Luis Fernando Vitagliano: O método Janones

Tempo de leitura: 7 min
Janones na avenida Paulista após a vitória de Lula Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Contra a segmentação da direita, o método Janones venceu centralizando a atenção: coordenar postagens e hashtags para dominar o algoritmo, sem fake news, e sustentar o engajamento até o último minuto

Por Luis Fernando Vitagliano*, em A Terra é Redonda

1.

Imagine que as campanhas eleitorais possam ser comparadas com grandes festas infantis? Na primeira festa do turno, um enfezado animador das crianças jogando balas para cima de modo indiscriminado. Com poucas balas nas mãos, sem se importar com a atenção que as crianças lhe davam, jogava balas de ótima qualidade, mas em pouco volume e com ar de indiferença para as crianças.

Com outra estratégia, a família contrata uma estrutura profissional de animadores de festas. Cada animador estuda as crianças antes da festa, entrevista os pais, separa as balas de acordo com os gostos de cada um, com organização, divide os espaços de acordo com o perfil das crianças, oferece brinquedos, propõe jogos e desperta alegria. Obviamente a festa com os animadores vai ter muito mais engajamento que a festa sem orientação clara da distribuição de doces.

Agora imagina se você, percebendo que está tudo muito disperso e resolve que precisa animar o local. Para isso chama um animador profissional, com fantasia de homem aranha, que traz aquelas bexigas grandes, cheias de balas e começa a chamar as crianças, gritar para todo lado, convocando a cada momento que estoura as bexigas e caem inúmeras balas e aquela correria para pegar as balas no chão, e corre para outro lado, e todo mundo querendo participar.

Em primeiro lugar você vai esvaziar os animadores, tirar as crianças dos brinquedos e centralizar a festa em um evento comandado pelo seu animador homem aranha. A festa vai girar em torno dos seus comandos. Pois bem: o primeiro ato da festinha é a campanha digital de Lula no primeiro turno. Quando se distribuiu aleatoriamente conteúdo de pouco impacto sem segmentação.

O segundo ato é a campanha de Flávio Bolsonaro, que tinha ajuda externa para estudar o eleitor, criar estratégia de produção e distribuição de conteúdo e segmentar a campanha com muitos pontos de engajamento. E o terceiro ato é a entrada de André Janones na campanha. Como ele desbancou a estratégia da direita? Mesmo sem ter a mesma capacidade de segmentação e de distribuição de conteúdo, André Janones centralizou todas as ações em grandes momentos de ação coletiva.

2.

Cada balão estourado era uma forma de chamar a atenção de todos os pontos de rede para si. Tornou impossível a distribuição de conteúdo segmentado concorrer com o volume e a atenção que ele trouxe para si. Assim, considerando as crianças como a audiência organizada pelo algoritmo, André Janones driblou a estratégia da direita nas redes sociais.

Quando o deputado diz que sabe como funcionam os algoritmos, ele traduziu para ação popular dois dos eixos centrais da distribuição de conteúdo na internet, a atenção e a audiência. A chamada economia da atenção, ou seja, onde se está com atenção do público naquele momento e o segundo, a forma de criar audiência e impulsionar conteúdo.

A primeira dessa linha de ação, a atenção, foi fácil porque a atenção estava voltada a eleição. Não precisou de muito esforço para convocar os eleitores, ainda mais depois de um primeiro turno fracassado por parte das esquerdas. André Janones tem a linguagem, a estética e o senso de urgência que a internet precisa. Nas redes, os assuntos se intercalam e os perfis se dispersam, centralizar geralmente depende de um contexto específico, ele tinha a eleição e conseguiu com isso chamar a atenção para suas ações.

Apoie o VIOMUNDO

A segunda característica central do algoritmo tem a ver com a primeira. Melhor dizendo: identifica a intensidade a primeira. Os algoritmos são feitos para capturar e impulsionar a atenção. Consideram que quanto mais um assunto é replicado, mais desperta atenção no publico consumidor. Então, uma vez capturada a atenção, era importante mostrar ao algoritmo que esta atenção é grande.

Aí vem a estratégia da coordenação de postagens. Postar, curtir, compartilhar, comentar e republicar ganham, cada um, valor no algoritmo de qualquer rede. Se esses movimentos são coordenados, ganham ainda mais impulsionamento. Ou seja, se um vídeo é postado e em cinco minutos ele tem mil visualizações, o algoritmo entende que esse vídeo deve ir para mais pessoas e se o crescimento é exponencial, então ele é levado a muito mais pessoas.

André Janones entende que se faz uma postagem com “#” (Que quer dizer que é um assunto de busca), e essa postagem tem imediatamente replicação, o algoritmo alavanca toda e qualquer postagem (nova ou antiga) sobre esse assunto. Então se a postagem é #LulaNaPaulista – tudo relacionado a Lula na Paulista de agora ou de outros tempos vai tomar lugar na audiência das redes do que outros assuntos. Com isso, além de ganhar a atenção geral das redes, ele afasta toda e qualquer chance de outros assuntos tomarem a rede.

É importante entender que o algoritmo não distingue, e não quer distinguir gente elogiando de criticando. Algoritmo, como é desenhado pelas big techs hoje está interessado em audiência – se alimenta de polêmicas.

3.

Assim, quando nós retransmitimos debates e postagens da direita, mesmo criticando, comentando de modo pejorativo ou provocando, estamos impulsionado esse conteúdo para gente que ainda não o viu. E isso, em uma campanha que disputa pauta e audiência pode ser fatal.

De modo que, antes da entrada de André Janones, além de estarmos dando pouca audiência aos temas da campanha de Lula, trabalhávamos, de certa forma (ao comentar, retransmitir, criticar), em favor da campanha adversária.

