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Coordenador de Saúde Indígena do Xingu nega voo para transportar menino Kuikuro em estado grave e ele morre; vídeo e carta
Denuncia Yanama Kuikuro, presidente da Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu, e mostra a solicitação da equipe de saúde, pedindo URGÊNCIA para retirada do menino Hopesê Kuikuro, de 11 anos, da aldeia. Fotos: Reprodução de vídeo
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Coordenador de Saúde Indígena do Xingu nega voo para transportar menino Kuikuro em estado grave e ele morre; vídeo e carta


13/01/2021 - 20h13

Por Conceição Lemes

O Parque Indígena do Xingu (PIX) foi a primeira área demarcada no país.

São 2,6 milhões de hectares, ao norte do estado de Mato Grosso.

É hoje o território de 16 etnias: Aweti, Ikpeng, Kaiabi, Kalapalo, Kamaiurá, Kĩsêdjê, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukuá, Naruvotu, Wauja, Tapayuna, Trumai, Yudja e Yawalapiti.

Oito vivem na parte Sul do PIX, conhecida como Alto Xingu.

É onde o rio Xingu nasce.

Os Kuikuro — comunidade com cerca de 800 pessoas  — são um dos oito povos indígenas do Alto Xingu.

A principal aldeia deles é a 45 (circundada por vemelho no mapa abaixo). Chama-se Ipatse.

Desde a quinta-feira passada, 7 de janeiro, o povo Kuikuro está de luto pela morte de Hopesê Kuikuro, um menino de 11 anos.

Em carta aberta (na íntegra, ao final), a Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu (Aikax) denuncia:

Filho do mestre-cantor Tsaná Kuikuro e irmão do agente indígena de saúde Kauti Kuikuro, Hopesê não teve chances por falta de cuidado.

Em julho de 2020, seu irmão Kauti cuidou de dezenas de doentes com Covid-19. Não perdeu um só paciente. Trabalhou dia e noite.

O irmão dele morreu porque não quiseram mandar um avião.

COORDENADOR DO DSEI XINGU DIZ QUE ‘NÃO É GRAVE, NÃO É URGÊNCIA’

O rio Xingu é a principal via de ligação entre as aldeias do Xingu.

O acesso à maior parte delas é feito por barco.

Na região, há poucas estradas, todas de terra batida.

Uma liga o município de Canarana — onde está a sede do Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu (DSEI Xingu) — à aldeia Ipatse.

A distância entre os dois locais é de aproximadamente 200 km.

Porém, a estrada é muito precária, especialmente nessa época de chuvas, como agora.

A carta aberta da Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu à comunidade explica o que aconteceu:

No dia 6 de janeiro de 2021, a equipe de saúde que trabalha no Polo Base Kuikuro, na Terra Indígena do Xingu, solicitou um voo com urgência para a retirada de Hopesê Kuikuro, um menino de 11 anos.

Fazia três dias que ele estava doente e o quadro tinha se agravado muito na manhã do dia 6.

O vôo foi negado pelo coordenador do Distrito Sanitário, que afirmou não ser um caso grave.

O presidente da Associação Kuikuro do Alto Xingu, Yanama Kuikuro, entrou em contato por Whatsapp com o coordenador e insistiu na retirada de Hopesê.

Mais uma vez o pedido foi negado. O máximo que conseguiu foi o envio de um carro para buscar o paciente.

No vídeo abaixo,Yanama Kuikuro, presidente da Aikax, relata a conversa com o coordenador do DSEI-Xingu e mostra a solicitação da equipe de saúde que foi negada.

Ao lado da expressão Tipo de remoção, a equipe de saúde escreve URGÊNCIA

O carro só chegou no final da tarde de 6 de janeiro de 20121 e retirou Hopesê.

No dia seguinte, 07-01, ele estava morto.

E antes que alguém acuse levianamente os Kuikuros de quererem gastar dinheiro à toa do governo, eles, na carta aberta, avisam:

Nós Kuikuro sabemos que não é toda hora que um avião pode vir até a aldeia. Sabemos que não pode vir aqui por “qualquer coisa”. Mas sabemos também a diferença entre um caso grave e “qualquer coisa”.

No caso de Hopesê, quem fez a solicitação foi o enfermeiro não indígena contratado pelo Distrito. Ele estava na aldeia acompanhando a evolução da doença. Se a equipe de saúde diz que é preciso retirar o paciente com urgência, é para retirar.

Como alguém que não está vendo o paciente pode dizer que não é grave e que não precisa de aeronave?

MARCOS DE CARVALHO NÃO RESPONDE PERGUNTAS DO VIOMUNDO

O coordenador do DSEI Xingu é o senhor Marcos de Carvalho.

Por e-mail enviado nessa terça-feira, 12-01, o Viomundo perguntou:

* Por que o coordenador do distrito, senhor Marcos de Carvalho, negou o voo?

* Em que ele se baseou para dizer que o caso não era grave?

* O senhor Marcos de Carvalho é médico?

Como não houve retorno, telefonamos.

A informação é de que Marcos de Carvalho estava fora, em uma aldeia.

Sobre as respostas às nossas perguntas, disseram que somente ele poderia  responder.

Também que o caso estava sendo apurado e só na próxima segunda-feira, 17-01, poderiam se posicionar.

Marcos de Carvalho foi nomeado  para o cargo de coordenador do DSEI Xingu em 28 de setembro de 2020.

Foi por meio da portaria 2.135, assinada pelo ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello.

Marcos de Carvalho seria também militar, segundo pessoas que atuam na área.

Perguntamos à assessoria de imprensa da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) se essa informação procedia.

Também qual era a patente dele e a que força pertencia.

Não recebemos retorno.

De qualquer forma, é voz corrente no Xingu que Marcos de Carvalho fala contra o uso de máscaras para prevenir a Covid-19.

Também defende o tratamento precoce com ivermectina e nitazoxanida (Anitta), comprovadamente ineficazes contra o novo coronavírus.

Os Kuikuro querem — e merecem muito respeito!

No final da carta aberta, eles lamentam: ”Uma hora de vôo vale bem menos que uma vida indígena”.

Sempre fomos parceiros do Distrito, sempre soubemos trabalhar juntos.

É preciso acreditar em nossas palavras.

Não queremos gastar o dinheiro do governo à toa.

Queremos que ele seja bem usado para cuidar de nossos parentes.

Uma hora de vôo vale bem menos que uma vida indígena.





1 comentário

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Maria Elenir Neves Coroaia

15 de janeiro de 2021 às 09h38

Cenario trágico, meus Parente no Xingu sem apoio da SESAI. VIDAS INDIGENAS IMPORTAM.

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