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Dr. Rosinha: Ao contrário do que dizem as Damares da vida, o filme Lindinhas é um protesto contra a pedofilia. Assista!
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Dr. Rosinha: Ao contrário do que dizem as Damares da vida, o filme Lindinhas é um protesto contra a pedofilia. Assista!


17/09/2020 - 21h00

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Por Dr. Rosinha*

Maïmouna Doucouré é a diretora longa-metragem francês Mignonnes, que nos Estados Unidos recebeu o título de Cuties e no Brasil, de Lindinhas.

A cineasta está sendo acusada de sexualizar e sensualizar as protagonistas do filme– meninas de cerca de 11 anos de idade – e, com isso, estimular a pedofilia.

O filme conta a história de Yasmine ou Amy, interpretada pela atriz Fathia Youssouf.

Amy é uma garota senegalesa, educada segundo a tradição e os valores culturais, morais e religiosos mulçumanos.

Sua família acabou de se mudar para um conjunto residencial novo, na periferia de Paris, onde um quarto – o maior e melhor – está reservado para a segunda mulher do pai.

Quarto este que a garota e seu irmão estão proibidos de entrar.

Este segundo casamento do pai é um choque para Amy.

Apesar de contrariada, a mãe dela aceita a situação.

Amy, em silêncio, observa o sofrimento da mãe.

Só que, sem explicações aparentes, rebela-se “contra tudo e todos” que a cercam.

A rebelião consiste em afrontar os valores muçulmanos impostos pela família e satisfazer seus desejos de liberdade.

Liberdade, de acordo com a noção de uma criança de 11 anos, cujo exemplo de liberdade, para ela, é sua vizinha Angélica, vivida pela atriz Médina El Aidi-Azouni.

Angélica é líder de um grupo de dança de pré-adolescentes, cujas maiores liberdades consistem em dançar e locomover-se ‘livre’ dentro da escola e andar livremente pelas ruas.

Amy e Angélica estudam na mesma escola.

O grupo de dança é formado por garotas semiabandonadas que estão entrando na adolescência.

Semiabandonadas no sentido de terem:

— pouca ou nenhuma atenção familiar;

— livre acesso à internet (donde tiraram os movimentos e as “acrobacias” de dança para o grupo);

— educação formal precária.

A junção desses fatores leva-as a não terem visão crítica da sociedade.

Assim, mesmo que não saibam, assimilam valores exigidos pelos machistas e preconceituosos sobre a exigência de modelo de corpo, tanto que a mais ‘encorpada’ é substituída no grupo.

Entre a exigência da sociedade machista e de consumo – onde o corpo da mulher é mais um objeto – está a prematura sensualidade/sexualidade.

Semiabandonadas ou abandonadas são incapazes de olhar além do que lhes é exigido para buscar a fama: mostrar sensualidade.

É o que veem na internet e é isso que elas fazem.

São crianças que perdem – por exigência do modelo de sociedade – a infância precocemente.

O filme não passa a ideia que as meninas têm consciência de que a dança delas – com seu gestual e movimentos –  tenha o objetivo da conquista masculina.

Simplesmente repetem o que a sociedade – online – exige para a conquista da “fama”.

No caso, sequer transparece que o objetivo é ganhar algum prêmio em dinheiro para comprar bens materiais e/ou a exposição de seus corpos.

Pelos problemas familiares que vivem e  a relação infantil entre as meninas fica explícito que o desejo delas nada mais é do que serem reconhecidas nas redes sociais online.

Para muitas crianças e adolescentes, a vida — leia-se a fama — está no reconhecimento na internet: número de visualizações e curtidas, não importando o que façam,  exponham, mesmo que seja a foto do seu órgão sexual independentemente do contexto em que foi feita.

No caso, foi feita em protesto por ter que devolver o celular.

A sensualização/sexualização presente no filme é um protesto à sociedade atual.

