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Ana Maria Costa: Saúde das mulheres brasileiras, celebrar o quê?

Publicado em: 8 de março de 2012

por Ana Maria Costa

No Brasil houve grande evolução conceitual e  nas concepções políticas sobre a temática da saúde das mulheres e dos direitos sexuais e reprodutivos. Ao valorizar o desenvolvimento dos estudos de gênero em saúde e a aplicação da teoria das relações de gênero aos fenômenos relacionados às doenças e mortes das mulheres fica reconhecido o seu potencial de apontar alternativas de mudanças em saúde.

A despeito de todos os avanços no plano do conhecimento, as políticas de saúde para as mulheres se estreitam à abordagem focalizada. Na prática cotidiana, dificuldades de acesso e má qualidade dos serviços exigem transformações dos profissionais, dos serviços e dos gestores de saúde.

Os riscos e as vulnerabilidades das mulheres são decorrentes da associação das desigualdades nas relações de gênero com as condições de raça e classe social atuantes no processo da determinação social das condições da saúde.O agravamento das condições de saúde das mulheres em virtude do acúmulo de novas vulnerabilidades e riscos como no caso da AIDS, das doenças relacionadas ao trabalho, da violência sexual e das doenças mentais constituem desafios que devem ser enfrentados ao lado dos problemas crônicos dos cânceres ginecológicos e da morte materna.

Para a construção ou formulação de uma política de saúde é necessário conhecer e valorizar os problemas do grupo ao qual se destina, atribuir importância e prioridade política e também rever os caminhos já percorridos reorientando as suas diretrizes e estratégias. Nessa perspectiva, para uma política de saúde das mulheres é necessário analisar os valores sociais, as discriminações de gênero associados a saúde feminina e buscar mecanismos para fortalecer novas correlações de forças na sociedade que promovam valores para mudar as condições  atuais subjacentes às desigualdades e às iniquidades em relação às mulheres.

As ações desencadeadas no setor da saúde são importantes, mas  ainda insuficientes. De fato, são necessárias mudanças e ações articuladas dos diversos setores de governo e da sociedade com políticas intersetoriais para a promoção da saúde das mulheres e dos direitos sexuais e reprodutivos. A sociedade deve se responsabilizar na compreensão ampla e solidaria do aborto como recurso para as mulheres que engravidam sem o desejar. A atual condição clandestina do aborto tem importância indiscutível na saúde pública, no adoecimento e na morte das mulheres.

A medicalização como prática abusiva e desnecessária tem as mulheres como alvo ocasionando uma verdadeira expropriação do corpo feminino. Esta condição é presente tanto no abuso das laqueaduras tubárias como nas taxas campeãs de cesarianas ou mesmo na prescrição sem critérios para a reposição hormonal nas mulheres em climatério.

É reconhecido que a prática indiscriminada da cesariana, além de elevar os custos hospitalares, tem relação direta com a morte materna. A reposição hormonal por outro lado, além de alimentar a indústria farmacêutica, traz riscos reais à saúde das mulheres e tem seus benefícios questionados.

Movimentos sociais especialmente atuantes na defesa de mais equidade para a população negra e na defesa da livre orientação sexual, têm advertido o SUS sobre a presença de discriminações nos serviços ou omissões de oferta de demandas por parte do sistema. Estas situações se manifestam tanto no que diz respeito a ausência de políticas ou de atitudes e práticas dos profissionais. Nesse contexto é que as mulheres lésbicas, transexuais e negras reclamam por respeito e reconhecimento de suas demandas e especificidades  na atenção e cuidado à saúde e, ao vocalizar sobre as suas necessidades fornecem outros ângulos que reafirmam a complexidade da saúde, particularmente, a das mulheres.

O cenário epidemiológico para a saúde da população feminina, cada vez mais complexo, é acentuado pelo desvendamento de novas situações e o agravamento de outras existentes. A AIDS alastra-se entre as mulheres, a violência e as doenças cardiovasculares agregam-se aos cânceres ginecológicos e à mortalidade materna. De uma forma geral, para as mulheres, os indicadores de atenção e cuidado à saúde, que vem sendo divulgados pelo Ministério da Saúde , são positivos e corroboram a diminuição da mortalidade materna, 81% das mulheres tem acesso a métodos contraceptivos, 89% das gestantes realizam quatro ou mais consultas de pré-natal e 97% apresentam realizam parto com profissional de saúde qualificado e 98% dos partos são institucionais, ou seja, hospitalares.

A redução da mortalidade materna foi de 46% entre 1990 e 2009. Em 1990, a RMM corrigida foi de 139 óbitos por 100 mil NV, caindo para 68 em 2009 .No entanto, nos últimos anos observa-se diminuição na velocidade de queda da RMM, principalmente a partir de 2001. O fato pode estar relacionado às diversas iniciativas adotadas no SUS que são voltadas à melhoria das informações, como é o caso da estratégia para redução dos óbitos por causas mal definidas, a autópsia verbal, a busca ativa de óbitos e nascimentos nos estados das regiões Norte e Nordeste onde há baixa notificação, e a implantação da vigilância do óbito fetal, infantil, materno e por causas mal definidas.

A ampliação do acesso aos serviços de saúde é resultado do SUS,  mesmo que a universalidade  real bem como a equidade constituam ainda grandes desafios.  Contrapondo aos seus potenciais benefícios , a ampliação do acesso a serviços de saúde para as mulheres, tem ocasionado maior medicalização particularmente em termos de cesariana, episiotomias e uso abusivo de exame ultrassom.

Desde os anos oitenta o Brasil desponta no cenário mundial como campeão das cesarianas, apesar do reconhecimento dos riscos para mulheres e recém-nascidos que esse procedimento envolve. Associado ao processo de trabalho dos profissionais médicos e, ao mesmo tempo a um fetiche na cultura de consumo para as mulheres, nos últimos anos algumas iniciativas foram adotadas para qualificar e reduzir a indicação do parto cirúrgico.

