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Stédile: Desmatadores praticam duplo crime na Amazônia


16/09/2011 - 17h45

O duplo crime dos desmatadores, segundo Stédile
Além de desmatarem, eles alteram o equilíbrio da natureza…

do Blog do Zé Dirceu, sugestão da sgeral do MST

Os métodos dos desmatadores no país desafiam a imaginação. Agora, utilizam aviões para despejar herbicidas em vastas regiões da Amazônia. Um crime dos mais graves que, como bem analisa João Pedro Stédile, uma das principais lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), revela a prepotência dos grandes proprietários de terra na região. Confira a entrevista de Stédile, explusiva para este blog:

Como o você avalia as recentes informações divulgadas sobre a utilização de herbicidas no desmatamento de áreas da Amazônia?

[ Stédile ] É uma vergonha. Demostra a prepotência dos grandes proprietários de terra, que se consideram senhores absolutos da natureza e  agem sem nenhuma responsabilidade social. Agem ao contrário do que determina nossa Constitução, que condiciona a propriedade da terra a um uso com função social e ao respeito ao meio ambiente.

Trata-se de um duplo crime. Primeiro porque desmataram além do permitido e por isso foram multados pelo IBAMA. Segundo porque usam um veneno com uma composição de origem química, que mata todas as formas de vida vegetal e animal, o que altera o equilíbro da natureza. Tudo para implantar o monocultivo da pastagem, criar boi e buscar sempre o lucro máximo, sem nenhum compromisso com os demais.

Quais medidas devem ser tomadas para ampliar o controle e impedir o desmatamento no país?

[ Stédile ] Primeiro, espero que não haja nenhuma mudança no código florestal, que está sendo discutido no Congresso. Mantenhamos as condicionantes de que no Bioma da Amazônia devemos preservar 80% de cada propriedade com reserva legal, mais o respeito das áreas de preservação permanente ao longo dos rios e fontes de água e no topo das montanhas. E da mesma forma, no Bioma do cerrado, se mantenham as regras atuais, porque agora este é o Bioma mais agredido pelo modelo do agronegócio, na expansão da soja e da cana de açúcar.

Segundo, é preciso reforçar os organismos federais e estaduais de fiscalização para que fiscalizem, apliquem a lei e as penalidades devidas a quem desrespeitar. Terceiro, é preciso criar um zoneamento agrícola restritivo, que impeça acesso à credito rural e a outros incentivos, para, por exemplo, impedir o avanço da soja e da pecuária, acima de determinado paralelo, na Amazônia Legal.

Quarto, o governo brasileiro deveria proibir a exportação de madeira originário de florestas nativas. Assim, eliminaria um mercado externo que não beneficia o povo brasileiro e só atende a ganância de empresas transnacionais. Quinto, que se impeça qualquer modalidade de fabricação de carvão vegetal, com vegetação nativa, nos biomas do cerrado e da Amazônia. E se que aplique a Constituição no que ela determina: as propriedades que não cumprem a função social, não respeitam o meio ambiente, têm de ser desaproriadas e destinadas à reforma agrária.

Isso vem ocorrendo?

[ Stédile ] Apesar de ser um dispositivo da Constituição, até hoje o INCRA desapropriou apenas uma fazenda no Vale do Jequitinhonha (MG), por esse motivo. Mas poderia ser aplicado a centenas de grandes propriedades infratoras. Basta saber que, segundo o IBAMA, as multas aplicadas a grandes propriedades atingem hoje mais de R$ 6 bi. Esse é também um dos motivos das mudanças no código florestal, pois esses latifundiários infratores (entre eles três deputados federais) querem anistia. O que deveríamos fazer é, em vez da anistia, desapropriá-los e distribuir as fazendas para a reforma agrária.

Por último, precisamos mudar nossa política de produção de carne bovina  que hoje se destina em sua maior parte à exportação, como carne in natura, sem nenhum processo industrial. Somos exportadores de natureza e não de trabalho, mão-de-obra. Assim, exportaríamos menos, mas com maior valor agregado e desenvolveríamos uma pecuária intensiva, sem depender da expansão na Amazônia.

Como o MST se posiciona frente a esse tipo de prática e quais ações o movimento propõe?

[ Stédile ] O MST, os outros movimentos da Via Campesina, a Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (FETRAF), setores cutistas da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), os movimentos ambientalistas, as pastorais sociais que atuam no meio rural, e os pesquisadores agrários de nossas universidades temos tido uma posição unitária, em torno desses temas, defendendo as teses que relatei acima.

Por isso, como movimento, apenas nos somamos a esse clamor unitário. Todos temos a mesma visão sobre os problemas da necessária preservação do meio ambiente. Por isso levantamos todos a bandeira de que é possivel seguir aumentando a produção de alimentos, de forma sustentável, melhorando as técnicas de produção agrícola, sem precisar derrubar mais nenhuma árvore.

