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Qualquer semelhança com o Brasil é mera coincidência


09/11/2011 - 12h02

por Jenaro Villamil, no livro “El Sexenio de la Televisa”

“A televisão é feita para os fodidos, os que não podem divertir-se de outra maneira, não para os ricos como eu que temos muitas possibilidades, nem para os que lêem revistas de crítica política, mas para os fodidos, que não lêem e aguardam que chegue o entretenimento”.

Com esta filosofia arrasadora, Emilio Azcárraga Milmo, o Tigre, se defendeu nos anos oitenta diante das críticas constantes à falta de qualidade da programação da Televisa. Seu herdeiro, Emilio Azcárraga Jean, não mudou muito esta concepção, treze anos depois de ter assumido o comando do império midiático. Em todo o caso, cumpriu ao pé da letra com uma de suas ordens mais importantes: abandonar a subordinação política da Televisa, deixar de ser “soldado do PRI”, para ficar apenas sob as ordens da medição de audiência.

[A Televisa é a rede de TV dominante no México e o PRI, Partido Revolucionário Institucional, governou o país continuamente de 1929 a 2000]

“Este é um negócio. O fundamental, a cara desta empresa é a produção de entretenimento, depois da informação. Educar é trabalho do governo, não da Televisa”, afirmou Azcárraga Jean em março de 1997. (Processo, no 1063, 23 de julho de 2007). E foi mais além na definição de suas prioridades: “E mais, não creio que ter relações com personalidades da política nos vá beneficiar no que importa. Eu creio na audiência”.

A sacralização do entretenimento e da audiência, como fórmula para evitar qualquer compromisso com melhor qualidade e diversidade de conteúdos, aliada ao menosprezo pelas audiências — os “fodidos” –, a quem se infantiliza ou se assume como consumidores dóceis, formam parte do credo dos Azcárraga.

A diferença entre uma geração e outra é a mudança na fórmula da televisão comercial e a transformação paulatina das audiências, que deixaram de ser receptoras impávidas para transformar-se em uma audiência diversificada, em busca de novas alternativas frente à asfixia do monópolio televisivo.

O império consolidado por Azcárraga Milmo se baseou numa fórmula clássica herdada do modelo de broadcasting estadunidense: entretenimento, informação e publicidade. A educação não fez parte deste modelo. Para isso, de acordo com o artífice da Televisa, existem o Ministério da Educação e seu telecurso; as universidades e seus raquíticos orçamentos para meios eletrônicos. De forma que toda a engenharia dos conteúdos televisivos deve ficar subordinada aos ditames da comercialização da tela.

A tela governada por Azcárraga Milmo foi a da era da televisão analógica, onde em 6 megahertz de banda cada frequência pode transmitir de maneira unilateral um só tipo de serviço e de conteúdos midiáticos. As audiências são receptoras impávidas, as “multidões solitárias” ligadas ao televisor, em alguma parte do domicílio.

Os conteúdos eram bem diferenciados entre ficção e não ficção. Os gêneros do entretenimento se concentraram nas telenovelas — o produto de maior venda da Televisa desde as radionovelas de Emilio Azcárraga Vidaurreta –, os espetáculos musicais que expandiam seus tentáculos até a indústria fonográfica e os esportes, especialmente o futebol, onde a Televisa é o juiz e início, meio e fim de um grande negócio.

Os gêneros de informação se concentraram basicamente nos telejornais e seu produto de marca, 24 horas, considerado durante décadas o boletim oficial do regime mexicano [nota do Viomundo, a “ditadura perfeita” do PRI], mas também espaço de negociação da Televisa com os poderes políticos, econômicos e religiosos.

A publicidade não ficou apenas nos segmentos de anúncios comerciais, mas até a década de 90 a área de vendas estava separada da área de conteúdos e de informação da Televisa. A mudança fundamental neste sentido se produziu nos finais daquela década: quando a vice-presidência de Comercialização começou a ter maior ingerência nos conteúdos não só de entretenimento mas informativos.

A tela governada por Emilio Azcárraga Jean pertence à era da neotelevisão,  ou seja, a televisão que mescla os gêneros de ficção e não ficção, que apaga as fronteiras entre o entretenimento, a informação e a publicidade, para gerar produtos híbridos: infoentretenimento, infomerciais, advertainment.

Os gêneros da neotelevisão tem a característica principal de acentuar a hiperrealidade, transformar a tela em uma janela em tempo real — como gostam de dizer os produtores — e capturar o espectador não a partir de uma programação clássica, mas de novos produtos baseados em uma mescla de ficção e realidade, melodrama e publicidade, informação e espetáculo.

PS do Viomundo: No livro, do qual voltaremos a tratar, o autor acusa a Televisa de vender espaço em sua programação, inclusive nos noticiários, para governadores de Estado; e de ter recebido milhões para promover o governador do estado do México e presidenciável do PRI, Enrique Peña Nieto, um dos favoritos para se eleger em 2012.

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6 comentários

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José Dirceu e a “cultura de esquerda”no Brasil « Viomundo – O que você não vê na mídia

23 de dezembro de 2012 às 08h46

[…] O livro que detonou a Televisa […]

Responder

TV suspeita de vender cobertura pró-direitistas. No México « Viomundo – O que você não vê na mídia

22 de dezembro de 2012 às 14h40

[…] O livro que detonou a Televisa […]

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Globo: Todo poder ao jornalismo para preservar o poder « Viomundo – O que você não vê na mídia

19 de setembro de 2012 às 18h23

[…] Tratamos do assunto em dois posts, aqui e aqui. […]

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Escândalo no México: A Televisa a serviço de candidatos « Viomundo – O que você não vê na mídia

01 de julho de 2012 às 19h53

[…] PS do Viomundo: Muitas das alegações mais antigas sobre a Televisa constam no livro “O Sexênio da Televisa”, de Jenaro Villamil, sobre o qual publicamos este post. […]

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_spin

09 de novembro de 2011 às 12h28

Socialite de SP são contra pagar CPMF, onde já se viu abrir mão da dinheirama mas, pasmem, resolveram ajudar os pobres
Como?
http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocast

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VLO

09 de novembro de 2011 às 12h16

Qualquer semelhança com uma certa rede de TV brasileira é mera coincidência!

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Deixe uma resposta para TV suspeita de vender cobertura pró-direitistas. No México « Viomundo – O que você não vê na mídia

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