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Sindicalista histórico diz que falta coragem política à esquerda para cercar Bolsonaro, como se fez com FHC
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Sindicalista histórico diz que falta coragem política à esquerda para cercar Bolsonaro, como se fez com FHC


05/09/2021 - 19h28

Da Redação

O avô de Antonio Carlos Spis, austríaco, fugiu de Hitler pelo norte da Itália e veio parar no Brasil.

O que poderia parecer um detalhe biográfico demonstra a argúcia política do neto: ele coordenou a histórica greve dos petroleiros de 1995, contra o então presidente Fernando Henrique Cardoso, que atrasou em décadas a privatização da Petrobras.

A tentativa de desmanchar o legado de Getúlio Vargas é antigo. Vargas foi bombardeado pela elite brasileira ao ousar dizer que havia petróleo no Brasil.

Assim como mais recentemente colunistas de O Globo disseram que não era economicamente viável explorar o pré-sal — pela boca de colunistas sabujos do patrão e dos Estados Unidos — nos anos 50 se dizia que não havia petróleo no Brasil.

Porém, a aposta de longo prazo da Petrobras provou-se verdadeira: o Brasil descobriu por conta própria a erxtraordinária jazida do pré-sal, o que acabou revelando-se maldição — pela falta de espinha dorsal dos militares brasileiros, que se mostraram sabujos de Washington.

Em vez de defender Dilma Rousseff, os fardados se juntaram aos espiões da NSA, que escutaram os telefones da presidenta brasileira — e espionaram a Petrobras.

Jamais aceitaram a investigação promovida por Dilma dos crimes que cometeram ao instalar e manter ilegalmente a ditadura de 1964, contra o governo constitucional de João Goulart.

Promotores e cúmplices da tortura, dos desaparecimentos, das cassações, da censura e do arrocho salarial, os militares brasileiros provaram ter um compromisso de subordinação a Washington que foi muito além do fim da Guerra Fria — hoje, eles são a espinha dorsal de um governo antinacional e espoliador dos brasileiros mais pobres, mantendo viva a ideia de Forças Armadas que agem como capitães do mato.

Obviamente, isso não vem de graça: os fardados, mesmo com o fim da ditadura, além de evitar qualquer tipo de punição significativa pelos múltiplos crimes que cometeram, foram privilegiados com aumentos salariais e todo tipo de prebendas, inclusive a pensão para suas filhas “solteiras”.

Apesar disso, Spis não esconde seu estranhamento com o suposto “sumiço” da ala nacionalista dos militares, que teria sido estimulada pelo ex-ditador Ernesto Geisel.

Talvez ela nunca tenha de fato existido, uma vez que a ditadura de 64-85 promoveu uma verdadeira caça aos militares tidos como “de esquerda” — centenas foram cassados e afastados das Forças Armadas.

Restaram os de extrema-direita, como os ligados ao ex-general Silvio Frota, hoje alçados ao poder.

O sindicalista Spis diz que o desmonte da Petrobras é um processo contínuo, que vem desde FHC, mas passou por Lula e Dilma, na forma da imensa terceirização de cargos empresa que deveriam ter sido preenchidos por concurso.

Agora, porém, está em andamento a canibalização da empresa, uma vez que a descoberta do pré-sal não apenas viabilizou a estatal, mas poderia sustentar o Brasil como potência de longo prazo.

Contra este projeto, o desmonte capitaneado agora pelo general da reserva do Exército Joaquim Silva e Luna mantém a política de preços dolarizada, que beneficia especialmente os acionistas da Petrobras, 50% deles estrangeiros.

Luna e Silva, em vez de defender a autonomia da empresa para praticar preços compatíveis com a economia brasileira, se juntou ao presidente Jair Bolsonaro para criticar a arrecadação de impostos estaduais na venda de combustíveis.

