VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Bia Barbosa: Novo presidente da SIP diz que Assange pratica jornalismo desonesto


18/10/2012 - 11h59

No encerramento da Assembléia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), em São Paulo, Jaime Mantilla, do jornal Hoy, do Equador, acusou Julian Assange, do Wikileaks, classificado por ele como um “indivíduo hábil e irresponsável”, de conseguir informação de maneira fradulenta e praticar o jornalismo desonesto. Os jornais brasileiros omitiram as declarações do recém-empossado presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa em sua cobertura sobre o evento. O artigo é de Bia Barbosa.

por Bia Barbosa, em Carta Maior

São Paulo – A 68ª Assembléia Geral da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) terminou nesta terça-feira (17) em São Paulo. Depois de cinco dias de muitos ataques dos donos e editores do principais jornais do continente às iniciativas de governos que buscam quebrar o monopólio dos meios de comunicação de massa na região, a SIP elegeu sua nova diretoria, que estará à frente da entidade por dois anos.

Apesar de não ter vindo a São Paulo, o novo presidente eleito foi o jornalista Jaime Mantilla Anderson, presidente executivo do jornal diário HOY, de Quito, o terceiro em circulação no Equador. Ele substitui o norte-americano Milton Coleman, ex-editor do The Washington Post, que presidiu os trabalhos da 68ª Assembléia Geral, e fez seu discurso de posse através de videoconferência.

Depois de declarar que assume a presidência “em um momento perigoso” para a imprensa na América Latina, em função de governos que “dificultam o livre trabalho jornalístico”, Mantilla explicitou sua visão sobre jornalismo livre. E finalmente tocou em um assunto evitado durante todo o evento em São Paulo: a perseguição política sofrida por Julian Assange, fundador do Wikileaks, que pediu asilo na embaixada do Equador em Londres para evitar extradição a seu país de origem, onde corre o risco de um julgamento político em função das denúncias que fez contra inúmeros governos, sobretudo o dos Estados Unidos.

Eis sua visão dos fatos: “A imprensa independente no Equador continua acossada por um governo que, da porta pra fora, anuncia sua defesa irrestrita da liberdade de expressão de um indivíduo hábil e irresponsável que conseguiu informações de maneira fradudulenta, e a distribuiu em todo o mundo, revelando manobras obscuras de embaixadas e governos, em um ato que rompe as bases do jornalismo honesto, no Equador se desrespeita totalmente o direito humano de sonhar, se espressar e compartilhar diferentes visões da realidade”, acusou Mantilla. Inexplicavelmente, o ataque do novo presidente da SIP contra Julian Assange não apareceu na cobertura de nenhum grande veículo brasileiro presente ao evento.

Empresário-jornalista

Amante de golfe, automobilismo e motociclismo, Jaime Mantilla Anderson foi condenado por injúria no final de 2011, em uma ação movida pelo presidente do Banco Central do Equador, Pedro Delgado. As artilharias do jornal, cuja linha editorial é assumidamente de direita, se intensificaram contra o Presidente Rafael Correa. Pedro Delgado é primo do Presidente. Posteriormente, ele retirou o processo.

O jornal HOY integra um grupo de comunicação equatoriano, todo dirigido por Mantilla, que possui também a HOY TV, um canal UHF; a Radio Clássica 1110 AM Digital; os jornais MetroHoy e MetroQuil (periódicos de distribuição gratuita nas cidades de Quito e Guayaquil); o tablóide Popular, especializado em esportes; e que edita e distribui no país o Miami Herald e a revista Newsweek. Ainda integram o grupo HOY a editora Edimpres, a Edisatélite, as empresas Sistemas Guía S.A. e Publiquil S.A, a Fundação HOY para a Educação, e o Explored, um arquivo digital de notícias propagandeado como “a base de dados mais completa do país”.

Para quem comanda tantos veículos num país pequeno como o Equador chega a ser curioso afirmar que a tendência de muitos governos é “uniformizar o pensamento dos cidadãos livres e eliminar as expressões contrárias”, como disse Mantilla em seu discurso virtual de posse. O empresário-jornalista lamentou ainda que os intelectuais da América Latina não tenham se posicionado – como a SIP – contra certos governos latino-americanos.

“Os intelectuais do mundo, e os da América Latina têm sido tradicionalmente os pais da defesa das liberdades. Seus pensamentos guiaram muitas rebeliões contra poderes e governos ditatoriais e populistas. É lamentável descobrir que muitos desses pensamentos rebeldes ou desapareceram ou se entregaram à defesa dos atropelos dessas mesmas liberdades que antes defendiam”, discursou Mantilla.

