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Coronavírus: Médico brasileiro que trabalha na Ásia e colega de hospital universitário afirmam que, no momento, não há motivo para pânico no Brasil
16.171 km de distância, em linha reta, separam o médico brasileiro Fábio Mesquita, que trabalha na OMS em Mianmar (antiga Birmânia) e o infectologista Gerson Salvador, do HU/USP. Fotos: Arquivos pessoais e governo da China, via Fotos Públicas
Blog da Saúde

Coronavírus: Médico brasileiro que trabalha na Ásia e colega de hospital universitário afirmam que, no momento, não há motivo para pânico no Brasil


31/01/2020 - 21h22

por Conceição Lemes

Em 31 de dezembro de 2019, o governo da China alertou a Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre um surto de pneumonia na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei.

Com mais de 10 milhões de habitantes, é considerada o centro político, econômico, financeiro, comercial, cultural e educacional da China Central.

Rapidamente, em uma semana, os cientistas chineses identificaram o patógeno responsável: um novo coronavírus, o 2019-nCoV, como é chamado oficialmente.

Ontem, quinta-feira, 30/01, exato um mês após o aviso inicial, já havia no mundo 7.818 casos confirmados. A esmagadora maioria na China: 7.736, com 170 mortes.

Fora da China, havia 82 casos confirmados em 18 países.

Os dados constam do relatório publicado nessa quinta-feira pela OMS, que também divulgou duas importantes medidas:

*O nome oficial da doença causada pelo novo coronavírus. Chama-se Doença Respiratória de 2019-nCoV.

* Declarou o novo coronavírus uma emergência de saúde pública de interesse internacional.

A OMS só utiliza essa terminologia para epidemias que exigem forte reação global.

Tanto que, até aqui, isso havia acontecido com a gripe suína H1N1 (2009), a poliomielite (2014), o zika vírus (2016) e a febre ebola, que de 2014 a 2016 devastou parte da população da África Ocidental e desde 2018 atinge a República Democrática do Congo.

Os casos confirmados do coronavírus 2019 na China já superam os 9 mil, com 213 mortes.

Dos mais de 1.300 chineses em estado grave, 130 se recuperaram e tiveram alta.

Fora da China, já são mais de 90 casos confirmados, entre os quais dois na Itália, onde a infecção pelo 2019-nCoV ainda não tinha caso registrada.

Há casos comprovados em todos os continentes.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, existem nove casos suspeitos em investigação nos estados de Minas Gerais (1), Rio de Janeiro (1), Rio Grande do Sul (2), São Paulo (3), Paraná (1) e Ceará (1).

Nenhum ainda provável ou confirmado. Os dados referem-se ao período de 18 a 30 de janeiro de 2020.

Nós ouvimos dois médicos brasileiros já a postos para enfrentar o 2019-nCoV.

Um, por sinal, está no olho do furacão.

É o sanitarista Fábio Mesquita, que trabalha na OMS em Mianmar (antiga Birmânia), fronteira com a China, Tailândia, Índia, Bangladesh e Laos.

Mesquita integra o comitê de monitoramento diário do país. É o responsável pelo acompanhamento dos casos de internação hospitalar e tratamento.

O outro é o infectologista Gerson Salvador, do Hospital Universitário (HU) da Universidade de São Paulo (USP).

Uma distância de 16.171 km em linha reta (do aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo, e o centro de Mianmar) os separam.

Interessantemente, em se tratando do Brasil, ambos avaliam de modo semelhante a nova ameaça.

“É lógico que a situação é preocupante, não podemos menosprezar a epidemia”, diz Salvador.

“Mas também não há motivo para desespero. Pegar esse coranavírus não é sentença de morte”, acrescenta.

Em mensagem a amigos e familiares no Brasil, Mesquita, brincando, falou sério:

Além de muitos amigos queridos, tenho filha, neta, irmãos, tias e primas aí no Brasil. Também filha e neta na Holanda. Portanto, me sinto corresponsável global pelo atento controle do curso desta nova epidemia.

Mas, em suma, até o momento não há motivos para pânico.

