Nas ruas, a alegria de participar da democracia. No debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, provocações e arrogância na tentativa de esconder fragilidades, fugir de perguntas e evitar explicações sobre questões ainda mais graves.
Por Carlos Fidelis Ponte*
Escrevo ainda sob o impacto de um domingo extraordinário e perturbador. Pela manhã, na Candelária, e à tarde, em Copacabana, vivi a experiência emocionante de uma democracia alegre, criativa e vibrante. À noite, diante da televisão, a emoção deu lugar à indignação com o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Nas ruas, multidões ocupavam os espaços públicos com música, bandeiras, fantasias e disposição para participar dos rumos do país. Na televisão, o confronto que deveria esclarecer propostas e permitir o julgamento dos candidatos parecia submetido à lógica das provocações, acusações e frases destinadas a repercutir nas redes sociais.
Em poucas horas, experimentei duas faces da política brasileira: a alegria de construir coletivamente a democracia e o risco de vê-la empobrecida pela transformação do debate em espetáculo.
O que me inquietou não foi a dureza do embate, indispensável à democracia, mas a tentativa de substituir o confronto de ideias por cenas destinadas a mobilizar apoiadores e constranger adversários.
Flávio teve, na minha avaliação, responsabilidade central por esse esvaziamento. Reconheci ali a estratégia examinada no artigo O cinismo à beira do poder: um cara de pau na Presidência da República?.
A lacração, convertida em método político, altera a finalidade do debate: em vez de responder, procura-se desviar a atenção e produzir a impressão de vitória. A provocação pode conferir aparência de coragem à ausência de argumentos, enquanto as perguntas incômodas correm o risco de desaparecer sob o ruído.
Mas quem observa criticamente pode perceber, por trás da arrogância, justamente aquilo que o candidato procura evitar.
As trajetórias dos candidatos ajudam a compreender o contraste. Lula não herdou uma base eleitoral nem chegou à vida pública amparado por uma família influente. Construiu sua liderança no movimento operário do ABC paulista, durante a ditadura militar, quando organizar trabalhadores, enfrentar empresários e desafiar o regime exigia coragem e capacidade de negociação. Liderou greves, enfrentou a repressão, foi preso e aprendeu a fazer política nas assembleias e na construção de organizações coletivas. Essa experiência não o torna imune a erros, mas ajuda a compreender sua familiaridade com conflitos, negociações e argumentos públicos.
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Flávio Bolsonaro ingressou na política apoiado no sobrenome e na base eleitoral do pai, cuja projeção inicial esteve associada a reivindicações corporativas militares e à defesa de políticas repressivas de segurança pública.
Sua formação ocorreu no interior de uma estrutura familiar que, com a ascensão do bolsonarismo, passou a ocupar o centro da política brasileira. Esse movimento incorporou uma linguagem de confrontação permanente, desqualificação dos adversários e transformação das divergências em batalhas morais, influenciada também por personagens como Olavo de Carvalho. São experiências de formação profundamente distintas, que ajudam a compreender as diferentes maneiras de enfrentar o contraditório.
A desproporção entre essas trajetórias ganha importância na conjuntura mundial, marcada por guerras, disputas geopolíticas, ameaças à soberania, instabilidade econômica e emergência climática.
Lula reúne décadas de experiência, sucessivos mandatos presidenciais e reconhecimento internacional por sua capacidade de negociação. Flávio construiu sua carreira no Legislativo, sem experiência na condução do Poder Executivo. O Brasil precisa de conhecimento dos problemas nacionais, capacidade de decisão e habilidade para enfrentar crises. Não podemos confundir a disposição para provocar adversários com preparo para governar.
Nas entrevistas e sabatinas que acompanhei, Lula me pareceu geralmente espontâneo, seguro e familiarizado com questões difíceis. Nem todas as respostas foram satisfatórias, mas reconheço nele a experiência de quem passou décadas debatendo assuntos públicos com interlocutores de diferentes orientações.
Em Flávio, observei interrupções, tentativas de falar simultaneamente aos entrevistadores, reações agressivas a cobranças e questionamentos à legitimidade de jornalistas. Frequentemente, parecia mais interessado em desacreditar quem perguntava do que em esclarecer os fatos. A firmeza no confronto político não deve ser confundida com a arrogância de quem transforma uma pergunta inconveniente em ofensa pessoal.