Ou seja, ambos querem cortar a arrecadação de ICMs dos estados para beneficiar acionistas bilionários da Petrobras, prejudicando direta (com o preço da gasolina e do diesel) e indiretamente (via arrecadação) o brasileiro.

Assim sendo, o sindicalista Spis estranha o que define como “falta de coragem” da esquerda brasileira.

Para ele, a estrategia da esquerda deveria repetir o que os petroleiros fizeram com Fernando Henrique Cardoso — antes, sindicalistas já haviam feito o mesmo com José Sarney: um cerco diário, permanente, às aparições públicas do presidente da República.

Spis sustenta que, sob pressão, Bolsonaro faz loucuras que acabam tendo resultado político contrário às suas próprias pretensões de reeleição.

Vale a pena ouvir a entrevista completa, no topo.





7 comentários

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Mario Ramos - MAAR

06 de setembro de 2021 às 11h39

PRUDÊNCIA E FRATERNIDADE

Observações sobre riscos, expectativas e estratégias no Sete de Setembro

Mario Ramos – MAAR

PARTE 1 – FAZER APOLOGIA DE CRIME É CRIME

Antes de abordar as variáveis específicas referentes ao indispensável debate acerca da conturbada conjuntura brasileira às vésperas do Sete de Setembro que se aproxima, é importante tecer breves comentários relativos a algumas questões conceituais, que têm sido manipuladas de maneira distorcida por pretensos ‘defensores da liberdade’.

De saída, é necessário lembrar que a liberdade é um direito, e que o direito de cada pessoa termina exatamente onde começa o direito das outras pessoas.

Decorre daí que a liberdade não autoriza nenhuma prática conflitante com as normas constitucionais que regem o Estado Democrático de Direito, de modo que ninguém tem o direito de impor iniciativas que violem a Constituição, pois a Carta Magna delimita os direitos individuais e coletivos, o que veda ditatoriais pretensões autocráticas.

Por tais razões, é falsa, esdrúxula e insustentável a arenga segundo a qual ameaças feitas contra a democracia e contra o STF seriam amparadas pela liberdade de expressão.

Neste ponto, urge perceber que toda ameaça de realização de qualquer ato criminoso constitui de fato uma apologia do crime, pois pressupõe a falaciosa idéia de que praticar tal crime seria justificável, quando na verdade não existe nenhuma justificativa capaz de tornar desejável ou aceitável a violação do direito das pessoas de terem preservada sua segurança e integridade, física, emocional e jurídica.

Além disso, apologia de crime constitui crime, pois viola direitos, causa danos, e tende a resultar na efetiva realização de atos criminosos. Nesta medida, a apologia de crime é inadmissível também por aumentar a probabilidade da prática criminosa ser realizada.

Ademais, toda ameaça de realização de crime, além de caracterizar apologia do crime, constitui delito ainda mais grave, visto que evidencia uma deliberação de vir a cometer o ato criminoso. Nesta medida, a ameaça intensifica os danos causados às potenciais vítimas do crime, mesmo na hipótese da prática criminosa não chegar a ser efetivada.

PARTE 2 – É PRECISO DESVENDAR ILUSÓRIAS ALEGAÇÕES ENVIESADAS

Para iniciar uma abordagem objetiva das ilusórias alegações enviesadas que prejudicam o debate político no atual momento histórico vivenciado pela sociedade brasileira, sem dúvida é imprescindível compreender que somos todos e todas irmãs e irmãos, pois, independente das nossas próprias crenças, credos, convicções e preferências individuais, independente da insustentável desigualdade social, dos diferentes patamares de poder aquisitivo e dos assimétricos padrões de consumo, e independente dos diferenciados graus de acesso ao conhecimento, à cultura e à satisfação das necessidades vitais, somos todos e todas filhas e filhos de uma mesma e única espécie humana.

Nesta medida, resulta inegável a premissa de que é um dever elementar de cada pessoa respeitar a existência, segurança e integridade de todas as demais pessoas.

