VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

A polícia subiu o morro trazendo Kibon e Itaipava


26/05/2014 - 12h07

Por Caio Castor, do Rio de Janeiro, especial para o Viomundo

A “pacificação” e a Kibon.

“Eu vejo o papai-noel, 

passando na favela, 

os três porquinhos, os sete anões

branca de neve e a cinderela.

Ví vários duendes, jogando futebol, 

bebendo whyski com red, 

só antártica, skol.

Eu vejo um hambúrguer

com as carne se mexendo.

E os vascaíno,

torcendo pro Flamengo.

Eu vejo o Tiririca

beijando a Hebe Camargo.

E uma tartaruga

dançando com cavalo.”

O surrealismo-fantástico da música cantada durante o enterro do Douglas Rafael da Silva, o Dg, há alguns dias aqui no Rio, ecoava na minha cabeça como um prenúncio do que estava por vir. Chego no morro do Alemão, num sábado de manhã, para encontrar uma amiga pesquisadora e ex-moradora do morro, que me levará para conhecer o famigerado teleférico do Complexo do Alemão.

A música clássica que toca dentro da estação contrasta com o funk que vem de fora. Escárnio e ironia, agora entendo um pouco melhor o sentimento expresso na letra do Dg.

O teleférico foi construído com dinheiro do PAC, custou R$ 210 milhões e é o primeiro transporte de massa via cabos do Brasil. O modelo de (i)mobilidade, assim como o de (in)segurança, ambos foram “deslocados” da Colômbia — onde um teleférico como este existe em Medellin, a terra do cartel da cocaína.

No site do governo do Rio as entrelinhas revelam a intenção por trás do discurso, “construído com o objetivo principal de facilitar a mobilidade dos moradores das comunidades do Complexo do Alemão, o Teleférico se tornou um cartão-postal do Rio de Janeiro e atrai cada vez mais turistas”.

Apelidado carinhosamente de “safari”, o novo meio de transporte da favela chama atenção não só pela novidade, mas também pelas contradições que traz consigo. Fruto de uma malabarística inversão de prioridades, a obra foi recebida pela comunidade com uma mistura de sentimentos que variam entre descrença, revolta e esperança.

Do alto das cabines vermelhas da Kibon as contradições saltam aos olhos.

Embaixo crianças brincam ao lado de um lixão, outras soltam pipas que se enroscam no emaranhado de fios elétricos, o esgoto passa a céu aberto, as casas são milagrosamente equilibradas numa encosta.

Logo na entrada de cada estação um cartaz informa as novas “regras de convivência” do espaço e a que mais chama atenção é a que diz: “É permitido levar volumes nas cabines não ultrapassando o tamanho de 40cm de comprimento, 40cm de largura, por 40cm de altura.”

Uma moradora desabafa: “De que adianta um negócio desse, se a gente tem que subir a pé com as compras?” Não é de espantar que, segundo dados do próprio IBGE, só 11% dos moradores usam o teleférico, muito abaixo dos 70% previstos na inauguração.

Outros moradores reclamam da falta de diálogo, dizem que a maioria da população não foi ouvida e que as decisões vieram, desde o início, de cima para baixo.

“Nem perguntaram nada pra gente, quem disse que o teleférico é a melhor opção de transporte pra cá? E as estações, quem disse que era melhor fazer aqui no Adeus e não na Nova Brasília, por exemplo?”

Por outro lado, o que parece ter funcionado bem foi a entrada do chamado “mercado formal” das grandes empresas.

Moradores relatam que já no primeiro dia de invasão militar, junto com os soldados e tanques vieram os vendedores de TV por assinatura.

A polícia entrou na frente e as empresas atrás, literalmente.

Os intermináveis e perigosos emaranhados de fios da rede elétrica continuam os mesmos, a diferença é que agora a população é obrigada a pagar.

Com a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) chegou também a Light e a “regularização” da luz.

A disputa pelo imaginário da população é travada e a estação que fica no morro do Alemão, morro esse que deu origem ao hoje chamado complexo do Alemão, passa a se chamar estação Alemão/Kibon.

Já no alto e no caminho entre a estação Bonsucesso/Tim e a Itararé/Natura, o visitante pode apreciar algumas “obras de arte” expostas nas lages e telhados das casas.