A taxa de letalidade pelo 2019-nCoV é praticamente a mesma desde o começo da epidemia. Está em torno de 2%.

Claro que esse índice pode mudar, mas, por enquanto, está bem abaixo do registrado em epidemias anteriores causadas por outros coronavírus.

Explico. O coranavírus não é um vírus só, mas uma grande família de vírus.

“Nós tivemos dois casos severos de epidemias semelhantes pelo coranavírus; a Sars, que emergiu em 2002/2003, e a Mers, em 2012”, atenta Mesquita.

Sars (na sigla em inglês) é a Síndrome Respiratória Aguda Grave, que também se disseminou a partir de China.

Das 8.098 pessoas infectadas ao redor do mundo, matou 774. Portanto, 10%.

A Mers (na sigla em inglês) é a Síndrome Respiratória do Oriente Médio.

Dos 2.494 pacientes identificados, matou 858. Ou seja, 36%.

Aproximadamente 80% dos casos em humanos foram relatados pela Arábia Saudita, que foi onde surgiu.

Se você ainda duvida de que não há motivo para pânico, o infectologista Gerson Salvador observa:

*O vírus da gripe (transmite de forma semelhante ao novo coronavírus) mata no mundo 290 mil a 640 mil pessoas por ano.

*Em 2018, o sarampo causou 110 mil mortes no mundo.

*A tuberculose causa 1,5 milhão de mortes por ano.

— Mesmo depois da OMS ter declarado o coronavírus emergência de saúde pública internacional, não há motivo para pânico? – alguns devem estar querendo saber.

Os doutores Fábio e Gerson mantêm a avaliação que fizeram no início desta reportagem.

“Não é preciso entrar em pânico, mas a atenção e a vigilância devem ser ampliadas”, traduz Mesquita.

Por uma razão. Já há sete novos casos comprovados em outros países de pessoas que nunca foram para a China. O que demonstra que novo coronavírus pode ser, sim, transmitido de pessoa para pessoa.

— O que fazer então para me proteger, já que não tem vacina?

— Quando vai ter vacina?

Realmente, não há ainda vacina contra 2019-nCoV.

Aliás, é o que sempre acontece quando uma doença é nova. Isso perdura até que uma seja desenvolvida, o que pode levar anos.

A única vacina que começou a ser desenvolvida para o coronavírus da Sars passou apenas pela primeira etapa de testes. A pesquisa foi interrompida porque desde 2003 não houve novas mortes por Sars.

Quanto à vacina contra o novo coranavírus, a corrida científica nesse sentido já começou.

Há expectativa de que em um ano ela seja realidade, mas não dá para garantir nada.

— O que fazer então para evitar a infecção pelo 2019-nCoV agora?

Fazer o que você sempre deveria fazer para se proteger de outras doenças de transmissão respiratória, inclusive resfriado e gripe influenza: lavar as mãos com frequência, evitar colocar as mãos nos olhos, nariz e boca, cobrir a boca ao tossir.

Essas medidas ajudam a evitar a Doença Respiratória de 2019-nCoV, assim como demais infecções das vias respiratórias.

SINTOMAS, TEMPO DE INCUBAÇÃO, TRATAMENTO

Sempre que há surtos de caráter global muitas informações equivocadas são disseminadas, gerando pânico às vezes.

Para combatê-las,  pedimos mais alguns esclarecimentos aos dois entrevistados.

Blog da Saúde – O que é o coronavírus?

Gerson Salvador – Na verdade, não é um vírus, mas uma grande família de vírus, que geralmente causam problemas respiratórios, que variam causa desde o resfriado comum a doenças mais graves, como a Sars, a Mers e agora Doença Respiratória de 2019-nCoV.

Blog da Saúde – Há quanto tempo  são conhecidos?

Gerson Salvador — Desde a década de 1960.

Blog da Saúde – Algum motivo especial para se chamarem coronavírus?

Gerson Salvador — Eles têm esse nome devido ao seu aspecto. Visto em microscópio, lembra uma coroa.

Blog da Saúde – Quantos coranavírus são conhecidos?