O princípio essencial acima referido é decorrente de razões éticas, morais e filosóficas, e está consagrado na Constituição Federal que, em seu artigo 1º, institui no Brasil um Estado Democrático de Direito que tem como fundamentos a dignidade humana, o pluralismo político, e os valores sociais do trabalho e da iniciativa.

A esta altura dos acontecimentos, importa salientar que o parágrafo único do referido artigo 1º da Constituição assegura que todo o poder emana do povo, porém o mesmo dispositivo traz a ressalva de que o exercício de tal poder popular é delimitado nos termos das normas constitucionais. E o artigo 14º da citada Carta Magna determina que a soberania popular será exercida por meio do sufrágio universal e do voto direto.

Indo adiante, vale ressaltar que o artigo 2º da Constituição determina a independência e o funcionamento harmônico dos poderes executivo, legislativo e judiciário.

Por esta via, tendo em vista que a Constituição Federal veda todo e qualquer exercício de poder que não seja regido pelas normas constitucionais e infraconstitucionais, é possível arguir a patente inconstitucionalidade das mobilizações golpistas que têm sido convocadas com o objetivo de cercear o livre funcionamento dos poderes judiciário e legislativo, em especial devido ao fato de algumas convocações conterem ameaças de invasão do STF para retirada de ministros da Suprema Corte à força, além de menções ao fechamento do Congresso Nacional e à não realização das eleições de 2022.

Assim, o canto da sereia bolsonarista, ao conclamar as pessoas para irem às ruas no dia Sete de Setembro com a explícita intenção de pressionar, intimidar, constranger e violar o livre funcionamento do judiciário e do legislativo, sob a pretensa justificativa de que estariam a defender a ‘liberdade de expressão’, induz incautos a acreditar que tais ações seriam legítimas, quando na verdade são ilícitos e inconstitucionais todos os atos que atentem contra a democracia e contra o Estado Democrático de Direito.

Acresce que a inconstitucionalidade das mobilizações bolsonaristas é agravada pelas sucessivas referências ao uso da força, com a finalidade de promover a violação das normas constitucionais, para impor completa derrogação da democracia e da legalidade.

Neste ponto, cabe destacar que muitas iniciativas relacionadas com a convocação das manifestações bolsonaristas fazem menção ao uso de armas para fins políticos, ao passo que o artigo 5º, incisos XVII e XLIV, da Constituição Federal proíbem a associação de caráter paramilitar e caracterizam como crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados contra a ordem constitucional e o Estado Democrático.

Tais ameaças possuem uma gravidade maior por serem proferidas também pelo atual detentor do cargo de presidente da república, que desse modo incrementa sua coleção de crimes de responsabilidade, especificados na Constituição Federal e na Lei 1.079/1950.

A rigor, resta evidente a intenção golpista da farsa encenada pelo bolsonarismo e por Bolsonaro, que dizem agora defender a liberdade de expressão, quando na verdade estão a praticar apologia de crimes e a proferir ameaças contra direitos individuais e coletivos, com o objetivo de destruir a democracia e de aprofundar um regime de exceção.

Contudo, a escalada golpista prossegue, com a reiteração de ameaças e impropérios.

PARTE 3 – POSSÍVEL BAILE DA ILHA DO BOLSONARISMO

A cada dia fica mais nítida a evidência de que a profusão de ameaças, impropérios, e pantomimas exibida por bolsonaristas e pelo próprio Bolsonaro visa gerar instabilidade, para desviar a atenção das denúncias e dos fortes indícios de ilicitudes que se avolumam contra o governo federal e contra familiares e assessores do mandatário.

Toda a encenação bolsonarista pretende negar a gravidade da crise econômica, social e sanitária, bem como dos crescentes problemas humanitários. Ao mesmo tempo, tais ilusionismos pretendem esconder as fortes evidências da relação direta entre as políticas e desídias praticadas pelo governo federal na era Bolsonaro e os fortes indicadores do retrocesso econômico, social, cultural e civilizatório que abala o Brasil na atualidade.

