Doutora Laura Andrade dá dicas para prevenir a ressaca

por Conceição Lemes

Costumo brincar que existem algumas matérias que “vão sozinhas” para a “gráfica”, de tantas repetitivas que são. Bastar atentar para o noticiário que vocês vão perceber.

Na época da Páscoa, por exemplo, há três “clássicas”: 1) não vai faltar peixe semana santa; 2) chocolate e acne ; 3) chocolate e consumo excessivo de calorias. Já nas festas de final de ano, o tema ressaca vira hit. E, assim, vai. Todos os veículos fazem a mesmas reportagens. Tudo  igualzinho.

Claro que o público se renova,daí a validade de se voltar ao assunto. Só que em vez de acrescentar informações e/ou atualizações , frequentemente o que se vê na área de saúde é a eterna repetição de equívocos. Pior. Certos “especialistas” falam  besteiras com “tanta autoridade” que os leitores em geral não percebem, “engolem” c0mo verdade.

Em 2008, eu havia publicado uma matéria sobre ressaca, para a qual o Luiz Carlos Azenha, eterno gozador/provocador, sapecou o título Beba, a Conceição Lemes  garante!

Diverti-me à beça com a brincadeira. Leitores do Viomundo também. Eu não pretendia abordar otema neste reveillon de 2010. Mas li tantas dicas erradas hoje na internet que voltei atrás e decidi reproduzir a reportagem publicada originalmente em 27 de dezembro de 2008.

A entrevistada foi médica psiquiatra Laura Helena Andrade, coordenadora do Núcleo de Epidemiologia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e professora colaboradora da Faculdade de Medicina da USP. Por cautela, submeti o texto hoje a ela novamente.  Afinal, o nosso objetivo é fornecer informações corretas, atualizadíssimas, baseadas nas mais recentes evidências científicas

Trazido do Viomundo antigo. Publicado em 27 de dezembro de 2008. Título original: Beba, a Conceição Lemes garante! (rs).

por Conceição Lemes

Em tempo de festas, quase todo mundo bebe. São celebrações com familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho. Uma delícia. Em pequenas doses, o álcool deixa a maioria das pessoas mais alegres, relaxadas, descontraídas, sem prejudicar a saúde. Mas, quando se exagera, o dia seguinte é um horror: dor de cabeça, corpo “moído”, cansaço, aumento da sensibilidade à luz e ao ruído, boca seca, vermelhidão dos olhos, tontura, náusea, vômitos e diarréia. Argh…A temida ressaca.

Não à toa cresce, nesta época, a procura por dicas que garantam acordar bem, são e salvo.

Por falar nisso, qual destas receitas recomendaria para  prevenir ressaca:

1) Ingerir uma colher de azeite antes de beber?

2) Tomar um Engov antes e outro depois de uma comemoração, como sugere a propaganda?

3) Tomar bastante refrigerante?

4) “Forrar” o estômago antes e enquanto bebe?

5) Se for homem, consumir até duas latinhas de cerveja, ou duas doses de destilado, como uísque ou vodca (36 ml) ou duas taças de vinho (120 ml)? Se for mulher, uma latinha de cerveja ou uma dose de destilado ou uma taça de vinho?

6) Alternar bebidas alcoólicas com o consumo de água-de-coco, mineral ou sucos?

“Só tem um jeito de realmente prevenir a ressaca: beber pouco, portanto a receita 5; as receitas 1, 3, 4 e 6 podem ajudar”,  avisa médica psiquiatra Laura Helena Andrade, coordenadora do Núcleo de Epidemiologia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e professora colaboradora da Faculdade de Medicina da USP. Que adverte: “A receita 2 é propaganda enganosa. O ‘tal remédio antes e depois’ não impede a intoxicação pelo álcool, só diminui um pouco as dores de cabeça”.

CONHEÇA O MAIOR CULPADO

Muitos devem estar questionando:

— Engov não funciona!?