São obras que fazem parte do “Festival de intervenção urbana” patrocinado pela mesma Kibon.

Já na última parada, a Palmeiras/Itaipava, o visitante encontra sombra e água fresca. Na saída da estação alguns meninos pedem um trocado e são observados de longe por policiais da UPP, que guardam a mais nova base da corporação.

O turista que preferir subir o morro de carro poderá deixá-lo no estacionamento do teleférico, mas terá que dividir espaço com as vagas exclusivas dos comandantes do batalhão. O guia turístico local informa aos mais aventureiros que o passeio completo custa 29 reais e é feito à pé. Um gringo pergunta se não tem perigo.

Do outro lado, barracas improvisadas com madeira oferecem lanches, porções e, claro, cerveja Itaipava.

Sentamos numa dessas barracas para conversar com os vendedores e tomar uma gelada.

Bom dia moça, traz uma cerveja pra gente?
— Só tem Itaipava pode ser?

Não tem outra?
— Não, eles não deixam mais a gente vender outra…

Ah, então pode ser. Mas e o que vocês estão achando disso?
— Olha, o bom é que eles vão derrubar tudo essas barracas de madeira aqui e construir os quiosques, graças a Deus!

Então vocês estão gostando das mudanças?
— Ah, mais ou menos né!? O bom é que eles vão fazer as melhorias aqui, mas com a Antártica a gente ganhava o dobro.

E vocês vão ter que pagar alguma coisa por essas melhorias?
— Ah, vai ter que pagar uma taxa pra eles, pra ajudar com a limpeza, essas coisas né? Vai ser tipo um valor mensal sabe?

Mas pra quem vocês vão ter de pagar?
— Ah, pra associação de moradores ou pra Itaipava, não sei direito..

E qual o valor dessa taxa?
— Também não sabemos ainda, eles não falam as coisas direito pra gente… Mas o bom é que eles vão patrocinar a gente né?

E como é esse patrocínio?
— Ah, eles deram essas cadeiras aí e de vez em quando eles fazem uns eventos pra chamar as pessoas e tal… e também vão pagar uma pessoa pra cuidar da limpeza.

[A produção de conteúdo exclusivo do Viomundo não depende da Kibon, nem da Itaipava, mas exclusivamente de nossos leitores. Torne-se um assinante]

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18 comentários

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angelo

28 de maio de 2014 às 09h19

Classe mérdia, o dr. Frankstein. Forja os latrocidas doentes de amanhã, distribuindo bala pra quem tiver no caminho. Classe mérdia mata sorveteiro, camelô, velhinha passando, transeuntes outros, crianças e, com ‘sorte’, um traficante ‘extremamente perigoso’ que nunca ninguém ouviu falar. As crianças assistindo a tudo isso banalizado. A maioria se resigna e suporta o trauma de uma vida inteira infernizada pela classe mérdia: acorda às cinco da matina, pega trem que descarrila, pega duas conduções lotadas e chega ao trabalho pra ser explorada por um empresario psicopata. Outro percentual, não se sabe de quanto nem nunca quiseram saber, pira no cenário de guerra. Hoje a criança joga bola assistindo ao horrendo espetáculo propiciado pelo Estado assassino, apoiado pela classe mérdia. Amanhã pira e me mata desnecessariamente num latrocínio. Então, Estado burro, corrupto e preguiçoso tratará, mal, da consequência, encarcerando uma pessoa doente. Pra completar a lambança, resolveram privatizar presídios…agora mesmo é que ninguém mais vai falar sério sobre o tema. Sabe-se que até em repartições públicas acreditam em lendas do tipo ‘é preciso manter os problemas para garantirmos nossos empregos’. Sim, é vero, tem burro que pensa assim na adm pública. Capetalismo forjando burros, mentirosos e assassinos.

Responder

    Lukas

    28 de maio de 2014 às 17h36

    Coitado dos bandidos, a culpa é da sociedade.

