VIOMUNDO

Diário da Resistência


Blog da Saúde

Drogas: O que falar com os filhos


11/03/2011 - 13h27

por Conceição Lemes

O consumo de drogas, inclusive álcool, cresce na maior parte dos países. No Brasil, mais da metade das pessoas já experimentou alguma droga ilícita e a iniciação é cada vez mais precoce. Daí a importância da prevenção.

No seu entender, qual destes discursos deve ser adotado por uma mãe ou um pai:

a) Meu filho, evite as drogas.

b) Meu filho, o problema não é a droga; é a polícia, o bandido. Então venha usar aqui em casa.

c) Meu filho, eu sei lidar, você saberá lidar também. Como você é um bom garoto, a questão está em suas mãos.

“A longo prazo, filhos de pais que lançam mão do discurso a usam menos drogas do que os dos que recorrem ao b ou c, que são ambíguos. É difícil o adolescente entender que drogas fazem mal se o uso é permitido em casa”, alerta o psiquiatra e professor André Malbergier, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), da Faculdade de Medicina da USP. Ele avisa: “O cérebro dos adolescentes não está preparado para lidar com situações de prazer envolvidas no uso de cigarro, álcool e drogas ilícitas, o que aumenta o risco de se tornarem usuários”.

Existem no cérebro regiões que medeiam a relação de prazer que temos com as coisas da vida. Algumas substâncias nele produzidas estão envolvidas nessas sensações. Uma delas é a serotonina, ligada à tranquilidade e ao bem-estar. Outra é a dopamina, associada ao prazer. Em adultos saudáveis, a produção de serotonina e de dopamina é relativamente equilibrada. Já os adolescentes produzem normalmente menos serotonina e mais dopamina. Porém, a partir do momento em que começam a usar drogas, têm o circuito cerebral de prazer alterado.

“As drogas potencializam o efeito da dopamina. Funcionam como reforçador do prazer que dificilmente se obtém nas atividades comuns”, explica Malbergier. “Por isso o risco de o adolescente perder o controle sobre o consumo de drogas é consideravelmente maior do que o de alguém que inicia aos 30, 40 anos.”

Mas não é só. Outros fatores contribuem para que adolescentes e até pré-adolescentes se tornem usuários quando entram em contato com drogas: a tendência à impulsividade e a dificuldade de esperar pelo prazer – ele tem de ser imediato; pressão do grupo social; vulnerabilidade genética devido ao tipo de personalidade – há garotos e garotas que nascem com maior propensão à busca de sensações de grande impacto; história familiar de conflitos importantes; falta de um dos pais ou distanciamento de ambos; abuso sexual; violência; acessibilidade.

– Mas eu sempre soube lidar com droga, meu filho saberá também. Isso é coisa da adolescência…

O fato de você ter o consumo sob controle não significa que seu garoto ou sua garota terá, por melhor que eles sejam. Deixar essa questão só nas mãos dos jovens é um risco. Promover saúde é tentar evitar o contato.

– Ah… Mas eu usei drogas dos 18 aos 25 anos, hoje tenho 40, sou um executivo bem-sucedido, trabalho numa boa…

Por mais careta que pareça, o discurso de evitação colabora para que os filhos usem menos drogas. Aliás, mesmo que você consuma, há coisas ligadas ao prazer que não precisam ser ditas aos filhos. Da mesma maneira que você não lhes conta como é sua atividade sexual, certo?

– Mas, se eu disser para evitar, será que ele não vai usar só para me contrariar?

Independentemente de dizer sim ou não, é imensa a probabilidade de os adolescentes experimentarem, pois o acesso é muito fácil. Afinal, em boa parte das festas rolam drogas ilícitas. Agora, se eles introjetaram que os pais preferem que as evitem, diminui a possibilidade de continuarem o consumo.  “A sensação de risco é muito maior do que se simplesmente ouvissem dos pais ‘Isso é fase, faz parte da vida’, justifica Malbergier.

– E se, apesar do discurso de evitação, meu filho continuar usando drogas?

Não é porque ontem seu filho ou sua filha provou álcool ou alguma droga ilícita que amanhã ele ou ela será dependente, irá mal na escola, terá atritos com familiares. Em geral, a dependência é desenvolvida gradativamente. Portanto, fique atento(a) ao processo lento de mudança de comportamento social e  notará tão logo ele ou ela comece a ficar “diferente”. Caso positivo, converse. Se necessário, busque ajuda.