Defendemos a bandeira do Desmatamento Zero!  em defesa de nossas florestas e da riqueza da nossa fauna. Por outro lado, nos unimos todos, entidades, movimentos, universidades e setores governamentais da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Fiocruz, Instituto Nacional do Câncer em uma campanha nacional contra o uso de agrotóxicos e pela vida. Contra essa prática do modelo do agronegócio na sua irresponsabilidade de agressão ao meio ambiente e na saúde das pessoas com uso de venenos agrícolas. Prática que transformou o Brasil no maior consumidor mundial de venenos e que, no fundo, representa apenas lucro para nove empresas transnacionais.

Leia também:

Um guia básico sobre mudanças no Código Florestal

Miguel do Rosário: Sobre o nariz de palhaço

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13 comentários

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Stédile: Desmatadores praticam duplo crime na Amazônia « Cirandeiras

22 de setembro de 2011 às 13h33

[…] Stédile: Desmatadores praticam duplo crime na Amazônia […]

Responder

Souza santos

17 de setembro de 2011 às 18h24

E viva o "ilustre" e "comunista" Aldo Rebelo , amigão de Katia Abreu !

Responder

João Luiz Cardoso

17 de setembro de 2011 às 10h15

Em Manaus fico sabendo da nova "tecnologia" pirotécnica: garrafas pet cheias de combustivel que, espalhadas pela mata a ser queimada vão, candidamente, explodindo à medida que o fogo as alcança e assim, com mira certeira e rápida, o incendio é conduzido, certeiro.É a trilhona da morte, aperfeiçoada.

Responder

Rios

16 de setembro de 2011 às 23h24

O ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, … afirmou que a discussão e a aplicação do código têm de ser feitas baseadas no momento em que vivemos e não daqui a cem anos, "pois todos nós já estaremos mortos".
http://www.redebrasilatual.com.br/temas/ambiente/

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Beto

16 de setembro de 2011 às 20h11

Viomundo.
É muito importante que se discutam essas questões ambientais, a preservação do que resta do Cerrado, a meu ver, deveria ser prioridade máxima, pois é o Cerrado que abastece, pela sua capacidade de projetar a água das chuvas, os nossos aquíferos e as nascentes dos nossos rios.
Quanto aos transgênicos penso que o mais grave não são os danos à saúde de quem os consome, mas o fato que são projetados especificamente para responder com eficiência a certos tipos de agrotóxicos, estes sim maleficamente danosos à saúde não só dos seres humanos, mas de todos os outros seres que não os específicos transgênicos. A produção de tais organismos (alimentos transgênicos) ameaça perigosamente a variedade genética dos nossos produtos agrícolas e nos põe à mercê das indústrias transnacionais de agrotóxicos.
por favor, publiquem sempre posts sobre o tema.
Obrigado por esta entrevista com o bravo Stédile!!

Responder

Julio Silveira

16 de setembro de 2011 às 20h00

O MST e seu porta voz, o Stedile, são vozes isoladas nesse contexto politico que vivemos,
O governo faz de conta que não é com ele, diz que é amigo mas sempre que possivel os trata como se fossem aqueles amigos incovenientes que obrigados a lhes deixarem os ouvidos por pura comiseraçao.
Já a algum tempo observo que o Brasil é o país dos discursos inflamados e das ações timidas muitas vezes comprometidas pelos arranjos combinados.

Responder

Fernando

16 de setembro de 2011 às 19h01

E aí, Azenha?

Animado pra comer o feijão transgênico aprovado pelo governo Dilma?

Responder

    Silvio I

    16 de setembro de 2011 às 20h51

    Fernando:
    Você vem comendo esse feijão desde muito antes do governo Dilma. Porque você não acusa o congresso, que e o grande culpado. Inclusive em esse congresso, existem entre seus integrantes, que usam veneno em grande quantidade, em suas fazendas.Porque você não se opõe, a que o congresso mude, o código florestal.

Vinícius

16 de setembro de 2011 às 18h28

Viomundo: blog publica duplo post na capa.

Responder

    Conceição Lemes

    16 de setembro de 2011 às 18h31

    Vinicius, ja corrigimos. Obrigada. abs

    Vinícius

    16 de setembro de 2011 às 18h51

    rs abs

Ary

16 de setembro de 2011 às 18h21

É impossível criar boi de forma sustentável. Ainda bem que o MST, sempre militante e vigilante, não apoia o desmatamento ilegal. Nos assentamentos, essa prática passa longe! Transgênicos, idem.

Responder

    Silvio I

    16 de setembro de 2011 às 21h00

    Ary:
    Passa que o criador de gado, coloca os touros e as vacas e dizem aquelas palavras bíblicas, crescer e multiplica os.Todos trabalham com uma criação de gado, de forma extensiva, e não intensiva.A intensiva da muito trabalho. Para que trabalhar, grilou algum pedaço de terra, se desmata, e temos para criar 1000 bois mais.


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