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Eliara Santana: Para esconder ações de Lula e Dilma, Folha “inventa” sujeito
Desnudando a mídia

Eliara Santana: Para esconder ações de Lula e Dilma, Folha “inventa” sujeito


23/12/2020 - 17h17

POR QUE O LETRAMENTO MIDIÁTICO É ESSENCIAL

Por Eliara Santana*

Nessa terça-feira,22-12, no tuíte da Folha, a chamada para a matéria sobre a conquista do direito à universidade pelos negros, diz que “Década colocou os negros na faculdade”.

A reportagem mostra que o intervalo de tempo (década) decorrido entre 2010 e 2020 – 10 anos – foi marcado pela “conquista do direito dos negros ao conhecimento pelo acesso ao ensino superior”.

Bem legal, os dados mostram isso, mostram a evolução nesse intervalo de tempo decorrido.

A década continua a ser descrita na reportagem como muito frutífera, marcada pelo protagonismo das mulheres negras também.

Tudo muito legal, a não ser por um detalhe: não há sujeito da ação de fomento a essas mudanças.

Ou melhor, o sujeito é a “década” – “Década colocou os negros na faculdade”. Assim, simplesmente, uma evolução natural.

No processo de edição e seleção dos fatos e na construção do modo de informar os fatos, a naturalização de certo estado de coisas, a falta de ligação histórica e a ocultação de determinados atores são ações deliberadas e intencionais do fazer jornalístico.

São escolhas editoriais.

Portanto, usar “Década” como o sujeito de uma ação tão significativa do ponto de vista histórico e politico (garantir políticas públicas de acesso da população negra, sempre marginalizada, ao ensino superior) nada tem de aleatório ou inconsequente.

Os anos mostrados e destacados na reportagem são os anos de administrações do PT – Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff –, e as conquistas ressaltadas não são fruto de uma tendência histórica, que naturalmente iria ocorrer pela evolução dos anos e das sociedades.

Não. Elas são fruto da mobilização de movimentos sociais e da proposição de políticas públicas afirmativas que ocorreram, volto a afirmar, durante os governos petistas.

Portanto, não são resultados aleatórios ou fruto de um processo de “evolução” natural das sociedades.

E é no mínimo desonesto o jornal não reconhecer os verdadeiros atores por trás das ações. A “década” não colocou ninguém em lugar nenhum. Foram as políticas afirmativas dos governos Lula e Dilma que o fizeram.

Se a “década” fosse sujeito agente, poderíamos considerar que ela fez:

– Inclusão do Dia da consciência Negra e da História da África no currículo escolar

– Sanção do Estatuto da Igualdade Racial

– Criação da Secretaria de Políticas da Promoção da Igualdade Racial

– Criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira

Entre várias outras ações.

Como “década” não pode ser o sujeito dessas ações, é preciso que os textos jornalísticos sejam corretos e apontem os verdadeiros responsáveis.

*Eliara Santana é jornalista e doutora em Estudos Linguísticos pela PUC/UFMG





3 comentários

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Dário Souza

04 de janeiro de 2021 às 22h06

Verdade verdadeira, parabéns.

Responder

abelardo

23 de dezembro de 2020 às 22h36

Concordo, mas já não nos surpreende mais as defasatez da Folha decaída e desacreditada.

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Zé Maria

23 de dezembro de 2020 às 20h30

A Legislação que efetivamente promoveu a Igualdade Étnica de Direitos,
em especial dos Negros Afrodescendentes, iniciou-se no Governo Lula
há quase Duas Décadas e prosseguiu no Governo Dilma já nesta Década.
Portanto, as Principais Proposições Legislativas de Políticas Públicas
Afirmativas ocorreram de 2003 a 2016 nos Governos do PT, que sempre
procuraram atender às demandas dos Movimentos Populares.

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