Acesso , expressão do direito à saúde

O acesso a cinco ou mais consultas durante o pré natal é definido como critério básico para a qualidade desta modalidade de atenção.   Em 1981, 40,5% das gestantes receberam cinco ou mais consultas enquanto em 2006/07 esta cobertura ampliou para 80,9%, embora  a cobertura de vacinação antitetânica atingiu apenas 76,9% das gestantes. Entretanto, ao mesmo tempo que se observa um crescimento do parto institucionalizado de 79,6% em 1981 para 98,4% em 2006/07, o crescimento da ocorrência dos partos por cesariana passa nesse período de 24,1 % para 43,8 %. (Fonte: SISPRENATAL/DATASUS)

A desigualdade de acesso aos serviços de saúde para as mulheres grávidas, parturientes ou aquelas que provocam aborto inseguro, é responsável pelo fato de que as mulheres negras, jovens, pobres e residentes em áreas peri-urbanas sejam as mais afetadas pela morte materna. Em virtude destas dificuldades de acesso, a mulher negra tem três vezes mais riscos de morrer de aborto inseguro que as mulheres brancas.As dificuldades ou falta de acesso aos serviços de saúde configuram uma injusta desigualdade e atinge especialmente as pessoas residentes nas áreas rurais e no interior da Amazônia e do Nordeste e também aquelas que residem nos 10% dos municípios brasileiros, que não têm médicos.

Aborto: problema de saúde pública e violação dos direitos das mulheres

É significativa a presença  do aborto como causa da mortalidade materna, apesar de ser um evento subnotificado em virtude da clandestinidade. Do ponto de vista médico, a interrupção da gravidez quando feita sob condições tecnológicas adequadas, não oferece riscos para as mulheres. Na situação atual de ilegalidade as mulheres grávidas que não querem ou não podem por qualquer razão prosseguir na gestação acabam realizando o abortamento.

O aborto realizado de modo clandestino envolve riscos à saúde, mas os riscos não são iguais para todas as mulheres já que as de classe social mais altas buscam serviços que, mesmo clandestinos, são melhores. Por ser causa de morte e de adoecimentos de milhares de mulheres, o aborto ilegal deve ser tratado como um grave problema de saúde pública. A solução para isso é a retirada da condição da ilegalidade da interrupção voluntária da gravidez na legislação brasileira.

Além dos danos à saúde, a criminalização do aborto constitui uma violação aos direitos sexuais e reprodutivos, consequentemente aos direitos humanos. Têm sido muitas as tentativas de aprovação de projetos de lei para avançar a democracia nacional, ampliando os permissivos legais ou mesmo descriminalizando o aborto. Nos últimos anos a sociedade tem debatido com maior seriedade e compromisso sobre o assunto.

Entretanto esse debate não tem sido fácil, especialmente quando conduzidos pelos dogmas religiosos como são as posições da, cada vez maior, bancada cristã evangélica do Congresso Nacional, determinados a eliminar toda possibilidade de aprovação naquela Casa, de projetos dessa natureza.

Nas conferências de saúde a situação não é diferente.  Os delegados contrários à inclusão do aborto ilegal como problema prioritário para a saúde pública e para a democracia são exemplares na passionalidade como forma do debate. Por tudo isso é preciso introduzir nesse cenário uma nova racionalidade que seja movida pela ética da solidariedade e pela preservação da vida das mulheres. Nessa perspectiva, é importante que os profissionais de saúde, que vivenciam no cotidiano as repercussões dos problemas sobre a saúde e a vidas das mulheres, reconheçam sem ajuizamento moral, a gravidade e a dimensão do problema.

Os profissionais de saúde que lidam com o sofrimento e a dor das pessoas e que se dedicam ao cuidado do outro aplicam seus valores e moralidades ajuizando as decisões das mulheres que praticam o aborto e estão sob seus cuidados. Profissionais de saúde e a sociedade devem construir outras referências mais democráticas e solidárias para o tratamento do aborto que diariamente é praticado por milhares de mulheres de todas as classes sociais, religiões, idades, raças e em todas as localidades deste Brasil.

O conceito de redução de danos em saúde pública tem sido usado para reduzir riscos à saúde ou mesmo salvar vidas nos casos associados a situações de ilegalidade como ocorre quando o objetivo é reduzir contaminação por doenças infectocontagiosas entre usuários de drogas injetáveis por meio do fornecimento de seringas individuais, apesar de se tratar de drogas ilícitas.

Há mais de 30 anos, o misoprostol (cytotec) vem sendo usado pelas mulheres como droga abortifaciente, e a importante queda na morbimortalidade por aborto pode ser atribuída ao uso dessa droga. No início dos anos 1990 o país proíbiu a venda do cytotec e a comercialização da droga tornou-se clandestina, com custos mais elevados, restringindo o acesso das mulheres.  Reverter esta situação pode ser uma das estratégias de redução de danos e mortes por aborto.

Na mesma linha, a reorganização do atendimento de emergência, incluindo o transporte e a atenção pertinente a tempo e com qualidade às mulheres que abortam, pode resultar em redução dos danos perversos à saúde das mulheres.

Um grande desafio é restabelecer a confiança das mulheres nos serviços e nos profissionais de saúde, especialmente na prática de denúncia por “crime”. Esta situação afasta as mulheres dos serviços retardando ou mesmo impedindo o atendimento e contribuído para o agravamento da condição de saúde e aumento da mortalidade.

Finalizando, aborto é uma questão para a democracia. As mulheres esperam pela sua legalização e pela criação de serviços de saúde dignos que possam acolhê-las nesse momento hoje vivido com abandono, solidão e riscos.

Ana Maria Costa, feminista, médica, doutora em Ciências da Saúde,  integra GT Gênero e Saúde da Abrasco e é presidente do Cebes (Centro Brasileiro de Estudos em Saúde)

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Atividade física: Quando consultar o médico antes

Publicado em: 29 de fevereiro de 2012

por Conceição Lemes

— É preciso avaliação médica antes de começar uma atividade física?

É uma pergunta que muitos leitores e leitoras fazem aqui, no Blog da Saúde.

“A resposta é não para a maioria das pessoas que pretende caminhar, dançar, pedalar, andar na esteira ou na bicicleta ergométrica”, orienta o professor Mílton de Arruda Martins,  titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, e um dos autores do livro Saúde — A hora é agora. “Essas atividades praticamente não trazem riscos à saúde, já que são de intensidade leve ou moderada.”

Porém, se quiser, consulte o seu médico.

“Já quem sofre de algum problema de saúde ou tem alguma dúvida sobre a sua ou deseja praticar atividade física intensa – corrida, por exemplo –, a avaliação médica prévia é fundamental”, adverte o professor. “Nesses casos, ela é necessária qualquer que seja a sua idade.”

O Departamento Nacional de Saúde e Bem-Estar do Canadá criou o questionário abaixo.

Responda sim ou não às sete perguntas:

1) Alguma vez seu médico lhe disse que você tem algum problema de coração e só pode fazer exercício físico sob orientação médica?

2) Você sente dor no peito quando pratica atividade física?

3) Você teve dor no peito no último mês?

4) Você já perdeu a consciência ou caiu por causa de tontura?

5) Você tem algum problema nos ossos ou nas articulações que poderia piorar pela atividade física que pretende fazer?