O relatório final da Assembleia Geral da SIP concluiu o evento criticando mais uma vez os governos dos presidentes Rafael Correa, Hugo Chávez e Cristina Kirchner de “tentar silenciar o jornalismo independente” por meio de leis regulatórias, discriminação na distribuição da publicidade oficial e “uso de aparatos midiáticos estatais e privados” para “difamar jornalistas”.

Leia também:





13 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Antonio Marcos

19 de outubro de 2012 às 09h04

O PIG mundial esconde acontecimentos importantes, só noticiam de forma manipuladora o que é de interesse deles, navegantes visitem o link muito legal.
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=lNt7zc6ouco

Responder

Marcelo de Matos

19 de outubro de 2012 às 08h36

Por falar em jornalismo desonesto, o que há em comum entre Cuba e Grécia? Ou, o que há em comum entre socialismo e capitalismo? Ambos estão sujeitos a crises econômicas. Foi uma crise que levou a URSS à extinção. Cuba vive uma crise econômica crônica, potencializada pelo embargo comercial americano. A Grécia é um país capitalista, membro da comunidade europeia, da Otan, da zona do Euro, etc. Atravessa uma crise tão profunda quanto a cubana. Onde está a grande diferença? O que distingue os dois países é o alarde que a mídia faz de suas crises. O PIG aponta o dedo contra Cuba: os alimentos são racionados, os carros muito antigos e repercutem as acusações da blogueira dissidente Yoani Sanches. Sobre a Grécia o noticiário é discreto. Assim, circulou a notícia de que o governo grego autorizou a venda, em supermercados, de produtos vencidos a preços mais baratos. Essas notícias, é claro, não assumem o espalhafato, como no caso cubano, de campanha contra o sistema. “Homem primata, capitalismo selvagem”, como diz a música dos Titãs.

Responder

José Antonio Meira da Rocha

19 de outubro de 2012 às 01h48

“Inexplicavelmente, o ataque do novo presidente da SIP contra Julian Assange não apareceu na cobertura de nenhum grande veículo brasileiro presente ao evento.”

Deve ser a Liberdade de Não-Imprensa…

Responder

Marat

19 de outubro de 2012 às 00h05

Quer dizer então que jornalismo honesto está com a CNN, a Veja e a BBC… risível essa SIP. Parece estar estacionada na década de 1950… daqui a pouco vão reiniciar a caça às bruxas!

Responder

Regina Braga

18 de outubro de 2012 às 21h15

Mesmo? E o jornalismo do Murdoch,rede esgoto,Óia,são decentes?O pessoal do SIP deveria ir ao Paraguai,lá tudo é real,até o golpe.

Responder

FrancoAtirador

18 de outubro de 2012 às 19h55

.
.
Escárnio

Por Saul Leblon, no Blog das Frases – Carta Maior

A maior rede de televisão do país contrata uma pesquisa sobre a disputa eleitoral em São Paulo; omite o resultado esfericamente desfavorável a seu candidato, no telejornal de maior audiência.

O relator de um julgamento polêmico contra o maior partido de esquerda da América Latina estabelece um calendário desfrutável e acopla os trabalhos ao processo eleitoral em curso; na véspera do primeiro turno oferece as cabeças de algumas das principais lideranças partidárias à boca de urna; agora, alega consulta médica –na Alemanha– para acelerar o anúncio das penas, 48 horas antes do 2º turno.

O candidato do conservadorismo em baixa nas pesquisas age com deselegância contra jornalistas, dispara ofensas no ar e boicota desairosamente os que não seguem a pauta de sua conveniência.

Os editoriais e colunistas da indignação seletiva emudecem miseravelmente.

Reunida no país, a 68º assembleia geral da SIP, diretório interamericano da mídia conservadora, emite um balanço no qual denuncia ‘ o cerco à liberdade de imprensa’ por parte de governos latino-americanos (leia editorial de Carta Maior*).

O alvo principal da SIP é a Lei dos Meios da Argentina, na qual a radiodiodifusão é definida como atividade a serviço do direito à informação e não um simples negócio, imiscível com a ubiquidade do monopólio que aborta a pluralidade –e o discernimento crítico daí indissociável.

A lei argentina coíbe expressamente qualquer forma de pressão ou punição a empresas ou instituições em função de sua opinião ou linha editorial, desde que pautadas pelo respeito ao estado de direito democrático e pela observação dos direitos humanos.

A lei argentina diz que o Estado tem o direito e o dever de exercer seu papel soberano que garanta a diversidade cultural e o pluralismo das comunicações.

A lei argentina diz que isso requer a igualdade de gênero e igualdade de oportunidade no acesso e participação de todos os setores na titularidade e na gestão dos serviços de radiodifusão.