    Desmascarando o golpe geral

    28 de maio de 2014 às 19h23

    Lukas, vc já é manjado,

Edson J

27 de maio de 2014 às 20h16

Estive algumas vezes no Rio. Andei no teleférico, a primeira vez para conhecê-lo; outras vezes para levar amigos que moram, inclusive, no exterior. Em TODAS as vezes, subi e desci na companhia de habitantes do complexo. NENHUM criticou. TODOS elogiaram quando lhes perguntei a opinião. Prefiro, portanto, as minhas próprias impressões.

Responder

FrancoAtirador

27 de maio de 2014 às 17h32

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Mc Mundo vs Jihad na Copa

McMundo e Jihad constituem
a dialética unidade de contrários
do capitalismo espetacular contemporâneo.
Um não pode viver sem engendrar o outro.

Por Marcos Dantas, na Carta Maior

Embora boa parte dos problemas deva ser debitada a governos estaduais e municipais, o governo Dilma, ao longo da preparação da próxima Copa da FIFA, jogou fora uma inédita oportunidade de introduzir um novo sentido, menos mercantilista, aos esportes e espetáculos.

Explico.

Na já distante década 1960, o pensador francês Guy Debord [1] cunhou a expressão “Sociedade do Espetáculo” [2] para descrever o capitalismo contemporâneo.

Numa sucinta explicação, ele sugeriu que o fetichismo da mercadoria chegara a tal ponto que a mercadoria se dissolvera na sua própria imagem.

O capital já não produzia e vendia, nem as pessoas consumiam, “coisas” enquanto “coisas”, mas “coisas” enquanto imagens ou símbolos das próprias relações entre as pessoas na sociedade mercantil alienada.

De relações entre “coisas”, a humanidade reduzira-se a relações entre “imagens”.

Quando Debord escreveu o que escreveu, Copa do Mundo, Olimpíadas, nem mesmo um show de rock tinham atingido, nem palidamente, as dimensões portentosas que atingem hoje.
E a tela da televisão, mesmo na Europa, ainda não se tornara esse poder mundial onipresente e onisciente que passou a ser desde os anos 1980.

Quase ninguém deu atenção a Debord.
Os economistas nunca quiseram entender a economia do espetáculo.
Os políticos e militantes da esquerda, até hoje, desdenham o tema.
Não entendem, uns e outros, que o espetáculo – no conceito preciso que lhe deu Debord – está no cerne do funcionamento do capitalismo contemporâneo.

O objetivo de uma Copa do Mundo, como esta que acontecerá no Brasil, não é premiar o melhor futebol do mundo.
O objetivo é vender cerveja, tênis, serviços bancários, automóveis, eletroeletrônicos.
É movimentar serviços aéreos, hoteleiros, turísticos.

No nosso caso, cerca de R$ 140 bilhões deverão entrar na economia.

Muitos outros bilhões entrarão nas contas do Japão, dos Estados Unidos, da Alemanha, da Suíça…

É uma dinheirama que gera ou mantém empregos, impostos e, claro, lucros.

Hoje em dia, o capitalismo precisa disso para seguir funcionando.

E para isso, emprega o trabalho vivo, muito bem pago, de atletas, técnicos, outros profissionais, além de, ao mesmo tempo, captar a atenção e emoções de bilhões de pessoas, grudadas nas telinhas e telões, à volta de todo o mundo.

Para essas bilhões de pessoas, Nike é Nike, e assim deve parecer, não importa se se está no Brasil, nos Estados Unidos, no Japão, França, África do Sul, Egito, México ou Austrália.

Budweiser é Budweiser, seja bebida onde for bebida, mesmo se, talvez, o gosto em si não seja tão o mesmo, dependendo do lugar.
Não importa o líquido, não importa o gosto, importa a marca e o que ela representa.

O cientista político estadunidense Benjamin Barber identificou essas bilhões de pessoas ao “McMundo”,
o mundo do MacDonald, da Coca-Cola, da Apple, da Samsumg, do Starbucks, da C&A, das DineyWorlds, do cinema hollywoodiano, dos shopping centers, da língua inglesa;
o mundo do consumo, do exibicionismo individualista;
o mundo, claro, do automóvel, dos condomínios fechados ou bairros diferenciados;
o mundo daqueles que outro estadunidense, Robert Reich, denominou “trabalhadores simbólicos”, mas Antonio Negri e seus seguidores ousam chamar “cognitariado”.

