Luciano Martins Costa: Morrer aos poucos

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Direitos Humanos| 19/02/2013 | Copyleft

Morrer aos poucos

Carlos Alexandre Azevedo (foto) pôs fim a sua vida no sábado (16), aos 40 anos de idade. Ele foi provavelmente a vítima mais jovem a ser submetida à violência por parte dos agentes da ditadura. Tinha apenas um ano e oito meses quando foi arrancado de sua casa e torturado na sede do Dops paulista. Carlos era filho do jornalista Dermi Azevedo , que acaba de lançar um livro sobre sua participação na resistência à ditadura.

Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa, reproduzido na Carta Maior

Este texto é um comentário para o programa radiofônico da OI, 18/2/2013

O técnico de computadores Carlos Alexandre Azevedo morreu no sábado (16/2), após ingerir uma quantidade excessiva de medicamentos. Ele sofria de depressão e apresentava quadro crônico de fobia social. Era filho do jornalista e doutor em Ciências Políticas Dermi Azevedo, que foi, entre outras atividades, repórter da Folha de S. Paulo.

Ao 40 anos, Carlos Azevedo pôs fim a uma vida atormentada, dois meses após seu pai ter publicado um livro de memórias no qual relata sua participação na resistência contra a ditadura militar. Travessias torturadas é o título do livro, e bem poderia ser também o título de um desses obituários em estilo literário que a Folha de S.Paulo costuma publicar.

Carlos Alexandre Azevedo foi provavelmente a vítima mais jovem a ser submetida a violência por parte dos agentes da ditadura. Ele tinha apenas um ano e oito meses quando foi arrancado de sua casa e torturado na sede do Dops paulista. Foi submetido a choques elétricos e outros sofrimentos. Seus pais, Dermi e a pedagoga Darcy Andozia Azevedo, eram acusados de dar guarida a militantes de esquerda, principalmente aos integrantes da ala progressista da igreja católica.

Dermi já estava preso na madrugada do dia 14 de janeiro de 1974, quando a equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury chegou à casa onde Darcy estava abrigada, em São Bernardo do Campo, levando o bebê, que havia sido retirado da residência da família. Ela havia saído em busca de ajuda para libertar o marido. Os policiais derrubaram a porta e um deles, irritado com o choro do menino, que ainda não havia sido alimentado, atirou-o ao chão, provocando ferimentos em sua cabeça.

Com a prisão de Darcy, também o bebê foi levado ao Dops, onde chegou a ser torturado com pancadas e choques elétricos.

Depois de ganhar a liberdade, a família mudou várias vezes de cidade, em busca de um recomeço. Dermi e Darcy conseguiram retomar a vida e tiveram outros três filhos, mas Carlos Alexandre nunca se recuperou. Aos 37 anos, teve reconhecida sua condição de vítima da ditadura e recebeu uma indenização, mas nunca pôde trabalhar regularmente.

Aprendeu a lidar com computadores, mas vivia atormentado pelo trauma. Ainda menino, segundo relato da família, sofria alucinações nas quais ouvia o som dos trens que trafegavam na linha ferroviária atrás da sede do Dops.

Para não esquecer

O jornalista Dermi Azevedo poderia ser lembrado pelas redações dos jornais no meio das especulações sobre a renúncia do papa Bento 16. Ele é especialista em Relações Internacionais, autor de um estudo sobre a política externa do Vaticano, e doutor em Ciência Política com uma tese sobre igreja e democracia.

Poderia também ser uma fonte para a imprensa sobre a questão dos direitos humanos, à qual se dedicou durante quase toda sua vida, tendo atuado em entidades civis e organismos oficiais. Mas seu testemunho como vítima da violência do Estado autoritário é a história que precisa ser contada, principalmente quando a falta de memória da sociedade brasileira estimula um grupo de jovens a recriar a Arena, o arremedo de partido político com o qual a ditadura tentou se legitimar.

A morte de Carlos Alexandre é a coroa de espinhos numa vida de dores insuperáveis, e talvez a imposição de tortura a um bebê tenha sido o ponto mais degradante no histórico de crimes dos agentes do Dops.

A imprensa não costuma dar divulgação a casos de suicídio, por uma série controversa de motivos. No entanto, a morte de Carlos Alexandre Azevedo suplanta todos esses argumentos. Os amigos, conhecidos e ex-colegas de Dermi Azevedo foram informados da morte de seu filho pelas redes sociais, por meio de uma nota na qual o jornalista expressa como pode sua dor.

