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Débora Calheiros: “Querem mesmo acabar com o Pantanal!”


30/05/2014 - 14h04

por Débora Calheiros, especial para o Viomundo

O Pantanal Mato-Grossense, bioma considerado Patrimônio Nacional pela Constituição Federal e Reserva da Biosfera pela Unesco, está ameaçado pelo barramento da maioria dos seus rios formadores, formadores da grande planície pantaneira.

No total são 147 empreendimentos, sendo 44 em operação, os quais já representam 70% do potencial de geração hidrelétrica da bacia do Alto Paraguai. Uma taxa de 70% é uma proporção muito alta. Só sobrará 30%…

Barrando 100% dos seus principais rios será a morte do Pantanal. Se, ainda por cima, requentarem mesmo o Projeto da Hidrovia Paraguai-Paraná (barrado pelo governo brasileiro em 1996, numa atitude firme, mas fortemente influenciada pelos movimentos socioambientais em nível internacional), que está incluído no PAC2, será a pá de cal…

Pesquisadores e sociedade civil do Brasil, Bolívia e Paraguai, países que compartilham a planície, além da Argentina, estão preocupados com o que tantos barramentos podem fazer com o pulso de cheias e secas naturais de cada rio, sendo que estão previstas várias barragens num mesmo rio e, por conseguinte,com o pulso das águas em todo o sistema Pantanal.

As cheias e secas num sistema barrado para a geração de energia se alternam em questão de horas e não de meses ou anos como no regime hidrológico anual natural.

A hidrovia, por sua vez, vai drenar todo este sistema já bastante alterado de uma forma mais rápida, alterando profundamente a área e o tempo de inundação, em especial na fase mais sensíveis para a manutenção da vida, a seca. A área, o tempo de inundação e o regime sazonal são processos chave para a conservação da ecologia de uma planície de inundação, principalmente num cenário crítico de mudanças climáticas e perda de biodiversidade.

Onde há barragens, os peixes migratórios, mais atrativos para a culinária, cultura e economia local, desaparecem, pois não podem migrar rio acima para se reproduzir.

Assim, com as barragens, a pesca, uma das atividades econômicas mais importantes da região, com maior geração de emprego e renda e que garante a segurança alimentar de centenas de comunidades ribeirinhas, pode acabar…

A perda da produção pesqueira é inexorável em ambientes barrados, ainda mais quando se prevê 147 barramentos. Os ribeirinhos e pescadores profissionais dos rios com hidrelétricas (Manso/Cuiabá, Jauru, Juba, Correntes, Itiquira, São Lourenço) perderam seu ganha pão, sua fonte de alimento de qualidade, ou no jargão técnico,  perderam seus territórios, seus modos de vida, sua qualidade de vida, seus direitos, sem qualquer assistência do poder público ou das empresas, algumas delas multinacionais.

Onde há qualidade ambiental a miséria é aliviada e onde não há ela se agrava. A apropriação dos recursos naturais por apenas alguns, joga outros na insegurança social. Sou ideológica? Quem se posiciona dessa forma é a ONU.

As Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), que representam a grande maioria dos empreendimentos na região, em especial no Mato Grosso, são um dos investimentos mais atrativos. Eles são privilegiados com toda uma legislação diferenciada que facilita enormemente seus licenciamentos e garante o pagamento da energia gerada com lucro certo, sem riscos, por longos 25 anos (!!!), dos 30 anos de concessão oferecidos pela Aneel.

Lembrando que o potencial elétrico da bacia (100%) representa apenas 2% de energia para o país… e que se o sistema primasse pela eficiência tanto na transmissão  quanto na geração poder-se-ia liberar milhares de Megawatts (MW) de energia. Se não se dependesse tanto de chuveiros elétricos mais uns outros milhares e se se investisse mais em energia solar e eólica mais uns tantos a mais. Ou seja, pouparíamos o Pantanal e até o Xingu e o Madeira… Mas de quem mesmo é o interesse?

Precisamos de energia? Sim!