Gerson Salvador – O coronavírus 2019 é sétimo que infecta o ser humano. Até então seis tipos diferentes tinham sido confirmados como causa de infecções em seres humanos.

Blog da Saúde – Como são transmitidos os coronavírus?

Fábio Mesquita– O coronavírus é uma zoonose, que começa em animais e progride para seres humanos. Vira epidemia, quando ele começa a ser transmitido entre seres humanos.

Gerson Salvador – Muitos coronavírus são transmitidos entre animais da mesma espécie ou de espécies muito parecidas. Você tem coronavírus que se hospeda em morcego e transmite para morcego. Tem aquele que pega camelo e transmite pra camelo.

Só que eventualmente pode haver transmissão de uma cepa mutante de animais para humanos, dependendo da mudança no material genético do vírus (RNA).

E, depois, de ser humano para ser humano, podendo, aí, sim, causar epidemia em pessoas, como bem observou o doutor Fábio.

Blog da Saúde – Por exemplo.

Gerson Salvador — O coronavírus da Sars foi isolado primeiramente em morcegos. Ele foi transmitido para humanos a partir de contato com civetas, um felino selvagem originário do Sul e Sudeste Asiático, também chamado de gato-de-algália.

Já o coronavírus da Mers foi transmitido de camelos para humanos. Estudos mostraram que os seres humanos foram infectados por contato direto ou indireto com camelos. O coronavírus da Mers foi identificado em camelos de países do Oriente Médio, África e Sul da Ásia.

Blog da Saúde – E 2019-nCov já sabe qual a fonte inicial?

Gerson Salvador – Ainda, não. Os cientistas estão trabalhando nisso.

No início, muitos dos pacientes do surto em Wuhan, na China, tinham alguma ligação com um grande mercado de frutos do mar e animais vivos, sugerindo que o vírus provavelmente surgiu de uma fonte animal.

No entanto, um número crescente de pacientes supostamente não teve exposição ao mercado de animais, indicando a ocorrência de disseminação de pessoa para pessoa.

O vírus 2019 é provavelmente um betacoronavírus, semelhante aos encontrados em morcegos.

Blog da Saúde – O novo coronavírus é transmitido como o vírus da gripe?

Gerson Salvador –– A transmissão se parece, sim, com a do vírus da gripe, ou seja, pode ser transmitida de pessoa a pessoa a partir de secreções respiratórias.

Blog da Saúde – E o que pode causar?

Gerson Salvador – Assim como o vírus da gripe, pode dar um quadro leve, que lembra resfriado. Mas, assim como o vírus da gripe, o 2019-nCoV pode eventualmente se manifestar por formas graves, com infecções pulmonares que podem levar à morte.

O novo coronavírus tem um comportamento que lembra o vírus influenza, que é mais agressivo do que os vírus de resfriado comum.

Blog da Saúde – É verdade que a maioria das pessoas já foi exposta a algum tipo de coronavírus?

Gerson Salvador – Sim. É um dos muitos vírus que causam infecção de vias aéreas em crianças.

Blog da Saúde – Qual o tempo de incubação desse novo coronavírus?

Fábio Mesquita — De 2 a 14 dias e pode ser modificado à medida que o conhecimento progredir.

Blog da Saúde – Quais os sinais/sintomas da infecção pelo coronavírus 2019?

Gerson Salvador — A maior parte lembra um resfriado ou infecção de vias aéreas superiores.

Dados preliminares da epidemia atual mostram que quase todos (98%) relataram febre, 76% tinham tosse, 55%, falta de ar e 44%, mialgias/fadiga. Já 20% tiveram doenças mais graves e precisaram de cuidados intensivos.

Blog da Saúde – Em caso positivo, qual o tratamento?

Fábio Mesquita — Não há nenhum tratamento específico, como um antiviral, eficiente para coronavírus. Os pacientes recebem tratamentos sintomáticos e nos casos graves suporte com oferta de oxigênio e eventualmente cuidados intensivos.

Antivirais estão sendo testados, mas ainda não há um protocolo de tratamento universalmente aceito. Certamente isso estará em curso nos próximos dias.

