VIOMUNDO

Diário da Resistência


Emir Sader: O enigma político da Argentina
Política

Emir Sader: O enigma político da Argentina


29/12/2012 - 21h44

por Emir Sader, no seu blog em Carta Maior

Se a situação argentina tem suas complexidades, ela se torna completamente incompreensível à luz da cobertura que a mídia brasileira – que se pauta pela mídia de direita da Argentina – faz. Não conseguiram entender por que Nestor Kirchner e não Carlos Menem se elegeu presidente, por que Cristina se elegeu como sucessora dele e se reelegeu em seguida. É tal a visão catastrófica que se transmite da Argentina, que não conseguem dar conta de por que Cristina se reelegeu no primeiro turno.

A Argentina sofreu uma das modalidades mais radicais de neoliberalismo na América Latina. Depois de duas crises de hiperinflação, Menem impôs uma solução radical e artificial ao problema: por um decreto se estabelecia a paridade entre o peso e o dólar. A Argentina renunciava a ter política monetária, ficando a cotação da sua moeda atrelada à do dólar, definida pelo Federal Reserve dos EUA. Não se emitiria peso se não houvesse entrada de dólares. Subitamente se elevou o poder aquisitivo da moeda e dos argentinos, de maneira totalmente artificial, numa bomba de tempo que não poderia demorar para explodir.

Os candidatos temiam prometer que terminariam com a paridade, porque todo argentino sabia que teria os seus pesos enormemente desvalorizados, porque os depositava considerando que teriam o correspondente em dólares. Se podia comprar carros em prazos longos, sem juros, com a fantasia da paridade, mas a dívida era assinada em dólares. Ainda mais que todos foram se endividando, apoiados na paridade e na confiança de que esse esquema não seria alterado.

Menem, como todos os presidentes neoliberais latino-americanos, saiu derrotado e deixou a bomba de tempo explodir nas mãos de Fernando de la Rua, do Partido Radical. A paridade terminou, houve uma espécie de rebelião popular cobrando dos bancos seus depósitos, que tinham passado da paridade com o dólar, para 4 a 1. De la Rua saiu rapidamente de helicóptero da Casa Rosada, depois de reprimir manifestações em Buenos Aires, com 27 mortos no centro da cidade.

Depois da instabilidade institucional, com várias pessoas sucedendo-se na presidência em poucos dias, nas eleições Menem ganhou no primeiro turno, prometendo que dolarizaria totalmente a economia argentina (o que levaria ao desastre a Argentina e inviabilizaria qualquer processo de integração da região). Diante da evidente derrota para Nestor Kirchner no segundo turno – pelos apoios que este recebeu dos outros candidatos -, Menem se retirou e Kirchner foi eleito.

Kirchner conseguiu recuperar a Argentina do maior desastre econômico e social da sua história, fazendo com que a economia crescesse a ritmos anuais de entre 6 e 9% ao ano, durante cerca de 8 anos. Mas arrastou problemas da herança do Menem.

Entre estas, uma dívida descomunal e a privatização de todo o patrimônio público – entre ele, o da YPF, que tinha obtido a autossuficiência em petróleo para a Argentina. O governo Kirchner impôs a renegociação dos papeis da dívida, que foi aceito por grande parte dos seu proprietários. Mas os restantes 8% bloqueiam até hoje o acesso da Argentina a créditos internacionais.

Outra herança foi o déficit energético, que fez com que o governo passasse a subsidiar o consumo de energia e a importá-la, que se tornou um peso brutal nos gastos públicos.

Mas a Argentina retomou ritmos altos de crescimento – mesmo se agora muito dependente da exportação de soja – e os Kirchner consolidaram os apoios populares a seus governos, mesmo diante de ofensivas da direita – como a dos proprietários de soja, quando o governo decretou aumento nos impostos sobre exportação.

A conjuntura atual é a condensação de uma série de questões pendentes. Por exemplo: a manifestação de 8 de novembro passado reuniu basicamente setores da classe media da cidade de Buenos Aires, com os lemas contrários à reeleição da Cristina e contra a aplicação da Lei de Meios. No ano que vem, haverá eleições parciais para o Congresso. Se Cristina obtiver 2/3 dos votos – objetivo difícil – poderá submeter a revogação da Constituição, para se candidatar a um terceiro mandato.

Caso não o consiga, se abre um cenário muito complexo, porque não há um candidato à sua sucessão indiscutível entre as forças que a apoiam e pode se abrir uma disputa que dividirá ainda mais o peronismo. Um candidato conservador dentro do peronismo – Scioli, governador da província de Buenos Aires – se lançou e tem o apoio de setores opositores a Cristina dentro do peronismo.