“É claro que vocês, pais, são os primeiros responsáveis pela orientação dos filhos quanto ao uso de cigarro, álcool e drogas ilícitas”, salienta Malbergier, no livro Saúde – A hora é agora. “Mas não os únicos. Como questão de saúde coletiva, a prevenção é responsabilidade também de professores, profissionais de saúde, autoridades governamentais e dos próprios adolescentes. Cada um tem de fazer a sua parte. ”

Para quem já é usuário, a discussão é parar ou reduzir danos. Aqui, tratamos desse aspecto.

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15 comentários

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Lossio

23 de fevereiro de 2012 às 21h12

Quando o assunto é a prevençao quem tem opiniao formada? Deveria começar pelas drogas
ilicitas ou as licitas que sao as mais usadas e geram tbm grandes trantornos quando se tornam dependentes.

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JOSE DANTAS

18 de julho de 2011 às 07h54

"O problema é seu."
É um livro com mil páginas que diz tudo a respeito do assunto.
Você pode dizer ao filho, por exemplo, que a família sofre por conta da droga, porém a maior vítima acaba sendo o drogado, assim como a menina que engravida antes de adquirir a condição de criar o filho.
Jamais mandei um filho fazer o dever que trazia da escola ou estudar para a prova do dia seguinte. Preferia mostrar pra eles aquele carro novinho que passava a nossa frente e dizer-lhe que, para conseguir um igual, o caminho seria ralar e aprender. Do mesmo modo, mostrava os programas policiais repletos de jovens assassinados pelo tráfico e apontava o caminho das drogas para se chegar até ali.
Com os nossos 04 filhos e filhas deu certo, mesmo que estivéssemos errados. Graças a Deus.

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Adilson

14 de março de 2011 às 22h28

Obrigado por mais essa grande contribuição do Blog da Saúde.

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malu

13 de março de 2011 às 14h54

Não sei qual droga é a pior, meu remédio para dormir com receita tarja preta ou a maconha que se fosse legalizada, eu fumaria tranquilamente para relaxar. Só não o faço porque me recuso a ajudar o narcotráfico.

Responder

FrancoAtirador

13 de março de 2011 às 14h50

.
O Blog da Saúde está prestando um serviço público de relevância.

Aliás, é o que toda mídia deveria fazer e não faz.
.

Responder

Alice Matos

13 de março de 2011 às 09h08

Cara Conceição a sua abordagem de um tema tão espinhoso foi maravilhosa

Responder

FrancoAtirador

12 de março de 2011 às 21h55

.
Se fumar, beber ou cheirar, dirija-
se ao Centro de Desintoxicação
mais próximo.
.

Responder

Tomudjin

12 de março de 2011 às 19h51

Se vir que não consegue mais segurar seu filho, compre um Glaid.

Responder

Florival Scheroki

12 de março de 2011 às 08h41

Talvez caiba salientar que a mera informação sobre o uso é inócua se não for associada a uma genuína atitude de atenção afetiva aos filhos. A questão central é: como é que sei que minha relação afetiva com meus filhos está satisfatória? Quais os critérios para esta avaliação e como posso saber que preciso de auxílio. Modelos estatísticos que apontam associação com genética não são experimentais e apenas correlacionais e nem sempre , ou quase nunca é possível determinar qual o problema primário. O uso de substâncias não pode ser analisado e tratado dentro do modelo médico, pois não se trata de um problema médico, em geral. As consequências do uso é que se tornam um problema também médico e de outras esferas. Não vejo sucesso no tratamento da questão fora de um enquadre comportamental psicossocial, Amedicina trata dos danos estabelecidos e as ciências comportamentais e sociais tratam dos contextos pessoais, familiares e sociais que ocasionam o surgimento do abuso da substâncias.

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M. Westin

11 de março de 2011 às 21h36

Quantas pessoas morreriam direta ou indiretamente se tivéssemos uma situação em que o consumo da maconha juntamente ao do álcool fossem legalizados?

Dizer ao seus filhos que fumar maconha faz mal enquanto você toma o seu uísque importado envelhecido 300 anos é a mais deslavada lição de hipocrisia que você pode dar a eles.

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RK!

11 de março de 2011 às 17h06

A questao e mais seria que o sensacionalismo feito, contudo seu filho so escapa se combatido em 3 esferas, saude, segurança publica e social. O rico mascara o uso de suas drogas isso tem q ser exposto e combatido. O estado e policia em mutuo acordo nao pra se beneficiar do trafico, mas para dete-lo ao maximo e o governo tentar combater a calamidade de saude publico dos ja usuarios.

Responder

douglas da mata

11 de março de 2011 às 15h00

Há no texto uma tendência a valorizar determinados aspectos e a desconsiderar outros. Os efeitos fisiológicos sobre o cérebro adoslescente são óbvios. Mas há um componente ainda mais importante que a autora não enumera: O conetúdo cultural, o contexto sociológico e a perspectiva de vida que se apresenta para os jovens, o que comumente chamamos de "futuro".
O que os jovens fazem ao se drogar, e aí incluídos os adultos que também se drogam, é auto-medicarem-se para o mal moderno: o medo da infelicidade e o medo da dor, que andam juntos.