Mas precisamos do Pantanal também e os pantaneiros precisam de respeito. A renda gerada pela pesca profissional, pelo turismo de pesca e pela pecuária tradicional (que depende das inundações para fertilizar o solo, limpar o pasto e manter o campo de pastagens naturais nutritivo e em grandes extensões) é muito maior e bem melhor distribuída que a renda concentradora do lucrativo mercado privado de geração hidrelétrica das PCHs.

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma Ação Civil Pública em 2012 solicitando a suspensão dos licenciamentos até que uma Avaliação Ambiental Estratégica de toda a bacia fosse realizada.

A suspensão caiu em maio de 2014, quando o Tribunal Regional da Justiça Federal em São Paulo, pela decisão da desembargadora Marli Ferreira,  concedeu liminar para o setor elétrico liberando os licenciamentos,  sob a alegação de que o país já possui leis ambientais suficientes e que estas são devidamente seguidas pelos empreendedores e órgãos gestores.

O Ministério do Meio Ambiente – MMA, por meio do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, aprovou a realização de um Plano de Bacia em dezembro de 2013, a ser realizado pela Agência Nacional de Águas, para planejar e nortear o desenvolvimento na região. Contudo, deve demorar de 2 a 3 anos para sua finalização, dando brecha para que os outros 103 projetos previstos possam ser inaugurados.

Enquanto isso as SEMAs de MT e MS (mesmo após recomendação do MMA para que se atenda aos princípios da Convenção Ramsar de Conservação de Áreas Úmidas de Interesse Internacional, cujo país tem o compromisso moral de atender, uma vez signatário da Convenção) continuam a licenciar e a Aneel a fornecer concessões para geração de energia, sem que nenhum planejamento seja feito em nível de bacia –os licenciamentos são feitos em separado, sem se ter noção dos impactos conjuntos e sinérgicos que mais de uma centena de barramentos provocarão em todo o sistema em nível de bacia.

Sem também que nenhuma decisão concreta tenha sido tomada, em respeito aos Princípios da Precaução e da Prevenção, para barrar a avidez do setor elétrico de lucrar às custas da conservação da maior área úmida do planeta, onde espécies ameaçadas de extinção em outras regiões do país possuem populações sadias e onde a socioeconomia local depende expressivamente da saúde ambiental do seu ecossistema.

Ciência, bom senso, respeito a direitos, busca de maior sustentabilidade, respeito à legislação (Constituição Federal, Lei de Recursos Hídricos) às Convenções Internacionais (Diversidade Biológica, Ramsar), direitos humanos, conservação da biodiversidade, segurança alimentar e social… Tudo isso está sendo desprezado em favor, única e exclusivamente, da avidez gananciosa de grupos econômicos com omissão, conivência e suporte político em detrimento da sociedade pantaneira e brasileira.

Querem mesmo acabar com o Pantanal!

Que país é este?

Débora Calheiros é bióloga, mestre em Engenharia Civil e doutora em Ciências pelo CENA-USP.  É professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)

Leia também:

Débora Calheiros: Sociedade vai ter de escolher entre conservar o Pantanal ou gerar 2% de energia

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17 comentários

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vicente arruda

02 de junho de 2014 às 17h24

Conheço o Pantanal desde 1975. A depredação desde aquela época só fez aumentar. Pesca predatória, navegação de grande porte destruindo as matas ciliares e até as “Pousadas” contribuem para isso, com suas lanchas enormes em pequenos rios. Lá não existe a palavra RESPEITO em lugar algum. Fiscalização? Em 40 anos de pescarias nunca fui abordado, a não ser nas barreiras nas rodovias – umas 4/5 vezes.

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Vlad

01 de junho de 2014 às 08h02

A mim parece que MMA e ANA, se um dia foram livres de interferência espúria do poder central, isso já se perdeu no fundo do tempo.
O MP já tentou estancar esse front dos latifundiários-saúvas, mas “alguma coisa” falou mais alto.
http://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/a-lei-do-pantanal-so-beneficia-o-grande-produtor-rural-dizem-ambientalistas

E a “alguma coisa”, desconfio que rasteje por aqui:
http://www.institutolula.org/blairo-maggi-e-lula-em-cuba-para-ampliar-producao-de-alimentos/#.U4sGeHZ_SKk

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Joca de Ipanema

31 de maio de 2014 às 17h43

Fala sério! Não acredito em nenhuma dessas alegações. Ninguém seria irresponsável – em que nível for da administração – de por em risco pantanal, essa riqueza fabulosa de nosso país. Mais um ataque de xiitismo bagrento!