Entretanto as tentativas de tapar o sol com peneira têm sido mal sucedidas, em face dos numerosos pronunciamentos que têm sido formulados por atores políticos de diversos matizes, inclusive com o apoio de instituições representativas da sociedade civil.

A cada dia se torna mais ampla a percepção de que factóides e manifestações golpistas não podem produzir um salvo conduto para o ilusionismo e a falta de legitimidade do governo federal, porém a mal dissimulada encenação bolsonarista segue insana.

Por outro lado, apesar do temor de vir a ocorrer um golpe de estado policial e/ou militar resultar atenuado em razão de pronunciamentos do Alto Comando das Forças Armadas, bem como dos comandos das polícias militares, não cabe minimizar riscos de iniciativas perigosas de indivíduos temerários, e/ou da ação de milícias e grupos paramilitares.

Neste sentido, é recomendável reavaliar alegações segundo as quais o risco de um golpe de estado no país hoje poderia ser considerado nulo por conta de uma hipotética falta de suporte internacional para a implantação de regimes antidemocráticos, tendo em vista as inúmeras experiências trágicas com políticas de mudança de regime, promovidas por potências imperialistas através de inúmeras intervenções, públicas ou camufladas, em países como Líbia, Síria, Ucrânia, Bolívia, Iugoslávia e Iraque, entre tantos outros.

Na mesma toada, vale frisar que é relevante o posicionamento adotado pela embaixada dos Estados Unidos no Brasil com a divulgação de alerta para os cidadãos americanos manterem distância das manifestações políticas agendadas para este Sete de Setembro.

Na minha humilde opinião, todas as variáveis supra referenciadas tornam recomendável que a militância e lideranças do movimento popular reavaliem posicionamento relativo à realização de manifestações presenciais da esquerda neste Sete de Setembro, tendo em vista que intenções golpistas podem vir a estimular a produção de factóides, que visem patrocinar o uso de violência política para gerar instabilidade institucional.

Nesta medida, é necessário recordar que a disputa política decisiva é aquela voltada para a conquista de corações e mentes, de modo que, na atual conjuntura, o mais importante é promover uma ampla divulgação das evidências de que as práticas e as pretensões do bolsonarismo são antidemocráticas. É necessário promover a conscientização coletiva acerca das desastrosas conseqüências das práticas e políticas bolsonaristas, bem como evitar que os golpistas tenham chance de utilizar manifestações do movimento popular programadas para este Sete de Setembro como um trampolim para realizar provocações com o objetivo de insuflar confrontos e aumentar a instabilidade política e institucional.

Não se trata de negar a indubitável legitimidade, importância e necessidade do Grito dos Excluídos e de protestos contra o caráter antidemocrático, inconstitucional e desastroso das políticas e distorções promovidas pelo bolsonarismo.

Não se trata tampouco de propor um cancelamento total dos eventos convocados pelos movimentos populares para este Sete de Setembro, mas sim de alterar sua programação, com a realização de eventos em formato virtual na referida data, bem como de adiar para o próximo domingo, 12/09, a realização da parte presencial dos referidos eventos.

Nesta perspectiva, vale registrar que o Jornal GGN agendou para a tarde do dia 07/09 a realização de uma programação ao vivo na internet, apelidada de Sarau da Democracia, que terá a participação de intelectuais, artistas e militantes das causas populares.

E outros eventos podem ainda ser preparados para amanhã, através o uso de plataformas digitais das organizações ligadas ao movimento popular, bem como das redes sociais.

Ao contrário daquilo que alguns supõe a partir de um raciocínio simplista e equivocado, não há motivo nenhum para considerar que a realização em formato virtual dos eventos deste Sete de Setembro convocados pelo movimento popular, alinhada com adiamento da parte presencial de tais eventos para outra data, seria uma capitulação.

