VIOMUNDO

Diário da Resistência


Sattar sobreviveu?
Foto arquivo pessoal
Baú

Sattar sobreviveu?


24/02/2010 - 01h47

por Luiz Carlos Azenha, publicado originalmente em 21.03.2006

A foto acima foi feita quando eu e nosso guia, o iraquiano Sattar, estávamos num subúrbio de Bagdá.

Era sexta-feira, o domingo dos muçulmanos. Lá no fundo, dá para ver a cúpula e os minaretes de uma das mesquitas mais importantes da cidade.

É a mesquita de Kadhimiya.

Xiitas de todo o mundo visitam o lugar, onde está enterrado um parente do profeta Maomé.

Os mil peregrinos que morreram em Bagdá, num confronto sectário, estavam a caminho dela.

Atravessavam uma ponte sobre o rio Tigre.

Rumores provocaram a correria que matou muitas mulheres e crianças.

A tragédia de agosto de 2005 foi a maior desde que o Iraque ficou sob tutela dos Estados Unidos.

Visitamos o país semanas antes do início da ocupação americana.

O motorista Sattar foi buscar nossa equipe em Amã, na Jordânia, para a viagem de automóvel que nos levou a Bagdá.

Os inspetores da ONU ainda estavam na cidade, procurando as armas de destruição em massa, nunca encontradas. Sattar é engenheiro civil.

Trabalhou em projetos de reconstrução de Bagdá depois da guerra do Golfo, a do Bush pai.

De início nos pareceu tímido e amedrontado.

Depois, ganhou confiança em nós.

Antes da ocupação americana, só havia um vôo charter, irregular, entre a Jordânia e o Iraque.

Por questões de segurança, todos preferiam fazer a viagem de automóvel.

Dez horas na ida, dez horas na volta. Sattar fazia o trajeto duas ou três vezes por semana.

Sattar viajava até Amã, a bela capital jordaniana, em busca de jornalistas, ativistas pela paz, delegações estrangeiras.

Pagava todas as propinas necessárias para azeitar a burocracia iraquiana na travessia da fronteira.

O motorista é um muçulmano devoto.

A caminho de Bagdá, enquanto eu e o cinegrafista Sherman Costa almoçávamos, pediu licença educadamente, apanhou um tapete no carro e foi para um canto do restaurante.

Ajoelhou-se para orar em direção a Meca.

A guerra já era tida como certa.

Sattar nos contou dos planos que a família dele fizera: iriam todos para uma fazenda, no interior, esperar pela invasão americana.

Na fazenda, o pessoal do Sattar já tinha estocado o essencial: comida, combustível para um gerador, baterias para ouvir as notícias pelo rádio.

Foto arquivo pessoal

A viagem Amã-Bagdá-Amã foi feita num 4×4.

Mas na capital iraquiana usamos o carro acima para perseguir os inspetores da ONU, enquanto as equipes das redes americanas voavam em jipes importados.

Durante a viagem, contei ao Sattar que tinha ouvido a notícia de que os americanos pretendiam iniciar o ataque a Bagdá com uma bateria de milhares de mísseis.

Sattar fechou os olhos e respirou fundo, como se tivesse tomado um tiro no coração.

Semanas depois, a informação que dei a Sattar se confirmou.

Foi a operação Choque e Espanto, do Pentágono. Deixamos o Iraque antes da invasão americana.

Quando nos levava de volta a Amã, Sattar não se importou quando decidimos fazer gravações em lugares onde era proibido filmar.

O espião destacado pelo governo de Saddam Hussein, que nos acompanhou durante os dez dias em Bagdá, já não estava conosco. Sattar não corria mais o risco de ser delatado.

Pelo que disse, estava dividido sobre a guerra: Saddam havia destruído o país, mas os americanos não tinham nada que ocupar o Iraque.

E aí, Sattar, o que você acha que vai acontecer aqui? “Tenho medo de que isso aqui se transforme numa Palestina”, respondeu.

Acertou na mosca. O último levantamento do site BodyCount, que conta o número de civis mortos no Iraque baseado em notícias publicadas pela imprensa, revela números impressionantes.

