Após uma manifestação massiva, na Avenida Paulista, em favor da reeleição de Lula como presidente do Brasil, felicíssimo por reencontrar ex-alunos de diversas gerações em sua carreira de 41 anos como docente e pesquisador do IE-UNICAMP, o professor da Geração 68 (com 75 anos) os convida para tomar caipirinhas por sua conta em mesa na calçada do Bar Prainha Paulista.
Resultado: Uma conversa entre cinco gerações com muitas caipirinhas, uma democracia ainda em construção e cinco apólogos, um publicado por dia, a partir de hoje. No primeiro, troca ideias sobre os estereótipos associados às gerações 1945-2010 e relembra os fatos marcantes de sua vida política e cultural anteriores a 1985, para seus ex-alunos.
Por Fernando Nogueira da Costa*
A Avenida Paulista estava tomada por uma multidão vestida de vermelho, empunhando bandeiras brasileiras e cartazes em defesa da democracia e da reeleição de Lula. Entre palavras de ordem, lemas e comunhão pelo pertencimento à comunidade democrata, um professor com 75 anos descobriu uma das maiores alegrias de sua longa carreira: reencontrar ex-alunos de diferentes gerações.
Depois de 41 anos como docente e pesquisador do Instituto de Economia da Unicamp, já não conseguia se lembrar de cada nome, diante de antigos estudantes, colegas de profissão ou companheiros de manifestação.
— Professor! O senhor continua nas ruas?!
— Continuo! Só mudei o ritmo das caminhadas. Antes corria da polícia. Hoje procuro logo uma cadeira para descansar!
A gargalhada foi geral. Animado com o reencontro, convidou três ex-alunos, representantes das gerações X, Y e Z, para uma mesa na calçada do Bar Prainha Paulista.
— Hoje, as caipirinhas são por minha conta! Afinal, vocês já pagaram caro demais pelas minhas aulas de Finanças Comportamentais e Economia da Complexidade!
— Mas a Unicamp é pública, professor! — lembrou o mais jovem.
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— Justamente! Pagaram com impostos, noites de estudo e, sobretudo, paciência para ouvir minhas críticas aos economistas ortodoxos!
Sentaram-se. O garçom trouxe a primeira rodada.
E relembraram o tipo de aula dada por ele: sem quadro-negro nem PowerPoint, sem provas e com pleno direito a interrupções para debater.
Apólogo I — Septuagenário Revolucionário e Jovens Estereotipados
Da Guerra Fria às Diretas Já (Antes de 1985)
O professor ergueu seu copo.
— Um brinde à despedida da Geração 68!
— Professor, o senhor não é um baby boomer? — provocou o ex-aluno da Geração Z.
— Sou, mas prefiro me apresentar como da Geração 68. Baby boomer parece nome de aposentado americano jogando golfe na Flórida. Geração 68 lembra juventude rebelde, contestação em costumes e transformação cultural!
O representante da Geração X interveio:
— Dizem a sua geração ser conservadora por ser resistente à tecnologia e apegada ao patrimônio.
— Pois é… Uma geração capaz de desafiar governos, enfrentar ditadura, revolucionar costumes e inventar boa parte da contracultura agora é acusada de não saber usar WhatsApp. Será possível?!
— Mas o senhor sabe? — perguntou o jovem Z.
— Sei! Inclusive utilizo Inteligência Artificial para escrever. A diferença é não a confundir com sabedoria natural! Eu não pego nada pronto nela, mas sim dou as instruções para ela desenvolver rapidamente minhas ideias humanas.
O Millennial, da Geração Y, entrou na autocrítica:
— A minha geração é chamada de preguiçosa, ansiosa e mimada.
— Curioso… — comentou o professor. — Vocês estudaram mais, enfrentaram crises econômicas e descobriram que o diploma universitário não garante emprego estável. Onde está a preguiça?
— E de nós, da Geração X, dizem sermos individualistas e cínicos — reclamou o outro.
— Imagine, justamente vocês… É uma injustiça com quem aprendeu a sobreviver à hiperinflação, às demissões e às mudanças tecnológicas!
O Z completou:
— E nos criticam de sermos viciados em telas!
— De fato, parecem ser, mas querem também estabilidade econômica, respeito no trabalho e tempo para viver. Nada disso é absurdo.