Na realidade, é indispensável considerar a hipótese de que a convocação bolsonarista de atos antidemocráticos para a data em que há tempos são realizados eventos tradicionais dos movimentos sociais e da militância progressista, tais como o Grito dos Excluídos, pode ter sido motivada pela intenção golpista de criar uma armadilha ardilosa.

É indispensável também observar que inúmeros segmentos dos mais diversos matizes políticos, tanto das classes trabalhadoras quanto de setores expressivos do empresariado nacional, já consolidaram a percepção de que a continuidade da escalada fascistóide do bolsonarismo é insustentável, desastrosa e extremamente ameaçadora.

Assim, em face das múltiplas evidências delineadas no presente artigo, a alternativa de vir a ser alterada a programação dos atos públicos convocados pelo movimento popular para este Sete de Setembro, mediante realização de eventos apenas em formato virtual na referida data, com o adiamento da parte presencial de tais atos, poderá fazer com que a deplorável e abjeta pretensão golpista de iniciar uma ruptura institucional no dia da independência seja transformada numa versão bolsonarista do baile da ilha do fiscal.

Brasil, 06/09/2021.
Mario Ramos,
Economista.
REFERÊNCIAS

1 – Bolsonaro volta a ameaçar ministros do STF.
jornalggn.com.br/editoria/politica/bolsonaro-volta-a-ameacar-ministros-do-stf/
2 – Mensagem do presidente da CNBB para o Dia da Pátria.
vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-09/mensagem-presidente-da-cnbb-para-o-dia-da-patria
3 – Jânio de Freitas: Riscos na ação de bolsonaristas no 7 de Setembro.
https:// folha.uol.com.br e viomundo.com.br

Responder

    Rodolfo

    06 de setembro de 2021 às 16h05

    Excelente explanação, porém, numa explicação mais simplista para quem entende de futebol, deixar os golpistas reinarem sozinhos nas ruas amanhã é o mesmo que tirar a zaga do nosso time de campo na hora que o time golpista está prestes a fazer um gol. A estratégia desta gente é a intimidação. A mim eles não intimidam não. Regimes terroristas começam é assim.

    Henrique Martins

    06 de setembro de 2021 às 17h46

    Em que pese o nível cultural manifestado no artigo e as aparentes boas intenções é estranho que tenha sido publicado num blog de esquerda para desmobilizar a esquerda. A mim vocês não enganam BOLSONARISTAS!. .
    Inclusive, vocês estão requentando justamente hoje fake news desmentida diversas vezes sobre Paulo Pimenta. Pois então, se vocês estão com medo de uma mobilização de esquerda para amanhã é porque a esquerda deve se mobilizar mesmo meu caro Watson.

Marco Vitis

06 de setembro de 2021 às 08h36

Essa “falta de coragem” é consequência dos erros políticos de Lula. Quem, com um pingo de honra, não se envergonha da corrupção usada como mecanismo de governabilidade ? Quem não ?

Responder

Zé Maria

05 de setembro de 2021 às 23h41

“Horas de debate na CBN e Band rádio sobre preço da gasolina.
Zero menção a Preço de Paridade de Importação, pós-golpe contra Dilma.
Brasileiro paga em real gasolina dolarizada.
Baniram a FUP do debate.
Jornalismo [Cúmplice de Guedes/Bolsonaro] que esconde a notícia.”

https://twitter.com/VIOMUNDO/status/1434107823403814913

Responder

Zé Maria

05 de setembro de 2021 às 23h38

“Política de Preços da Petrobras colabora para Descontrole da Inflação”

Por Anelise Manganelli*, no ExtraClasse
[…]
A Petrobras reajustou oito vezes os combustíveis no primeiro semestre de 2021.
Esses aumentos impactam direta ou indiretamente em praticamente todos os segmentos da economia, pois são a principal fonte de energia no transporte de mercadorias e de pessoas, além do preparo diário das refeições – contribuindo significativamente no descontrole da inflação.

