar Karl Marx no centenário de seu nascimento, o proletariado internacional glorifica a si mesmo, sua força consciente, o dinamismo de sua agressividade conquistadora que vai desmontando a dominação do privilégio, preparando-se assim para a luta final que irá coroar todos os esforços e todos os sacrifícios.

(*) Escrito em 4 de maio de 1918, por ocasião do centenário de Marx, nascido em 5 de maio de 1818.

(http://laurocampos.org.br/portal/images/stories/documentos/revista2/Marx_e_Lenin_segundo_o_jovem_Gramsci.pdf)
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Responder

ANTÔNIO ALBERTO (Pe. Alberto) MENDES FERREIRA

10 de agosto de 2013 às 16h49

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Acredito que através dos ” meios culturais/informativos/formativos “, porque seu acesso ficou mais democratizado/popularizado, fica mais fácil conhecer e, assim, desarticular as ” garras ” do Capital para Socializá-lo.
Então ” os meios culturais ” devem ser o foco de atenção e ação dos revolucionários pó-modernos.
Avante Mídia Ninja e F d E !!!

Responder

Pedro

10 de agosto de 2013 às 16h17

Capitalista nunca perde se esta apoiando fora do eixo tem lucro!

Responder

abolicionista

10 de agosto de 2013 às 16h17

Acho que é preciso criticar e apoiar ao mesmo tempo o Fora do Eixo. É preciso apontar as contradições do movimento e suas potencialidades. Afinal, a política partidária também não está fora do capitalismo. Gostei de ambos os textos e acho que é possível superar as duas posições antagônicas. O Fora do Eixo corre sim o risco de se tornar um modelo de trabalho precarizado. Contudo, ele ainda é mais do que isso. Ele pode ser a diferença entre o sucateamento da juventude e sua subsistência política em tempos de pós-fordismo e de trabalho precário. Não se pode desperdiçar a capacidade gregária desse movimento, nem se deixar levar pelo canto da sereia de sua ideologia pós-moderna, com claras tintas deleuzianas.

Responder

    Leo V

    10 de agosto de 2013 às 21h11

    A questão central é que o FdE não é um movimento.

    Não há contradições no FdE desde que se encare que trata-se de um empreendimento econômico, que mistura pós-fordismo com relações pré-capitalistas.

    abolicionista

    13 de agosto de 2013 às 17h20

    Até que ponto o mesmo não poderia ser dito de nossos atuais partidos políticos…

FrancoAtirador

10 de agosto de 2013 às 15h45

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Pode-se até discutir os propósitos econômicos do Fora do Eixo,

mas, politicamente, a forma de organização coletiva implementada

mina internamente a dinâmica capitalista, sendo marginal a ela.

É uma possibilidade alternativa que não deveria ser descartada.
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Responder

    Leo V

    10 de agosto de 2013 às 21h13

    O que vc quer dizer com ‘forma de organizaçao coletiva’.

    Toda empresa capitalsta é uma forma de organização coletiva.

    Quais são as relações internas do FdE que minariam o capitalismo?

    Por relato de pessoas que fizeram parte ou estudaram o FdE, há hierarquia, assédio moral etc, tudo igual ou pior às empresas convencionais.

    FrancoAtirador

    11 de agosto de 2013 às 14h54

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    Falei em tese, caro Léo V.
    Não entrei no mérito.
    Em relação à forma, há equívoco na sua avaliação.
    Poderia até se comparar com uma ‘corrente TelexFree’,
    mas jamais com uma empresa nos moldes convencionais.

    Um abraço camarada e libertário.
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    Lucas Gomes

    11 de agosto de 2013 às 00h28

    acho que você não andou lendo os relatos que foram escritos recentemente a respeito da verdadeira organização interna do FdE.

    FrancoAtirador

    11 de agosto de 2013 às 15h10

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    Caro Lucas Gomes.

    Só porque há má administração ou vícios na execução,

    não significa que a forma não possa ser aproveitada.

    Um abraço camarada e libertário.
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    lukas

    11 de agosto de 2013 às 11h23

    Fora do Eixo é o indie estatal. É fácil ficar a parte do capital e usar o Estado para seus projetos. O dinheiro dos desdentados paga.

    FrancoAtirador

    11 de agosto de 2013 às 12h07

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    Tens razão Lukács.

    Ricos não pagam impostos no Brasil.

    Ou porque a Lei os isentam,

    Ou porque o Governo os desoneram,

    Ou porque sonegam mesmo.

    Vide Rede Globo de Televisão.
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Elias

10 de agosto de 2013 às 15h09

“Toda esta gente a dormir sossegada, é curioso, mas deixá-lo, não tarda aí um novo 1889. Estamos fatigados de constituicões, de cartas, de sutilezas, de mentiras. Ah! Se eu tivesse um jornal ou uma tribuna, como eu abalava tudo isto. Mas para qualquer empresa é preciso dinheiro. Que miséria. Ser filho de um taberneiro e perder a mocidade em busca de pão.” (Gustave Flaubert – Educação Sentimental)

Fora do Eixo: Revolução ou “empreendedorismo radical”?