Evidentemente, nesse mundo, poucos são os milionários, mas todos logram, mais ou menos, desfrutar de um padrão de vida quando nada minimamente aceitável, padrão de vida que lhes permite sobretudo gozar das delícias do consumo mediado pelas imagens do espetáculo.

É por demais óbvio que nem toda a população do Planeta, inclusive no Brasil, pode integrar esse maravilhoso McMundo.

Será mais certo dizer que a maioria dele está excluída.
A renda familiar miserável será um fator determinante de exclusão.

Fatores culturais também podem contribuir fortemente.

O McMundo é não somente construção e expressão da cultura ocidental, mas sobretudo da cultura estadunidense.

Nem todo o mundo gosta da cultura estadunidense, sobretudo quando ela arrogantemente se pretende cultura dominante e imperial.
O mundo árabe, por exemplo.

Das formas mais extremadas da resistência árabe à dominação do McMundo, Barber cunhou a metáfora que lhe é contrária: “Jihad”.
Por Jihad, ele não define apenas as manifestações fundamentalistas muçulmanas, mas todo comportamento cultural não só de oposição, mas de negação mesmo do McMundo.

Boa parte dessas manifestações são, de fato, religiosas, são os fundamentalismos de muitos matizes e matrizes:
os cristãos pentecostais ou carismáticos, os judeus tradicionalistas, os hinduístas radicais etc.

Mas Jihad pode significar também os nacionalismos [inclusive dos fascistas xenófobos de Extrema-Direita] regionais ou tribais que explodem em boa parte da Europa (http://migre.me/joteX), na Catalunha, nos Bálcãs, agora na Ucrânia.

O que define a Jihad religiosa, étnica, social é a busca de algum grupo por integrar-se em alguma protetora comunidade imaginada que forneça a seus membros um sentimento gregário, um tanto primitivo, que lhes ajude a enfrentar o ameaçador expansionismo do McMundo.

McMundo e Jihad constituem a dialética unidade de contrários do capitalismo espetacular contemporâneo.

Um não pode viver sem engendrar o outro e sem disputar com o outro.

Não raro, a Jihad está dentro do McMundo como são os muitos casos de separatismos europeus, cujos os agentes sociais, em tudo o mais, levam uma vida que nada os distinguiriam da sociedade do espetáculo.
Veja-se a Catalunha separatista a expressar sua superioridade identitária através de seu bilionário Futbol Club Barcelona.

Outras vezes, a Jihad está na sua periferia, mas fazendo uso intensivo de redes ultramodernas de computadores e smartphones nas suas mobilizações, ou até de jatões Boeings para as suas agressões – sem falar, claro, das AK47 e de todo o restante avançado arsenal a ela fornecido pelos Estados Unidos, França, Rússia…

O McMundo produz a Jihad objetivamente, ao negar a bilhões de seres humanos os prazeres que, no entanto, lhes sugere e instiga a toda hora por meio da televisão, cinema e vitrines.

Também a produz subjetivamente ao agredir, a toda hora, os sentimentos e sensibilidades de bilhões de pessoas com suas imagens hedonistas, individualistas, materialistas.

A FIFA, expressão por excelência do McMundo, organiza um campeonato de futebol para que todo o mundo, literalmente, veja e, mesmo, de certo modo ou muitos modos, dele participe.

Ao mesmo tempo, neste mesmíssimo processo, organiza este mesmo campeonato para deixar claro que o mundo está dividido inequivocamente entre o McMundo e a Jihad.

No “novo” Maracanã não será mais necessário fosso a separar a torcida dos atletas.
Afinal, todos se irmanarão num mesmo espetáculo, melhor se for com o Fred correndo para os braços dos torcedores após um gol.
O fosso ficará do lado de fora, nos limites de uma vasta área, bem protegida e defendida, para dentro da qual só entrará quem tiver o seu devido crachá de McMundo comprado a 500, mil ou 2 mil reais.

Pois foi nessa configuração do capitalismo internacional que o governo Lula resolveu oferecer o Brasil para sediar a Copa do Mundo da FIFA.
O Brasil, graças a um pacote bem sucedido de políticas sociais financiado por uma conjuntura econômica mundial extremamente favorável, vinha se mostrando um país que parecia lograr expandir as fronteiras do McMundo.