O professor concluiu:
— Os estereótipos geracionais são ótimos para vender produtos e péssimos para compreender pessoas. Classe social, educação, cultura e experiências históricas explicam muito mais diante do ano de nascimento.
Depois de uma pausa, olhou para a avenida.
— Minha geração nasceu depois da Segunda Guerra Mundial. Crescemos sob a ameaça de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética. Vimos a crise dos mísseis de Cuba, a chegada do homem à Lua e os protestos contra a Guerra do Vietnã.
— E Woodstock? — perguntou o Millennial.
— Ah, adorei o Woodstock! A juventude descobriu como lutar contra a guerra fazendo amor livre e ouvindo músicas de protesto. Infelizmente, os governantes sem o controle democrático continuaram preferindo fazer guerra!
O professor prosseguiu:
— Em 1968, estudantes franceses ocuparam as ruas de Paris. Na Tchecoslováquia, tanques soviéticos esmagaram a tentativa de construir um socialismo com liberdade. Nos Estados Unidos, Martin Luther King foi assassinado. O feminismo, a revolução sexual e os movimentos pelos direitos civis transformavam o mundo.
— E no Brasil? — perguntou o Z.
O sorriso do professor desapareceu por alguns instantes.
— Aqui vivíamos uma ditadura militar desde 1964. Em 1968, a polícia matou o estudante Edson Luís. Houve a Passeata dos Cem Mil, prisões no Congresso da UNE em Ibiúna e, em dezembro, o AI-5. A censura e a tortura tornaram-se instrumentos ainda mais usados na repressão militar.
— Como vocês resistiam sem internet?
— Com panfletos mimeografados, reuniões clandestinas, leituras marxistas, imprensa alternativa, movimento estudantil e música. Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil… A MPB era nossa rede social!
— E o algoritmo? — perguntou o jovem.
— Chamava-se censura. Os jornalões só publicavam o permitido pelo governo!
Todos deram um sorriso incrédulo diante do absurdo, mas o professor continuou sério.
— Em 1970, o Brasil ganhou a Copa do Mundo, enquanto a ditadura intensificava a repressão. O chamado “milagre econômico” convivia com concentração de renda e ausência de liberdades políticas.
— Futebol e política sempre misturados… — comentou o X.
— Exatamente. O ditador de plantão tentou faturar o feito. Mas, ao contrário de hoje, não havia liberdade para criticar o governo em praça pública.
O professor recordou a retomada das manifestações estudantis em 1977, a invasão da PUC-SP pelas forças comandadas pelo coronel Erasmo Dias e a reação de Dom Paulo Evaristo Arns.
— Aquela invasão demonstrou a repressão ter produzido o contrário do pretendido: em vez de intimidar, ampliou a solidariedade entre estudantes, professores, juristas, artistas e setores progressistas da Igreja católica.
— Um efeito emergente de interações sociais! — observou o Millennial.
— Alguma coisa vocês aprenderam nas minhas aulas…
Prosseguiu contando sobre a reorganização da UNE, a luta pela anistia, as greves operárias do ABC e a formação do Partido dos Trabalhadores.
— O PT representou uma inovação política: trabalhadores organizados, sindicalistas, intelectuais, movimentos populares e comunidades de base buscaram, em um movimento social basista, construir seu próprio instrumento de representação.
Tem impacto político até hoje.
— E as Diretas Já? — perguntou o X.
O professor levantou o copo.
— Ah, 1984! Multidões nas ruas exigindo o direito de escolher diretamente o presidente. A emenda não passou, mas a mobilização ajudou a encerrar a ditadura.
O Z perguntou:
— Professor, vocês venceram?
— Vencemos uma batalha histórica. Mas democracia não é campeonato de futebol. Não existe taça definitiva entregue ao vencedor. Tem de lutar sempre por ela.
Moral da estória: Uma geração não se define pelos estereótipos atribuídos a ela, mas pelas circunstâncias históricas enfrentadas e pelas escolhas feitas. A liberdade conquistada por uma geração não está automaticamente garantida para as seguintes.
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Amanhã, 30/10, o Apólogo II: O Pragmático da Geração X e a Democracia Restabelecida
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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