É um protesto contra a exigência de as meninas, em tenra idade, se tornarem mocinhas em detrimento da infãncia.

O filme, ao contrário do que afirmam as Damares da vida, é um protesto à pedofilia.

Toda a “sexualidade” ou “sensualidade” de Amy desaparece na dança final.

O gesto de Amy de parar de dançar representa o choque entre uma criança, a sensualidade da “moça” e o público: Amy para, fica estática.

O grupo e o público não percebem. Pelo menos a câmara não mostra. O foco é todo nela.

Para. Não por rebeldia. É um ato de consciência, de tomada de uma decisão.

A sequência final do filme explicita a decisão: ela é uma criança.

Pula corda, salta, ‘voa’ e sorri. É uma menininha ainda. E crianças têm o direito de colocar a imaginação para voar.

O grupo de dança foi onde ela, temporariamente, pode negar sua solidão, preenchê-la e, ao mesmo tempo, rebelar-se contra a ausência do pai e as imposições da tradição muçulmana.

Mesmo que prévia, a conquista da sua liberdade: a não obrigatoriedade de assistir ao casamento do pai com a segunda mulher dele.

Ou seja, negar o segundo casamento e a segunda mulher fez dela a criança que pode voltar a sorrir e até a “voar”.

Após concluído este texto, encontro declarações da diretora Maïmouna Doucouré, que diz:

“A produção [o filme] é um espelho da sociedade e uma reflexão sobre a percepção que meninas têm de si mesmas e de sua feminilidade em uma sociedade que tanto sexualizam mulheres, especialmente nas redes sociais”.

“Este filme tenta mostrar que nossos filhos deveriam ter tempo para serem crianças, e nós, como adultos, devemos proteger sua inocência e mantê-los inocentes o máximo possível”.

Mignnones/ Cuties/Lindinhas, títulos dados respectivamente ao filme em francês, inglês e português, somados aos cartazes de divulgação (ilustrações 1 e 2, abaixo) passam uma ideia errônea da mensagem do filme.

Propositalmente, acrescento duas outras ilustrações do mesmo filme (abaixo) para mostrar como é possível passar outra ideia que não a da sexualidade, mas, sim, a do acolhimento (ilustração 3) ou a do medo de enfrentar a repressão da sociedade (ilustração 4), escondendo-se dentro de uma máquina de lavar roupa.

Muitos têm feito críticas, inclusive textos assinados, contra o filme e a Netflix sem sequer tê-lo assistido.

Para estas pessoas, Maïmouna Doucouré tem uma mensagem:

“É um filme premiado e uma história poderosa sobre a pressão que as meninas enfrentam nas redes sociais e da sociedade em geral – e nós encorajamos qualquer pessoa que se preocupa com essas questões importantes a assistir ao filme”.

Por este filme, Maïmouna Doucouré ganhou o prêmio de melhor direção no Festival Sundance de Cinema de 2020, que acontece nos Estados Unidos desde 1978.

Ficha técnica

Filme — Mignnones

Diretora –Maïmouna Doucouré

Elenco –Fathia Youssouf, Médina El Aidi-Azouni, Esther Gohourou, Ilanah Cami-Goursolas, Myriam Hamma, Maïmouna Gueye, Mbissine Thérèse Diop, Demba Diaw e Mamadou Samaké.

*Dr. Rosinha é médico pediatra, militante do PT. Pelo PT do Paraná, foi deputado estadual (1991-1998) e federal (1999-2017).  De maio de 2017 a dezembro de 2019, presidiu o PT-PR. De 2015 a 2017, ocupou o cargo de Alto Representante Geral do Mercosul. 



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2 comentários

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Virginia

18 de setembro de 2020 às 10h42

Como exigir destes indivíduos que fazem parte deste desgoverno alguma reflexão além do senso comum???!!!
Pérolas aos porcos.

Responder

a.ali

17 de setembro de 2020 às 23h42

damare sabe bem do que se trata mas tem de representar seu papel de idiota…

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