6) Seu médico já prescreveu alguma medicação para sua pressão arterial ou seu coração?

7) Você sabe de algum motivo de saúde que o impediria de fazer atividade física sem supervisão médica?

Se respondeu não às sete questões, pode iniciar atividade física leve ou moderada, sem ir ao médico.

Porém, se disse sim a qualquer uma delas, procure um antes, mesmo que a atividade física seja leve ou moderada. É uma consulta normal. O médico vai conversar com você, medir sua pressão arterial, auscultar seu coração e pulmões e eventualmente solicitar alguns exames.

Por exemplo, teste ergométrico: a pessoa, enquanto caminha na esteira ou pedala na bicicleta até o coração atingir frequência bastante alta, é submetida a um eletrocardiograma. Muitas vezes durante esse esforço detectam-se alterações nas artérias que irrigam o coração. O
fato de o exame dar alterado não impossibilita a atividade física; apenas é preciso que seja sob orientação.

A propósito:

1) Hipertensos, diabéticos, cardíacos ou pacientes com problemas nos pulmões podem e devem se exercitar; somente necessitam de avaliação médica prévia e, depois, de orientação de um médico, um educador físico ou de um fisioterapeuta.

2) Quem respondeu sim a uma das perguntas mas faz atividade física regularmente, já passou pelo teste. Não precisa consultar um médico, a menos que decida mudar de intensidade ou sinta algum tipo de malestar durante o exercício.

3) Caso agora tenha respondido não às sete perguntas, e no futuro tiver tontura ou dor no peito, nos ossos ou nas articulações, consulte rapidamente um médico antes de prosseguir.

Leia também:

Mário Scheffer: Câncer e doenças do coração, os tratamentos que planos de saúde mais negam

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Mário Scheffer: Câncer e doenças do coração, os tratamentos que planos de saúde mais negam

Publicado em: 21 de novembro de 2011

por Conceição Lemes

Quase todo mundo tem familiar, amigo, vizinho ou colega de trabalho que teve tratamento ou exame negado por plano ou seguro de saúde. Uma parte dos casos, porém, vai parar na Justiça.

Mário Scheffer, doutor em ciências e pesquisador do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, acaba de divulgar um estudo justamente sobre a judicialização da assistência médica suplementar.

Ele analisou 782 decisões judiciais relacionadas à exclusão de cobertura, julgadas em segunda instância pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) em 2009 e 2010. Aqui, existem 489 empresas de planos de saúde e 18,3 milhões de usuários; 44,5% da população do estado e 59% da capital têm plano privado.

“Das 782 decisões judiciais analisadas, 88% foram favoráveis ao usuário, obrigando o plano de saúde a arcar com a cobertura negada; em 4% dos casos concedeu parte da cobertura solicitada”, revela Mário Scheffer. “Em 7,5% das decisões, o juiz acatou o argumento do plano de saúde.”

“Os principais motivos dessas ações são as negativas de tratamento de câncer e de doenças do coração”, informa Mário Scheffer. “Já entre os procedimentos médicos mais excluídos destacam-se quimioterapia, radioterapia e cirurgias diversas. Os insumos mais negados são órteses e próteses, principalmente stents, marcapassos e próteses ortopédicas (quadril, joelho),  exames diagnósticos e medicamentos de alto custo.”

ESMIUÇANDO

Os tratamentos negados para os diversos tipos de câncer (leucemia, linfomas, mama, próstata, colo de útero etc)  representam 36,57% das ações judiciais. Em segundo lugar estão as doenças do aparelho circulatório, incluindo acidente vascular cerebral (AVC, mais conhecido como derrame), infarto do miocárdio e outros problemas cardíacos, com 116 ações judiciais (19,46%).

Os dois grupos de doenças mais citados – câncer e cardiopatias – referem-se (em ordem inversa) às duas principais causas de adoecimento e morte no Estado de São Paulo. Em comum com as demais exclusões citadas nas ações, os tratamentos dessas doenças são onerosos.

Quimioterapia e radioterapia para tratamento do câncer são os procedimentos mais negados: correspondem a 33% das ações judiciais que mencionam procedimentos médicos excluídos pelos planos de saúde. Em seguida, as cirurgias (mastectomia, cirurgias cardíacas e bariátricas, aneurisma, vesícula etc);  sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e reabiltações; hemodiálise; transplantes, dentre outros procedimentos.

“Isso reforça a tese de que os planos excluem os tratamentos caros”, acrescenta Scheffer. “Em estudo que fiz sobre as ações julgadas pelo TJSP de 1999 a 2004, o tratamento de aids aparecia em terceiro lugar. Já como hoje ele é 100% garantido  pelo SUS, os pacientes adoecem e internam muito menos, resta aos planos cobrir poucos exames e consultas. A surpresa é o aumento da negação de atendimento em casos de obesidade mórbida, sob a alegação de que se trata de cirurgia estética, quando não é.”

O QUE OS PLANOS DE SAÚDE ALEGAM PARA DIZER “NÃO”

Entre os motivos usados pelos planos e seguros de saúde para negar o atendimento da demanda, destacam-se:

* O procedimento não consta no rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

* O contrato possui cláusula que exclui a cobertura solicitada (comum nos planos antigos, assinados antes da lei 9656, de 1998, e que não fizeram a migração).

* A doença é preexistente.

* Prazo de carência não foi cumprido.

* Hospital ou serviço utilizado não é credenciado do plano de saúde.

* O tratamento médico não foi indicado corretamente, está fora de diretriz clínica ou da “bula”, segundo auditoria do plano de saúde.

* Não é obrigação do plano de saúde cobrir medicamentos, sobretudo de uso ambulatorial, domiciliar e oral.

* A finalidade do procedimento é estética (mesmo em casos de reconstrução de mama devido ao câncer e redução de estômago para tratar obesidade mórbida).

* O plano de saúde é coletivo (pessoa jurídica, associação etc), logo prevalece o contrato entre as partes e não se aplica o Código de Defesa do Consumidor. A garantia irrestrita à saúde é dever do Estado e não do plano de saúde.

“Na verdade, o que chega à Justiça é a ponta do problema. Antes, muitos já tentaram solução junto ao plano de saúde, ANS  e Procon.  Como são casos urgentes, diante da negativa o mais comum é o usuário arcar com os  custos particulares ou buscar socorro na rede pública, o que sobrecarrega e onera o SUS.”

“Treze anos depois de aprovada a lei 9656, dos planos de saúde, o estudo mostra falhas na legislação e omissão da ANS”, avalia Scheffer. “Infelizmente, a ANS não cumpre com rigor o seu papel de regulação e fiscalização.”