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    Débora Calheiros

    02 de junho de 2014 às 18h03

    Sr. Joca

    O sr. assistiu o vídeo incluído na matéria? Se não,assista. Talvez esclareça melhor seus questionamentos…

    EVAIR DA COSTA NUNES

    03 de junho de 2014 às 18h22

    Joca de Ipanema eu não duvido de nada nem de uma martelada na ferradura do governo Federal, tão grande são as pressões para o desenvolvimento a qualquer custo!!!!!!!!

Vilson Tosatti

31 de maio de 2014 às 15h18

Em minha opinião isso tudo ocorre devido à falta de estudo, planejamento e projetos corretos para que não ocorra esses problemas na região. Estão dando muita prioridade para áreas que não precisam de tanta e em áreas que precisam mais estão esquecendo…
A energia é essencial, mas o pantanal também é essencial. Pessoas conseguem ‘sobreviver’ por meio dele. Tem-se que tomar precauções e pensar no que esta acontecendo e ainda pode acontecer!

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    EVAIR DA COSTA NUNES

    03 de junho de 2014 às 18h28

    Vilson Tosatti, os EIAs e RIMAs, também podem ser direcionados e instâncias de ficalização e controle, subornadas, afora o desconhecimento intrínseco existente sobre áreas tropicais tão amplas, mas em parte concordo com você que estudos consistentes e planejamentos corretos possam, ao menos, e só, ao menos, minimizar os custos ambientais, custos ambientais sempre haverá!!!!!!!

Mário SF Alves

31 de maio de 2014 às 12h29

É para pensar.

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Lucas

31 de maio de 2014 às 01h46

esse é o preço do lulismo! tirar da terra o que n consegue tirar dos ricos.

Responder

marcos sorrentino

30 de maio de 2014 às 19h31

Débora, meus cumprimentos solidários por manter-se na luta, com coragem e tranquilidade. Forte abraço e grato pelas informações sistematizadas.

Responder

    Débora Calheiros

    02 de junho de 2014 às 17h23

    Obrigada Prof. Sorrentino!

Urbano

30 de maio de 2014 às 19h19

Presidenta… ó o serviço… Essa situação mostrada pela bióloga Débora Calheiros é seriíssima. Construir destruindo, a gente não vai pra canto nenhum. E certamente que deve haver saídas mais decentes e honrosas do que exterminar o Pantanal.

Responder

    Urbano

    30 de maio de 2014 às 19h41

    Até porque não se trata mais de uma pererequinha, mas o Pantanal. Portanto, é bom conferir junto a profissionais altamente confiáveis não só técnico quanto moral. Digo isso para que não haja profissional aderente a demo-tungano ou a amigo de justiceiros da staf trabalhando para o Governo Federal ou para o PT, pois isso extrapola e muito a falta de compromisso e de mais seriedade, que tanto esperamos; e que temos na maioria das vezes.

    Urbano

    31 de maio de 2014 às 21h09

    Para quem vê o tempo todo o fascismo do pig e nada faz, tudo é possível. A partir daí, não custa nada ficarmos atentos.

Simone Yara Benites da Silva

30 de maio de 2014 às 16h32

Parabéns Débora, se tem alguém com legitimidade e história de amor e conhecimento sobre nossas águas, é você. A defesa do Pantanal é a defesa da vida, dos direitos humanos e ambientais, é preciso que todos e todas tomem conhecimento de tudo que está em jogo. Parabéns!!!Avante pela Vida!

Responder

    Débora Calheiros

    02 de junho de 2014 às 17h25

    Obrigada Profa. Simone!! Vamos seguindo todos(as) juntos(as) para conservar nosso Pantanal!

Mardones

30 de maio de 2014 às 16h25

Comprometer um bioma tão importante por causa de 2% de energia para o país não justifica tão ação.

O MMA precisa se posicionar.

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