A Lei de Meios tinha no dia 7 de dezembro uma data chave, porque terminava o prazo do recurso que o grupo Clarin havia conseguido na Justiça para adiar a aplicação da lei de democratização, pela qual o grupo terá que se desfazer da longa lista de canais a cabo que tem – 254 – para ficar com 24, que é o que permite o caráter antimonopólico da nova lei.

Seguiu-se uma greve e outras manifestações protagonizadas pelo setor da CGT que se opõe ao governo de Cristina – dirigido por Moyano, pelo setor da CTA de ultraesquerda, além da Federação Agrária, que congrega os produtores de soja. Com reivindicações basicamente salariais, mas com um tom político fortemente opositor, apontando para um bloco de forças que pode vir a se coesionar para tentar bloquear os 2/3 que Cristina busca no Parlamento e, depois lançar um candidato – talvez o próprio Scioli – em 2014.

A economia argentina perde fôlego, vulnerabilizada pelas dificuldades de financiamento externo, pela diminuição do ritmo de crescimento do Brasil – seu principal mercado – pela inflação real, pelos déficits orçamentários – em boa parte advindos dos subsídios à energia. O clima de bonança que cercou a reeleição de Cristina – que, além disso, conseguiu promover um processo de mobilização de setores jovens do peronismo, a partir da morte de Nestor e das comemorações do bicentenário do país – passou.

Uma espécie de inferno astral abateu-se sobre o governo, somando-se às mobilizações da oposição. Houve a apropriação de um navio argentino por um mandato de uma instância judicial norte-americana pelo não pagamento de parte da dívida argentina, além de uma ordem de uma outra instância judicial dos EUA, que buscava obrigar o governo argentino a primeiro pagar esse monto pendente, antes de seguir pagando as cotas aos que aceitaram renegociar a divida.

Estas duas últimas questões foram superadas – pelo menos temporariamente. O governo intensificou a ofensiva contra o Clarin, tudo indica que possa colocar em prática a desmonopolização do grupo, mesmo se os prazos se alongarem. Ao mesmo tempo, recuperou para o Estado o espaço que ocupava a Sociedade Rural Argentina, depois de ter nacionalizado a YPF, privatizada pelo governo Menem.

Os embates entre o governo e a oposição seguirão em várias frentes: a externa, aquela aglutinada por forças sindicais e a do Clarin e os setores de direita que apoiam a esse grupo. Se a soma das frentes causa problemas do governo, sua heterogeneidade faz com que tenham dificuldade de traduzir em força política unificada por uma candidatura presidencial competitiva.

Caso Cristina não possa concorrer e o governador da província de Buenos Aires unifique as forças hoje dentro e fora o governo, especialmente do campo peronista, a sucessão argentina de 2014 será uma dura prova para a continuidade do governos dos Kirchner.Uma prova para a capacidade de Cristina de construir um sucessor que possa dar continuidade aos governos que resgataram a Argentina do caos herdado já há quase 10 anos.

O primeiro capítulo dessa disputa dominará o cenário político de 2013: as eleições parlamentares e a possibilidade do governo obter 2/3, reformar a Constituição e Cristina se candidatar a um terceiro mandato. Essa disputa define o cenário da sucessão presidencial de 2014.

Leia também:

Laurindo Leal: Mídia brasileira teme que Dilma encarne Cristina

Rafael Correa: “Campanha permanente para desacreditar presidentes”

Renaud Lambert: Os barões da mídia e a defesa do neoliberalismo

La Rue: Lei argentina quebra um monopólio local

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.

Por Laurindo Lalo Leal Filho



14 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Fabio

31 de dezembro de 2012 às 11h49

Será que só fechando um jornal a vida dos Argentinos vai melhorar, ou depois disto vão ter que inventar outro “bode expiatório”.

Responder

    Sávio Sobreira

    31 de dezembro de 2012 às 16h01

    Fábio, você não entendeu nada…

    Abel

    31 de dezembro de 2012 às 20h58

    Se fosse só UM jornal… :)

Cláudio

31 de dezembro de 2012 às 08h14

Viva a Argentina, por, entre outras coisas, a coragem de Cristina e a Ley de Medios. Que los hermanos continuem bem, seguindo adelante, com a mesma coragem.

Feliz 2013-13-13 ! ! !

Responder

Erico Nepomuceno: Clarin, o leviatã midiático « Viomundo – O que você não vê na mídia

30 de dezembro de 2012 às 18h31

[…] Emir Sader: O enigma político da Argentina […]

Responder

Narr

30 de dezembro de 2012 às 17h15

A satisfação com que o PIG tem noticiado insatisfação sindical com a Dilma é sintomático. Claro, não se pode pedir aos trabalhadores que apertem o cinto. Para a ultraesquerda, derrubar Dilma e eleger Aecio teria o aspecto positivo da iniciativa popular, “infelizmente hegemonizada pela burguesia”.