15 DICAS PARA VOCÊ E SEUS FAMILIARES NÃO SEREM VÍTIMAS

O que fazer para que você não ter atendimento negado pelos planos e seguros de saúde?

Baseado nas suas pesquisas e na sua experiência de trinta anos anos como ativista na área de saúde, Mário Scheffer dá estas dicas:

1. Você tem direito a informações claras e adequadas, com especificação correta sobre a qualidade do plano de saúde, o que inclui redação com destaque, nos contratos, das cláusulas que possam limitar direitos.

2. Verifique se a empresa está registrada na ANS. Caso esteja sob direção fiscal ou técnica, isso significa que ela tem problemas (www.ans.gov.br e 0800 701 9656).

3. Leia atentamente o contrato antes de assinar, exija uma cópia.  As informações e “promessas” do corretor obrigam a operadora a cumpri-las, pois ele representa a empresa. Peça que o corretor entregue por escrito os benefícios prometidos.

4. Se você tem um contrato “novo” (assim chamado os contratos assinados a partir de 1999), verifique se o atendimento negado consta no rol de procedimentos da ANS. Esse rol define uma lista de consultas, exames e tratamentos que os planos de saúde são obrigados a oferecer. Se o seu contrato é “antigo”, você pode se valer do Código de Defesa do Consumidor para discutir a exclusão de cobertura.

5. O preço da mensalidade e as coberturas ofertadas têm a ver com: tipo de plano contratado, abrangência  (municipal, estadual ou nacional) e tamanho, extensão e qualidade da rede credenciada.

6. Leia atentamente a descrição da rede oferecida (médicos, laboratórios e hospitais), que deve fazer parte do contrato. Quanto mais restrita a rede, mais dificuldades você poderá ter para o atendimento.

7. O contrato pode impor carências (24 horas para urgências e emergências, dois anos, no caso de doenças preexistentes; 300 dias em caso de parto; 180 dias para os demais casos).

8. Se o seu plano é antigo (anterior a 1999) e tem cláusulas restritivas, veja se a empresa oferece a migração e se isso compensa financeiramente.

9. Muitos planos anunciam a “compra” ou redução de prazos de carências para você mudar de plano. Exija esse compromisso por escrito.

10. Atente ao que o plano oferece e exige para pessoas que já têm alguma doença, idosos, mulheres em idade fértil e outras necessidades de saúde especiais.

11.  Desconfie de mensalidades muito baixas de planos de saúde. Você pode estar caindo em alguma “arapuca”; por exemplo, ter dificuldade para agendar consultas, exames e cirurgias (em razão da reduzida rede credenciada) ou ver a empresa “quebrar” após longos meses pagando mensalidades.

12. Cuidado com os “cartões de desconto”, que oferecem consultas e exames mais baratos, mas não são planos de saúde e não dão nenhuma garantia de atendimento.

13. Cuidado com os “falsos” planos coletivos. São planos para duas, três ou mais pessoas em que você tem de apresentar o CNPJ de uma empresa para assinar o contrato. Os reajustes não são controlados pela ANS e as operadoras entendem que podem cancelar o contrato a qualquer momento (prática que, felizmente, vem sendo rejeitada pela Justiça).

14. Se o seu plano é da empresa onde você trabalha, informe ao setor de recursos humanos ou a seu chefe sempre que tiver um atendimento negado. Se o seu plano é individual ou familiar, tente primeiro uma solução com a operadora. Se não resolver, denuncie à ANS e ao Procon. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) tem em seu site ( www.idec.org.br) modelos de cartas para formalizar a reclamação.

15. Se decidir entrar na justiça, você tem que ajuizar uma ação por meio de advogado. É comum o juiz de primeira instância, na qual o processo é iniciado, conceder a liminar ou a tutela antecipada.

O plano de saúde é, então, obrigado a atender a imposição judicial; aí, ele recorre da decisão nas instâncias superiores. Na maioria das vezes, a Justiça tem dado ganho de causa ao paciente, mas há também decisões favoráveis aos planos de saúde. Muitas ações contra planos de saúde passaram a ser movidas junto aos juizados especiais cíveis (JECs), mais ágeis na tentativa de conciliar as partes litigantes – quando o valor envolvido vai até 40 salários mínimos. Nos JECs, se a causa for até 20 salários mínimos não é necessária a presença de advogado.

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Rocinha: Preconceito social, problema de saúde pública?

Publicado em: 12 de novembro de 2011

por Conceição Lemes

Em  fevereiro,  publiquei aqui no Blog da Saúde a matéria Parceria PUC-RJ, Viramundo e Rocinha dá samba, ops!, saúde. A Viramundo é uma ONG presidida pelo médico e professor Flavio Wittlin, que atua na área de educação em saúde, desenvolvendo um trabalho muito interessante com a comunidade da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

“O preconceito social é  fator de adoecimento para quem o sofre e expressão de patologia social para quem o exerce”, observa o médico Flavio Wittlin. “Assim, preocupados com a questão que muitas vezes apresenta-se camuflada e não ousa dizer o seu nome, os jovens moradores da comunidade tiveram a ideia e fizeram um vídeo sobre o tema. Por meio desse vídeo, eles buscam afirmar o seu sentimento de rejeição ao preconceito e à discriminação.”

“O tráfico no morro sempre foi a ponta visível, denunciada e estigmatizada do novelo, cuja ponta mais importante está no consumo da droga pelos círculos mais abastados da sociedade e na sua mercantilização belicosa”,  observa Wittlin. ” Só que esses jovens  não querem mais  ser responsabilizados pela violência social. Eles  esperam, sim, uma mudança de cenário no lugar onde moram, com paz, justiça e oportunidades.”

O vídeo abaixo faz parte dessa mudança de cenário.

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Pedro Michaluart: “Nos estágios bem iniciais a probabilidade de cura é maior do que 95%”

Publicado em: 30 de outubro de 2011

por Conceição Lemes

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva começa nesta segunda-feira quimioterapia para tratar o câncer na sua laringe.

Dos 489.270 casos novos de câncer esperados para 2011 no Brasil, os de laringe representam 2% do total. Representam ainda 25% dos tumores malignos que acometem cabeça e pescoço.

Para que nos ajudasse a entender o tumor diagnosticado no ex-presidente Lula, eu entrevistei um dos mais renomados cirurgiões de cabeça e pescoço do Brasil, o doutor Pedro Michaluart Jr. Ele é professor livre-docente da Faculdade de Medicina USP e médico da disciplina de Cirurgia e Pescoço do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Viomundo – O que causa o câncer de laringe?

