Violência obstétrica: Em vídeo, brasileiras denunciam abusos, maus tratos e sofrimento nas mãos de profissionais de saúde

por Conceição Lemes

Neste 25 de novembro, faz exatamente um ano que um grupo de mulheres ligadas à área de saúde e/ou interessadas em questões referentes a parto realiza ações coletivas nas mídias sociais. Objetivos: dar mais visibilidade à violência obstétrica e desnaturalizar  as infrações aos direitos das mulheres, que são cometidas pelos profissionais de saúde e muitas vezes passam desapercebidas.

“São ações organizadas por usuárias, pesquisadoras e profissionais da saúde para promover o debate, sensibilizar, denunciar essas questões “, diz Ana Carolina Franzon, que edita o blog Parto no Brasil em parceria com Bianca Lanu.  “Prosseguiremos até que políticas públicas efetivas sejam promovidas no sentido de erradicar a violação dos direitos humanos das mulheres no parto.”

Em 2010,  os dados sobre a violência da pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privadorealizada pela Fundação Perseu Abramo e o SESC, chamaram muito a atenção do grupo. E um dado se destacou: uma cada quatro mulheres (25%) relatou ter sofrido algum tipo de violência na hora do parto.

Entre as possíveis formas de abusos e maus-tratos, sobressaíram:  exame de toque doloroso, recusa para alívio da dor,  não explicação de procedimentos adotados, gritos de profissionais ao ser atendida, negativa de atendimento, xingamentos e humilhações.

Além disso, 23% das entrevistadas ouviu de algum profissional algo como: não chora que ano que vem você está aqui de novona hora de fazer não chorou, não chamou a mamãese gritar eu paro e não vou te atenderse ficar gritando vai fazer mal pro neném, vai nascer surdo.

Por isso, neste 25 de novembro, Dia Internacional para Eliminação da Violência contra as Mulheres, o grupo está lançando o videodocumentário popular Violência obstétrica — A voz das brasileiras, produzido entre outubro e novembro deste ano. Os responsáveis pela iniciativa:

Ana Carolina Franzon, jornalista, pesquisadora em Saúde Pública, integrante do grupo de pesquisa sobre Gênero, Maternidade e Saúde ( GEMAS), da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Bianca Lanu,cientista social, produtora cultural e educadora perinatal.

Bianca Zorzam,  obstetriz, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da USP.

Lígia Moreiras Sena, bióloga, aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Catarina, e responsável pelo blog Cientista Que Virou Mãe.

Kalu Brum, jornalista, doula e coeditora do blog Mamíferas.

Armando Rapchan,  fotógrafo e videomaker.

Conversei um pouco mais com Ana Carolina sobre esse trabalho.

Blog da Saúde — Violência obstétrica traduz bem os maus tratos e abusos que sofrem as mulheres quando internadas numa maternidade. Essa expressão foi criada pelo blog?

Ana Carolina Franzon — Não. Foram as próprias mulheres do movimento que cunharam o termo violência obstétrica para tais práticas.

 Blog da Saúde —  Por que videodocumentário popular?

Ana Carolina Franzon — Trata-se de uma ação de ciberativismo, realizada quase que exclusivamente via mídias sociais, coordenada por usuárias e pesquisadoras da área da Saúde Coletiva.

Chamamos de “videodocumentário popular”, porque priorizamos a experiência das usuárias de saúde para elaborar e difundir este conceito “violência obstétrica”. Também qualificamos como uma produção da subárea da Comunicação Social, a Comunicação Popular e Comunitária, que compreende produtos de informação de caráter não-empresarial.

Blog da Sáude — Os vídeos foram gravados por vocês ou pelas próprias mulheres e/ou familiares? 

Ana Carolina Franzon — Inicialmente, montamos um roteiro para os depoimentos. Que formas de desrespeito você viveu em seu parto? Como isso te afetou física e emocionalmente? Qual o seu objetivo com esse depoimento?.

Depois, por meio de uma divulgação nas mídias sociais, convidamos as mulheres para participar. Pedimos vídeos com depoimentos,  fotografias com descrições das imagens… Assim, todas as mulheres que estão no vídeo participaram de forma espontânea e voluntária.

Os vídeos foram gravados em webcam, celular ou máquina fotográfica pelas próprias mulheres, que se auto-selecionaram para participação. Optamos por manter esta característica de “comunicação popular”, como você poderá ver.

Por fim,  fizemos um roteiro para edição final. Aí, contamos com os trabalhos – também voluntários – de um fotógrafo e videomaker. Fizemos tudo isso em apenas um mês.

Blog da Saúde — Me fala um pouco sobre o vídeo. 

Ana Carolina Franzon — O filme retrata a experiência das mulheres brasileiras com o nosso atual modelo de assistência ao parto, que já foi definido por Maria do Carmo Leal (ENSP/FIOCRUZ), coordenadora do Inquérito Nacional Nascer no Brasil, como um “modelo obstétrico doente e adoecedor”.

Aliás, os nossos atuais indicadores de saúde reprodutiva são igualmente preocupantes:

* Anualmente, temos  no país um milhão de cesáreas desnecessárias.