A imprensa poderia lhe fazer alguma justiça. Por exemplo, identificando os integrantes da equipe que na noite de 13 de janeiro de 1974 saiu à caça da família Azevedo. Contar que Dermi, Darcy e seu filho foram presos porque os agentes encontraram em sua casa um livro intitulado Educação moral e cívica e escalada fascista no Brasil, coordenado pela educadora Maria Nilde Mascellani. Era um estudo encomendado pelo Conselho Mundial de Igrejas.

Contando histórias como essa, a imprensa poderia oferecer um pouco de luz para os alienados que ainda usam as redes sociais para pedir a volta da ditadura.

*****

do blog do Rovai:

LUTO

Meu coração sangra de dor. O meu filho mais velho, Carlos Alexandre Azevedo, suicidou-se na madrugada de hoje, com uma overdose de medicamentos. Com apenas um ano e oito meses de vida, ele foi preso e torturado, em 14 de janeiro de 1974, no DEOPS paulista, pela “equipe” do delegado Sérgio Fleury, onde se encontrava preso com sua mãe. Na mesma data, eu já estava preso no mesmo local. Cacá, como carinhosamente o chamávamos, foi levado depois a São Bernardo do Campo, onde, em plena madrugada, os policiais derrubaram a porta e o jogaram no chão, tendo machucado a cabeça. Nunca mais se recuperou. Como acontece com os crimes da ditadura de 1964/1985, o crime ficou impune. O suicídio é o limite de sua angústia. 

Conclamo a todos e a todas as pessoas que orem por ele, por sua mãe Darcy e por seus irmãos Daniel, Estevao e Joana, para que a sua/nossa dor seja aliviada.

Tenho certeza de que Cacá encontra-se no paraíso, onde foi acolhido por Deus. O Senhor já deve ter-lhe confiado a tarefa de consertar alguns computadores do escritório do céu e certamente o agradecerá pela qualidade do serviço. Meu filhinho, você sofreu muito. Só Deus pode copiosamente banhar-te com a água purificadora da vida eterna. 

Seu pai

Dermi 

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Na ditadura, cônsul americano era frequentador do Deops


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Comentários

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J Souza

O judiciário brasileiro pode ter “esquecido” a ditadura… Mas os torturados não esqueceram…

Se alguém desconhece o que a tortura pode fazer com uma pessoa, pode fazer uma leitura de “Luta Pela Mente”, de William Sargant.

Para se ter uma idéia de que se trata o livro, a introdução começa com a frase: “Políticos, sacerdotes e psiquiatras muitas vezes enfrentam o mesmo problema: como encontrar o meio mais rápido e permanente de mudar as convicções de um homem.”

Está disponível no ebooksbrasil.org: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/mente.html

Se a tortura faz coisas assim com um adulto, imaginem com uma criança cujo sistema nervoso ainda está em formação…

Fabio Passos

Não conhecia este fato.
Um bebê torturado.

Inacreditável que há pulhas contrários a punição dos maníacos que cometeram crimes contra a humanidade durante a ditadura.

Valcir Barsanulfo

E ainda existe alguns insanos que defendem a DITADURA que os Yankes patrocinaram no Brasil e em vários países das Américas de Sul e Central.
Somente neo liberais cujos neurônios não se conectam totalmente, são capazes de não enxergar o mal que se nos impuseram.

souza

a lei de anistia deverá ser alterada no sentido de levantar os responsáveis diretos pelas torturas e assassinatos acontecidos nos momentos de trevas, 1964-1985, passados pela nação brasileira.

Nedi

…e a galeria da “foia” tratou essa barbárie como “DITABRANDA”…MEUS DEUSES!!!

Marcelo de Matos

Como os historiadores tucanos retratam a tortura? Diz o ex-Veja Leandro Narloch: “Na historiografia de muitos episódios, o retrato de vítimas frequentemente se confunde com o de heróis. Se um personagem foi vítima de atos horríveis, fica muito fácil enquadrá-lo como um grande homem. O regime militar torturou pelo menos 2.000 pessoas, com choques, empalações, palmatórias nos seios das prisioneiras, entre outras selvagerias. A tortura resultou em loucura e morte de vários investigados – alguns deles sem ligação com a militância de esquerda. Essa violência, que partiu do Estado, justamente a instituição que deveria zelar pela segurança dos cidadãos e assegurar a eles os direitos humanos, teve mais uma consequência. Deu aos grupos de luta armada um escudo anticríticas. Hoje, é politicamente incorreto lembrar que os guerrilheiros comunistas estavam estupidamente errados e eram tão violentos e autoritários quanto os militares.” É a historiografia tucanoide tentanto justificar os atos da ditadura.