Ou seja, André Janones colocou o algoritmo para trabalhar em favor da campanha de Lula com as ações coordenadas em rede. Por isso era importante “seguir a missão”. Postar no mesmo horário e comentar – porque o algoritmo mede o assunto, mas o quanto o assunto é importante com relação ao tempo em que ganha relevância.

Ao coordenar as ações com muita gente atuando em favor, com curtidas simultâneas e rapidamente defendendo um ou outro conteúdo, o efeito não foi apenas se sobrepor ao conteúdo da direita, foi impulsionar o conteúdo e fazer com que o algoritmo colocasse com relevante os temas propostos pela campanha, tirando de circulação conteúdo que não se relacionava com isso.

O teste de fogo de André Janones foi a live de 24h. Confesso que eu tinha duvidas sobre a estratégia no sentido de formar uma vigília virtual que pudesse o rápido crescimento da extrema direita na reta de chegada. No caso do Brasil, desde 2018 em que essa estratégia de audiência virtual faz parte da campanha da extrema direita, nos dois últimos dias, estima-se que a direita cresce 4% a 5%. O que quer dizer que, numa eleição tão apertada, não se podia permitir isso.

O que acontecia nas eleições analógicas é que as campanhas desmobilizavam na sexta feira, no sábado e deixavam as pessoas a mercê dos seus pensamentos nos dois dias anteriores as eleições. A campanha digital da extrema direita, porém manteve o engajamento disputou o voto até o ultimo minuto. Se for verdade que a maior parte das pessoas não tem certeza de quem vai votar em deputado e senador até a véspera das eleições.

Se apenas a extrema direita replica e torna visível seus candidatos às vésperas das eleições, eles conseguem um numero de votos nos últimos dias que surpreende. Não sabíamos ao certo o que acontecia na internet nesta virada, mas com a live de Janones, a manutenção das hashtags e a mobilização da vigília, o impulsionamento da campanha deles flopou (para usar um tempo atual), ou seja, não conseguiu deslanchar com impulso dos algoritmos. O que coroou o sucesso da estratégia.

André Janones não é um novato ou uma novidade na campanha das redes. Ele teve participação importante na campanha já de 2022. Por problemas próprios e bloqueios petistas, não teve papel relevante no governo, mas em 2023 escreveu um livro sobre as redes que pode ajudar a entender o por que.

Janonismo cultural, como ele defendeu, fala um pouco sobre sua campanha de 2022. O livro publicado em 2023 conta, por exemplo, como Lula o convenceu a abandonar sua própria candidatura a presidência e apoiar o petista. Discute, na sua visão à época, o uso de informações e fake news através da campanha digital e, de certa maneira, como os escândalos tem papel central nisso.

André Janones fala ainda que algumas dessas estratégias de atenção necessárias. Então, em um dos debates, que as coisas não iam bem, ele cria uma confusão com a campanha de Bolsonaro (pai) e vira o debate de ponta cabeça. Em suas estratégias pouco ortodoxas, André Janones chega a reconhecer que o uso de fake news é necessário para combater a extrema direita.

É uma espécie de tentativa de formar uma inteligência sobre a campanha da esquerda nas redes que não deu certo porque era como se usar a estratégia da direita “pelos motivos corretos”, que deveria ser adotada para se contrapor a extrema direita e que alguns limites devem ser ultrapassados. Foi à época uma afirmação controversa – em parte porque não se entendia muito bem das redes, em parte porque havia uma soberba eleitoral.

Assim que André Janones perdeu espaço com seus problemas do mandato de deputado no inicio de 2023 e é provável que voltou a ter espaço agora por conta do resultado catastrófico de primeiro turno, mas com uma versão revista e melhorada do seu janonismo cultural agora, em 2026.

É evidente que a visão de André Janones ganhou uma revisão e evoluiu. Conseguiu atuar dentro de limites éticos e se valeu de urgências. A primeira coisa que chama a atenção é que ele abre mão das fake news, investe na atenção e organiza as ações coordenadas para dominar o algoritmo. Funciona ao ponto em que consegue apoio e participação de praticamente 10 milhões de pessoas com o proposito de reeleger Lula, um tempo de ostracismo e revisão das estratégias permitiu ao deputado voltar melhor nesta campanha.

Ainda é difícil saber se a estratégia brasileira ou se o método Janones é replicável em outras campanhas eleitorais. É importante observar que os programadores dos algoritmos estão sempre sofisticando seus códigos para fugir de pessoas que conseguem controlá-los. Às big techs interessa manipular e não serem usadas. Portanto, temos hoje, com certeza, milhares de profissionais do Vale do Silício trabalhado nos seus códigos para derrubar o método Janones.

Da nossa parte, é importante lembrar que enquanto temos a ingênua ideia de que não estamos sendo manipulados, existem milhares de profissionais bem pagos, dedicando dez ou doze horas diárias, com PhD nas melhores universidades trabalhando para provar o contrário e ainda fazermo-nos acreditar que não. É uma batalha injusta e insana que só vai mudar quando tivermos capacidade de orientar o papel que a internet e as redes digitais têm nas nossas vidas.

*Luís Fernando Vitagliano é doutor em “Mudança social e participação política” pela EACH-USP. Autor, com Marcio Pochmann, do livro O atraso do futuro e o “homem cordial” (Hucitec). [https://amzn.to/3CRWcNw]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

Leia também

Fernando Nogueira da Costa: Apólogo III — O Millennial e a Esperança de Inclusão Social

Roberto Amaral: A vitória das urnas e a nova hegemonia

Reynaldo Aragon: Não se enganem, o Brasil já está sob cerco militar dos EUA

Apoie o VIOMUNDO


Siga-nos no


Comentários

Clique aqui para ler e comentar

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Leia também