* Temos uma assistência ao parto normal excessivamente medicalizada e intervencionista, com abuso de procedimentos obsoletos, que já deveriam ter sido erradicados há muitos anos.

* Cerca de 90% das mortes maternas evitáveis estão relacionadas à qualidade insuficiente dos serviços obstétricos.

* A péssima qualidade das informações dos prontuários sobre procedimentos obsoletos, dolorosos, e até arriscados à saúde. Por exemplo, a episiotomia (corte no períneo) e a manobra de Kristeller (pressão externa no fundo do útero para expulsão do bebê).

* A negação do direito de escolha das mulheres e o impedimento de sua autonomia pela ausência completa de consentimentos esclarecidos.

* Infração institucional da Lei do Acompanhante (de 2005), que ocorre de modo ordinário e impune.

Esses mesmos problemas ocorrem com as mulheres que buscam os serviços de saúde para planejamento reprodutivo e abortamento, com todos os agravantes que a ilegalidade provoca.

Blog da Saúde — O vídeo traz histórias dolorosas. Vocês já sabiam que iriam encontrar essa situação?

Ana Carolina Franzon– Sim, porque nas pesquisas que realizamos em Saúde Coletiva temos uma trajetória de escuta das mulheres. As pesquisas sobre a qualidade da assistência compreendem: a efetividade das condutas clínicas, a segurança das pacientes e sua experiência emocional com todo o processo de cuidado.

Estamos fazendo uma escolha consciente, quando priorizamos a perspectiva que as mulheres têm de todos os direitos reprodutivos que lhes foram subtraídos pela instituição ou pelos profissionais das maternidades.

 Blog da Saúde — O vídeo é uma denúncia.

Ana Carolina Franzon — Sem dúvida, sim. Há um ano a nossa grande questão é desnaturalizar essa forma de violência contra as mulheres, violência de gênero. Dar visibilidade aos direitos humanos das mulheres na gravidez, parto, pós-parto, planejamento reprodutivo e abortamento – que são os próprios direitos reprodutivos.

Temos uma reação muito comum e corriqueira – especialmente anunciada por profissionais de saúde – que é de desmerecimento da questão, uma tentativa talvez até inconsciente de naturalizar os maus-tratos e invisibilizar a questão.

Já ouvimos de tudo um pouco: que estamos transformando “problemas médicos” em fatos policialescos; que não temos a mínima ideia da violência que os próprios profissionais sofrem do sistema de saúde – como se uma violência justificasse a outra; que tudo não passa de uma escolha ou descompensação/exagero por parte das mulheres.

O problema da invisibilidade é que as mulheres ficam fadadas ao silêncio e à individualização, personalização, do dano. Ou seja, não conseguimos politizar o debate, e continuaremos anos e anos sofrendo em silêncio, mas “felizes porque ao menos o bebê está bem”.

Também temos como resultado a responsabilização da fisiologia do parto pelos danos iatrogênicos.  Parto normal não é terrível por si – como descreve a Bíblia cristã.  É a assistência que pode piorá-lo — e muito.

Blog da Saúde — Com base nas suas pesquisas e neste vídeo, o que recomendaria? 

Ana Carolina Franzon — Sempre encorajamos as mulheres a buscarem informações alternativas sobre os processos da gravidez, parto e pós-parto, com valorização da troca de experiências.

Infelizmente, a realidade dos serviços hoje, de modo geral, não consegue viabilizar a “escuta das mulheres” – suas histórias de vida são geralmente marcadas por situações que não devem ser compartilhadas em grupos, e é assim que os serviços as silenciam. Queremos resgatar os benefícios dos grupos populares de apoio, com rodas dialogadas sobre direitos e cidadania – além de informações sobre fisiologia da gravidez e parto, com esclarecimento sobre riscos e benefícios.

Temos hoje grupos voluntários de apoio entre usuárias, que existem na maior parte das capitais e em algumas cidades do interior. A Rede Parto do Princípio mantém uma lista periodicamente atualizada com as informações destes grupos.

Além disso, temos uma agenda de pesquisa e políticas públicas que inclui a criação de indicadores específicos para o parto, para que seja possível monitorar e avaliar a qualidade da assistência. Enquanto todos os procedimentos não estiverem bem monitorados, continuaremos produzindo uma cultura de fobia do parto normal, como se os danos fossem próprios da fisiologia e não, da iatrogenia. E o número de cesáreas tenderá a aumentar.

Acima de tudo queremos colaborar para a mudança do modelo de assistência ao parto, hoje centrado no bem-estar do provedor de saúde e não da mulher. Para termos experiências mais satisfatórias, precisamos:

* ter autonomia sobre nossos corpos;

* de esclarecimentos verdadeiros sobre riscos e benefícios dos procedimentos:

*ter liberdade de posição durante o trabalho de parto e parto, com incentivo ao parto normal em posição verticalizada;

* analgesia de qualidade para todas as mulheres;

* e o cumprimento estrito da Lei do Acompanhante, que prevê sua permanência junto da mulher durante toda a internação.

Eu assisti ao vídeo. Estarrece. Vale a pena conhecê-lo.Embora  as mulheres pobres e as negras sejam as as principais vítimas da violência no parto, aquelas de alto poder aquisitivo, que têm os seus bebês em hospitais famosos, não estão livres do problema.