— As receitas 1, 3, 4 e 6 apenas podem ajudar!?

Calma. Vamos por partes. Em pequenas doses, você já sabe, o álcool deixa a maioria das pessoas para cima, pois age como estimulante. No entanto, à medida que seu nível sobe no sangue, inibe o sistema nervoso central, diminuindo o seu funcionamento. Afinal, uma vez ingerido, o álcool segue para estômago e intestino. Aqui, é absorvido e lançado na corrente sangüínea. Por meio da circulação, atinge então o corpo inteiro, inclusive o cérebro. No fígado, especificamente, é pouco a pouco transformado em outra substância — o bastante tóxico acetaldeído.

O acetaldeído – e não o álcool propriamente dito – é o maior responsável por a gente acordar um trapo após beber um pouco mais. Nosso organismo é capaz de eliminar uma dose de álcool por hora, ou seja, 14 a 18 gramas da substância ativa das bebidas. Isso equivale ao consumo de uma latinha de cerveja ou uma taça de vinho (120 ml) ou uma dose de uísque, vodca, rum, aguardente ou outro destilado (36 ml). Uma dose de destilado é aquela medida de dosador de boate, que contém 36 ml. Num daqueles copinhos tradicionais de pinga, uma dose de destilado “pega” um pouco acima da segunda listra.

Conclusão: quanto maior o consumo de álcool, maior a quantidade de acetaldeído no sangue e, consequentemente, pior a ressaca. A intensidade dela depende também da velocidade da ingestão.

COMO ACORDAR BEM

Imagine uma caixa d’água especial. Para enchê-la, basta abrir uma torneira; para esvaziá-la, o único recurso é uma canequinha. Pois bem, a caixa d’água equivale ao sistema de metabolização do álcool que existe no nosso organismo; a torneira, à via de entrada dele; a água a ser tirada com canequinha, ao acetaldeído.

Ao abrir demais a torneira, a “caixa” atinge rapidamente o seu limite, mesmo que continue o trabalho de esvaziamento. Não há como acelerar a eliminação do álcool, que tem velocidade fixa. A “água” então se amontoa, causando estragos.

“Por isso, o único jeito de prevenir, de fato, a ressaca é não exagerar na dose”, insiste Laura. “Evita-se, ao mesmo tempo, o acúmulo de acetaldeído e a intoxicação pelo álcool.”

Um estudo publicado na prestigiosa revista inglesa British Medical Journal, BMJ, chega à mesma conclusão: não existe nenhuma evidência científica de que remédios sejam efetivos para prevenir ou tratar a ressaca A forma mais eficaz de evitar os seus sintomas é a abstinência ou o consumo moderado.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera como de baixo risco o homem beber até duas doses de álcool por ocasião; uma dose, a mulher. O cálculo é para uma pessoa de 70 quilos. Isso equivale ao consumo mencionado na receita 5.

“Em compensação, o homem que consome cinco doses de álcool numa festa e a mulher, quatro, já são heavy drinking, ou bebedores ‘pesados’, mesmo que isso seja ocasional”, a doutora Laura abre este parêntese para alertar. “O heavy drinking está associado diretamente a vários problemas imediatos devido à intoxicação pelo álcool: estimula a violência; favorece acidentes de trânsito e doméstico; contribui para relação sexual sem proteção, ou seja, sem camisinha; prejudica a memória e o raciocínio; aflora ou agrava dificuldades emocionais; pode causar arritmia cardíaca que, às vezes, leva à morte”.

Voltando à ressaca. Estas medidas podem também ajudar você a diminuir o acúmulo de acetaldeído no organismo, conseqüentemente reduzir o risco de acordar um bagaço no dia seguinte:

* “Forre” o estômago antes de beber – Pode ser com uma comida gostosa ou até com a tal colher de azeite.  O importante é ter alimento lá dentro para competir com o álcool na hora da absorção. Isso tornaria a assimilação mais lenta, diminuindo por tabela a produção de acetaldeído.