Mas por que o preço dos derivados varia tão acima da inflação?
O que está por trás do aumento dos preços dos combustíveis?

O principal motivo é a política de preços de derivados adotada
pela Petrobras nas refinarias.
Instituída em 2016 no governo de Michel Temer [associado com o PSDB],
a nova forma de cálculo passou a ser orientada pela Política de Preços
de Paridade de Importação, conhecido como PPI, que inclui no cálculo
custos de frete de navios, custos internos de transporte e taxas portuárias,
mais uma margem praticada para remunerar riscos inerentes à operação,
como, por exemplo, volatilidade da taxa de câmbio e dos preços sobre
estadias em portos e lucro, além de tributos.
Isso significa que o custo de importação está sendo incluído nos cálculos, fazendo com que cada um dos derivados nacionais tenha seus valores equiparados ao de importadores, ou seja, a Petrobras pode aplicar preços
mais baixos, que, consequentemente, forçariam a concorrência a fazer o
mesmo, porém está acontecendo o inverso: ela aumenta o preço para se
igualar aos concorrentes.

Essa prática é a que especialistas chamam de dolarização do combustível.
Fazendo um paralelo: alimentos também estão mais caros devido à
apreciação do dólar.

O câmbio desvalorizado torna mais atrativo ao produtor nacional exportar
do que vender para o mercado interno.

Na Petrobras é diferente.

Evidentemente que existem muitos insumos em dólar (elementos da cadeia
produtiva importados), mas isso está adequadamente registrado nas planilhas
de custo e possuem uma participação “x” na constituição do preço de cada
derivado.

O que está encarecendo e promovendo essa oscilação é essa política de PPI –
qualquer movimento, para cima ou para baixo, nos custos internacionais do
petróleo ou no câmbio, corresponde a reajustes na mesma direção nos preços
praticados nas refinarias da empresa, repercutindo na cadeia de distribuição até
chegar ao consumidor final.

É uma política absurda que visa conceder espaço de mercado a concorrentes,
segurança a esses entrantes, proteção aos importadores de derivados (com
destaque para a Shell e a Mubala), gerar dividendos para acionistas minoritários e
facilitar o processo de privatização.
E vale destacar que se ocorre uma grande privatização (como a que está em curso),
as possibilidades de aumentos ainda mais abusivos são reais e, pior, se o governo
percebe que precisa regular de alguma forma, corre-se o risco de ter a produção
direcionada para a exportação e, portanto, podendo refletir, inclusive, em
desabastecimento.

No mundo, em torno de 80% dos países adotam uma política de PPI,
mas fazem isso porque não têm produção e nem refino de petróleo.

No Brasil, com o pré-sal, nos tornamos autossuficientes na produção de petróleo,
com custo relativamente mais baixo em comparações internacionais, além do
que, de acordo com especialistas, há capacidade ociosa.

Se o petróleo é do Brasil, por que o preço é importado?

Liberais defendem essa ideia, que o governo federal (acionista controlador)
não deve intervir nesta política de preços, deve seguir mantendo a paridade,
pois o que importa é o maior retorno financeiro possível para a Petrobras
e acionistas da empresa.

Essa lógica sempre imputou a necessidade de novos entrantes – sob o
argumento de que abrir o mercado e ter concorrência reduziria o preço.
Empresas privadas argumentavam que não investiam no segmento, no Brasil,
porque não tinham como concorrer com a Petrobras.

Nesse aspecto, não há como não se perguntar: o monopólio estatal do petróleo
foi quebrado em 1997, desde então qual foi a petrolífera estrangeira que fez
investimentos no Brasil a ponto de construir refinarias do porte da Petrobras?
Ou que tenha realizado investimentos para descobrir campos de petróleo – projetos que requerem grandes investimentos e que demandam longo prazo para maturação?

