Estudantes de Medicina alertam sobre ameaças do bolsonarismo aos Hospitais Universitários: ‘Defenda o seu HU. Sem ele, você não se forma’
Tempo de leitura: 7 min
Por Conceição Lemes
DENEM é a entidade máxima de represesentação dos estudantes de medicina no Brasil.
A sigla significa Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina.
Por estatuto, todos os Centros e Diretórios Acadêmicos (CAs e DAs) integram-na.
Nesta terça-feira, 19/10, a DENEM e mais 27 CAs e DAs lançaram manifesto (na íntegra, mais abaixo) em defesa da Educação Pública e dos Hospitais Universitários (HUs).
O documento é um alerta à sociedade em geral.
Ele termina com apelo aos estudantes de medicina: ”Defenda o seu HU! Sem ele, você não se forma. Pense nisso”.
Entrevistei George Caetano, coordenador de educação e políticas de saúde da DENEM. Ele cursa medicina na Universidade de Brasília (UnB).
Viomundo — Por que o manifesto em defesa dos HUs?
George Caetano — A DENEM foi fundada em 2 de agosto de 1986. Há 40 anos, portanto, lutamos por uma educação médica referenciada pelas necessidades do povo e não do mercado. Entendemos que os Hospitais Universitários (HUs) das Universidades Federais são estratégicos nessa luta. Eles são, em muitos casos, a única garantia de aprendizagem prática para os futuros médicos dessas universidades.
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A ascensão de Flávio Bolsonaro é um risco real aos HUs, pois ele promete atacar o financiamento das Universidades e entregar o SUS nas mãos dos interesses do mercado, que não tem interesse algum em tratar e cuidar do nosso povo.
Tanto que, desde janeiro, estamos articulando com os estudantes de medicina para defender os HUs, garantir que eles sirvam às necessidades da população e não sejam destruídos pela insanidade do bolsonarismo.
Viomundo — Sem os HUs o que acontece?
George Caetano — Sem os HUs vamos perder pesquisas importantíssimas, perderemos cenários de formação e prática e o ensino público será triplamente sucateado. É sem pudor o plano nefasto que Flávio Bolsonaro quer executar no Brasil.
Viomundo — E a formação médica como fica?
George Caetano — Sem HU não existe formação médica de qualidade nas Universidades Federais. Já vimos o quão perverso foi o desgoverno de Jair Bolsonaro, cujo filho, agora, quer dar continuidade. Não acreditam na ciência, não entendem absolutamente nada das necessidades reais do povo, querem acabar com as políticas sociais, e jogar o povo à própria sorte.
Viomundo — Neste momento, o que vocês pretendem?
George Caetano — A missão da nossa geração é acabar com o bolsonarismo, defender a democracia e lutar para não perdermos nenhum direito conquistado.
Viomundo — E os HUs?
George Caetano — Cabe aos estudantes, trabalhadores e usuários dos HUs defender o que já temos e lutar por melhorias, mas isso somente será possível com Lula eleito dia 25. Sem Lula, não teremos Universidade ou HU para defender. Nossa gente morrerá e teremos novamente um genocida zombando da dor e sofrimento alheio.
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MANIFESTO EM DEFESA DA EDUCAÇÃO PÚBLICA E DOS HOSPITAIS UNIVERSITÁRIOS
Defender os Hospitais Universitários (HUs) é escolher entre dois projetos de Brasil. De um lado, saúde, educação e ciência como direitos; do outro lado, o Tesouraço bolsonarista, com o corte de ministérios, a redução do Estado, a extinção de políticas sociais apresentados como solução mágica, sem qualquer explicação dos impactos reais.
Quando a tesoura mágica desce sobre o serviço público, ela sai cortando as consultas, bolsas, concursos, pesquisas, residências e oportunidades de formação. Os HUs são estruturas estratégicas do SUS e da Universidade Pública, nas quais o Brasil cuida de sua população, forma profissionais e produz conhecimento, com assistência médica e multiprofissional.
A Constituição Federal de 1988 define a saúde como direito de todos e dever do Estado, protege a autonomia universitária e determina a integração entre ensino, pesquisa e extensão. A legislação dos HUs exige assistência gratuita, integrada ao SUS, e apoio à formação e à pesquisa em saúde.
Portanto, os HUs não são favor, máquinas de diplomas ou balcões de procedimentos. São patrimônio do povo e frutos de uma disputa constante por ensino e saúde públicos. Enfraquecê-los significa atingir, de uma só vez, pacientes, estudantes, residentes, trabalhadores, pesquisadores e comunidades inteiras.
É nesses hospitais que o estudante encontra o Brasil real: a doença agravada pela pobreza, pelo racismo, pela desigualdade territorial, pela violência e pelo trabalho precário.
A integração entre assistência, ensino e pesquisa como fundamento dos HUs mostra que a articulação entre universidade, serviço e comunidade qualifica a formação e o cuidado.
E o bolsonarismo quer destruir essa articulação para implantar uma lógica mercantilista, para atender única e exclusivamente ao mercado, que pensa somente em si mesmo, nos seus lucros e metas.
O Tesouraço bolsonarista tenta esconder essa ameaça atrás de palavras bonitas e romantizadas para a Saúde: “Brasil sem Fila”, “hospitais inteligentes”, inteligência artificial, telessaúde e prontuário eletrônico.