Pedro Michaluart Jr. – O câncer de laringe está associado principalmente ao tabagismo e ao etilismo. E se a pessoa tem esses dois fatores de risco aumenta muito a chance de aparecimento desse tumor, que é mais comum entre homens dos 50 aos 70 anos.

Viomundo – Tem algum fator de risco que prepondera?

Pedro Michaluart Jr.— Isoladamente o hábito de fumar é o fator mais importante. Agora quando tabagismo e abuso de álcool estão associados a importância é maior do que a soma deles. Aparentemente eles têm efeito sinérgico, um potencializando o do outro.

Viomundo – Por quê?

Pedro Michaluart Jr. – Não sabemos exatamente por quê. Mas essa é observação feita em várias populações.

Viomundo – E o fato de a pessoa falar muito pode levar ao câncer de laringe?

Pedro Michaluart Jr.  — Não.

Viomundo – Quais os sintomas [aquilo que o paciente sente] e sinais [aquilo que o médico observa]?

Pedro Michaluart Jr. – Nós costumamos dividir a laringe em três sítios: glote, que é a região das cordas vocais, supra-glote e infra-glote. No Brasil, o local onde mais aparece é na glote, ou seja, nas cordas vocais propriamente ditas. Representam 70% dos casos. Trinta por cento são na supra-glote e os de infra-glote são extremente raros. Frequentemente o primeiro sintoma é a rouquidão. Pode ocorrer também alteração da deglutição.

Viomundo – Que tipo de alteração na deglutição?

Pedro Michaluart Jr. – Dor ou dificuldade na hora de engolir.

Viomundo – O fato de estar num ou no outro sítio tem alguma implicação?

Pedro Michaluart Jr. – Tem, sim. Nos tumores da glote, a probabilidade de disseminação em pescoço é pequena nos casos iniciais. Já nos de supra-glote é maior a preocupação com linfonodos cervicais (gânglios), mesmo nos casos iniciais.

Viomundo — O doutor Artur Katz, que faz parte da equipe que está cuidando de Lula, disse que é um tumor epidermoide. O que isso significa?

Pedro Michaluart Jr. –– O carcinoma epidermoide representa 95% dos tumores malignos de mucosa de cabeça e pescoço. E é a ele que estou me referindo quando eu falo dos antecedentes de fatores de risco do tabagismo e etilismo. Existem outros tipos histológicos que têm comportamento distinto.

Viomundo – Quais são os tratamentos para esse tipo de tumor? Tem médico dizendo que o tratamento de Lula começará com quimioterapia, pois já estaria num estádio avançado. É isso mesmo?

Pedro Michaluart Jr. — Existem  muitos esquemas de tratamento para o câncer de laringe, que é um órgão extremamente importante, com funções vitais. A laringe tem função na preservação das vias aéreas, na deglutição e na fonação, entre outras.

Assim todo esforço é feito para preservação das funções. A opção sempre leva em consideração tratamentos que tenham a mesma chance de cura e entre esses  o que se procura é o que tenha melhor expectativa de preservação da função.

Nessa linha, nos últimos anos, existe uma tendência de iniciar muitas vezes o tratamento do câncer de laringe com quimioterapia.  Também tem a radioterapia e a cirurgia. Os três têm efetividade e utilidade, dependendo de cada caso.

Agora só pelo fato de de se iniciar com quimioterapia não dá para dizer qual é o estágio do seu tumor.

Viomundo – O fato de começar com químio não significa que Lula vá fazer só químio?

Pedro Michaluart Jr. –– A quimioterapia usualmente faz parte do tratamento, mas não é exclusiva. Mais comumente a cirurgia ou radioterapia são tratamentos únicos para o câncer de laringe.

Viomundo – Lula então vai fazer rádio ou cirurgia?

Pedro Michaluart Jr. — Eu não tenho nenhuma informação técnica sobre o caso dele.

Viomundo — Qual a possibilidade de cura?

Pedro Michaluart Jr.  — Depende do estágio em que se inicia o tratamento. Nos estágios bem iniciais a probabilidade de cura é maior do que 95%. Já nos estágios bastante avançados é bem inferior.

Viomundo – Quer dizer que as chances de cura de Lula são excelentes?

Pedro Michaluart Jr.  –– Como disse, não tenho nenhuma informação sobre o caso dele

Viomundo – Aproveitando esse momento, o que o senhor diria para os nossos leitores?

Pedro Michaluart Jr. — Tabagismo e abuso de álcool são os grandes inimigos da laringe.  A rouquidão é o principal sintoma do câncer nesse órgão. Rouquidão que não melhora em 15 dias deve ser investigada. Ás vezes gânglios cervicais aumentados (“caroço” no pescoço) também podem ocorrer em câncer de laringe. Em quaisquer dessas situações, busque um médico. Se eventualmente for câncer, tem-se a oportunidade de fazer diagnóstico precoce, com possibilidade de preservação do órgão e de cura.

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Atividade física: Dores e doooooooooooooooores

Publicado em: 12 de agosto de 2011

por Conceição Lemes

Se, na caminhada, corrida ou qualquer outra atividade física, sentir doooooooooooor, não force a barra, pare. Ou você fez algum movimento inadequado – por exemplo, pisou ou se abaixou errado – ou exagerou na dose – resolveu tirar o atraso de anos num dia ou malhou demais para ficar sarado. Em bom português: foi além da sua capacidade naquele momento.

“A dor durante ou logo após a atividade física é anormal”, alerta o médico Arnaldo José Hernandez, chefe do grupo de Medicina do Esporte do Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas de São Paulo, no  livro “Saúde — A hora é Agora”.“É sinal de superdesgaste metabólico, que é coisa de atleta, ou lesão muscular por sobrecarga mecânica, que ocorre tanto em atletas como na população em geral.”

Mas existe um segundo tipo. É a chamada dor muscular de início tardio: é tolerável, todo mundo a tem em certo grau quando aumenta a atividade física, e aparece de 24 a 48 horas após o exercício. “Provavelmente decorre de microlesões na musculatura causadas pela sobrecarga da atividade, e não por acúmulo de ácido láctico nos músculos, como muitos imaginam”, observa Hernandez. “É esse processo que lhe permite hoje andar um quarteirão, amanhã, dois, depois de amanhã, três, e assim sucessivamente.”

Explica-se:

* Toda vez que se aumenta a intensidade da atividade física em relação ao que se fazia, há sobrecarga sobre os músculos.

* Tal estímulo causa nos músculos microlesões, que produzem pequena reação inflamatória.

