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Lúcio Flávio Pinto: Ao exportar energia, Pará repete seringueiro


25/06/2012 - 02h14

por Luiz Carlos Azenha

Recentemente, como vocês sabem, estive no Pará. A série de reportagens, focada no dia-a-dia de homens e mulheres paraenses, estreia esta noite, no Jornal da Record (19h45m).

Entrevistei o jornalista Lúcio Flávio Pinto. TV vocês sabem como funciona: entram apenas alguns segundos da entrevista.

Eu, interessado em outros temas que não estavam no foco das reportagens, acabei alongando o papo.

Decidi, assim, usar a gravação completa aqui no site, já que considero os temas tratados muito relevantes. Penso até em sugerir outra série, com foco na conversa que tivemos.

Já tratei de um dos temas da entrevista: a indignação de Lúcio Flávio com o fato de que o Brasil exporta minério de ferro de Carajás em um ritmo que, acredita ele, é um atentado à soberania nacional.

O post está aqui.

Hoje começamos a tratar de outro tema: a produção de energia elétrica na Amazônia.

Lúcio Flávio foi crítico da construção da usina de Tucuruí, que barrou o rio Tocantins. Escreveu um livro a respeito: Tucuruí, a barragem da ditadura. As hipóteses mais catastróficas mencionadas no livro — como o possível avanço da água salgada no estuário do Amazonas/Tocantins — não se realizaram.

A usina serviu especialmente para permitir a produção de alumina e alumínio por três empresas baseadas em Barcarena, Pará, e São Luís do Maranhão: Albrás, Alunorte e Alumar.

Apesar dos nomes simpáticos, nenhuma delas é brasileira.

Todas são controladas pelo capital estrangeiro e exportam produtos de baixo valor agregado. Boa parte do valor embutido no lingote de alumínio — 30% — é da energia de Tucuruí.

Tucuruí surgiu atendendo a um acordo entre a ditadura militar e o governo japonês, que pretendia se livrar, como se livrou, de suas indústrias de alumínio. De todas as atividades, a produção de alumínio é a mais eletrointensiva.

Fomos incapazes, desde a inauguração de Tucuruí, em 1984, de desenvolver projetos que nos livrassem do papel de exportadores de energia. Tucuruí custou muito em destruição ambiental, remoção de ribeirinhos, alagamento de terras férteis, para não falar do sobrepreço fantástico das obras. Foi importante para o conjunto do sistema elétrico brasileiro, mas não impulsionou o desenvolvimento regional.

Os japoneses, sim, sairam ganhando. Não participaram, como haviam prometido inicialmente, das obras da usina, mas receberam benefícios no preço da energia que permitiriam a eles construir uma segunda fábrica, equivalente à original.

Brasileiro é tão bonzinho!

Lúcio Flávio fala da perspectiva de um paraense: para o estado, o negócio foi péssimo. Apesar de contribuir imensamente com o PIB brasileiro, por conta do minério de ferro de Carajás e da energia elétrica de Tucuruí, o Pará tem alguns dos piores indicadores sociais do Brasil.

Repete a saga do seringueiro: quanto mais produzia, mais se escravizava com o seringalista que bancava suas despesas na floresta.

Na opinião do jornalista, dentro do Brasil neocolonizado, a Amazônia é uma subcolonia.

Vale a pena ouvir este trecho da entrevista:

lucio1

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14 comentários

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28 de junho de 2012 às 01h23

[…] Pará exporta energia e vai tão mal quanto seringueiro  […]

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Marcelo de Matos

27 de junho de 2012 às 12h37

Do Pará a Sampa, a indignação e as frustrações são as mesmas. Não sou índio, seringueiro, garimpeiro, nem moro à beira de represa, mas, também tenho do que reclamar. O Guido anuncia novo pacote: “corta juros de longo prazo e injeta R$ 8,4 bi para estimular economia”. Corta juros de quem? Claro, dos investidores, “inclusive para empréstimos já contratados”. Se você, como eu, atolou as canelas em empréstimo de 60 meses, tire o cavalo da chuva. Fiz um empréstimo no BB e tentei seguir o conselho da Camila Pitanga – Vem pra Caixa. Não tem jeito: a taxa de 1.33 ao mês, segundo alegam, já está muito baixa. Acontece que eu fiz um empréstimo de 60 meses, paguei 18 prestações e continuo a dever mais que o valor emprestado. O consumidor, malgrado a propaganda institucional, continuará atolado em dívidas. Para o investidor sempre se dá um jeito. O BNDES é mais bonzinho que o BB e a Caixa juntos.