No dia 20 de março de 2006, a invasão americana do Iraque completou três anos.

Até então, segundo o BodyCount, foram ao menos 28.637 civis mortos.

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Por Laurindo Lalo Leal Filho



11 comentários

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augusto2

04 de outubro de 2012 às 16h30

Colin powell é basicamente um bom sujeito.
Tanto que ele mesmo escreveu que aquele seu famoso discurso na ONU em fev 2003, dando conta que o Saddam tinha uma penca de armas de destruiçao em massa… diz que aquilo era uma mancha (a blot) em sua biografia.

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hose gaspar chemin

19 de junho de 2012 às 10h19

Viva o Iraque
ira que mata
ira que morre
ira que vence!

Responder

Lucas Vila

14 de novembro de 2011 às 23h14

Alguém tem a conta de quantos civis iraquianos morreram sob o comando da "democracia" de de sadam hussein?

Responder

    Afonso

    20 de novembro de 2012 às 20h29

    Caro Lucas. Entendi sua ironia. Mas acho que V. não vai encontrar nenhum sujeito sério que fale em democracia nos tempos de Sadam. O que se coloca é que os americanos não invadiram o Iraque para implantar uma democracia. O objetivo óbvio era o petróleo. Será que a morte de quase 30 mil civis vale isso? E quanto à sua pergunta, não posso garantir, mas ao que se sabe ele foi condenado à morte por enforcamento, pela morte de 148 iraquianos. Se foram mais, pode ser, temos é claro que lamentar. Foi o que encontrei…vamos continuar pesquisando Lucas?
    “Em 5 de novembro de 2006, ele foi condenado por acusações relacionadas ao assassinato de 148 xiitas iraquianos em 1982 e foi condenado à morte por enforcamento. A execução de Saddam Hussein foi realizada em 30 de dezembro de 2006.[6] “

    Marcos

    17 de fevereiro de 2013 às 20h06

    É impressionante com a versão plantada pelos americanos é comprada pela maioria. Sempre está é jogo os interesses geopolíticos da super potência, ela define onde tem que cair o poder, e onde instalar bases e a imprensa faz a parte de arrumar e propagar “bons” motivos para a intervenção.

    Wildner Arcanjo

    20 de julho de 2013 às 14h29

    Quanto lucro as custas da miséria (e da morte) de inocentes… Essa é a raça humana!

    Filipe

    24 de abril de 2014 às 00h27

    Se fossem os Russos que tivessem invadido o Iraque e feito o que fez os EUA estariam hoje respondendo por crimes de guerra. Não defenda genocidas!

    RONALD

    24 de agosto de 2015 às 14h50

    Sadam era um ótimo fantoche americano, mas caiu em desgraça quando resolveu negociar o petróleo em outras moedas não-dólar; aí se lascou e virou terrorista, ditador, sanguinário, blá, blá, blá. Quando usou gás mostarda da OTAN contra os curdos e dizimou milhares de mulheres e crianças, aí era herói. idem para Mubarak, Kadafi e assemelhados.

Márcio Peres

15 de agosto de 2011 às 22h27

E então: Sattar sobreviveu?

Responder

janete

23 de novembro de 2010 às 15h14

É preciso que o mundo tenha a coragem de dizer que nao concordam com tudo que fazem os americanos,até hoje as tais armas de destruiçao em massa nao foram encontradas e milhares de inocentes morreram e o perigo de novos atentados ainda é real como a chuva, espero sinceramente que Sattar e sua familia tenham sobrevivdo. Parabéns Azenha por nos colocar a par dessa historia covarde do rico e forte contra o fraco que envengonha à muitos, infelizmente nao à todos.

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Ronise de Andrade

17 de março de 2010 às 17h42

Muito interessante o texto e serve pra confirmar o que sempre pensei: as pessoas comuns são perfeitamente capazes de fazer análises acertadas sobre momentos históricos em qualquer época.Não é necessários ser analista em política pra conhecer os abusos dos poderosos. Obrigada. Pra quem gosta de História esse texto é um pequeno presente!

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