A obrigação de ser bem sucedido, aliado ao mito da infalibilidade geram jovens individualizados na possibilidade da solidariedade e interação, mas amorfos e pasteurizados em seu comportamento de "manada".

Sem discutir esses tópicos em casa, e isso demanda tempo além de dizer: filho evite as drogas, use com moderação ou a escolha é sua, que o texto sugere, todo o esforço é em vão.

Há um componente privado nesse debate, e diz respeito ao seio familiar. Mas há uma conjuntura pública e políticas públicas de saúde, descriminalização, redução de estigmas e preconceitos, estudos sérios e pesquisas sobre os reais efeitos, etc, etc, etc que não podem sucumbir apenas a uma privatização do debate em torno de questão das escolhas pessoais de cada jovem.

Essa abordagem personalista atrasa o debate, porque traz um componente de "moral" que só cria mais e mais confusão.

Se é verdade que os jovens decidem usar drogas mais cedo, e isso é alarmante, por outro lado, eu arrisco dizer que ao começar a usar drogas mais tarde, o usuário tende a ter mais problemas para abster-se do uso, e isso é mais preocupante entre mulheres.

Ou seja, jovens passam por esse ritual de "passagem", e a maioria amadurece e larga o uso/abuso como algo datado a certa fase da vida(adolescência).

Já os adictos/uuários que começam na fase madura, tendem a resistir a ajuda/tratamento, por se acharem auto-suficientes e "donos dos próprios narizes".

Responder

    dukrai

    12 de março de 2011 às 18h22

    O texto é instigante e traz uma abordagem mais abrangente, mas pode ser questionado.
    Uma abordagem familiar sobre o consumo de droga não atrasa o debate e é moralista. é o lado privado e público que podem coexistir perfeitamente. eu também não posso esperar por uma política pública que ainda está engatinhando se eu tenho uma situação privada que exige posicionamento. O alerta que é feito ao uso das drogas por adolescentes é médico-científico. É pouco consistente considerar o consumo das drogas lícitas ou ilícitas como um rito de passagem e que o usuário tenderia a abandonar o seu uso mais tarde, vide as propagandas de cervejas destinadas ao público jovem e a importância do álcool como causa mortis elevada na nossa população.
    No meu grupo social, os cervejeiros e os maconheiros que começaram cedo bebem e fumam até hoje, uma das razões pra proibir o consumo de álcool pela minha filha até os 18 anos e não declarar até aí a minha militância passiva de descriminalização das drogas ilícitas, a maconha em primeiro lugar. é lógico que minha filha bebeu escondido e experimentou alguma droga ilícita na universidade, mas longe de ser dependente ou mesmo consumidora habitual de álcool.

Gustavo Pamplona

11 de março de 2011 às 14h51

Tirando uns poucos cigarros e algumas aspirinas (mas isto é só quando tenho dor de cabeça) não consumo drogas… Se bem que eu consumo uma droga chamada Viomundo, é altamente estimulante, viciante, incitante e por que não provocante!!!

Costumo dizer que sofro de "dependência viomundística" (hahahaha) e um dos efeitos colaterais desta droga é a vontade permanente de comentar… mesmo que não tenha o que falar, caso deste comentário.

Um grupo exclusivo para esta droga já foi criado e se chama AA – "Adoradores do Azenha" a exemplo do AA – "Alcoólicos Anônimos" onde os dependentes se encontram e discutem os assuntos do cotidiano.

Esta até merece aquela minha assinatura ridícula e lá vai!!!

—-
Gustavo Eduardo Paim Pamplona – Belo Horizonte – MG
Desde Jun/2007 fazendo história no "Vi o Mundo"! ;-) <— assinatura oriiginal
Desde Jun/2007 viciando pelo "Vi o Mundo" no "Vi o Mundo"! ;-)
Desde Jun/2007 dependendendo viomundiscamente do "Vi o Mundo"! ;-)
Fundador do PORCO – Partido de Oligarcas Representantes de Capitalistas Opressores (PIG)

Responder

Ricardo Carvalho

11 de março de 2011 às 13h44

"Vale relembrar que as drogas podem causar disfunção erétil e infertilidade masculina. Se quiser informar-se mais sobre isso".

Os agrotóxicos, agro-hormônios … também! E pior, não provocam qualquer prazer para quem os consome. Aliás, quem os consome muitas vezes nem sabe que o faz.

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