Literalmente, a lei argentina tipifica a mídia estatal como veículos públicos e não governamentais que devem prover uma ampla variedade de informação noticiosa, cultural e educativa, e sublinha:

‘Se poucos controlam a informação, não é possível a democracia’.

A ONU reconheceu a legislação argentina como modelar e destaca a sua contribuição ao fortalecimento da democracia e à diversidade da informação (leia reportagem**).

Sugestivamente, o ponto de vista da ONU não mereceu uma única linha de referência nos veículos que endossam o diagnóstico da SIP; os mesmos que silenciam diante do comportamento belicoso do candidato conservador contra jornalistas; que fecham os olhos ante a seletiva forma de divulgar pesquisas eleitorais; e que aplaudem -induzem?– a desconcertante alternância de rigor e omissão, a depender da coloração partidária, que empurra a suprema corte do país para além da fronteira que separa a legítima opinião política de um togado, de um cabo eleitoral de toga.

http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1116

* Editorial – Carta Maior

SIP, uma ameaça à liberdade de expressão e à democracia

A 68ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), realizada de 12 a 17 de outubro, em São Paulo, mostrou mais uma vez que essa entidade, que na prática funciona como um sindicato dos donos dos grandes conglomerados de comunicação, representa hoje uma das mais graves ameaças à liberdade de expressão na América Latina. A SIP e seus dirigentes, aliás, têm uma longa e sólida ficha corrida de serviços prestados à violação de liberdades e de apoio a governos golpistas na região.

Íntegra em: (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21102)

** “Ley de Medios da Argentina é modelo”

“A Argentina tem uma lei avançada.
É um modelo para todo o continente e para outras regiões do mundo”,
afirmou Frank La Rue, relator especial da ONU para a Liberdade de Opinião e de Expressão, ao se referir à Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual.
“Eu a considero um modelo e a mencionei no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. E ela é importante porque para a liberdade de expressão os princípios da diversidade de meios de comunicação e de pluralismo de ideias é fundamental”, defendeu.

Página/12, via Carta Maior com tradução de Katarina Peixoto

Íntegra em: (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21094)

Responder

Marco Freitas

18 de outubro de 2012 às 18h28

“…um indivíduo hábil e irresponsável que conseguiu informações de maneira fradudulenta…”

O cara conhece o Policarpo.

Responder

    Mário SF Alves

    20 de outubro de 2012 às 08h23

    Assenge para fazer jus a tão portentoso título que lhe queria atribuir a SIP=CIA teria de ser, no mínimo, um discípulo superdedicado do tal do Poli. Assim, se não fosse ofender além da conta o Assange, o esquema do tal Poli poderia vir a conhecido como PoliLeaks; ou seja: aquele que se associa a bandido com finalidade de favorecer bandido.

Bonifa

18 de outubro de 2012 às 17h45

Mais uma prova cabal de que a mídia dos marajás latinoamericanos fala na linguagem de sinal trocado.

Responder

    Mário SF Alves

    20 de outubro de 2012 às 22h06

    Esses caras ainda estão no início do século XVII. Ainda estão lá, na origem e formação socioeconômica do Cone Sul. Gostaram muito; ficaram condicionados à prática e contingência de contrabandistas, resultante da reação à geopolítica imposta pelo rei Felipe II, da metrópole espanhola.

Urbano

18 de outubro de 2012 às 16h30

Hen, hein… Quer dizer que o Assange é que pratica jornalismo desonesto??? Na verdade, eu nem conhecia esse tipo de jornalismo, até porque ou se é jornalista ou se é desonesto, bandido, que, a exemplo de óleo e água, nem dá para se juntar.

Responder

Mário SF Alves

18 de outubro de 2012 às 15h57

“Os intelectuais do mundo, e os da América Latina têm sido tradicionalmente os pais da defesa das liberdades. Seus pensamentos guiaram muitas rebeliões contra poderes e governos ditatoriais e populistas. É lamentável descobrir que muitos desses pensamentos rebeldes ou desapareceram ou se entregaram à defesa dos atropelos dessas mesmas liberdades que antes defendiam”
.
Moral da história 1)Intelectual bom é intelectual fernandhenriqueano, o protótipo de intelectual do amém sim senhor, o que nunca incomoda;
Moral da história 2)Intelectual bom é intelectual orgânico do sistema e os que chamam dono de império midiático de colega;
Moral da história 3)Julian Assange não é nem um, nem outro, portanto…

Responder

Vinicius Garcia

18 de outubro de 2012 às 12h58

‘Honesto’ é liberdade para manipular notícia sem ser delatado.

Responder

Deixe uma resposta para Bonifa

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding