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Saúde do trabalhador: Justiça reconhece que SUS tem competência legal para fiscalizar e autuar empresas

Publicado em: 21 de agosto de 2012

Médica-pesquisadora Maria Maeno, da Fundacentro: “Se a vigilância e fiscalização em saúde do trabalhador fossem efetivamente feitas pelo SUS,  o Estado e a sociedade teriam um grande ganho”

por Conceição Lemes

É lei. Quando um trabalhador tem um acidente no trabalho ou alguma doença decorrente da atividade profissional, a empresa deve comunicar o fato ao INSS.

O aviso se faz por meio da Comunicação de Acidente de Trabalho – a CAT. É um formulário que a própria empresa preenche. Essas informações são importantes de vários pontos de vista: trabalhista, social, previdenciário, estatístico e epidemiológico. Tanto que, em caso de omissão, a lei determina autuação e multa, independentemente de facultar a sua emissão por autoridades sanitárias, sindicato ou o próprio segurado.  Foi o que aconteceu com a Pirelli Pneus Ltda., em Campinas (SP).

Durante inspeção, agentes do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), órgão da Secretaria Municipal de Saúde, descobriram que a empresa deixou de emitir a CAT para um funcionário com osteartrose.

Também conhecida como artrose ou osteoartrite,  a doença decorre de lenta e progressiva degradação de um tecido elástico que recobre as extremidades ósseas e amortecem os impactos. É responsável por 7,5% dos afastamentos do trabalho no país.

A Pirelli contestou na Justiça do Trabalho. Alegação: o Cerest (leia-se SUS) não teria competência para autuar e multar empresas, pois tais atribuições seriam apenas dos fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

O Cerest replicou, reafirmando ter, sim, competência para fiscalizar e impor multas referentes à saúde pública, independentemente das relações de trabalho.

O Juiz do trabalho Rafael Marques de Setta, da 11ª Vara do Trabalho de Campinas-SP, negou a demanda da Pirelli, reconhecendo a competência legal do SUS em relação às questões de saúde e trabalho.

Em bom português: Vigilância e fiscalização em saúde do trabalhador são competência também do SUS e não apenas do Ministério do Trabalho.

“Desde a Constituição de 1988, o SUS tem várias atribuições na área de saúde do trabalhador. Uma delas é promover ações de vigilância, inclusive fiscalizar plenamente ambientes de trabalho”, explica a médica-pesquisadora Maria Maeno, da Fundacentro, em São Paulo. “Reconhece-se, assim, acertadamente que vários elementos da relação de trabalho são determinantes para a saúde e a produção de acidentes e doenças do trabalhador.”

Apesar de a legislação ser bastante clara sobre essas atribuições, muitas empresas contestam. Há resistência também da corporação dos auditores fiscais do trabalho.

“Se a vigilância e fiscalização em saúde do trabalhador fossem efetivamente feitas pelo SUS,  o Estado e a sociedade teriam um grande ganho”, defende a doutora Maeno. “Em vez de as empresas serem fiscalizadas por centenas de fiscais do trabalho, seriam fiscalizadas por milhares de agentes do SUS em todo o país. Além disso, as atribuições do SUS não se restringem às empresas formalmente constituídas; elas alcançam qualquer local de trabalho.”

Ou seja, do ponto de vista legal, não há a menor dúvida: o SUS (vigilância e fiscalização das condições e organização do trabalho) e Ministério do Trabalho  e Emprego (fiscalização do trabalho) têm atribuições em comum na área de saúde do trabalhador.

Portanto, poderiam ter ações integradas. Na prática, porém, isso não acontece na maior parte do país. Campinas é um dos poucos municípios onde SUS e MTE trabalham em conjunto em saúde do trabalhador.

Detalhe: as referências para fiscalização são diferentes.

O SUS fiscaliza com base nos códigos sanitários e na literatura científica, o que dá maior amplitude às ações.

O Ministério do Trabalho apóia-se nas normas regulamentadoras (NR). O problema é que algumas estão desatualizadas e outras trazem consequências negativas para os direitos dos trabalhadores. É o caso NR7, que determina a realização de exames periódicos por médico contratado pelas empresas; muitas vezes eles têm sido usadis para demitir trabalhadores.

Qual o caminho?

“Os órgãos governamentais devem buscar a articulação real para atuação sinérgica”, defende a dra. Maria Maeno. “Já as empresas deveriam cumprir o seu dever em vez de sobrecarregar a justiça com ações contestando competências legais estabelecidas.”

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O urologista Sidney Glina faz um alerta aos homens: Muitas vezes criam ciladas para si próprios que podem causar disfunção erétil e infertilidade

Publicado em: 19 de agosto de 2012

por Conceição Lemes

O medo de infertilidade e principalmente de disfunção erétil (antigamente denominada impotência sexual) ronda a cabeça de homens das mais diferentes idades. Ambas podem decorrer de fatores orgânicos e/ou emocionais.

“O problema é que, por desinformação, muitas vezes os homens caem em ciladas que eles criam para si próprios no dia a dia”, alerta o urologista Sidney Glina. “Na prática, são o grande obstáculo à fertilidade e à potência sexual masculinas plenas.”

Sidney Glina é muito respeitado pelos próprios colegas. Já foi presidente da Sociedade Internacional de Pesquisa de Disfunção Erétil e da Sociedade Brasileira de Urologia.  Atualmente, é professor livre-docente de Urologia da Faculdade de Medicina do ABC e chefe da Clínica Urológica do Hospital Ipiranga, em São Paulo. Entrevistei-o para saber quais são as armadilhas e conhecer a receita para manter a fertilidade e potência sexual.

Blog da Saúde –  Vamos começar pelas armadilhas. O senhor atende em serviços públicos e no consultório particular. Tem alguma armadilha que seja mais comum entre os jovens, por exemplo?

Sidney Glina – Tem. É o uso sem necessidade das facilitadoras de ereção [Cialis, Helleva Levitra, Viagra, Vivanza]. Eles correm o grande risco de ficar psicologicamente dependentes, e, aí, só funcionarem na base da medicação. Portanto, é uma armadilha.

Blog da Saúde – A brincadeira pode acabar mal?

Sidney Glina — Infelizmente, sim. Há basicamente três tipos de usuários dessas pílulas. Os pacientes que vão ao médico devido a dificuldades de ereção, e o médico prescreve. Há os homens maduros que querem dar uma turbinadinha para uma relação sexual eventual, principalmente na hora do almoço. Normalmente, eles não usam a medicação frequentemente. E há um contingente, provavelmente o maior,  de homens que utilizam o remédio devido a medo ou insegurança. São principalmente jovens, inclusive adolescentes.

Blog da Saúde – De que forma eles podem vir a ter disfunção erétil?

Sidney Glina – Esses homens, jovens e adolescentes têm um ponto em comum: ereção perfeita mas que, seduzidos pela propaganda, recorrem a uma das pílulas existentes no mercado, para “mostrar serviço” ou “ter certerza de que o pênis vai funcionar”. Eles sabem que o remédio pode dar ajudazinha. Então, na primeira vez, usam geralmente com a namorada nova. Aí, na próxima saída, eles usam também, pois receiam que não dê certo. E, assim, vão usando sucessivamente. Com o tempo, esses indivíduos têm grande probabilidade de ficar dependentes psicologicamente da medicação. Começam a achar que só funcionam na base da medicação. E, se não usarem, podem realmente falhar. É uma das causas de disfunção erétil psicológica.

Blog da Saúde – Que outras ciladas os homens armam contra a própria potência sexual e/ou fertilidade?

Sidney Glina – Há várias. A boa ereção depende não apenas do psiquismo “inteiro”, mas de nervos, artérias, veias, hormônios e músculos envolvidos no processo também íntegros. Por isso, ao usar cocaína o homem corre risco de promover danos à ereção. Explico. A cocaína mesmo consumida eventualmente e em pequenas doses pode levar à atrofia da musculatura dos corpos cavernosos, ou seja, das estruturas do pênis que, uma vez cheias de sangue, permitem a ereção. Com a manutenção do hábito, a lesão é irreversível. Aí, só prótese peniana. A cocaína afeta pouco a fertilidade masculina.

Blog da Saúde – E a maconha?

Sidney Glina – Compromete menos a ereção do que a cocaína. O que a maconha pode provocar, assim como a cocaína, é alteração na ejaculação. Ambas atrapalham a concentração, dificultando a excitação.  Assim, sob efeitos delas o indivíduo ejacula mal. Agora, a maconha, o crack e a heroína  contêm substâncias tóxicas aos espermatozóides, afetando-os profundamente. Mesmo usuários de fins de semana dessas drogas têm diminuição da qualidade dos espermatozoides. A maconha, especificamente, pode levar também à infertilidade masculina, reduzindo os níveis de testosterona [hormônio masculino produzido pelos testículos].

Blog da Saúde – E a bebida alcoólica?

Sidney Glina – Em excesso, o álcool, entre outras consequências à saúde, lesa os nervos penianos. Assim, a ordem enviada pelo cérebro aos corpos cavernosos para que se encham de sangue, não chega direito. O resultado é dificuldade para conseguir ter uma ereção. Segundo pesquisas, de 8% a 54% dos homens alcoólatras são impotentes. Além disso, homens que bebem freqüentemente têm mais dificuldade de engravidar suas parceiras por causa de dois problemas: ejaculação para trás, o que diminui o volume de espermatozoides no sêmen; ou insuficiência hepática, que pode levar à diminuição dos hormônios responsáveis pela produção dos espermatozoides.

Blog da Saúde – E o cigarro? 

Sidney Glina – O cigarro interfere no número e na motilidade dos espermatozoides, reduzinho-os. Mas, não há nenhum trabalho científico demonstrando que  diminui a fertilidade. Já a potência sexual reduz, sim. A nicotina dificulta a entrada de sangue no pênis, consequentemente  a ereção. A quantidade de nicotina contida em dois cigarros é suficiente para inibir a ereção de adolescentes.  Para agravar, a longo prazo o cigarro leva à formação de placas de gordura nas artérias, estreitando-as, ou seja, pode comprometer a ereção no futuro. Cachimbo, charuto e cigarrilha acarretam os mesmos malefícios que o cigarro.

Blog da Saúde Que outras armadilhas tem detectado?

Sidney Glina –As “bombas ”de anabolizantes, muito comuns em academias. No Brasil, são crescente causa de infertilidade. Por um mecanismo hormonal, fazem com que o indivíduo páre de produzir testosterona, impedindo a produção de espermatozóides. Em 10% a 20% dos casos, o dano é irreversível. Também por um mecanismo hormonal, as “bombas” levam à impotência sexual.

Blog da Saúde — Em 2004, o senhor foi o primeiro pesquisador do mundo a dizer que a finasterida [substância presente numa imensa quantidade de remédios contra queda de cabelos] poderia causar infertilidade masculina.  Na época, essa associação foi encarada com ceticismo pelos seus colegas. Porém, cada vez mais os estudos lhe dão razão. Como  descobriu isso?

Sidney Glina – Há alguns anos comecei a ver pacientes que apresentavam infertilidade e estavam tomando finasterida. Como sempre houve suspeita de que a finasterida pudesse ter essa ação, eu optei junto com os pacientes por suspender a medicação para ver se a alteração encontrada no espermograma era revertida. E isso ocorreu. Daí ter estabelecido o nexo. Em 2004, publiquei trabalho científico mostrando tal evidência. De lá para cá, outras pesquisas apontaram o mesmo resultado.

A finasterida inibe uma enzima chamada 5-alfa redutase que bloqueia a transformação da testosterona em diidrotestosterona, que é o hormônio masculino ativo. Isso diminui a queda de cabelo de alguns pacientes. E também o crescimento da próstata quando tomada na dose de 5 mg. Entretanto, a diidrotestosterona tem ação no testículo. A diminuição da concentração de diidrotestosterona no organismo leva à alteração na produção de espermatozóides em testículos que já estejam sofrendo algum tipo de problema.

Blog da Saúde — Todo homem que usa remédio à base de finasterida contra calvície pode ter infertilidade?

Sidney GlinaNão. Existem trabalhos que mostram que homens que tomaram 1mg por dia finasterida por dia [é a dosagem recomendada para tratar a calvície] durante pelo menos seis meses, não apresentaram alteração do espermograma. Entretanto há vários relatos de infertilidade em alguns homens que tomavam essa medicação. Tais homens têm outras causas de infertilidade como varicocele (varizes dentro do escroto) ou obesidade. Aparentemente a finasterida ampliaria o efeito dessas situações e aumentaria o efeito negativo sobre o testículo.

Agora, uma vez interrompido o medicamento, há reversão da infertilidade após cerca de três meses. Por isso, aos homens com dificuldade de engravidar as suas parceiras e que usam finasterida, recomendo procurar um urologista e fazer um espermograma. Caso o exame venha alterado, a conduta é a suspensão do remédio para calvície antes de tomar qualquer outra medida.

Blog da Saúde – Os efeitos de álcool, maconha, cocaína e cigarro sobre a potência e/ou a fertilidade também são reversíveis?

Sidney Glina —  Nunca se pegou um indivíduo absolutamente adicto para fazer contagem de espermatozoides e verificar seis meses depois como estava a quantidade. Mas, é claro, que os efeitos dependem do tempo de uso, quantidade e sensibilidade individual a essas substâncias. Quanto maior o uso maior o risco e menor a possibilidade de reversão. O que a gente vê no consultório com usuários de fins de semana de maconha e cocaína, por exemplo, é alteração na motilidade dos espermatozoides.  Os espermatozoides  “andam” mais devagar, diminuindo a probabilidade de engravidar. Quando detecto isso, peço  para o paciente suspender a droga.

Blog da Saúde – Então o tratamento da infertilidade masculina e da impotência pode passar  pela suspensão dessas substâncias ?

Sidney Glina – Com certeza. E muitas vezes só isso basta para reverter o problema.

Blog da Saúde –  A esta altura, alguns leitores talvez estejam dizendo que isso é caretice, nunca viram ninguém com impotência e/infertilidade por causa disso e até que o senhor está querendo tocar horror.

Sidney Glina – Infelizmente já vi, sim, muitos pacientes com problemas sexuais ou de fertilidade por causa destes “hábitos”. Recentemente atendi um que começou a tomar uma das pílulas para facilitar a ereção. No início, apenas um pedacinho do comprimido de 25mg. Dizia que era para dar uma turbinadinha. Agora, ele diz que a dose de 100mg já não funciona mais. Este paciente não tem nenhum problema orgânico! Tem apenas uma falta de confiança muito grande em si próprio.

Blog da Saúde – Afinal, qual a receita para o homem manter a potência sexual e a fertilidade?

Sidney Glina – É a mesma receita para ter boa saúde física e mental:

1) Não abusar do álcool;

2) Evitar maconha, cocaína, heroína, crack, ecstasy;

3) Dar adeus ao tabagismo, qualquer que seja a sua idade;

4) Evitar a obesidade ou emagrecer se estiver acima do peso.  Ao combater a combater a obesidade, por tabela, diminui-se o risco de impotência sexual e infertilidade masculina. A obesidade favorece ambas;

5) Controlar a pressão arterial, os níveis de colesterol e de “açúcar” no sangue. São medidas fundamentais para manter a integridade de nervos, artérias e vasos sangüíneos de todo o corpo, inclusive do pênis, ajudando a evitar disfunção erétil;

6) Praticar algum tipo de atividade física. O homem que caminha três vezes por semana durante 30 minutos tem mais chance de manter a potência sexual do que aquele que não faz exercício.

Blog da Saúde – O que receitaria mais?

Sidney Glina – Educação sexual. Não existe medida preventiva mais efetiva contra a disfunção erétil. Todo homem tem medo potencial de ficar impotente. Não há como não ter. Mas, se entender como funciona a sexualidade, tem menor probabilidade de ter impotência por problemas psicológicos, que é a maior parte dos casos.

Por exemplo, não se obrigar a um número x de relações sexuais só para cumprir calendário. Transar em condições  adversas perturba o envolvimento erótico, portanto a ereção. Se falhar porque estava estressado, bebeu demais ou a garota, de repente, lhe desagradou, desencanar. Vai dormir, no dia seguinte levantará bem e terá uma relação sexual tranqüila. É vital também compreender e aceitar as alterações normais do desenvolvimento contínuo do homem.

 PS do Blog da Saúde:  Com frequência, se confunde infertilidade com impotência sexual. Nada a ver.  Manter relações sexuais e ejacular não são atestado de fertilidade masculina. Mais: infertilidade não torna nenhum homem mais macho.

O que é então infertilidade? É a incapacidade de o casal gerar um bebê após um ano de relações sexuais regulares sem usar qualquer método contraceptivo.

Em 40% dos casais com dificuldade de engravidar, o homem tem problemas reprodutivos – o chamado fator masculino. Em outros 40%, a causa está na mulher – o fator feminino. Em 20%, ambos têm algum impedimento. Ou seja, é meio a meio. Em 50% dos casos de infertilidade, a mulher está envolvida; nos demais 50%, o homem.

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Brasileiras com câncer de mama terão mais chance de cura com remédio disponível no SUS a partir de janeiro

Publicado em: 10 de agosto de 2012

Remédio que aumenta chance de cura estará disponível no SUS a partir de janeiro

Dr. Munir Murad: “O trastuzumabe reduz em aproximadamente 50% a possibilidade de recaída da doença”

por Conceição Lemes

O câncer de mama é o segundo mais freqüente no mundo e o primeiro entre as mulheres. Este ano devem ocorrer mais de 1,15 milhão de casos novos e 400 mil óbitos.  No Brasil, são esperados 53 mil casos novos e 12 mil mortes em 2012.Indubitavelmente, uma questão importante de saúde pública.

A boa notícia: a partir de janeiro de 2013, o trastuzumabe — um dos remédios mais importantes para tratamento da doença inicial e avançada –, estará disponível a todas as pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS).

Até agora, só tinham acesso as mulheres tratadas em clínicas privadas ou de convênios (parte dos planos de saúde cobre a medicação) e as que o conseguiam via judicial.

A medida foi aprovada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), do Ministério da Saúde. Os oncologistas comemoram a decisão.

“Nos casos diagnosticados em estágios iniciais, o trastuzumabe aumenta significativamente a chance de cura, reduzindo o risco de recaída”, afirma o oncologista Munir Murad Júnior, coordenador do Programa de Residência Médica em Cancerologia Clínica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Já entre as pacientes com doença avançada, metastática, sem possibilidade de cura, o trastuzumabe melhora a qualidade de vida e, principalmente, aumenta o tempo de  sobrevida. Em um estudo clássico, mulheres que não receberam a medicação tiveram sobrevida média de 20 meses em contraste com os 26 meses das mulheres tratatas com o medicamento em questão.”

DROGA PARALISA ATIVIDADE DAS CÉLULAS NEOPLÁSICAS

Em geral, as mulheres com câncer de mama têm 60% de possibilidade de estarem vivas cinco anos após o diagnóstico. Isso, é claro, depende muito da fase em que é detectado.

Nos tumores iniciais, quando a cirurgia é totalmente factível, essa chance é superior a 90%. Mas é possível aumentá-la, indo para 93%, 95% com alguma terapia adjuvante, que colabore com o tratamento principal. Pode ser quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia ou qualquer outra terapêutica feita para aumentar a probabilidade de cura. É nesse contexto que entra o trastuzumabe.

“O tratamento primário do câncer de mama é o cirúrgico”, explica Murad. “O trastuzumabe é adjuvante. É usado junto com a quimioterapia.”

Detalhe: o trastuzumabe não é um quimioterápico padrão. É o que os médicos chamam de medicação de terapia alvo.

Explico. Hoje em dia, graças a técnicas moleculares, é possível descobrir as moléculas das células que sofreram mutações. Algumas estão mais frequentemente alteradas nas células do câncer do que nas sadias. Usa-se, então, uma medicação que vai atuar nessas moléculas modificadas.

O trastuzumabe atua numa molécula chamada HER2. O HER 2 é um receptor que fica na membrana das células com câncer e estimula a sua replicação. Esse receptor está com expressão aumentada em aproximadamente 20% das pacientes com câncer e lhes confere pior resposta ao tratamento com quimioterapia clássica. O trastuzumabe inova por interagir com o HER 2, travando a sua atividade. Resultado: o medicamento paralisa a divisão das células neoplásicas.

“O tempo de uso vai depender da doença em cada paciente”, afirma Murad. “Mas frequentemente nos estágios iniciais, após a cirurgia, o trastuzumabe é usado junto com quimioterapia geralmente durante seis meses; depois, sozinho por mais seis meses para completar um total de 52 semanas . Reduz-se, assim, em aproximadamente 50% a possibilidade de recaída da doença.”

O próprio Murad faz questão de alertar sobre três pontos.

Primeiro, o trastuzumabe é tóxico para o coração. Então, é preciso ter boa função cardíaca para recebê-lo.

Segundo, algumas drogas usadas em quimioterapia não combinam bem com ele, devido aos efeitos colaterais. Por isso, tem de se evitar certas combinações.

Terceiro, não é uma panacéia, que resolveu totalmente o problema do câncer de mama.

“Mas ajudou, sim. É uma droga que há 10 anos mudou a história do câncer de mama, especialmente para pacientes incuráveis”, frisa Murad. “Do ponto de vista científico, hoje não é mais uma novidade. A novidade é estar disponível para toda a população que precisar.”

MAMOGRAFIA PERIÓDICA AUMENTA CHANCES DE CURA

— E a prevenção, como fica agora com o trastuzumabe? – muitos devem estar se perguntando.

Atenção. Uma coisa não tem a ver com a outra. O fato de se ter hoje uma droga potente que melhorou a possibilidade de cura de alguns casos e de maior sobrevida para outros, não quer dizer que se deva ficar tranquila e deixar para lá os exames de triagem.

Estamos falando da mamografia (radiografia de mama), que possibilita o diagnóstico precoce da doença. Ela ajuda a identificar tumores de mama numa fase em que a mulher ainda não percebeu que existe algo errado. Resultado alterado não significa ter câncer. É necessário biópsia do nódulo para saber exatamente o que é. No local, injeta-se uma agulha, que retira um pedacinho de tecido mamário. Na maioria das vezes, não é câncer, mas tumor benigno.

Há apenas certa divergência na literatura em relação à idade em que deve ser feita e a periodicidade.

O Instituto Nacional do Câncer, o Inca, do Ministério da Saúde, recomenda a cada dois anos para mulheres entre 50 e 69 anos, ou segundo recomendação médica.

Já o Centro de Promoção da Saúde do Hospital das Clínicas de São Paulo recomenda a toda mulher acima de 40 anos a cada um ou dois anos. Já para as mulheres com história familiar de câncer de mama, a orientação é caso a caso.

“Mas o que indubitavelmente está definido é que para mulheres acima de 50 anos uma mamografia anual aumenta as chances de cura, diminuindo o risco de você morrer de câncer de mama”, recomenda o oncologista Munir Murad. “Faça a mamografia periodicamente. Converse com o seu médico a respeito.”

PS do Blog da Saúde:  Consultei o Ministério da Saúde para saber por que não disponibilizar o trastuzumabe imediatamente, como já havia dito nos comentários.  Segue a resposta da sua assessoria de imprensa:

De acordo com a o decreto 7.646, que dispõe sobre o processo administrativo para incorporação de tecnologias no SUS, foi estabelecido um período de 180 dias para que o sistema efetive a oferta à população. Esse tempo é o prazo limite, usado para organizar e preparar as unidades de saúde pública de todo o país, capacitar os profissionais, criar protocolo clínico de uso e efetuar a compra e distribuição do medicamento. Inclusive, a expectativa do ministro da saúde, Alexandre Padilha, é de que o medicamento trastuzumabe esteja disponível no SUS antes mesmo do prazo legal.

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A criança comeu planta de vaso ou jardim? Está passando mal? Não dê leite! A toxicologista Eliane Castro ensina o que fazer

Publicado em: 7 de agosto de 2012

por Conceição Lemes

Eliane Castro: Intoxicações por plantas acontecem em qualquer faixa etária, mas são mais frequentes em crianças de 1 a 5 anos

Quantas vezes você já ouviu alguém dizer se é natural, mal não faz?

Pois os atendimentos nos serviços de assistência toxicológica  desmentem diariamente esse ditado popular. Certas plantas, se ingeridas, podem ser tóxicas e fazer mal à saúde.

Comigo-ninguém-pode, por exemplo, causa desconforto, dor e inchaço da mucosa oral.  Mamona dá náusea, vômito e diarréia. Saia-branca leva a alterações no sistema nervoso central (cérebro). Azaleia provoca desde náusea e cólica abdominal intensa, até confusão mental, tontura, hipotensão e arritmia cardíaca.

“Embora as intoxicações por plantas possam ocorrer em qualquer fase da vida, elas são mais freqüentes em crianças, principalmente entre 1 e 5 anos de idade”, alerta a farmacêutica Eliane Gil Rodrigues de Castro, assistente do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox), do Instituto da Criança da Faculdade de Medicina da USP. “Porém, as circunstâncias das crianças diferem das dos adultos.”

Na infância, as intoxicações por plantas costumam ser acidentais. Decorrem da curiosidade própria da idade ou da brincadeira de imitar hábitos dos adultos, como o de cozinhar. Acontecem com maior freqüência em horários próximos aos das refeições, o que faz pensar que a fome também é um elemento facilitador.

— Como saber que houve intoxicação por planta?

Em geral, na população infantil, essas intoxicações são diagnosticadas com base nos relatos de familiares ou cuidadores, que presenciam a criança engolindo a planta ou tendo contato com ela. Resíduos nos dentinhos algumas vezes denunciam. Outras, a criança é surpreendida com a plantinha na boca.

“Os problemas mais comuns são os distúrbios gastrointestinais”, observa Eliane Castro. “Irritação bucal, salivação intensa; às vezes, náusea e vômito.”

Já nos adultos, as intoxicações por plantas decorrem de: incapacidade de distinguir a comestível da tóxica, uso abusivo de determinadas plantas medicinais, finalidades recreacionais (plantas alucinógenas) e exposição profissional (jardineiros, por exemplo).

EFEITOS TÓXICOS DAS PLANTAS MAIS POPULARES

Por isso, o Ceatox fez uma lista dos principais efeitos tóxicos das plantas mais populares. Atente aos riscos:

Distúrbios gastrintestinais – Náusea, vômito, diarréia, dor abdominal e fezes sanguinolentas podem surgir isoladamente ou combinados com outras manifestações clínicas. Exemplos: mamona, pinhão-paraguaio, pinhão-roxo, jequiriti, joá, senécio

Alterações no sistema nervoso central (cérebro) — As principais são pele e mucosas secas, faces avermelhadas, irritação da conjuntiva, aumento da temperatura, taquicardia, dilatação da pupila, retenção urinária, excitação, agitação psicomotora, distúrbios de comportamento e alucinações visuais. Exemplos: saia-branca (também conhecida por zabumba, trombeteira, manto-de-Cristo, aguadeira), estramônio (figueira-do-inferno), dama-da-noite, doce-amarga, flor-das-almas, senécio, tasneirinha, peloteira, ou tomatinho.

Lesões de mucosas — Quando ingeridas, salivação, dor em queimação na mucosa oral, língua e lábios, edema da cavidade oral, faringe e glote e irritação da pele. Exemplos: comigo-ninguém-pode, tinhorão, banana-de-macaco, jibóia, espada-de-são Jorge, cheflera, costela-de-adão, inhame-bravo, antúrio, lírio-da-paz, copo-de-leite, azedinha, trevo, coroa-de-cristo, pinhão-paraguaio, espirradeira, bico-de-papagaio, avelós, urtiga, chapéu-de-napoleão, cansanção.

Irritação e lesão de pele — São plantas com espinhos, farpas, espículas, pelos, folhas com bordas cortantes e serrilhadas, podendo causar prurido, eritema, bolhas, vesículas, exsudação e crostas. Exemplos: coroa-de-cristo; urtiga (pêlos urticantes), comigo-ninguém-pode (agulhas de oxalato de cálcio).

Plantas alergênicas — Podem causar alergias, distúrbios respiratórios e dermatites. Exemplos: aroeira, ipê, crisântemo, mamona.

Distúrbios cardíacos – São geralmente plantas ornamentais, de jardins públicos, e podem causar desde náusea, cólica abdominal intensa, diarréia mucossanguinolenta até confusão mental, tontura, dilatação da pupila, torpor, redução dos batimentos do coração, hipotensão, arritmias cardíacas. Exemplos: espirradeira, chapéu-de-napoleão, oficial-de-sala, azaléia, alamanda, dedaleira, luva-de-nossa-senhora, café-bravo, cogumelos etc.

Distúrbios respiratórios — Os sintomas são convulsões e coma. Exemplos: mandioca brava, bambu, feijão-trepador, pessegueiro-bravo, sorgo, sabugueiro.

NÂO DÊ NEM TOME LEITE; OS SINTOMAS PODEM PIORAR

Portanto, desde cedo, é importante ensinar a criança o que ela pode e o que ela não comer. Oriente-a: “O verdinho que vai para a mesa, pode comer e faz bem. O verdinho do vaso ou do jardim, não; pode deixá-la doente.”

Apesar de toda a cautela, um acidente pode acontecer.

— O que fazer quando se flagra a criança nessa situação?

Ligue para o Ceatox — 08000-148110 – ou procure um serviço médico.

Caso a criança apresente sintomas, convém levá-la ao médico. Se possível, leve junto parte da planta ingerida. A identificação da planta é um dado importante no tratamento das intoxicações. Deve ser feita por profissionais com conhecimento botânico, embora, na prática, nem sempre estejam disponíveis. Por isso, é muito comum as condutas tomadas com base nos sintomas apresentados pelos pacientes.

— E se eu não tiver certeza absoluta de que a criança comeu a plantinha?

Na dúvida ou suspeita de ingestão da planta, ou se a criança apresentar sintomas, leve-a  ao médico.

Por outro lado, se você não tem certeza de que a criança engoliu a planta, ela está bem, ativa, sem sintomas, recomendamos que a deixe sem comer nenhum alimento  durante duas horas.

Importante: não dê leite, pois os sintomas podem piorar, provocando náuseas. Também não tome leite se a intoxicação por planta aconteceu com você.

CUIDADOS PREVENTIVOS ÚTEIS PARA TODA A FAMÍLIA

Por isso, a farmacêutica Eliane Castro recomenda mais algumas dicas para toda a família:

* Redobre a atenção em relação às crianças, principalmente nos períodos de férias e nos horários do retorno da escola. Em geral, os pequenos chegam com fome e, ao menor descuido, levam à boca o que mais fácil têm ao seu alcance.

* Ensine as crianças a não colocar plantas na boca nem utilizá-las como brinquedo.

* Cuidado ao podar as plantas que liberam látex. Elas podem atingir os olhos ou a pele  e provocar ulcerações e irritações.

* Não prepare chás ou remédios caseiros com plantas sem o conhecimento das espécies.

* Não coma frutos, folhas e raízes desconhecidas.

 

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A memória anda falhando? A doutora Eliane Corrêa Chaves alerta: “Pode ser falta de sono e de sonhar”

Publicado em: 2 de agosto de 2012

por Conceição Lemes

Quantas horas você costuma dormir por noite? Habitualmente gostaria de ficar mais tempo na cama? Quando não tem compromisso, acorda mais tarde?

Nada de se culpar se você é daquelas pessoas que, pela manhã, sempre têm vontade de ficar dormir um pouco mais ou que, podendo, aproveitam para acordar mais tarde, por  exemplo, nos fins de semana.

Dormir não é besteira nem perda de tempo. Para algumas pessoas, quatro a cinco horas de sono por dia são suficientes para que se sintam “inteiras”.Outras necessitam de nove a dez. Mas, em média, diariamente o ser humano precisa de sete a oito horas de repouso. Porém, por modismo ou excesso de responsabilidades, mais e mais pessoas dormem menos do que o corpo “pede”. E sono de menos ou de má qualidade faz mal à saúde.

“A falta de sono impede a gente de sonhar e de viver bem, pois desequilibra nossas funções mentais”, alerta Eliane Corrêa Chaves, especialista em promoção da saúde, doutora em Psicologia e professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP). “Os sonhos harmonizam as funções mentais ligadas à memória, à criatividade e até à capacidade de sentir alegria. Também regulam a produção e liberação de substâncias responsáveis pela saciedade alimentar e pela função sexual, entre outras.”

Como assim? Bem, o sono tem cinco ciclos. Cada qual dura cerca de 90 minutos. Cada ciclo, por sua vez, divide-se em cinco fases: indução, ou sonolência; relaxamento muscular e dos sinais vitais; duas etapas de sono profundo; e fase REM, ou do movimento rápido dos olhos.

É principalmente na fase REM que sonhamos. Por noite, temos de completar esses ciclos de quatro a seis vezes. Ou seja, mesmo sem lembrarmos, os sonhos se sucedem. Mas só recordamos deles quando despertamos na fase REM.

Na verdade, o sonho acontece à noite, mas ao longo do dia é que se notam os seus benefícios. Fisiologicamente, equilibra as nossas funções mentais. É durante o sonho, por exemplo, que os conhecimentos adquiridos de dia se fixam na memória. É a memória de curto prazo. Mas é também no sonho que fatos recentes se conectam com antigos registrados na nossa mente. O resultado é o aprendizado. Na esfera afetiva, o sonho contribui para a produção de substâncias ligadas à de sensação de prazer, bem-estar, satisfação consigo próprio.

Conseqüentemente, a falta de uma boa noite de sono e de sonhar tem “efeitos colaterais”: memória ruim, falta de atenção, dificuldade para aprender, depressão, irritabilidade, intolerância, pessimismo, falta de motivação e de alegria de viver.

“Com frequência atribuímos esses sintomas a discussões com o parceiro, desentendimentos com o chefe e outras chateações cotidianas”, observa Eliane. “Só que a causa pode ser falta de sono e de sonhar. Claro que os prejuízos à saúde mental não se manifestam após uma, duas, três noites maldormidas. Mas se elas virarem hábito, certamente terão impacto na sua vida.”

DESCUBRA SE VOCÊ DORME O SUFICIENTE

A esta altura muitos devem estar se perguntando se repousam o que necessário para produzir e viver bem.

Em média, já dissemos, as pessoas carecem de sete a oito horas de sono diárias. Para algumas, no entanto, bastam quatro, cinco. Outras exigem nove, dez. É questão de característica individual. Não há nada de errado.

Logo, o X do problema é descobrir se a quantidade de sono habitual é a que seu organismo “pede”.  Observe-se. Vamos supor que, de segunda a sexta, você durma às 24h e acorde às 6h; no domingo se levante às 10h. Esse é um sinal de que sua necessidade de sono é maior. Agora, se junto com essa observação notar dificuldades para desempenhar suas funções, a falta de sono e de sonhar provavelmente estão contribuindo para as “queixas” do seu corpo. Tente respeitar mais as “vontades” dele.

QUALIDADE DO SONO TAMBÉM É IMPORTANTE

Por isso, a professora Eliane Corrêa Chaves dá dicas que podem melhorar o seu sono:

* Pratique atividade física. O exercício libera substâncias que ajudam a sonhar. Prefira o período da manhã ou da tarde. Caso não seja possível, tente fazê-lo até mais ou menos umas duas horas antes de dormir.

* Evite café, chá preto, refrigerantes tipo cola, bebida alcoólica, cigarro e comida gordurosa próximo à hora de dormir; dificultam pegar no sono.

* Leve a televisão para a sala. No quarto, não nos deixa “desligar” do ambiente.

* Cuide para que o quarto esteja escuro e sem ruídos e só vá para a cama quando sentir sonolência. Antes, relaxe — com meditação, banho morno, leitura ou música. Pronto.

O sono, como tudo o que ocorre no nosso corpo, é resultado de complexos processos de substâncias químicas que precisam de um período para a produção. Assim, não espere um sono rápido logo após atividades muito envolventes e estimulantes, um banho e alguns poucos minutos na cama.

É necessário dar um tempo. Vá se “desligando” aos poucos das atividades e responsabilidades do dia e verá como o seu sono será muito mais restaurador. Agora é só dormir gostoso, sonhar e acordar bem amanhã.  Boa noite!

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Seu filho não come?! Ainda bem! O doutor Ary Lopes Cardoso, do Instituto da Criança da USP, explica por quê

Publicado em: 31 de julho de 2012

por Conceição Lemes

Basta ficar algum tempo na sala de espera de ambulatórios ou consultórios de pediatras que certamente se ouvirá:

— Não sei mais o que faço… Meu filho não come!

— Já estou ficando desesperada… Juro que ele não come!

A queixa é bem brasileira. O prato do dia a dia de todo pediatra. Acontece quando o bebê atinge 1,5 anos, 2, 3 anos. Se a mãe é de origem italiana, espanhola ou portuguesa, então nem se fala. Frequentemente continua carregando tradições dos antepassados que chegaram aqui no século passado. Quase sempre humildes, eles queriam trabalhar para que suas famílias tivessem o melhor futuro possível, com sucesso financeiro e muita saúde. Para todos, a comida sempre foi associada à boa saúde.

— Doutor, meu bebê comia bem, agora não quer mais…

— Ele não come nada o dia todo…

— Estou achando que ele está com algum problema…

“Ainda bem”, de pronto, quebra o gelo o pediatra o pediatra Ary Lopes Cardoso, chefe do Departamento de Nutrologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. “Graças a Deus, seu filho é normal!”

Calma, mãe (pai também!). O doutor Ary não está fazendo pouco caso da sua queixa. Ele fala sério.

“Só de observar a criança, dá para perceber que ela está se desenvolvendo bem”, afirma o doutor Ary. “Vamos pesar e medir o comprimento do seu nenê e ver se estão adequados “.

As explicações para o que está acontecendo são as seguintes:

* No primeiro ano de vida, em geral a criança ganha três vezes o peso que tinha ao nascer e metade (em centímetros) do comprimento do nascimento.

* No segundo ano, adquire cerca de 3,5 quilos e 8 a 10 centímetros de comprimento.

* Do terceiro ano até à puberdade, vai mais devagar :  cerca de 2 quilos e 5 a 6 centímetros por ano.

Matou a charada? Pois é isso mesmo. No primeiro ano de vida, o apetite é enorme porque as necessidades nutricionais para são muito altas para que as metas propostas sejam atingidas. Nos anos seguintes as necessidades anuais vão diminuindo e isso se traduz por menor apetite.

A família precisa entender isso. É necessário que o pediatra explique esse fenômeno fisiológico da diminuição do apetite. Se isso não ocorrer, a tendência da família é insistir, forçar, agradar (com guloseimas e outras tranqueiras engordativas ) e principalmente começa a “irradiar” a refeição: se comer esta colherada vamos passear, a vovó vai dar um presente, o papai vai deixar você brincar no carro, você vai crescer

Eventualmente o próprio pediatra cai na armadilha e prescreve equivocadamente um desses estimulantes de apetite.

“O resultado desses erros freqüentes, muitas vezes, é a obesidade no futuro”, alerta o doutor Ary. “Às vezes ao medir e pesar a criança já se nota o ganho excessivo de peso para a altura e idade.”

— O que fazer então?

Se o seu bebê vem mantendo uma velocidade de crescimento dentro de um canal adequado, tranqüilize-se, tranqüilize-se, tranqüilize-se…

No primeiro ano de vida, o leite materno deve representar o único alimento nos primeiros seis meses. No segundo semestre, inicia-se a introdução das frutas e da comida da casa, as papas. O leite materno continua sendo necessário. É um período em que a criança come a cada 3 ou 4 horas.

O interessante é que a partir dos seis meses a criança já entre nos horários da família. Por exemplo: tome o café da manhã na forma de leite materno ou fórmula infantil, seguida de lanche no meio da manhã (uma fruta com ou sem o leite), almoço (comida da casa amassada em peneira e com consistência pastosa), lanche à tarde (fruta ou leite com bolo ou iogurte  ou cereais) e jantar. À noite, novamente leite.

 — Mas meu filho não come NADA!!!

Nada mesmo? E aquelas três a quatro mamadeiras de leite, quase sempre com açúcar e cereais são o quê? Alimento. Por isso o seu filho não come outras coisas. As mamadeiras saciam o apetite dele.

“Talvez abolir as mamadeiras seja o único jeito de o seu filho passar a comer comida”, recomenda o doutor Ary. “Experimente. Depois, me conte.”

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Mário Scheffer: “Vivemos uma crise sem precedentes na resposta à epidemia de HIV/Aids”

Publicado em: 27 de julho de 2012

por Conceição Lemes

 

 

 

 

 

 

Mário Scheffer: “A condução é conservadora, defasada. A criatividade, a ousadia e o diálogo permanente com a sociedade civil  cederam lugar à arrogância”

 

Terminou nesta sexta-feira, em Washington, Estados Unidos, a 19ª Conferência Internacional sobre Aids. O Programa Nacional de DST/Aids, que até então era festejado e apontado como modelo para o mundo, sofreu críticas de especialistas durante toda a semana.

“A história de sucesso do programa brasileiro de aids entrou em declínio por fatores como a saída de recursos internacionais e o enfraquecimento da relação entre o governo e a sociedade civil”, avalia Eduardo Gomez, pesquisador da Universidade Rutgers de Camden, em Nova Jersey, EUA. “Historicamente, o programa brasileiro de aids tinha uma conexão forte com as ONGs, mas agora elas estão sem recursos e sem motivação. O governo precisa delas para conscientizar as populações difíceis de atingir.”

“O aumento da pressão de grupos religiosos e a redução das campanhas de prevenção junto às populações de maior risco são a maior ameaça ao programa brasileiro anti-aids”, pondera Massimo Ghidinelli, coordenador de Aids/HIV da Organização Panamericana da Saúde (OPAS). “Parece que, nos últimos anos, os grupos religiosos ficaram mais fortes e há uma menor intensidade na maneira pela qual o programa lida com questões de homofobia e sexualidade.”

Ontem, quinta-feira 26, ativistas brasileiros presentes à 19ª Conferência Internacional de Aids, em Washington, protestaram em frente ao estande do Ministério da Saúde contra o que definem como “retrocesso na resposta contra a epidemia”. O objetivo, segundo eles, foi mostrar ao mundo que o País “não é mais o mesmo” e “vive do sucesso do passado” no enfrentamento da doença.

“Até agora, as críticas eram principalmente de ONGs e ativistas brasileiros. Agora, são de especialistas estrangeiros renomados”, observa Mário Scheffer, presidente do Grupo Pela Vidda-SP. “O programa brasileiro de aids parou no tempo e não é mais motivo de orgulho nacional. Tivemos uma sucessão de perdas acumuladas. Vivemos uma crise sem precedentes na resposta à epidemia de HIV/aids.”

Ativista há mais de 20 anos e também professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, Mário acompanha a epidemia de HIV/Aids desde o seu início nos anos 80. Além do olhar afiado e da expertise em saúde pública, ele conhece bem toda a trajetória do Programa Nacional de DST/Aids. Daí esta nossa entrevista:

Viomundo – Começou no domingo (22) e terminou hoje (27) em Washington a 19ª Conferência Internacional sobre Aids. No decorrer da semana, foram feitas várias críticas ao momento atual do programa brasileiro de aids. Você concorda com elas?

Mário Scheffer – Com certeza. Até agora, as críticas eram principalmente de ONGs brasileiras. Agora, são de especialistas estrangeiros renomados. Elas são a prova maior de que o programa brasileiro não é mais a principal referência internacional, perdemos a liderança e o ineditismo, não ousamos mais nas respostas excepcionais que marcaram nossa história de combate à aids.

Viomundo – As ONGs de aids sempre tiveram boa interlocução com o Ministério da Saúde. O que aconteceu?

Mário Scheffer — As ONGs e os ativistas pioneiros que são obviamente mais críticos não são mais ouvidos. O governo atualmente elege os interlocutores que lhes são mais convenientes e deslegitima muitos daqueles que deram contribuições históricas.

Sinal de que as coisas não vão nada bem por aqui é que tanto a crítica ao programa quanto o reconhecimento às ONGs e aos ativistas brasileiros têm que vir de fora.

Aliás, o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em seu discurso na abertura da Conferência Internacional de Aids, domingo passado em Washington, fez um vigoroso elogio aos ativistas e citou especificamente as ONGs brasileiras. Disse que se hoje é possível falar em controle da epidemia e vislumbrar o seu fim, isso se deve fundamentalmente às ações desses ativistas.

Viomundo —  ONGs de aids estão fechando as portas no Brasil. Por quê?

Mário Scheffer – Vários motivos. Crise de pessoal, financeira, de sustentabilidade, não têm sede física, não têm dinheiro para pagar aluguel e telefone, têm que compor diretorias com apenas três pessoas  porque não há mais gente disponível. Também não conseguem mais montar  equipes para executar projetos, para chegar até as populações vulneráveis, o que só as ONGs são capazes de fazer.

Em outras palavras: algumas ONGs estão fechando as portas, como você disse. Mas está havendo também retração das atividades de todas elas.

Viomundo – Mas as críticas não se devem apenas à crise financeira e de pessoal das ONGs de aids?

Mário Scheffer – Essa é apenas uma das pontas da crise sem precedentes da resposta brasileira à epidemia, que também perdeu tecnicamente. Além disso, não há sensibilidade nem determinação do governo para perceber e para contribuir com a superação da crise das ONGs. Pelo contrário. Atualmente há uma crise política de relacionamento e mesmo de desprezo pela história das ONGs. O governo federal tem feito a opção — e isso não é só na área de aids — pela relação paroquial com a sociedade civil, uma política de cooptação e quebra-galho. Não ha mais crítica nem debate qualificado de ideias. Tivemos uma sucessão de perdas acumuladas.

Viomundo – Quais?

Mário Scheffer – Primeiro, perdemos a força do trabalho voluntário por meio do qual as pessoas participavam de nossas ONGs, exprimiam sua solidariedade, doavam tempo, trabalho e talento para a luta contra a aids. Não é mais uma causa mobilizadora e isso tem a ver com a imagem trabalhada pelo governo de que temos o melhor programa do mundo e que por aqui está tudo resolvido.

Segundo, com a ascensão das ONGs picaretas e bandidas, criadas para alimentar a corrupção em vários ministérios, cresceu o preconceito e foram impostas mais barreiras para as organizações sérias, que já tinham dificuldade em acessar recursos públicos.

Desde que realizado com critério, transparência, concorrência pública e rigorosa prestação de contas, as ONGs deveriam ter o direito de acessar fundos públicos para exercer o controle, a fiscalização e a participação nas políticas públicas, como acontece em várias democracias.

Terceiro, diante da imagem de que o Brasil hoje é um país rico e resolveu o problema da aids (o que não é verdade), acabou o apoio internacional às ONGs brasileiras de aids.

Resultado: sem ajuda de comunidades e empresas e com uma causa que não toca mais o coração de doadores e voluntários, passamos a viver a dificuldade crescente de assegurar recursos institucionais para a manutenção das ONGs. Com isso, arrefeceu o nosso ativismo e controle sobre as políticas públicas.

Viomundo – E os financiamentos governamentais vinculados a projetos?

Mário Scheffer – Eles fazem parte de um modelo esgotado em que as ONGs de aids foram reduzidas a mão de obra barata para prestação de serviços que o Ministério da Saúde e secretarias estaduais e municipais de saúde não conseguem realizar. Não bastasse isso, muitas vezes estados e municípios não repassam esse recursos às ONGs e quando o fazem, não há continuidade nem avaliação da eficácia das ações financiadas.

Viomundo – Um pouco atrás você falou que o programa brasileiro de aids perdeu tecnicamente. Em que medida? 

Mário Scheffer — Não houve renovação nem atualização dos quadros técnicos. Os desafios hoje são outros, mas a condução é conservadora, defasada. A criatividade, a ousadia e o diálogo permanente com a sociedade civil  cederam lugar à arrogância. Sem a força e a autonomia de outrora, os programas de aids —  o nacional e vários estaduais e municipais — estão isolados e enfraquecidos politicamente dentro dos governos.

Em São Paulo, por exemplo, muitos serviços municipais de aids estão sem médicos,   os estaduais, superlotados, sendo privatizados, fechando leitos, e os programas de aids sem nenhuma governabilidade sobre isso.

Já o programa nacional nem sequer dá mais as fichas sobre a produção nacional de antirretrovirais genéricos. Hoje é um processo sem transparência. O Ministério da Saúde não dá um passo sem o amém da Casa Civil e dos fundamentalistas religiosos que integram a base governista, o que emperra programas de prevenção de aids.

Viomundo – O que ONGs e ativistas da área de aids querem?

Mário Scheffer — Queremos ser respeitados e ouvidos mas em novos patamares de relacionamento. Ninguém desistiu da luta. Nossas ONGs querem continuar atuando nas diversas frentes, na prevenção, na assistência das casas de apoio, nas assessorias jurídicas, na defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV. Queremos continuar fazendo o mesmo ativismo que nos levou a conquistar o acesso universal aos medicamentos, derrubar patentes, lutar contra a exclusão de coberturas pelos planos de saúde privados, acessar os vulneráveis e alçá-los à condição de cidadãos.