FrancoAtirador

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SUICIDADOS PELA DITADURA
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Ditadura faz mais uma vítima:


Carlos Alexandre Azevedo, o Cacá: suicidado pela Ditadura Militar


Dermi, Cacá e Darcy Andozia foram presos e torturados pela Ditadura

Suicida-se anistiado que foi torturado quando bebê

Por Emerson Lira, no jornal A Verdade

A ditadura militar, embora tenha “terminado” há quase 30 anos, vitimou mais uma pessoa na madrugada deste sábado para domingo.

Trata-se de Carlos Alexandre Azevedo, que completaria 40 anos em 2013.

Carlos cometeu suicídio com uma overdose de medicamentos.
Carlos Alexandre foi usado pelos agentes da repressão para pressionar os pais que estavam presos.

Assim descreveu o seu pai, Dermi Azevedo*, em seu mural no Facebook neste domingo acerca do que se passou com seu filho:

“Com apenas um ano e oito meses de vida, ele foi preso e torturado, em 14 de janeiro de 1974, no DEOPS paulista, pela ‘equipe’ do delegado Sérgio Fleury, onde se encontrava preso com sua mãe. Na mesma data, eu já estava preso no mesmo local. Cacá, como carinhosamente o chamávamos, foi levado depois a São Bernardo do Campo, onde, em plena madrugada, os policiais derrubaram a porta e o jogaram no chão, tendo machucado a cabeça. Nunca mais se recuperou. (…) O suicídio é o limite de sua angústia”.
O bebê Carlos Alexandre, enquanto esteve no DEOPS, foi “vítima de choques elétricos e outras sevícias. Ele foi jogado no chão e bateu a cabeça”, afirma Dermi.

“Maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade.”

Dermi e sua companheira na época, Darcy Andozia, foram presos acusados de tentar difamar o Estado brasileiro por conta de um livro intitulado Educação Moral e Cívica & Escalada Fascista no Brasil achado no apartamento onde moravam em São Paulo.

Dermi permaneceu preso por 4 meses recebendo torturas físicas como choques elétricos e pau de arara, Darcy, foi torturada psicologicamente vendo seu filho ser torturado na sua frente como forma de pressioná-la nos interrogatórios.

Carlos Alexandre sofria de um transtorno chamado de fobia social, consequência direta das torturas que sofreu.
Transtorno que o fazia ser uma pessoa bastante retraída.

“Para mim a ditadura não acabou. Até hoje sofro os seus efeitos. Tomo antidepressivo e antipsicótico”, relatou Carlos em entrevista a Istoé Independente em 2010.

O anúncio de sua morte pelo seu pai através do mural no Facebook causou bastante comoção aos amigos da família e a pessoas ligadas aos Direitos Humanos em todo o país.
“Meu coração sangra de dor” diz Dermi no início do texto.

Hildegard Angel, irmã de Stuart Angel, assassinado sob torturas pela ditadura, assim expressou em seu site como recebeu a notícia:

“Não o conhecia, mas para mim a notícia deste suicídio é como uma facada no peito”.
(…)
“Agora, acabo de ser surpreendida por essa terrível notícia: o suicídio de um jovem que, quando bebê foi torturado pela mesma classe de algozes que assassinou meu irmão, minha cunhada, minha mãe e até hoje mortifica minhas lembranças”.

*Dermi Azevedo é jornalista e ex-preso político. Foi um dos fundadores do Movimento Nacional de Direitos Humanos.
Dermi é portador da Síndrome de Parkison, que provavelmente adquiriu por conta das fortes pancadas recebidas na cabeça enquanto esteve preso na década de 70.
É dele o livro “Travessias torturadas – Direitos Humanos e ditadura no Brasil” lançado no último dia 6 em Belém. (http://bit.ly/15rUzMU)

http://averdade.org.br/2013/02/ditadura-faz-mais-uma-vitima-suicida-se-anistiado-que-foi-torturado-quando-bebe/

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