Não existe, pois são abutres: o interesse é comprar a preços insignificantes
o que já está instalado e obter os lucros com o menor risco possível.
A política do PPI é perfeita para esse propósito [a Rapina].

Outro fator que deve ser lembrado é o da redução do preço na refinaria.
Redução essa que não chega ao consumidor.
Esse repasse não ocorre por um motivo simples: aumento dos lucros.

Importadores aumentam as margens de lucro do mercado de distribuição
e/ou margens de lucro do mercado de revenda – já que em muitas regiões
do país os postos são cartelizados.

Esses agentes acabam também represando devido a imprevisibilidade do setor,
inerente, em parte, da própria PPI.

Um mecanismo que contribui na inibição desse problema, seria justamente
manter uma distribuidora estatal como era a BR Distribuidora, – que foi 100%
privatizada no último dia 30 de junho, ela poderia reduzir o preço estimulando
a concorrência a acompanhar.
Esse é mais um aspecto do preço dos combustíveis que deixa a sociedade
à mercê de agentes privados que visam o lucro.

De outro lado, há quem defenda uma política de preços pautada
na defesa da população, levando em conta, além do preço do barril
e variação da taxa de câmbio, outros elementos para a definição
do preço, como o volume de produção de petróleo, o custo de extração,
o custo de refino e o movimento de demanda nacional de combustíveis,
evitando que consumidores fiquem à mercê da instabilidade e falta de
previsibilidade.

Hoje estamos exportando petróleo cru, importando derivados,
temos capacidade produtiva ociosa, e quem defende essa estratégia
afirma que isso vai gerar mais concorrência, mais mercado e novos
investimentos. Quem acredita nisso?

A produção nacional nos últimos cinco anos cresceu 18% e chegou a 3,7 milhões
de barris equivalentes por dia. Exporta cerca de 1 milhão de barris por dia.

Os custos de produção têm caído cerca de 31% nas refinarias da Petrobrás
– em razão dos ganhos de eficiência.
A Petrobrás é responsável por 93% da produção de petróleo e gás
e 99% na produção de derivados.

Nesse cenário por que pagamos mais caro pelo combustível?

Como já apontado em estudos do Dieese, a Petrobras poderia recuar
da política PPI e levar em consideração outros fatores, como a produção
de petróleo e refino no país, custos para essas produções, câmbio, demanda
por derivados.
Também caberia a ANP e ao governo federal dar mais transparência
e visibilidade, para que distribuidores e revendedores não capturem
os ganhos.
Usando esses princípios a empresa poderia repassar aos preços dos derivados
os ganhos de produtividade que tem conquistado, pois está aumentando
a produção de petróleo e reduzindo custos no refino.

O Brasil é produtor de petróleo e tem refinarias que atendem à quase totalidade
de sua demanda interna.
Ou seja, temos capacidade para explorar e refinar, podemos diminuir
importações, reduzindo assim a dependência do país diante do
mercado externo.
Qual nação não deseja ter soberania energética?

Diante desse cenário, importante questão a ser respondida pelos candidatos
nas próximas eleições: qual é a política de preços que pretende praticar
se for eleito?
De paridade com os preços internacionais, sujeita às flutuações do mercado
externo, ou a calculada com base nos custos de produção e que garanta
investimentos da Petrobras para abastecer o país?

*Anelise Manganelli é Economista e Técnica do Dieese

Íntegra:

https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2021/07/politica-de-precos-da-petrobras-colabora-para-descontrole-da-inflacao/

Responder

Zé Maria

05 de setembro de 2021 às 23h36

.
NOTA TÉCNICA DO DIEESE

“O Necessário Debate Sobre os Preços dos Combustíveis no Brasil”

https://www.dieese.org.br/notatecnica/2021/notaTec251PrecosCombustiveis/index.html
.

Responder

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