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Jotace

26 de junho de 2012 às 18h45

CONTINUA O SAQUE
Aos companheiros do blog: se ainda não se escandalizaram com as denúncias às quais tem dado o VioMundo o merecido destaque: leiam ao menos esta porção de notícia publicada hoje, 26.06, pelo Estadão. O título é: “Governo planeja indenizar mineradoras por reter áreas-fontes’. Redatores e editores do tradicional entreguista sabem trabalhar para esconder mais uma semvergonheza em uma aparente boa notícia. Vejam o que há por trás desta no segundo parágrafo: “Governo brasileiro planeja ressarcir mineradoras por reter áreas com potencial de minérios considerados estratégicos pelo país, em terras nas quais as empresas já realizaram pesquisas e tiveram gastos com os trabalhos exploratórios, afirmaram fontes do Executivo e do setor privado que acompanham o assunto.
A medida poderá ocorrer em meio a discussões do novo marco regulatório do setor, que ainda será enviado ao Congresso Nacional. Pela nova legislação, que deve aumentar a atuação governamental na área, o governo quer colocar em leilão áreas com maior potencial e arrecadar recursos, nos moldes do que acontece com o setor de petróleo.”
Alguém duvida de como vai ser elaborado o novo marco regulatório pelo Congresso Nacional (?) a partir do qual serão leiloados (entregues) os nossos minérios estratégicos, que incluem também as ‘terras raras’? Por que não iniciarmos uma campanha pela Democracia Participativa e Protagônica no país? Abraços, Jotace

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Marcelo de Matos

25 de junho de 2012 às 13h46

(parte 2) Nem o dinheiro da CPMF, nem o do pré-sal resolverão, haja vista que os royalties do petróleo não melhoraram a educação no Rio de Janeiro. Educação e saúde são mesmo as duas faces da moeda dos nossos maiores problemas públicos. Leis hediondas, como esse Estatuto do Menor, agravaram consideravelmente o problema. O “de menor” não pode ser suspenso, ou expulso. A pena máxima que se lhe aplica é a consulta com uma psicóloga, que não leva a nada. Em São Pedro-SP, ocorreu mais um desses horríveis espetáculos que os cretinos chamam de “bullying”, mas, que nada mais é que humilhação e violência, em bom vernáculo. Precisamos de um policial de plantão em cada escola pública porque os professores não evitam as agressões, mas, esquivam-se do problema, com certa razão. Vejam só: http://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2012/06/menina-agredida-e-transferida-para-outra-escola-de-sao-pedro-apos-briga.html A menina não tinha de ser transferida, mas, a agressora expulsa. Nossas leis sobre menor e educação são ignominiosas.

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    Marcelo de Matos

    25 de junho de 2012 às 16h29

    Gostaria de acrescentar: esse Estatudo do Menor é como a saúva. Ou o Brasil acaba com ele, ou ele acaba com o Brasil.

Marcelo de Matos

25 de junho de 2012 às 13h44

(parte 1) Caro Azenha. Vamos assistir a mais essa sua reportagem. “Fazendas” à parte, a Record tem produzido ótimas reportagens, como a veiculada hoje no Fala Brasil:
http://noticias.r7.com/videos/hospitais-vivem-em-situacao-de-caos-e-desespero-em-varias-regioes-do-brasil/idmedia/4fe8571e6b71c09f8491404c.html Sem dúvida é importante falar sobre os seringueiros, o minério de ferro, as exportações “sem valor agregado”, mas, com lucros estratosféricos que a Vale realiza, etc. Dá até para criar um quadro com o título sugestivo de “Retratos do Brasil”. As exportações da Vale vão bem, obrigado. O que vai mal, para variar, é o binômio saúde/educação. O PIG é culpado por fazer campanhas contra a CPMF, retirando 40bi/ano da Saúde. Há outros problemas, porém, que o aumento do dinheiro não resolve, como a má gestão.

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Anderson

25 de junho de 2012 às 13h22

Ótima reportagem e ótima entrevista!

É uma pena que sites de noticias e informações (com conteúdo útil) como o VIOMUNDO ainda seja minoria na grande midia!

Abraços

Responder

Mardones Ferreira

25 de junho de 2012 às 10h16

Não há a menor dúvida de que a construção dessas barragens (usinas) são para beneficiar as multinacionais que teriam dificuldades em levar a frente esses projetos nos seus países de origem.

Também serve para economizar, pois assim como exportamos nossa água quando investimos no agronegócio (que depende de irrigação intensa), exportamos nossa energia quando bancamos a construção dessas usinas para favorecer grandes indústrias consumidoras de energia para fabricar e exportar produtos com baixo valor agregado, via de regra.

Enquanto isso, as cidades não se desenvolvem no mesmo ritmo da exploração dos recursos naturais. O PT enfia goela abaixo Belo Monte e afins e quem criticar é taxado de ecochato.

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Fernando

25 de junho de 2012 às 10h12

Belo Monte vai ser servir aos pobres, nos contaram Lula e Dilma.

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