Resposta: Para qualquer empresa (no sentido de empreender, de objetivar uma tarefa) é preciso dinheiro. A revolução pode ser o resultado ou não do objetivo. O Fora do Eixo e o Mídia Ninja, no mínimo, abriram o debate e mexeram nos alicerces dos que se apoiam na solidez. E bem antes de Marshall Berman, Marx já havia dito que “tudo que é sólido desmancha no ar”. O modelo de mídia que hoje persiste é decrépito e agonizante. Portanto, a meu ver, essa rapaziada está à frente inclusive de nós mesmos que nos consideramos progressistas por exigirmos uma nova lei dos meios de comunicação. Eles não estão pedindo licença, estão dizendo: – Dá licença! Sai da frente! Deixe-nos trabalhar a verdade pura e crua.

Responder

Coletivo de Video Popular

10 de agosto de 2013 às 12h15

Caros. Venho ressaltar a quantidade de textos que já existiam criticando o Fora do Eixo. Estes que dizem que só estamos criticando porque o grupo ganhou notoriedade, saibam que fazem o mesmo papel daqueles que diziam que o Brasil acordou quando já havia muita gente séria e movimento social lutando sem se dar o luxo de descansar.

Os links (todos anteriores ao fenômeno mídia NINJA):
http://passapalavra.info/2011/… (de 17/06/2011)
http://passapalavra.info/2011/… (de 22/06/2011)
http://passapalavra.info/2012/… (de 02/02/2012)
http://passapalavra.info/2013/… (de 18/02/2013)
http://passapalavra.info/2013/… (de 22/02/2013)
http://passapalavra.info/2013/… (de 24/02/2013)
http://passapalavra.info/2013/… (de 03/03/2013)

Responder

André Vieira

10 de agosto de 2013 às 11h03

Tive que rir diante desta frase:

“O texto de Youssef não teria a menor impor­tância, se ele não fosse expressão de um processo em curso, no Brasil e em todo o planeta, de cooptação de amplos setores da juventude e da es­querda para políticas de conciliação e abandono da guerra ao capital.”

Guerra ao capital, querido?

Em que ano ele está? Em 1987?

Hoje, em 2013, nem mesmo a China comunista fala mais em “guerra ao capital”. Até a China comunista já amadureceu o suficiente para entender que a melhor forma de melhorar de fato as vidas de centenas de milhões de pessoas é DOMESTICAR o capital, HUMANIZAR o capital, e não “fazer guerra” a ele.

O Lulismo, inteligentemente, também já percebeu isso.

As ideologias radicais dos séculos XIX e XX já mostraram todo os seu fracasso, e o século XXI certamente pertence às ideologias conciliatórias e moderadas. Os jovens do século XXI não tem tempo a perder com ideologias radicais mofadas e fracassadas do século passado.

A noção absurda de que “não é possível conciliar os interesses de trabalhadores e patrões” já foi humilhantemente desmentida pelos fatos dos últimos 15 anos no Brasil e no mundo, que provaram por A mais B que tal conciliação é possível e necessária, e tem tido grande sucesso.

O Lulismo é o futuro. O “marxismo revolucionário” é o passado mofado.

Responder

    abolicionista

    10 de agosto de 2013 às 16h09

    Fukuyama reloaded.

    abolicionista

    11 de agosto de 2013 às 10h35

    Por falar em argumento mofado, o próprio Fukuyama admitiu que estava errado ao preconizar o “fim da história”. De todo modo, o que aparentemente não tem fim é a estupidez neoliberal.

    Matheus

    10 de agosto de 2013 às 19h53

    “Conciliatórias e moderadas”, imagino, como a “tolerância zero” de mãos dadas com o culto do Deus-Mercado, a “guerra ao terror”, o “regime de austeridade”, o extremismo étnico e religioso.

    Não, rapaz, não há mais lugar para “conciliação” e “moderação”, que só servem para cobrir com véus o antagonismo real. Num contexto de extrema desigualdade e de crise, falar de “conciliação” é basicamente escarrar na cara dos mais desfavorecidos e explorados.

    Se o século XXI trouxe algo, vou o aprofundamento do estado de exceção, através de políticas com apelidos diversos, mas que em todo caso usam meios violentos e tem como resultado o aprofundamento dos privilégios e exclusões sociais.

    sergio martins

    10 de agosto de 2013 às 20h32

    Finalmente um texto de alguém com lucidez. Obrigado!