O mesmo ativismo que nos leva a apontar que, diferentemente do que dizem, o acesso aos antirretrovirais no Brasil não é universal, pois o diagnóstico tardio é altíssimo e ainda existem desabastecimentos ocasionais. Que nos leva a dizer que não existe política de prevenção adequada a um perfil de epidemia concentrada em certas populações, como os homossexuais, atualmente os maiores negligenciados de prevenção em aids no Brasil.

Hoje estão ameaçados princípios essenciais que forjaram o combate à aids no Brasil, que um dia chegou a quebrar barreiras e tabus. Essa ousadia necessária deu lugar a um programa sem vida, covarde, que promove autocensura, se alinha com forças retrógradas, como no caso recente da campanha dirigida aos gays.

Um programa que se debruça sobre glórias do passado e exibe uma real incapacidade , lentidão e perda da capacidade técnica e política . Não tem conseguido dar respostas à altura das novas dinâmicas e desafios da epidemia e a comunidade internacional passou a perceber isso.

Neste momento de grandes mudanças, com esperança concreta da cura e controle da aids, novas armas para prevenção, necessidade de ampliarmos a oferta de testagem e tratamento a todos os infectados, o Brasil está paralisado, com seus indicadores de mortalidade e de novas infecções pelo HIV estacionados. O programa brasileiro de aids parou no tempo e não é mais motivo de orgulho nacional.

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Abaixo a TPM e os preconceitos!

Publicado em:

por Conceição Lemes

Basta uma mulher mostrar-se nervosa, irritadiça ou explodir para quase automaticamente se ouvir no ambiente: 1) ela está “precisando” de homem; 2) ela está “naqueles” dias (referindo-se à menstruação); ou 3) ela está na TPM (tensão pré-menstrual).

Pois essas três frases são pejorativas, machistas, discriminadoras de gênero,  equivocadas. Chiliques não são exclusividade feminina, concorda? A síndrome da tensão pré-menstrual é um grande distúrbio ligado à menstruação. A TPM repercute em todo o organismo — física e emocionalmente. Atinge cerca de 40% das mulheres em idade reprodutiva.

“Enfim, é uma síndrome democrática”, ressalta a ginecologista e obstetra Fátima Duarte.

De fato, a TPM ocorre em todos os grupos sociais e faixas etárias, podendo se manifestar da primeira à última menstruação. Em geral, as queixas começam sete a dez dias antes da descida do sangue e melhoram durante ou logo depois. Juntando todos os sintomas já descritos na literatura médica, superam — pasme! — 150.

Porém, alguns são mais comuns. Nas esferas emocional e comportamental, diminuição de desejo sexual, mau humor, agressividade, depressão,
insônia, irritabilidade, ansiedade, fadiga, desânimo e falta de energia. Na área cognitiva, dificuldade de concentração e indecisão. Na física, inchaço das mamas e aumento de peso, em razão da retenção de água pelo organismo; dores musculares, nos seios, juntas, pernas,abdome e genitais; cefaleia; prisão de ventre; náusea e vômitos; e problemas de pele, como acne.

“Indubitavelmente, a TPM é uma doença da mulher moderna e está ligada à parte hormonal”, cientifica o ginecologista e professor Edmund
Chada Baracat, titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP.  Há inúmeras teorias a respeito, mas até agora não se sabe a sua causa. Uma das hipóteses é que a mulher sujeita à TPM fabricaria menos progesterona. Em consequência, haveria desequilíbrio de progesterona e estrogênio. Esse desbalanço, por sua vez, faria com que houvesse maior retenção de água no organismo.

Exercícios para todas

O fato é que, até agora, não há um tratamento medicamentoso único capaz de aliviar todos os sintomas da TPM. Vai depender de cada caso.

Mulheres com dores e inchaço nas mamas, por exemplo, melhoram comos diuréticos. Já as com depressão, com antidepressivos. Outras, com a associação de ambos. Muitas vezes o bloqueio da ovulação com contraceptivo
hormonal pode ser a solução. Suplementos de vitaminas B6  e E também podem ajudar. Converse com o seu médico a respeito.

“O importante é que a síndrome tem de melhorar”, fazem coro Fátima e Baracat, no livro Saúde — A hora é agora. Afinal, interfere muito na qualidade de vida. Por isso, eles recomendam a toda mulher com TPM estes quatro cuidados:

1) Exercite-se regularmente — A atividade física aumenta a fabricação de endorfinas (substâncias produzidas pelo cérebro e que têm efeito analgésico). A maior produção de endorfinas, por sua vez, melhora o nível de serotonina, aliviando depressão, irritabilidade e ansiedade.Escolha alguma atividade que lhe dê prazer. Além de amenizar a TPM, beneficia toda a saúde. Estimula inclusive a formação de massa óssea, evitando a osteoporose.

2) Evite chocolate, café, refrigerantes à base de cola e chá preto — Contêm cafeína e substâncias semelhantes, que aumentam a irritabilidade.

3) Diminua o sal — Isso faz o seu organismo reter menos água.

4) Reduza os enlatados e os embutidos (salsicha, presunto, salame e mortadela) — São ricos em cloreto de sódio, que é usado como conservante. Cloreto de sódio é o nome químico do sal de cozinha.

Detalhe: essas medidas ajudam tanto no tratamento quanto na prevenção da síndrome. Portanto, adote-as já. Abaixo a TPM e os preconceitos!

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“Ataques” noturnos à geladeira são sem-vergonhice?

Publicado em: 16 de março de 2012

por Conceição Lemes

A pessoa acorda decidida a manter a luta contra a balança. Durante o dia, se contenta com um bife grelhado e uma folhinha de alface ou não come nada. De repente, porém, no final de tarde, sucumbe à vontade incontrolável de comer, e “assalta” geladeira e despensa. Mesmo sem fome (até após refeições), devora em minutos o que encontra: bombons, tortas, biscoitos, arroz com feijão ou macarrão gelados, sanduíches, banana com refrigerante. Há quem se tranque na cozinha ou no quarto para não ser flagrado.

Aí, vêm os efeitos: empachamento e, pior, frustração, vergonha e culpa. A autoestima abaixa aos calcanhares, com carimbos de autocondenação do tipo “Não tenho jeito”, “Não tenho força de vontade”, “Sou sem-vergonha mesmo”.

“Só que esses ataques de comilança não são sem-vergonhice, não”, absolve a endocrinologista Maria Teresa Zanella, professora titular de Endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),  no  capítulo sobre obesidade do livro Saúde — A hora é agora.

O culpado — atenção! — é um distúrbio de nome longo e complicado: transtorno de compulsão alimentar periódica. Atinge de 20% a 40% dos pacientes que procuram os serviços de obesidade. O drama é que muitos médicos ainda o ignoram e costumam atribuir o que acontece à velha e injusta falta de força de vontade da pessoa. Logo, não pergunta sobre o assunto e o paciente tem vergonha de contar e levar bronca. Resultado: o diagnóstico correto não é feito e o tratamento da obesidade fracassa.

CONTRA A VONTADE MESMO

Antes que alguns gordinhos se incluam nesse diagnóstico, que fique claro: beliscar o dia inteiro ou exagerar em todas as refeições não é transtorno de compulsão alimentar periódica. Também não sofre do transtorno quem, de raro em raro, tem um ataque de comilança. Isso pode ocorrer com qualquer pessoa em momentos de tristeza ou estresse intensos. É doença quando as investidas se tornam frequentes: no mínimo, dois episódios de compulsão alimentar por semana, durante seis meses consecutivos.

“Trata-se de compulsão no sentido de ser algo que o indivíduo faz contra a vontade”, explica o psiquiatra Arthur Kaufman,  coordenador do Projeto de Atendimento ao Obeso (Prato), do Instituto de Psiquiatriado Hospital das Clínicas e professor da Faculdade de Medicina da USP.

Em outras palavras: a pessoa quer evitar mas não consegue controlar. Come além do que pretendia, quando não precisava ou não queria mais. A medicina ainda não sabe bem por que isso acontece. Nesses obesos, aparentemente há diminuição no cérebro de serotonina, substância produzida pelas terminações nervosas das células do sistema nervoso central, e que é uma das “donas” do humor. A sua baixa no cérebro causa depressão. Do ponto de vista psicológico, já foram detectados vários outros fatores associados: ansiedade, estresse, raiva, tédio, frustração e solidão. Mas os ataques noturnos de comilança também podem ser apenas devido à insônia.

