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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Na máfia dos cartolas, a hierarquia é definida pela esperteza

08 de dezembro de 2017 às 00h15

Foto Rodrigo Vianna

Esperteza define hierarquia entre cartolas no escândalo da Fifa

Teixeira deixou Bill Clinton e Julio Grondona para trás e deu Copa para o Catar

por Luiz Carlos Azenha, no R7

Há um toque cômico na voracidade com que os cartolas se atiravam sobre as propinas do futebol.

Ele não escapou ao delator Alejandro Burzaco, que exibiu o humor negro dos portenhos ao retratar dois cartolas brasileiros que, segundo ele, chegaram ao poder na CBF com fome insaciável.

Quando os negócios eram fechados, de acordo com a descrição de Burzaco, José Maria Marin exibia felicidade de ladrão de medalhas e passava a fazer discursos emplumados, enquanto Marco Polo Del Nero, mais pé no chão, sacava um caderninho e anotava os “a receber”, como se fosse o dono de uma vendinha registrando os fiados.

As recentes revelações em Nova York confirmam que a esperteza era um componente decisivo para definir a hierarquia entre os cartolas.

De passagem pelo Brasil, na Copa das Confederações, o veterano argentino Julio Grondona correu atrás de dirigentes do Catar que encontrou no Copacabana Palace.

Ele reclamou de rumores de que teria recebido 1 milhão de dólares pelo voto no Catar para sediar a Copa de 2022 e pediu uma carta dos cataris para formalizar o desmentido.

Grondona havia protagonizado um espetáculo deprimente no banheiro do chiquérrimo Savoy Baur en Ville, em Zurique, em 2010.

Os Estados Unidos eram favoritos na disputa. O ex-presidente Bill Clinton tinha engajado toda a sua tropa para levar a Copa mais uma vez a terras estadunidenses, em 2022. De Brad Pitt a Arnold Schwarzenegger, mobilizou um exército para vender a candidatura ao mundo.

Não contava que do outro lado estavam a fortuna incalculável dos sheiks do Catar e o amor pelo dinheiro de cartolas como Grondona e o brasileiro Ricardo Teixeira — este, que se saiba, jamais chutou uma bola.

Na terceira rodada de votação o Catar teve 11 votos, os Estados Unidos 6 e a Coreia do Sul 5. Se conquistassem para si os cinco votos dados aos coreanos, os soldados de Clinton ainda tinham chance de confirmar o favoritismo.

Foi no intervalo de uma das votações que Grondona e Teixeira teriam abordado no banheiro outro veterano, o paraguaio Nicolás Leoz. Ele foi intimado em pleno mictório a “aderir” ao Catar, ao preço de outro milhão de dólares.

O Catar venceu por 14 a 8. O trio de raposas do futebol havia emplacado uma Copa do Mundo num país de 11 mil quilômetros quadrados, mais ou menos a metade do estado de Sergipe.

A temperatura recorde no Catar em junho é de 49 graus, o que levou a Fifa a programar a final para o inverno, em pleno 18 de dezembro, tudo para acomodar as propinas pagas.

As especulações ganharam a mídia: um jornal britânico publicou que um dos repasses de propina do Catar a Teixeira, de 2 milhões de euros, havia sido feito numa conta bancária em nome da filha de 10 anos do cartola.

Bill Clinton ficou tão furioso com a inesperada derrota que teria nascido ali a maior investigação já realizada sobre corrupção no futebol, o Fifagate, cujos desdobramentos assistimos agora.

Quando abordou os cartolas cataris no Rio de Janeiro, dois anos mais tarde daquela escolha, Grondona não estava nem um pouco preocupado com sua reputação.

A carta que ele pediu era mero pretexto para puxar conversa. Grondona queria a confirmação de um fato para ele perturbador.

Vinha sendo tomado por uma fúria parecida com a de Clinton desde a desconfiança de que tinha sido passado para trás, de maneira espetacular, pelo muito menos graduado Teixeira.

O malandro brasileiro, diziam as más línguas, tinha dado o nó no argentino milongueiro: embolsara, ao todo, 40 milhões de dólares para tramar a vitória do Catar nos bastidores, dos quais repassou apenas 1, um mísero milhão de dólares, a Grondona.

Já não era apenas uma questão de dinheiro. O octagenário, um dos homens mais poderosos do futebol, havia sido humilhado. Na moeda corrente dos bastidores da máfia, 1 Teixeira valia 40 Grondonas.

Diminuído nos bastidores, Grondona morreu dias depois de sua querida Argentina ser derrotada pela Alemanha, no Maracanã. Mesmo acossado por denúncias de corrupção, afastado da FIFA, da CBF e da própria Copa que ajudara a trazer para o Brasil, Teixeira tinha agora o status de capo.

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3 Comentários escrever comentário »

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Mark Twain

08/12/2017 - 19h46

HaHa!

Quando tudo se encaixa… xD

Creio que os americans decidiram afundar de vez o futebol, uma vez que não jogam porra nenhuma mesmo! O que não foi nada difícil como bem ilustra a reportagem.

Pequeno equívoco talvez?
Creio que “1 Grondona valia 40 Teixeiras” está trocado não? O correto não seria “1 Teixeira valia 40 Grondonas”.

Enfim… Proporções que nos fazem lembrar das desigualdades. As desigualdades com as quais não podemos nos acostumar…
Seria bacana ver os Paradise Papers voltarem à pauta…

Responder

    Mark Twain

    08/12/2017 - 19h48

    (Ainda que os dois não valham nada).

    Luiz Carlos Azenha

    08/12/2017 - 20h44

    Você está certo. obrigado, vamos mudar

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