Quase 40 milhões de brasileiros e brasileiras haviam ascendido à “classe C”, diziam.
Isto é: haviam alcançado condições de renda suficientes para ingressar no maravilhoso mundo das marcas e espetáculo, ainda que (ou por que) a 24 ou 48 suaves prestações mensais.
Iludiram-se entulhando suas modestas casas ou apartamentos com quinquilharias eletrônicas e entupindo as nossas ruas com automóveis sem IPI.

A violência policial segue aquela dos tempos da ditadura, a mobilidade urbana só piorou. Mas tudo podia ser compensado pela felicidade de viajar de avião, pela primeira vez na vida…

Relações sociais mediadas por imagens é isso.
De preferência, postando um selfie no Facebook…

Ocorre que, a cada quatro anos, a FIFA vem aprimorando um processo iniciado, a rigor, desde quando sua presidência foi assumida justamente pelo brasileiro João Havelange.

Certamente, ele entendeu o extraordinário potencial mercadológico da associação do futebol às marcas mundiais.

A cada Copa, a FIFA aperfeiçoa um regime de negócios que faz do território do jogo, um espaço exclusivo e excludente das marcas que se veiculam nesse jogo.

A Copa tende a virar – ou já virou – o território extraterritorial que o McMundo sempre sonhou.

O McMundo, por definição, não tem pátria, nem nação.

No McMundo não cabem culturas regionais, histórias locais, diversidade.

Não há lugar para o acarajé ou o tamborim no McMundo.

São problemas da Jihad.

As seleções nacionais, aqui, também não passam de grifes exibindo os logotipos da Adidas, Nike, Puma nos corpos de atléticas e artísticas celebridades globais.

A torcida faz parte do espetáculo.
Mas a torcida para o espetáculo: bonita, bem comportada, bem vestida, consumista, uma torcida que, assim como os estádios, ou melhor, “arenas”, há que exibir (nas telas de TV em todo o mundo) o mesmo padrão visual uniformizado global do McMundo.
Torcida fast food.

A Copa da FIFA pode ser no Brasil, na Rússia ou no Qatar… ou nos Estados Unidos.
Desde que seja a Copa da FIFA, não do Brasil ou da Rússia ou do Qatar… ou dos Estados Unidos.

A Copa da FIFA – e da Sony, da Coca-Cola, da Adidas, da Budweiser, de uns tantos outros poderosos detentores monopolistas dos direitos sobre o espetáculo.

É bem provável que no Brasil, bem avaliadas as experiências anteriores, a FIFA tenha chegado ao modelo “perfeito”, já testado antes, com relativo êxito, na África do Sul.

Esqueceu de combinar com os russos, como poderia dizer Garrincha.

Não somente a FIFA: também os governos federal, estaduais, municipais se esqueceram.

Como ao fim e ao cabo, toda atividade humana precisa de um chão, a “arena” torna-se o núcleo irradiador de um espaço de fluxos formado por BRTs (sempre em inglês, por favor!) conectadas a aeroportos, hotéis, territórios turísticos.
E desconectada da cidade. Do País. Da sua sociedade real.

Quando abertas na Copa das Confederações e exibidas para o mundo, a “classe C”, de repente, descobriu que não fora convidada para esta festa.

Como os “rolezinhos” juvenis nos shoppings de subúrbios também mostraram, apenas consumir um pouco mais não implicava dar a ela um assento na arquibancada do McMundo.
Os critérios seletivos do mundo da imagem não considera só dinheiro (de resto, pouco): estética é fundamental.

Some-se a ela, os excluídos de sempre.
Afinal, apesar de alguma melhora beneficiando uma parte da nossa sociedade, boa parte ainda espera por um futuro que não chega e vive um presente cada vez mais duro.

Também temos a nossa Jihad: além dos fundamentalistas religiosos, um enorme lumpensinato urbano que a Copa exigiu colocar sob vigoroso controle.

Estava dado o caldo de cultura que iria resultar nesse clima nervoso, inseguro, pouco festivo que parece dominar nestes dias de contagem regressiva.

Noutras Copas, mundo a fora, a alegria contagiava o Brasil nesta época, como se fosse nossa a festa.
Nesta Copa, logo no Brasil, muita gente está sentido, com razão, que a festa não é sua.

Sim, os governos Lula e Dilma jogaram fora a grande oportunidade que receberam para repactuar o espetáculo.
Deviam ter pensado a Copa como o momento culminante de um processo político e simbólico que consagraria o ingresso da “classe C” brasileira no McMundo.

Mas também, em sentido contrário, que obrigaria o McMundo a se abrir a maior democratização.
Não é fácil fazer Copa em país democrático, disse-o, muito acertadamente, o Sr. Jérome Valcke. A próxima será na Rússia, depois no Qatar…

Pois o governo cedeu à FIFA em todas as suas exigências anti-democráticas e extraterritoriais, quando o contrário teria sido o mais correto:
negociar “meios-termos” com Valcke e sua turma;
definir que o povo não poderia sentir-se excluído de uma Copa em seu próprio País.

Lula, certamente, tinha cacife para isso.
Infelizmente, não tinha formulação… Nem ele, nem os seus.

Numa palestra para militantes do PT em Porto Alegre, há poucos dias, o ministro Gilberto de Carvalho disse que o governo aprendera muito com a Copa e tentaria corrigir os erros na construção das Olimpíadas.

As Olimpíadas são, hoje em dia, outra grande festa McMundo.
O COI é outra FIFA.

Será que o governo, mais do que aprendeu, entendeu?

Agora, para a Copa da FIFA, não há mais o que fazer.
Pelo menos o ministro dos Esportes, Aldo Rabelo – outro que não entendeu –, poderia dar ao menos uma pequena sinalização de que o governo começa a fazer autocrítica e determinar que os tamborins possam entrar nos estádios.
Ainda há tempo.
Pelo menos alguma coisa da nossa cultura, o McMundo seria obrigado a transmitir para os televisores Sony espalhados por milhões de lares mundo a fora.

*Marcos Dantas é Professor Titular da Escola de Comunicação da UFRJ

(http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/Mc-Mundo-vs-Jihad-na-Copa/31024)

[1] Sobre GUY DEBORD: (http://migre.me/jorTN) e (http://migre.me/jorLX).

[2] Íntegra do Livro “A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO”: (http://migre.me/jorAH).
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Responder

Heitor de Assis

27 de maio de 2014 às 13h32

Às vezes eu não sei o que pensar depois de ler certos posts e respectivos comentários.Fui criado na Zona da Leopoldina – a Zona Norte do Rio – e andei por tudo quanto é lado durante a minha adolescência, sem nunca ter sido molestado, exceto pelas polícias cariocas, por agentes preocupados com meu cabelo black power e,mais tarde, com minha barba espessa. Foi nos anos 80 – quando Figueiredo deixou o Planalto e Brizola governava o Rio – que as coisas começaram a mudar.Brizola brigava com a Zona Sul da cidade e seus privilégios – o impedimento de ônibus urbanos circularem pelo Túnel Rebouças era o mais notório, mas não o único – e defendia mudança de comportamento das polícias civil e militar, impedindo-as de invadir as casas nas favelas sem mandado judicial. O Globo – tv e jornal – fazia então com Brizola, o que estão fazendo com Lula e Dilma. Quando Moreira Franco venceu Darcy Ribeiro em 1986, começou o governo desmontando os Cieps de Darcy e liberando as polícias a retomarem suas condutas dos tempos da ditadura. Mas parece que não contou com a reação dos traficantes, que armaram-se e passaram a reagir. Daí em diante, é o que temos até hoje. As UPPs estão aí, e os traficantes também, dispostos a defenderem seu negócio a qualquer preço.
Acho que se alguma coisa vier a mudar algum dia, tal ocorrerá no espaço de uma ou duas gerações, quando todas as crianças estiverem efetivamente nas escolas, e estas oferecerem algo mais de concreto que a merenda. Isto, no plano interno, pois no externo, a prevalecer a hegemonia americana sobre nossos interesses, vai continuar tudo como está.

Responder

    Caracol

    27 de maio de 2014 às 18h29

    Bem lembrado, Heitor.
    Quando o Brizola queria fazer teleféricos para as favelas as “zelites” diziam que ele era maluco. E era maluco mesmo, pois na mão do Brizola as coisas seriam bem diferentes. Não ia ser essa festa aí dos exploradores e cafajestes, sanguessugas inescrupulosos. Na mão do Brizola, essa gente seria tratada como seres humanos que são.
    Viva o Brizola!

wagner paulista de souza

27 de maio de 2014 às 12h08

O texto, se não teve a intenção, quase convenceu-me involuntariamente de que se tratam – os teleféricos – de elefantes brancos. Quase….

Responder

SILVIO MIGUEL GOMES

27 de maio de 2014 às 08h38

Há muitos anos li artigo do Dr. Gilberto Freyre elogiando a criação de peixes no Rio São Francisco, que ele denominou de uma “revolução”. Mas alertava para o domínio da indústrias que iam tirar os pequenos pescadores dos benefícios que tal obra traria. “Esse perigo” sempre existiu dos grandes e poderosos tomarem conta de tudo e é pra combater isso que existe o chamado Poder Público.

Responder

Leo V

26 de maio de 2014 às 21h09

Bela matéria.

É um bom exemplo de como as obras do PAC antes de tudo respondem em primeiro plano aos interesses das grandes corporações. Os interesses da população estão sempre subordinados a esses. Nada é feito tendo como diretriz o que é melhor para a população.

O bolsa-família, e talvez o mais médicos, parecem ser as exceções, que servem também como propaganda para encobrir todo o resto, como esse teleférico e todo o interesse corporativo por trás.

Responder

Francisco

26 de maio de 2014 às 20h27

Transporte coletivo de massas a cabo já existe no Brasil desde o século XIX: o Elevador Lacerda e os três Planos Inclinados em Salvador…

O óbvio ululante era que um revesamento de cabines seria sábio: um leva passageiros com volumes e o seguinte, só passageiros.

Quanto a ter patrocinio da Kibon e da Itaipava é o seguinte: pelo menos não é Hainecker e MacDonalds… são brasileiras. E o regime é capitalista, fio.

Eu queria a revolução, mas ninguém mais quer…

Responder

    Lukas

    27 de maio de 2014 às 08h26

    Kibon é da Unilever.

    Francisco

    28 de maio de 2014 às 02h19

    Ai lascou! Tem alguma tubaína que ainda não seja dos gringo? Rsrsrs!

    No meu post eu apenas sugiro, mas aqui explicito: o problema não é ter “copiado” da Colômbia, o problema é não ter “copiado” da Bahia.

    Se fosse “copiado” da Bahia não seria cópia, seria o nosso jeito de tentar resolver os nossos próprios perrengues.

    Primeiro, seria autônomo, seria soberano e concorreria para a auto estima: baiana, carioca e brasileira.

    Segundo, se tivessem se dado ao trabalho de espiar o “modelo” baiano teriam evitado um monte dos problemas que o articulista aponta, inclusive o maior de todos, se sentir “invadido” (“invadido” pela Bahia não rola…).

    O Teleférico de Salvador é municipalizado, baratíssimo, eficaz, um dengo do povo baiano e, até onde sei, NUNCA precisou de bênção nem grana de gringo para funcionar.

    Eu ia achar porreta se na abertura da Copa um cabra pusesse o 14 Bis do lado do avião dos irmãos Wright e botasse os dois pra voar. Quem entende do assunto sabe que o avião dos gringos só voa feito pipa: rebocado…

    Esse tipo de bravata muda o mundo? Não muda, claro, mas Andres Sanchez dizendo pro planeta terra inteiro que não vai ter nada na cor verde (de Palmeiras) no estádio do time dele é… é totalmente Zapata!!!

    Zapata!!!!

    Ninguém

    27 de maio de 2014 às 10h56

    A Kibon é uma marca que pertence à anglo-holandesa Unilever.

    FrancoAtirador

    27 de maio de 2014 às 19h22

    .
    .
    É, meu caro Francisco.

    A Kibon realmente era uma empresa brasileira,

    mas foi comprada pela Gessy Lever (hoje Unilever),

    nos idos de 1997, durante o Governo FHC (PSDB).

    (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi211014.htm)
    .
    .
    Porém, isso não invalida o seu comentário, no todo.

    Efetivamente a maioria das pessoas atualmente, no Brasil,

    estão mais interessadas em trabalhar para pagar as contas

    do que em fazer revolução, seja ela fascista ou comunista.

    Aliás, a esse respeito, ora me vem à lembrança,
    o velho e sábio arquiteto Oscar Niemeyer,
    um histórico comunista brasileiro,
    ao tratar sobre a solução política para o Brasil,
    certa vez afirmou, numa entrevista:

    “Eu não gosto muito de repetir isso,
    mas a única alternativa é a revolução.
    Só que no Brasil não se consegue fazer revolução,
    porque todo brasileiro é um revolucionário
    que quer fazer a sua própria revolução.”

    Um abraço camarada e libertário.
    .
    .

    FrancoAtirador

    27 de maio de 2014 às 20h49

    .
    .
    As 10 CORPORAÇÕES DO HEMISFÉRIO NORTE

    QUE CONTROLAM A CESTA BÁSICA [email protected] [email protected]

    E QUE DESCONTROLAM A INFLAÇÃO NO BRASIL

    20/11/2013
    Blog Macaco Velho

    Você sabia que os produtos mais consumidos do planeta são produzidos pelas mesmas empresas?
    Desde produtos de limpeza, passando pelo segmento de beleza e higiene pessoal, até alimentos, todos pertencem à dez megacorporações.

    O gráfico “A Ilusão da Escolha” ilustra como muitas das marcas escolhidas pelas pessoas pertencem às mesmas grandes corporações.

    Você, provavelmente já ouviu falar nelas, mas não tem ideia da dimensão do seu domínio.

    As grandes empresas criam cartelas de produtos variados, capazes de atender à diversos públicos e níveis sociais, e esquecem de avisar ao consumidor que acredita – coitado – que tem de fato algum poder de escolha.

    Sabe quando você compra um produto, não gosta e passa a comprar outra marca?
    Pois é, a chance de você comprar da mesma empresa novamente é muito alta.

    Pensa que acabou?
    Não são apenas os produtos que compramos e consumimos que são dominados por grandes empresas.

    Outro setor vital de nossas vidas é controlado por corporações gigantescas: a MÍDIA.

    No Brasil é assim: 7 famílias controlam 90% de todos os grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e canais de televisão.
    Ou seja, pode ter certeza que tudo que você assiste serve a algum tipo de interesse corporativo.

    Nos EUA é pior: 6 corporações controlam 90% da mídia!


    Esse último gráfico diz, basicamente, que em 1983 90% da mídia dos Estados Unidos era dominada por 50 empresas.
    Hoje, 6 empresas controlam os mesmos 90%.

    (http://www.macacovelho.com.br/as-10-empresas-que-controlam-quase-tudo-que-voce-consome)
    .
    .
    Leia também:

    A concentração midiática brasileira
    e a desejada liberdade de expressão

    A PREOCUPANTE SITUAÇÃO DA PROPRIEDADE CRUZADA

    Por Fabiana Rodrigues (UFRGS)

    (http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/7o-encontro-2009-1/A%20concentracao%20midiatica%20brasileira%20e%20a%20desejada%20liberdade%20de%20expressao.pdf)
    .
    .

Julio Silveira

26 de maio de 2014 às 15h41

O problema com a ideia, a principio boa, é o exercício para sua execução. Num país que costuma rir de suas próprias vicissitudes, de seus próprios contraditórios, pode ser interessante se manter a favela com cara de favela, pode ter sua utilidade econômica, pouco investimento com a capacidade de atrair turistas, e ainda arrecadam mais impostos, com essa que é peculiaridade habitacional e social quase que exclusivamente nossa. Na africa também tem, mas lá quase nem é exceção e mais visto pelo mundo como um traço cultural pelas elites mundiais e até africanas.
As vezes fico propenso a achar que nossos governantes, do tipo desses do Rio, que infelizmente se replicam no Brasil com mais prodigalidade, guardam um traço genético de crueldade com os mais carentes. Parece que querem-os assim, como antigamente antes da lei de libertação, dão retorno econômico máximo com o minimo, ou talvez quem sabe inspirados em aprendizados da infância. Afinal compreendemos que no mundo todo zoológicos ganham dinheiro e fazem sucesso.

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A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.