* A reação inflamatória, por sua vez, faz as microlesões “cicatrizarem”. E, aí, ocorre a dor, que demora de 24 a 48 horas para se manifestar. Tudo isso é absolutamente normal e fisiológico.

* Ao fazer o reparo, porém, os músculos sempre “cicatrizam” um pouco a mais. É essa reserva que os torna mais fortes e permite a você ir aumentando gradativamente a intensidade da atividade.

Agora, se a dor persistir por mais de 48 horas e for extremamente localizada, ela não é dor muscular de início tardio”, alerta Hernandez. “Pode ser lesão no tendão, fratura por estresse. Procure um médico.”

Portanto, há dores e dooooooooooooores. O melhor jeito de evitar as anormais é ir devagar na atividade física. É a receita para toda a vida.

Contra depressão, use atividade física regularmente

Ômega 3, proteção contra doenças cardíacas

Sexo, distribua carícias à vontade

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Doutor Marcelo Silber esclarece dúvidas de Beattrice, André e Brasileiro

Publicado em: 8 de agosto de 2011

por Conceição Lemes

Na reportagem Médicos puxam a orelha de pais e mães, André Oliveira questionou:

Eu gostaria de saber o que os doutos médicos dão ou deram para os seus filhos comer… Eu tenho certeza de que será o caso “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço…

O Brasileiro, leitor assíduo do Viomundo, deu  lição de bom senso:

Meu filho passa a semana toda comendo alimentos saudáveis. Mas no fim-de-semana a gente libera um pouco para as guloseimas. Afinal de contas, ninguém é de ferro, não é? (É assim que o pessoal da cervejinha do fim-de-semana fala!)

E outra questão é o que fazer se as crianças que comem “junk food” estiverem crescendo mais do que aquelas que comem alimentos saudáveis? Apesar de conter muita gordura saturada, a “junk food” muitas vezes é hiperprotéica, além de levar à hiperinsulinemia. Proteínas são um estímulo para liberação de hormônio do crescimento e a insulina é um importante hormônio anabólico.

Nós, os pais, estamos entre a cruz e a espada! Só muita dedicação para fazermos nossos filhos crescerem bem e de forma saudável.

A propósito das observações de O Brasileiro, a querida Beattrice acrescentou:

E a hiperinsulinemia pode levar ao pré-diabetes.

Apesar da provocação do doutor Marcelo Silber (lerão logo abaixo,é um gozador; sou apenas jornalista), achei importante que um pediatra esclarecesse os pontos levantados por André, Brasileiro e Beattrice e tratasse da obesidade infantil, que exige abordagem multifatorial. Por isso, convidei-o para essa tarefa, já que é também leitor do Viomundo.

Silver é pediatra e neonatalogista há 25 anos. Trabalha nos hospitais Israelita Albert Einstein e Sírio-Libanês, no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP e, como médico voluntário, em creches municipais da cidade de São Paulo.

por Marcelo Silber, para o Viomundo

Como muitos dos leitores do Viomundo sabem, sou pediatra clínico e neonatologista. Trabalho em consultório e hospital particular, em hospital público e creches municipais (como médico voluntário), além de ter atuado por muitos anos em postos de saúde.

Muitos mitos (verdadeiros e falsos) estão presentes na abordagem da obesidade infantil (que como todos sabemos é multifatorial), procurarei a pedido da minha amiga, a Dra. Conceição Lemes (hehehehe) esclarecer os mais frequentes entre os leitores do  Viomundo.

– Médicos são seres humanos normais como todos os outros. Alguns têm hábitos alimentares,de lazer e de atividade física adequados às necessidades de uma vida como a nossa e outros não, com consequências óbvias na educação de seus filhos (e pacientes também !!)

– Um melhor nível cultural, sócio-econômico e educacional não garante necessariamente hábitos alimentares mais saudáveis. Vou além, acho que o Brasil vive agora uma “ grande epidemia de obesidade” decorrente da inclusão de milhões de pessoas na classe média (fato bom) com hábitos alimentares e físicos ruins (dieta hipercalórica e gordurosa aliada a falta de atividade físíca e esportiva regular).

Concordo com os leitores que disseram que a solução passa pela escola de período integral para todas as crianças, com almoço e jantar sob supervisão de nutricionista habilitada, além de no mínimo duas atividades de  esportes coletivos por criança (handebol, voleibol, natação e futebol).

– A osesidade é considerada hoje um estado pró-inflamatório, já que provoca um aumento na liberação de citocinas inflamatórias que atuam na  diminuição da produção de adiponectina (importante hormônio cuja função é atuar como fator adjuvante positivo na atuação da insulina) , resultando portanto numa diminuição da sensibilidade à insulina. Lembrando também que o tecido adiposo fabrica o hormonio resistina (que também aumenta a resistência à insulina)

– Resistência à  insulina aumentada é um termo que descreve a capacidade diminuida dos tecidos-alvo principais (fígado, músculo e tecido adiposo) a responder à ação celular da insulina. Com isso, a glicose passa a ter dificuldade de penetrar nestas células, gerando um aumento na produção pancreática de insulina (hiperinsulinismo). Quando as células beta-pancreáticas atingem seu limite secretor máximo (e entram em falência), a pessoa torna-se portadora de diabetes tipo II. Ressalto que mesmo antes do diagnóstico clínico as lesões microvasculares já estão ocorrendo com comprometimento da retinas, rins, nervos entre outros órgãos…

– A inatividade física ou o sedentarismo, por sua vez, diminui os níveis de GLUTT 4 que vem a ser o principal transportador de glicose, diminuindo mais  a sua entrada nas células e obrigando o pâncreas a secretar ainda mais insulina, agravando portanto o hiperinsulinismo  e o risco de  diabetes tipo II.

Calma, leitor. O que não está bom, sempre pode ficar um pouquinho pior… Se não vejamos:

– O aumento da resistência insulínica no tecido adiposo leva a um aumento no número de ácidos graxos livres. Esses por sua vez aumentam no fígado a produção de triglicérides e LDL (o colesterol ruim) e, ao mesmo tempo, diminuem a produção do HDL (o colesterol bom). Essse fenômeno negativo se chama dislipidemia. Perde-se, portanto, o efeito antioxidante na parede das artérias, favorecendo assim a formação das placas de aterosclerose, aumentando significamente o risco de doenças cardiacas e acidentes vasculares cerebrais

-Finalmente destaco a elevada incidência de Hipertensão arterial nos obesos, explicada por vários mecanismos, tais como o estado pró inflamatório e pró-trombótico (já mencionado), alteração vascular estrutural (encontradas já nas crianças obesas) e que o hiperinsulinismo provoca retenção de sal, levando o obeso há uma sobrecarga renal crônica com hipertensão arterial subsequente…

Como pediatra, destaco que adquirir hábitos alimentares, de lazer e de atividade física saudáveis na infância é a única solução de médio-longo prazo eficaz no controle da obesidade e de seus malefícios e que somente o envolvimento de médicos, educadores, da mídia, em suma de toda a sociedade, ajudarão as famílias a mudar hábitos tão arraigados e a lutar contra interesses tão poderosos que todos sabemos quais são…

Saiba aqui por que médicos puxam a orelha de pais e mães

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Médicos puxam a orelha de pais e mães

Publicado em: 15 de julho de 2011

por Conceição Lemes

No capítulo “Emagrecer” do livro “Saúde — A hora é Agora”, a médica endocrinologista Maria Teresa Zanella, professora titular de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da Unifesp, recomenda: toda criança, desde pequena, deve ser estimulada à prática da atividade física e à alimentação saudável para prevenir a obesidade.

O psiquiatra Arthur Kaufman,   coordenador do Projeto de Atendimento ao Obeso (Prato), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e professor da Faculdade de Medicina da USP, concorda com ela mas desabafa: “Falar para os pais é o mesmo que falar para as paredes. Eu já desisti de mudar a cabeça deles, não adianta”.

Basta um giro num domingo e talvez lhe dê razão. Em parques, por exemplo, quantas crianças bem pequenininhas você encontra tomando refrigerante na mamadeira? Em churrascarias, quantas pulam as saladas e vão direto para frituras, como batata ou cebola frita? Em redes de fast-food, quantas estão se empapuçando com hambúrgueres em vez de almoçar?

As crianças não aprenderam esses maus hábitos alimentares sozinhas. Foram acostumadas pelos pais, que costumam dizer: “É melhor comerem isso do que nada”. O cardápio das crianças, aliás, é organizado de acordo com o que os adultos acham que elas gostam. Só que muitas vezes os adultos não se dão conta de que foram eles que criaram esses gostos nas crianças. E são justamente essas preferências que elas transmitirão para os amigos, os irmãos e, no futuro, para os seus filhos.

Sentiu o puxão de orelha? Para Kaufman, o caminho é trabalhar a base. “Nas cantinas escolares, deveria ser proibido junk food [como coxinha, empadinha, pastel, cachorro-quente, hambúrguer, batata frita]”, defende ele. “Ou as crianças mudam os pais, ou isso nunca vai mudar.”

Tais providências, aliás, já vigoram nas cantinas de algumas escolas: ali não se vendem junk food nem refrigerantes. Tomara que a tendência se propague. “Seria interessante também que, na medida do possível, as escolas ensinassem as crianças a cozinhar e preparar pelo menos pratos rápidos”, preconiza.

O puxão de orelha ainda dói? Então procure ter uma alimentação saudável e exercitar-se regularmente. É um ótimo começo. Terá mais moral para sugerir ao seu filho que não fique o dia inteiro jogando videogame. Ou coma uma fruta, em vez de simplesmente abrir um pacote de biscoitos ou de snacks, quando bate a fome fora de hora. Dessa forma, vai ajudá-lo a construir hábitos de vida saudáveis e a evitar a obesidade e outros problemas de saúde no futuro. De quebra, vai parar de falar com as paredes.

Clique aqui para ler a reportagem “Ministro, ‘filho feio’ não tem pai: Lições do “affair” com a McDonald’s

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Remédio para calvície causa infertilidade? E impotência sexual?

Publicado em: 1 de julho de 2011

por Conceição Lemes

O remédio chama-se finasterida. A descoberta da sua ação contra a calvície foi por acaso. Ao usar no tratamento de hiperplasia benigna da próstata (HBP), os médicos notaram um efeito colateral nos pacientes que tomavam o medicamento: evitava a queda de cabelos.

Explicação. A finasterida inibe a ação da enzima que transforma a testosterona em diidrotestosterona, que é o hormônio masculino ativo. Com esse bloqueio, a testosterona age menos no organismo, inibindo o crescimento da próstata. Daí ser usada no tratamento da HBP, a doença mais comum dessa glândula masculina.  Mas combate também a perda de cabelos em homens.

Em 2005, porém, o urologista Sidney Glina observou que esse medicamento poderia levar à infertilidade. Foi o primeiro pesquisador no mundo a fazer essa associação, encarada, na época, com ceticismo pelos colegas. Mas, aos poucos, outros estudos foram lhe dando razão. O mais recente foi publicado pela revista Fertility and Sterility , publicação da Associação Americana de Medicina de Reprodutiva.

Conversei com o doutor Glina lá atrás e voltei a falar agora, já que a finasterida é o remédio mais usado para prevenir e tratar a calvície androgenética, ou masculina. Ex-presidente das sociedades Internacional de Medicina Sexual e Brasileira de Urologia, Sidney Glina é professor livre-docente de Urologia da Faculdade de Medicina do ABC e chefe da Clínica Urológica do Hospital Ipiranga, em São Paulo.

Viomundo – Nas farmácias,  há uma quantidade imensa de medicamentos à base de finastertida [Propecia, Pracap, Pro Hair, Finastec, Finasterida Euro, Merck, Medley, Eurofarma, Legrand, Calvin, Biosintética, Neo-Química, Sanval].  Todo homem que usa finasterida pode ter infertilidade?

Sidney GlinaNão. Existem trabalhos que mostram que homens que tomaram 1mg por dia finasterida por dia [é a dosagem recomendada para tratar a calvície] durante pelo menos seis meses, não apresentaram alteração do espermograma. Entretanto há vários relatos de infertilidade em alguns homens que tomavam essa medicação. Tais homens têm outras causas de infertilidade como varicocele (varizes dentro do escroto) ou obesidade. Aparentemente a finasterida ampliaria o efeito dessas situações e aumentaria o efeito negativo sobre o testículo.

Viomundo O senhor foi o primeiro pesquisador no mundo a relacionar a finasterida à infertilidade masculina. Como descobriu isso?

Sidney Glina – Há alguns anos comecei a ver pacientes que apresentavam infertilidade e estavam tomando finasterida. Como sempre houve suspeita de que a finasterida pudesse ter essa ação, eu optei junto com os pacientes por suspender a medicação para ver se a alteração encontrada no espermograma era revertida. E isso ocorreu. Daí ter estabelecido o nexo. Em 2004, publiquei trabalho científico mostrando tal evidência.

Viomundo – De lá para cá, outros trabalhos também mostraram esse efeito. Recentemente, uma revista internacional importante apontou o mesmo resultado.