Responder

Urbano

30 de dezembro de 2012 às 14h16

Olha o leitor da veja e teleaudiente da groubonoma aí geeeente… Na hora do lazer dominical ainda assiste o chatão. Daí o pessimismo gritante, que não creio que seja uma coisa endógena.

Responder

Messias Franca de Macedo

30 de dezembro de 2012 às 12h04

Ínclito mestre Emir Sader, vamos torcer para o governo da presidente Cristina Kirchner superá as [complexas] adversidades…

… No entanto, com todo o respeito, neste contexto a Argentina não é aqui! Exemplo mais recente:
Brasil prepara plano para ampliar mão de obra estrangeira

O governo quer fazer do Brasil um país mais aberto a imigrantes estrangeiros do que nações como Canadá e Austrália, famosas por buscar ativamente esse tipo de mão de obra.
(…)
COMPETITIVIDADE
Segundo *Paes de Barros, por causa da complexidade do processo, muitas empresas no país nem tentam contratar estrangeiros, apesar de não encontrarem um funcionário de qualificação semelhante no Brasil. “A dificuldade de trazer imigrantes qualificados afeta a competitividade do Brasil”, diz.
(…)

*Ricardo Paes de Barros, secretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1207957-brasil-prepara-plano-para-ampliar-mao-de-obra-estrangeira.shtml

Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá…(4x)
(…)
Mesmo a quem não tem fé
A fé costuma acompanhar
Oh! Oh!
Pelo sim, pelo não…
(…)
Olêlê, vamos lá!

Andá com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá…(4x)

Andar com Fé
Gilberto G(ênio)il

EM TEMPO: o Brasil vai “bombar” em 2013! Podem apostar!…

BRASIL (QUASE-)NAÇÃO
Bahia, Feira de Santana
Messias Franca de Macedo

Responder

Marcelo de Matos

30 de dezembro de 2012 às 11h04

Torço para que a Argentina não passe pelo retrocesso chileno, com a assunção de um empresário salvador da pátria. A política argentina parece ter incríveis peculiaridades. Cristina cogita um terceiro mandato. Terá de contar com 2/3 dos votos na próxima eleição parlamentar para mudar a Constituição. “Caso não o consiga, se abre um cenário muito complexo, porque não há um candidato à sua sucessão indiscutível entre as forças que a apoiam e pode se abrir uma disputa que dividirá ainda mais o peronismo”. Muito estranho. Parece que o peronismo é um movimento de líderes carismáticos. No Brasil será fácil escolher o sucessor de Dilma após seu provável segundo mandato. Esse negócio de prévia e democracia partidária não colou. Se Lula estiver vivo e consciente será consultado. Por sua vez, nosso guia consultará o marqueteiro mais chegado – João: lançamos o Mercadante ou um nome novo? E tudo se resolverá sem conflitos. Nesse particular, o PT tem demonstrado incrível coesão e as divergências pessoais sucumbem diante do objetivo comum.

Responder

Pedro luiz

30 de dezembro de 2012 às 10h19

É o conservadorismo Latino -Americano que joga pesado contra os governos ditos de “esquerda”. Se observarmos os governos da América que tentam não estar totalmente afinados com os EUA e EUROPA sofrem com a elite reinante Nativa, a imprensa, ainda alguns setores do pensamento” nacionalista” e a imprensa pois se endurecer é ditadura, se práticar a “democracia” eles aproveitam e tantam desmoralizar o governo perante a população.O domínio do fato está no judiciário;o fato se sobrepõe ao investigativo no jornalismo. O congresso está desacreditado e em embate com o STF.Até poetas escritores, professores estão a desacreditar o governo que está no poder perante a população.Nem tudo está certo, mas acredito que enem tudo está errado.Ou está?

Responder

Prof. José Carlos

29 de dezembro de 2012 às 22h00

O Emir está preparando o povo brasileira para o fracasso da economia, que, sem dúvida alguma, será creditado à herança maldita de.. FHC!

Responder

    Marcelo de Matos

    30 de dezembro de 2012 às 10h45

    As cassandras atacam no limiar do Ano Novo.

    Jotaroberto

    30 de dezembro de 2012 às 13h06

    Voce é professor do que?

    Scan

    30 de dezembro de 2012 às 15h45

    Não sei não, mas tenho dó dos alunos…
    Já perceberam que todo picareta se intitula “professor” ou “doutor”?


Deixe uma resposta para Marcelo de Matos

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Loja
Compre aqui
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.