    Al Anarquista

    10 de agosto de 2013 às 21h14

    Sinto muito meu caro. Seu discurso só prova o seguinte: O Capital (com C maiúsculo mesmo) ganhou. Essa grande carroça velha chamada capitalismo vai continuar rangendo e se movendo indefinidamente enquanto não se entender o seguinte: é necessário o TOTAL abandono das regras do jogo em que se dá o capital; é necessário o fim da vida como mercadoria; tratar a “cultura” como uma não muda nada… mesmo que seja uma “mercadoria” gratuita ou trocada por “cubos”… ainda é mercadoria. A situação se agrava. O tempo urge, e a humanidade ainda não entendeu que precisa reformular o jogo, das regras aos jogadores; isso inclui o velho e esse pseudo-novo. É só um novo personagem no velho jogo de poder. Essa é a crítica do Arbex, não sacou? porque você pode não acreditar “no capital”, mas pode ter certeza que ele acredita em você!!!! O lulismo é sim o futuro… mas é o futuro que queremos? afirmar que é melhor que os velhos pulhas direitistas é pouco, temos de exigir mais!!! o lulismo (e o dilmismo) estão FODENDO muita gente cara… vide os povos indígenas, vide os próprios movimentos sociais abandonados pelo PT, e que por sua vez repudiam o próprio FdE… porque em matéria de cooptar esses caras são realmente NINJAS!!! NOTA: não acredito de verdade que FdE e PT tenham grandes relações, para além daquelas ideológicas, mas acho que tá bom, não?

Mameladov

10 de agosto de 2013 às 07h44

Os “setores da esquerda” contrários ao modelo proposto por Capilé, são aqueles que se beneficiam da existência do modelo atual, criado pela direita. Seria impossível de acontecer?

Responder

Neotupi

10 de agosto de 2013 às 01h41

Para o Arbex, lugar de jovem pobre é só no “coletivo” do canteiro de obras, como peão, ou na enxada no campo.
Que mal há em um jovem da periferia que gosta de arte viver numa casa de um coletivo em vez de viver no alojamento de um canteiro de obras ou em um acampamento ou assentamento agrário?
Bendito lulismo que apoiou com políticas públicas coletivos como o Fora do Eixo (com suas virtudes, seus defeitos e seus erros). Afinal gerar empregos e renda dignos, seja na construção civil, seja na agricultura familiar, é muito bom, mas gerar também na indústria cultural e agora midiática também é importante, numa sociedade cada vez mais de serviços.

Responder

    FrancoAtirador

    10 de agosto de 2013 às 18h49

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    Às vezes, o dogmatismo impede uma visão clara da realidade social

    e até obscurece a percepção das transformações no tempo e no espaço.

    “A revolução proletária é expansiva, não repressiva. Nela se verifica um contínuo movimento de baixo para cima, um contínuo intercâmbio através de todas as capilaridades sociais, uma contínua circulação de homens”
    (Gramsci, 1924)
    .
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Marcellus

10 de agosto de 2013 às 01h03

Olha, José Arbex Jr. provou realmente que não se inclui na “política pós-rancor” pois, percebe-se, é cheio de rancor pra dar. Sua menção ao que chama de “lulismo” expressa ressentimento anacrônico e falta absoluta de sensibilidade sobre o que foi possível levar da esquerda a um governo eleito pelo voto popular, num país dominado pela direita desde que foi descoberto. Talvez preferisse o “Sapo Barbudo” disputando eleições até hoje e perdendo para os Alckmins e Serras da vida, mãos dadas a figuras como Plínio de Arruda, mui macho em declarações em que enfrenta o capital no terreno do gogó. Vai lá e faz. Lula é diplomático e conciliador e desmerecer ou não enxergar as conquistas sociais de seu governo é extremamente leviano.

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Seabra

09 de agosto de 2013 às 22h22

Arbex, se você acha que o lulismo é reacionário, vá passar uma semana na sacrossanta terra do perillampismo…ditadorzinho que até a Operação Monte Carlo era tido como provável candidato à presidência da república. Por isso o carlinhos investiu alto nele e no comparsa dele, capa da Veja, arauto da ética, que perdeu a boca no senado mas não perdeu o rebolado.

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    José X.

    12 de agosto de 2013 às 12h41

    Não precisa ir até o Perillo…pode parar em Minas, governado com mãe de ferro por Andrea Neves…ou quem sabe São Paulo, onde o Serra foi um perfeito ditador (só faltou o bigodinho) e o Alckmin Pinheirinho (lembram ?) não fica atrás.

    Infelizmente o pessoal da extrema esquerda é muito burro…quer ganhar na força, quando não tem a força. No Brasil de hoje, existem 3 polos das forças reacionárias: a Globo (o resto do PIG não vale nada sem ela, assim como o PSDB), e o judiciário e o ministério público. Ao invés de combater esses polos reacionários o que fazem os radicais de esquerda ? Combatem os polos reformistas (PT, especialmente), que, mal ou bem, conseguiram fazer alguma diferença positiva nos últimos 10 anos. Burrice elevada ao cubo.


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