Sidney Glina – Existem mais seis trabalhos que relatam casos semelhantes aos que descrevemos em 2004. Este ano, a Fertility and Sterility, publicada pela Associação Americana de Medicina de Reprodutiva, apresentou mais um caso.

Viomundo – Afinal, como a  finasterida pode interferir na fertiliddade masculina?

Sidney Glina – A finasterida inibe uma enzima chamada 5-alfa redutase que bloqueia a transformação da testosterona em diidrotestosterona, que é o hormônio masculino ativo. Isso diminui a queda de cabelo de alguns pacientes. E também o crescimento da próstata quando tomada na dose de 5 mg. Entretanto, a diidrotestosterona tem ação no testículo. A diminuição da concentração de diidrotestosterona no organismo leva à alteração na produção de espermatozóides em testículos que já estejam sofrendo algum tipo de problema.

Viomundo – Quais?

Sidney Glina – Parece que a associação de finasterida com varicocele altera a produção de espermatozóides. Também a associação de finasterida com obesidade.

Viomundo – Essa infertilidade é permanente?

Sidney Glina – Não. Uma vez interrompido o uso da finasterida,  há reversão da infertilidade após cerca de três meses.

Viomundo — Qual a sua recomendação para homens com dificuldade de engravidar as suas parceiras e usam finasterida?

Sidney Glina – A primeira atitude é procurar um urologista e fazer um espermograma. Caso o exame venha alterado, a conduta é a suspensão da finasterida antes de tomar qualquer outra medida.

Viomundo – Na época em que publicou o seu estudo, lembro que alguns colegas seus questionaram o resultado. Como é que se sente hoje, quando cada vez mais as evidências mostram que estava correto?

Sidney Glina – Acho que isso faz parte da nossa vida. A única coisa relevante é que, lá atrás, em 2004, a Fertility and Sterility recusou a publicação do meu trabalho.  E agora publicou outros dois citando o meu como pioneiro.

PS do Viomundo 1: Infertilidade não é impotência, não! Manter relações sexuais e ejacular não são atestado de fertilidade de homem nenhum. Mais: infertilidade não tem nada a ver com impotência sexual nem torna nenhum homem mais macho.

O que é então infertilidade? É a incapacidade de o casal gerar um bebê após um ano de relações sexuais regulares sem usar qualquer método contraceptivo.

Em 40% dos casais com dificuldade de engravidar, o homem tem problemas reprodutivos – o chamado fator masculino. Em outros 40%, a causa está na mulher – o fator feminino. Em 20%, ambos têm algum impedimento. Ou seja, é meio a meio. Em 50% dos casos de infertilidade, a mulher está envolvida; nos demais 50%, o homem.

PS do Viomundo 2: Os leitores Almerindo e Mário Jordão questionaram nos comentários sobre a possibilidade de a finasterida causar disfunção erétil, mais conhecida como impotência sexual. Em função das observações dos dois,  voltei a consultar o doutor Sidney Glina. A resposta dele é a seguinte:

“Entre 10% a 20% dos pacintes que tomam finasterida 5mg (dose para tratamento da hiperplasia benigna da próstata, não é o 1mg para calvície) têm alguma queixa sexual. Vai desde perda da libido até dificuldade para ter ereção, passando pela diminuição do volume do ejaculado.

Quando isso ocorre, o ideal é suspender a medicação. Não se sabe porque ocorre com alguns pacientes e com outros não. Acredito que exista muito o fator ‘ler bula e sugestão'”.

Leia-se: fator psicológico, que é a principal causa de disfunção erétil. Leia-se também que a finasterida na dosagem para tratamento prostático é que está relacionada à disfunção erétil e não na que é recomendada para tratar calvície.

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Ômega-3, proteção contra doenças cardíacas

Publicado em: 24 de maio de 2011

por Conceição Lemes

Você gosta de salmão ou atum? Prefere bacalhau, truta ou sardinha? Pois esses peixes do mar, todos de água fria, possuem outra característica em comum: contêm em abundância um tipo de gordura poli-insaturada muito especial – os protetores ácidos graxos ômega-3.

“Quem come mais peixe rico em gordura ômega-3 infarta menos”, informa a médica e professora Isabela Benseñor, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP. “O ômega-3 tem ação contra arritmia e, com isso, previne morte súbita por doenças cardíacas.”

O médico e professor Walter Willett, chefe do Departamento de Nutrição e Epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, acrescenta outros benefícios dos ácidos ômega-3: 1) são componentes importantes das membranas das células de todo o organismo, especialmente dos olhos, cérebro e espermatozoides; 2) são matéria-prima para a produção de alguns hormônios, entre eles os que regulam a contração e o relaxamento das paredes das artérias; 3) ajudam na prevenção e no tratamento de AVC e possivelmente de doenças autoimunes, como lúpus eritematoso e artrite reumatoide.

Por isso, segundo Willett, todas as pessoas deveriam ingerir diariamente pelo menos uma boa fonte de ômega-3. Para gestantes ou mulheres que desejam engravidar, isso é indispensável. “Uma criança em desenvolvimento precisa de suprimento constante de ácidos graxos ômega-3, para a formação do cérebro e outras partes do sistema nervoso”, cientifica o professor.

Óleo de soja e cápsulas

Os peixes de água fria, no entanto, não são a única fonte de graxos ômega-3.  Eles também estão presentes em boa quantidade em castanhas (como amendoim, castanha-do-pará, macadâmia e castanha-de-caju), semente de linhaça e – atenção! – no óleo de soja, o mais usado no Brasil.

“Claro que comer peixe é melhor, mas quem utiliza normalmente óleo de soja no preparo dos alimentos preenche as necessidades diárias de ômega-3”, tranquiliza a nutricionista Celeste Elvira Viggiano, da Supervisão de Vigilância em Saúde da Prefeitura de São Paulo e mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP..

– Vale a pena tomar as cápsulas de ômega-3 à venda nas farmácias?

A resposta é não. “Os estudos científicos feitos até agora não demonstraram que elas são eficazes”, justifica Isabela. “Comprovadamente o que funciona é o ômega-3 misturado no prato de comida, interagindo com outros nutrientes.”

Mas há mais um argumento contra as cápsulas: o financeiro. É só fazer as contas. Considerando o número de cápsulas recomendado nos rótulos desses produtos e o preço de mercado, você gastaria por mês cerca de 50 reais. A quantia dá para comprar uns quilos de salmão e vários de sardinha. A vantagem dos peixes é tripla: além de saborosos e de fornecerem ômega-3 de primeira, são ótimas fontes de proteínas e minerais. Proteja o seu bolso e o seu coração.

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