HORÁRIOS E COMIDAS PREFENCIAIS

Na verdade, os estudos sobre o transtorno de compulsão alimentar periódica são recentes. Os primeiros datam de 1994. Desde então, pesquisadores já descobriram, por exemplo, que os assaltos a geladeiras e despensas ocorrem a partir do final da tarde, e seguem noite adentro.

Há várias hipóteses para a preferência por esse horário. Talvez todas atuem em conjunto:

* É o momento em que a pessoa deixou o trabalho, está em casa e com mais condições para o ataque. Principalmente há a proteção oferecida pela privacidade, já que a “invasão” à geladeira costuma ser escondida por vergonha do exagero.

* Com frequência, o obeso tenta jejuar o dia inteiro (é errado, não faça isso!). Então, no fim do dia, através de mecanismo regulador, o organismo “cobra” mais alimento.

*No final da tarde, baixa a taxa de “açúcar” no sangue (porque a pessoa fica sem comer!). Idem o nível de serotonina, que segue um ritmo de produção no decorrer do dia e normalmente diminui nesse horário. A serotonina está envolvida em inúmeros comportamentos e funções: humor, sono, saciedade, ansiedade, agressividade, impulsividade, entre outros.

“Provavelmente disfunções na regulação da serotonina também ajudam a explicar por que comidas ricas em carboidratos são o principal alvo”, cogita a endocrinologista.

Curiosamente, as invasões a geladeiras e despensas nunca são em busca de tomates, alfaces, cenouras, certo? São sempre por alimentos ricos em carboidratos, como doces, massas, pães, biscoitos, cereais, chocolates. “De pronto, os alimentos ricos em carboidratos aumentam a serotonina no cérebro”, justifica Kaufman. Assim, ao menos temporariamente, melhoram o humor, aliviando depressão e ansiedade.

MÉDICO PODE PIORAR

Desconhecer, portanto, o que acontece no transtorno de compulsão alimentar periódica é derrota quase certa na balança. “Em vez de melhorar, o médico pode até agravar a obesidade”, constata Maria Teresa.

Explica-se: o médico (por desinformação) e o obeso (por vergonha ou medo de levar bronca) raramente trocam informações sobre a compulsão alimentar. Em consequência, o transtorno não é tratado, a pessoa dificilmente perde peso e entra num círculo vicioso. Como não emagrece, cresce a ansiedade, até porque tem de apresentar resultados também ao médico. E ansiedade, como se sabe, predispõe a ataques de comilança, que aumentam a ansiedade, e assim vai. Como não sabe que se trata de distúrbio, o paciente se responsabiliza pelo fracasso. O médico, por diagnóstico errado, reforça a culpa.

Não é o único equívoco. Os médicos às vezes prescrevem inibidores de apetite à base de anfetamínicos, que não funcionam nos casos de compulsão alimentar já que o problema não é o apetite.

“Além disso, esses remédios exacerbam a depressão e a ansiedade, aumentando os ataques”, alerta o médico Simão Lottenberg, médico Simão Lottenberg, do Serviço de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da USP.

E o paciente piora, inclusive psicologicamente. O retrato é esta cruel autocondenação, repetida com frequência: “Se nem com remédio consigo parar de comer, eu não tenho solução mesmo”.

TEM SOLUÇÃO, SIM!

A obesidade associada ao transtorno de compulsão alimentar periódica tem solução. Além de atividade física regular e da mudança de hábitos alimentares — indicadas para todo mundo que deseja ter pesosaudável —, são indicados psicoterapia e/ou uso de certos antidepressivos.

A psicoterapia ajuda a pessoa a aprender a identificar o que causa a compulsão alimentar. Logo, se você suspeita dos seus ataques de comilança, não se envergonhe: discuta-os às claras com o médico. Abra o jogo, mesmo que tenham frequência inferior a dois episódios semanais e há menos de seis meses.

Na prática, se eles atrapalham o andamento da sua vida, merecem atenção e cuidado. A propósito: vários grupos ligados a universidades tratam gratuitamente o transtorno de compulsão alimentar periódica.

Quer umas dicas agora? Pois guarde bem estas dos doutores Maria Teresa, Kaufmann e Lottenberg, no livro  Saúde — A hora é agora:

* Não faça dietas muito restritivas. Aparentemente, a pessoa que passa por muitos períodos de jejum e fome está mais sujeita ao transtorno de compulsão alimentar periódica.

* Não fique o dia inteiro sem comer. Esse hábito errado facilita os ataques de comilança.

*  Não adianta aumentar a quantidade de carboidratos da dieta. O importante é ter uma alimentação o mais balanceada possível, incluindo os carboidratos.

* Fracione as refeições, com intervalos de aproximadamente três horas entre elas. Dietas muito restritivas, como você já sabe, favorecem os ataques de comilança.

* Pratique alguma atividade física regularmente — caminhada, por exemplo. Ela aumenta o nível de serotonina no cérebro, diminui a ansiedade, relaxa e reduz a compulsão alimentar.

* Se, apesar dessas medidas, sentir que o bicho começa a pegar, experimente dar uma volta no quarteirão, andar na esteira, telefonar para algum amigo ou tomar um banho de água fria. São truques que para alguns “ladrões” de geladeira funcionam. Vale a pena tentar.

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Você sofreu algum tipo de violência no parto?

Publicado em: 12 de março de 2012

por Conceição Lemes

Recentemente, as imagens da jovem presidiária, algemada pelo braço e perna no leito de hospital 12 horas após cesariana, chocaram. E mais. Tornaram pública uma prática repugnante, covarde, imoral, até então vigente em todo o sistema carcerário paulista.

Infelizmente, as gestantes brasileiras estão muito mais à à mercê de violência do que se possa imaginar.

Em 2011, pesquisa de opinião da Fundação Perseu Abramo e SESC, coordenada pelo professor Gustavo Venturi Jr, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, revelou um dado estarrecedor: uma em cada quatro brasileiras que deram a luz em hospitais públicos ou privados relatam algum tipo de agressão durante o parto.

Já estudo da psicóloga Janaína Marques Aguiar, para sua tese de doutorado no departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, evidenciou que “quanto mais quanto mais jovem, mais escura e mais pobre, maior a violência no parto.”

As agressões antes e durante o parto, praticadas por profissionais de saúde, vão de  repreensões, humilhações e gritos à recusa de alívio da dor (apesar de medicamente indicado), realização de exames dolorosos e contraindicados, passando  por xingamentos grosseiros com viés discriminatório quanto à classe social ou cor da pele.

Dessas constatações nasceu o Teste de Violência Obstétrica, iniciativa de Ana Carolina Franzon (jornalista, cursa mestrado em Saúde Pública na USP), Lígia Moreira Sena (bióloga, faz doutorado em Saúde Coletiva na Universidade Federal de Santa Catarina — UFSC ) e Fernanda Andrade Café (jornalista). Ana Carolina e Lígia, especificamente, pesquisam saúde materna e violência institucional no parto.

O Teste de Violência Obstétrica é um questionário  elaborado pelas três e ficará no ar até dia 15 de abril. É anônimo e os dados individuais serão confidenciais. Podem respondê-lo todas as mulheres que já tiveram filho, não importa a época nem o tipo de parto.

“O objetivo dessa ação é promover, por meio das mídias sociais, o enfrentamento das violências que as mulheres sofrem durante a internação para o parto, ou antes, durante o pré-natal”, afirma Ana Carolina. “Queremos sensibilizar a sociedade para questão da violência obstétrica e que as mulheres a reconheçam, denunciem, processem os profissionais de saúde envolvidos.”

“Por exemplo, quando se sentirem enganadas por indicação de cesárea, maltratadas verbalmente, não receberem analgesia solicitada, sofrerem episiotomia sem esclarecimento e anuência, forem obrigadas a deixar o acompanhante de fora da sala de parto ou amarradas na cama ou alguém ‘empurrar’, subir na sua barriga, para a criança nascer”, avisa Ana Carolina. “Todas essas práticas são reconhecidas há muito tempo pela  Organização Mundial de Saúde (OMS) como prejudiciais  à saúde da mãe e/ou do bebê, porém continuam a ser adotadas no Brasil.”

Os resultados dessa pesquisa informal serão divulgados no dia 30 de abril.  Para participar, é só responder este questionário. CLIQUE AQUI.

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