Aliás, a tecnologia avançou rapidamente desde 2002, quando houve a primeira crise pelo coronavírus da Sars. Portanto, o kit para diagnóstico já foi estabelecido e está sendo produzido em larga escala pela China e pelos Estados Unidos.

O relato de casos também foi imediato, em comparação com o que aconteceu há 18 anos.

Blog da Saúde – Por último, que medidas estão adotando para prevenir o 2019-nCoV? Começando pelo doutor Fábio, que já está na zona do furacão.

Fábio Mesquita – É sempre inspirador usar tudo o que aprendemos para controlar uma epidemia e ver os passos que vão sendo dados. Mas, ao mesmo tempo, lamentar que a gente não se preparou para mais esta epidemia que vai impactar muitas vidas e muitas famílias.

Blog da Saúde – E o senhor, doutor Gerson?

Gerson Salvador — Nós estamos no Brasil e ainda não temos casos confirmados. Para adquirir o coronavírus 2019 é preciso ter estado numa área em que está ocorrendo a transmissão, notadamente na China. Ou ter contato com caso confirmado ou suspeito.

Quem não se enquadra nessas situações, não tem risco de pegar o vírus.

Agora, é fundamental incorporar alguns hábitos que ajudam a prevenir não só o coranavírus 2019, mas também resfriados e gripes pelo vírus influenza:

*lavar as mãos com sabão com frequência;

*desinfetar frequentemente as mãos com álcool gel 70%, em especial quando estiver em grandes aglomerações;

*evitar colocar as mãos nos olhos, nariz e boca;

*cobrir a boca ao tossir.

Essas medidas devem ser adotadas por todos.

Blog da Saúde — O senhor adota tudo isso?!

Gerson Salvador –Adoto. sim (risos).

Blog da Saúde — A propósito, o uso de máscara funciona contra a transmissão do coronavírus? 

Gerson Salvador — Em termos de vírus respiratórios, as medidas de barreira têm o seu papel. Por exemplo, num ambiente hospitalar, quando o paciente está em isolamento respiratório, quem entrar em contato com ele tem que usar máscara, entre outras medidas de proteção.

Já em ambientes abertos, públicos, há estudos que mostram que funcionam, mas há também estudos dizem que não. Ou seja, é uma questão polêmica.

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1 comentário

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Zé Maria

31 de janeiro de 2020 às 22h32

https://twitter.com/luisnassif/status/1223346873198575616

“O coronavírus é a sexta emergência internacional declarada pela OMS.”

“É equivocada a impressão de que o coronavírus é atualmente a maior ameaça à saúde pública mundial, quando ele é não mais do que a ponta de um descomunal iceberg.”

“Todas as manchetes sobre o coronavírus, que estão alarmando as populações mundo afora, fariam melhor serviço se semeassem o pânico quanto ao desmonte dos sistemas públicos de saúde e à desvalorização da ciência.
Estes sim são as grandes ameaças à segurança da saúde global.”

“Não Existe Segurança Sem Acesso Universal à Saúde

Por Deisy Ventura (*), no Jornal da USP, via GGN: https://t.co/f0p6GlfKER

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou ontem, 30 de janeiro, que o coronavírus é uma emergência internacional de saúde pública, com base no Regulamento Sanitário Internacional vigente em 196 países desde 2007.
A declaração produz efeitos positivos, como o de chamar a atenção dos governos para um tema de saúde, incentivar o compartilhamento de informações, inclusive científicas, e encorajar investimentos em pesquisa.
Mas também pode produzir efeitos negativos como o pânico, a inversão de prioridades em saúde pública e a profusão de notícias falsas.
Pode, sobretudo, criar a equivocada impressão de que o coronavírus é atualmente a maior ameaça à saúde pública mundial, quando ele é não mais do que a ponta de um descomunal iceberg.