* Hidrate-se bem, alternando o consumo de bebidas alcoólicas com o de não alcoólicas – O álcool inibe a ação de um hormônio chamado antidiurético. Por isso, aumenta a produção de urina, facilitando a desidratação e a maior concentração de acetaldeído no corpo. É fundamental, então, ingerir mais líquidos do que habitualmente. O conselho vale principalmente para quem prefere vinho ou destilados como uísque e pinga. Você pode beber água-de-coco, água mineral, sucos ou até refrigerantes. Ao consumir mais líquidos é como se você tomasse uma bebida mais diluída. E bebida mais diluída significa menor concentração de acetaldeído.

* Beba aos poucos – O maior espaçamento entre os drinques faz a metabolização do álcool também ser paulatina. Em conseqüência, a fabricação de acetaldeído é igualmente mais vagarosa, o que dá tempo ao organismo para eliminá-lo em maior quantidade, evitando o acúmulo. Beber deve ser para celebrar, confraternizar, e não para afogar as mágoas e tristezas nem resolver desencantos e dificuldades.

“Mas e o Engov antes e outro depois”!?”

“Esse remédio não impede a intoxicação pelo álcool, logo não evita o acúmulo de acetaldeído”, previne a professora Laura Helena. “Também não é um passaporte para beber sem problemas. A falsa promessa de proteção leva alguns a abusar da bebida e, portanto, a correr outros riscos.”

O Engov é apenas um medicamento para aliviar especialmente a dor de cabeça, o sintoma número 1 da ressaca. Funciona tal qual um comprimido de analgésico. Tanto que o ácido acetilsalicílico, a popular aspirina, é o seu principal componente. Os outros três são: hidróxido de alumínio – antiácido; mepiramina – anti-histamínico, que reduz enjôos e vômitos; e cafeína – estimulante do sistema nervoso central, que diminui o torpor.

Ou seja, o famoso remédio age somente sobre alguns dos sintomas causados pelo excesso de álcool, diminuindo-os, mas não evita a intoxicação nem a ressaca. Tomá-lo por antecipação é como recorrer a analgésico, antiácido ou antiemético ao desconfiar de que terá dor de cabeça, acidez gástrica ou náusea. Só isso.

NÃO DIRIJA DE RESSACA

Respeite, portanto, o seu limite. Uma forma prática de saber o seu limite: quando você planeja dizer uma palavra, mas diz outra, está na hora de dar um tempo no drinque. As mulheres são efetivamente mais suscetíveis aos efeitos do álcool. Primeiro, porque não têm no estômago um pouco da enzima álcool desidrogenase, que ajuda a metabolizar o álcool, como acontece aos homens. As mulheres só possuem essa enzima no fígado. Segundo: mesmo as magras, têm proporcionalmente mais gordura e menos água do que os homens no organismo. E como o álcool se distribui pela porção de água, ele se concentra mais fortemente no organismo das mulheres.

“Se apesar de todas essas precauções, a ressaca ocorrer, repouse e tome bastante líquido”, recomenda a doutora Laura. “Em caso de dor de cabeça, pode tomar um analgésico. Se der azia, utilize algum medicamento que iniba a produção de ácido no estômago.”

Mais um cuidado. Não dirija enquanto perdurar o mal estar pelas doses a mais. A ressaca piora os reflexos, a concentração e a capacidade visual, aumentando o risco de acidentes. Tanto que as companhias americanas de aviação proíbem os pilotos de voar se tiverem bebido até 24 horas antes.

Essa cautela vale também para nós circulando no chão. De ressaca, faça o mesmo que se tivesse acabado de beber. Não dirija carro, moto ou lancha nem ande bicicleta ou de jet-ski. Vá de metrô, ônibus, táxi, peça carona. Você protege a sua vida e a das pessoas que você ama. Tintim, saúde!