São propostas sem planos de execução, já que nenhuma máquina opera um paciente, nenhuma tela substitui uma equipe profissional qualificada, e nenhum prontuário fabrica leitos.
Sem financiamento, trabalhadores e infraestrutura, o tal “hospital inteligente” que o bolsonarismo promete vira apenas mais um prédio conectado à internet. E o “Brasil sem Fila” pode acabar como um Brasil com a fila digitalizada: mais moderna na tela, igualmente dolorosa na vida real.
O perigo aumenta quando a solução oferecida é comprar consultas e exames nos horários livres da rede privada. A saúde particular pode responder a emergências, mas não pode substituir o SUS que é gratuito.
O Estado não pode comprar continuamente a capacidade técnica e científica, transferir recursos, experiência e tecnologia ao mercado e condenar o SUS à dependência dos grandes conglomerados privados da Saúde.
Contratar o aparelho privado ocioso não resolve a falta de estrutura do SUS; em contraponto, investir nos HUs cria atendimento, formação, pesquisa e soberania por gerações. Como promoveremos controle e participação social de um serviço privado?
No meio disso tudo, o bolsonarismo quer retirar as Universidades Federais do Ministério da Educação e transferir sua governança ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, aproximando-as da falácia do financiamento, aproximando pós-graduação e pesquisa ao “impacto produtivo”, à transferência tecnológica e ao “emprego que existe”.
Não é uma simples troca de endereço na Esplanada dos Ministérios. É uma mudança de orientação, tática e estratégia orçamentária. As Universidades correm o risco de serem afastadas de sua missão educacional ampla e empurradas para o papel de departamento de treinamento de mão de obra sucateada e explorada.
A universidade deve dialogar com empresas e contribuir para o desenvolvimento nacional, de forma sustentável e responsável com as necessidades do povo, não com a relevância e o preço tabelado que o mercado queira dar.
Quem pesquisará doenças negligenciadas, saúde indígena, racismo institucional, mortalidade materna, sofrimento mental ou desigualdades territoriais quando o critério dominante for retorno produtivo imediato?
Ciência pública existe para enfrentar aquilo que não oferece lucro, mas tritura a vida do povo! Formar apenas para o “emprego que existe” é condenar o Brasil a obedecer ao presente, quando a missão da universidade é criar o futuro.
A quem interessa que o povo brasileiro fique refém da servidão?
O bolsonarismo está mentindo deliberadamente para o povo brasileiro: como vão fortalecer o SUS se ameaçam as condições que permitem fazê-lo funcionar? O mercado da Saúde não quer ninguém saudável, pois ele lucra com a doença!
“Mais Brasil, Menos Brasília” também precisa ser traduzido. Descentralizar responsabilidades sem assegurar financiamento transformará a autonomia local em abandono federal. O Brasil precisa de menos desigualdade, não de menos Estado justamente onde a população mais necessita dele. É a terceirização do caos que o entreguismo bolsonarista gerará no Brasil.
A alternativa democrática e popular segue direção oposta. O programa de Lula propõe fortalecer o SUS público e universal, expandir e interiorizar as Universidades, recuperar seu financiamento e ampliar os HUs articulados à atenção especializada.
E isso não é uma esperança vaga. Esperançar não é esperar. É organizar a força social para converter compromisso em orçamento, obra concluída, equipamento funcionando, concurso, bolsa, pesquisa, assistência estudantil e participação popular. Temos aí uma única chance real de proteger os nossos HUs, de combater a mercantilização da Vida!
É preciso democratizar a gestão, valorizar trabalhadores e preceptores, integrar assistência, ensino, pesquisa e extensão e assegurar a voz de estudantes e usuários. Um hospital público só é excelente quando tecnologia e ciência caminham com equidade, dignidade e controle social.
É hora de lutar nos corredores dos HUs, nas salas de aula, nos sindicatos, nos conselhos de saúde e nos territórios.
Cada Universidade precisa formar comitês em defesa de seu HU; cada curso da saúde deve explicar o que o Tesouraço ameaça; cada HU deve mostrar à sociedade o patrimônio que sustenta.
A propaganda mais contundente será a verdade organizada: querem destruir o SUS com planos mágicos, sem pé e nem cabeça!
Queremos um governo que garanta investimento no SUS. Contra a fila digitalizada, queremos a capacidade pública de garantir o direito à Saúde. Contra a Universidade submetida ao mercado, lutaremos por um governo que garanta autonomia para uma ciência crítica! Contra a ciência medida pelo lucro, queremos a pesquisa comprometida com a Vida. Nenhum hospital inteligente sobrevive a uma política insensata, tola e feita por quem não conhece a vida real do povo brasileiro. Nenhum “Brasil sem Fila” nascerá de um SUS que corre o risco de ser enfraquecido e sucateado.
Com Lula, é preciso avançar, cobrar e fazer valer o direito à saúde. Cobrar sempre por maior autonomia universitária, articulação do ensino-serviço, participação popular e controle social efetivo.
Defenda o seu HU! Sem ele você não se forma. Pense nisso.
Brasil, 19 de outubro de 2026.
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