O coronavírus é a sexta emergência internacional declarada pela OMS.
A primeira foi a gripe A (H1N1), entre 2009 e 2010, propagada a partir do México.
A segunda foi a expansão do poliovírus, sobretudo em regiões de conflitos armados, declarada em 2014 e ainda em vigor.
A terceira e a quinta referem-se ao vírus ebola, sendo declaradas, respectivamente, entre 2014 e 2015 na África Ocidental; e em 2019 na República Democrática do Congo.
A quarta emergência teve como epicentro o Brasil: foi a síndrome congênita do vírus zika, em 2016.

É difícil comparar tais emergências porque suas causas e características são múltiplas e complexas.
O traço comum entre elas é justamente o conceito de emergência de saúde pública de importância internacional (sigla em inglês: PHEIC).
Segundo o Regulamento Sanitário Internacional, a declaração de emergência não se deve ao número de casos, à letalidade de uma doença ou mesmo ao desempenho dos países que são seu epicentro.
O que motiva tal declaração é o risco de propagação internacional da ameaça, além da necessidade de coordenação intergovernamental da resposta.

Em outras palavras, se cada Estado adotar medidas por conta própria, em uma escala que pode ir da negligência ao exagero, sem levar em conta informações e recursos compartilhados por centros de pesquisa, agências internacionais e outros Estados, as possibilidades de controle da doença serão radicalmente diminuídas, enquanto as de causar danos desnecessários serão muito aumentadas.

No plano das relações internacionais, há um elemento decisivo na nova emergência: o de ter a China como epicentro.
O surto de Síndrome Respiratória Aguda Grave (sigla em inglês: SARS), ocorrido em 2003, também na China, teve crucial importância na história da saúde global.
A tomada de consciência sobre o impacto do vertiginoso aumento do tráfego internacional de pessoas sobre a propagação internacional das doenças contribuiu para desbloquear as negociações do Regulamento Sanitário Internacional, que se arrastavam há anos.
A relevância econômica e o regime político da China são complicadores que a OMS deverá gerir com máxima cautela durante esta emergência.

Devem ser igualmente objeto de cautela as liberdades fundamentais e a dignidade das pessoas.

Segundo a Organização Mundial do Turismo, um bilhão e meio de viagens internacionais ocorreram em 2019 para fins de turismo e negócios.
Comparado a este dado, o número de migrantes internacionais é muito inferior, sendo estimado em cerca de 300 milhões.
Mesmo o número de pessoas refugiadas não supera estimativas de cerca de 40 milhões.
No entanto, em geral são migrantes e refugiados, e não turistas ou executivos, os alvos de represálias indevidas durante emergências sanitárias.
Com razão, a OMS destaca em suas recomendações a importância de evitar a discriminação e o estigma por conta da origem, pois o que garante a segurança de todos é que as pessoas, em qualquer caso, sejam alvo de cuidado e respeito.(**)

Por fim, cabe abordar a possibilidade de chegada do coronavírus ao Brasil, lembrando que só existe segurança sanitária verdadeira em sistemas capazes de cobrir a totalidade do território com acesso universal à saúde.

A detecção de uma doença não pode depender de recursos financeiros para pagar um atendimento, e ainda menos a sua prevenção e o seu tratamento.

Este sistema já existe no Brasil: é o Sistema Único de Saúde (SUS).

Apesar de seu subfinanciamento crônico e incontáveis mazelas, o SUS revelou para o mundo a Síndrome Congênita do Vírus Zika, graças aos notáveis profissionais de saúde que atuam no sertão nordestino e aos centros de pesquisa que resistem aos ataques brutais à ciência brasileira recentemente intensificados.

Todas as manchetes sobre o coronavírus que estão alarmando as populações mundo afora fariam melhor serviço se semeassem o pânico quanto ao desmonte dos sistemas públicos de saúde e à desvalorização da ciência.
Estes sim são as grandes ameaças à segurança da saúde global.

*Deisy Ventura, professora titular, coordenadora do doutorado em Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e presidente da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI).

**(“China promete trazer para casa, o mais cedo possível,
os residentes de Hubei abandonados no exterior”
http://portuguese.xinhuanet.com/2020-01/31/c_138745963.htm)

https://jornalggn.com.br/crise/coronavirus-nao-existe-seguranca-sem-acesso-universal-a-saude-por-deisy-ventura/

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