No debate, Flávio recorreu desde o início a acusações contra Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente. Lula enfrentou numerosas investigações e disputas judiciais, enquanto seu filho também foi alvo de apurações, algumas ainda em andamento. Nada disso dispensa esclarecimentos ou autoriza condenações antecipadas.
O mesmo princípio deve valer para Flávio, cuja trajetória e relações políticas também suscitam questionamentos. Seu pai, quando presidente, foi acusado de tentar interferir na Polícia Federal para proteger familiares, episódio que motivou as denúncias de Sergio Moro em 2020. Cobrar explicações dos adversários sem demonstrar igual disposição para o escrutínio público é o que identifico como cinismo político — ou, em linguagem direta, cara de pau.
Um dos momentos mais reveladores da noite ocorreu quando Lula desafiou Flávio a abrir, juntamente com ele, seus sigilos bancários e telefônicos. Era uma proposta objetiva, que poderia ser aceita ou recusada mediante explicações.
Flávio não assumiu expressamente o compromisso e preferiu novas acusações, ironias e sorrisos. A questão da transparência ficou sem resposta direta.
Somadas às atitudes que observei em outras entrevistas, essas evasivas alimentam minha desconfiança sobre o que está disposto a revelar de sua trajetória, de suas relações, de suas intenções políticas e de seu programa de governo.
Reconheci a mesma atitude quando Flávio foi questionado sobre o possível financiamento, por Daniel Vorcaro, de um filme sobre Jair Bolsonaro. Em vez de esclarecer a questão, confrontou o jornalista, acusando-o de mentir e de agir como militante. Foi explícito: “Isso é mentira. Onde você viu isso? Você é militante.”
A informação sobre o financiamento precisava ser comprovada, mas uma pergunta não perde legitimidade por desagradar ao entrevistado. Quem considera falsa uma acusação pode contestá-la e apresentar documentos. Desqualificar o jornalista não substitui o esclarecimento. O questionado procura transformar-se em acusador, enquanto a pergunta original desaparece.
Também me chamou a atenção a movimentação de Flávio no estúdio, procurando aparecer no enquadramento das câmeras enquanto Lula falava. Achei a cena constrangedora, um comportamento de moleque, incompatível com a seriedade de quem disputa a Presidência.
Minha companheira, entretanto, percebeu algo que me escapara: a expressão de desdém de Flávio, um olhar de desprezo que parecia diminuir o interlocutor sem enfrentar seus argumentos. Sua observação me fez reconhecer como minha formação machista pode ter limitado minha percepção.
Mulheres que enfrentam cotidianamente atitudes de superioridade e desqualificação podem desenvolver uma atenção especial a gestos que muitos homens sequer percebem ou aprenderam a naturalizar. Não afirmo que aquela expressão, isoladamente, caracterize misoginia, mas reconheço nela um repertório de desrespeito que também alimenta relações machistas.
Na política televisionada, esses gestos procuram produzir uma impressão de domínio, mesmo quando nada acrescentam ao debate. Um sorriso irônico, um olhar de desprezo ou a disputa pelo enquadramento estabelecem uma hierarquia simbólica: um participante se apresenta como superior, enquanto o outro é tratado como alguém que não merece ser levado a sério.
No caso em questão, essa encenação procura inverter a relação entre experiência política e comportamento diante das perguntas: o reconhecimento público de Lula contrasta com os questionamentos dirigidos a Flávio e com as respostas que, na minha avaliação, permaneceram insatisfatórias. A imagem tenta se sobrepor ao argumento, como se a arrogância pudesse substituir a autoridade construída na vida pública.
Essa estratégia encontra condições favoráveis na comunicação contemporânea. O debate televisivo é apenas a primeira etapa de uma disputa que continua nos celulares. Gestos, expressões e frases agressivas circulam separados das perguntas que lhes deram origem. O fragmento ganha autonomia e funciona como instrumento diversionista: desloca a atenção do público, substitui o exame dos fatos pela repercussão das provocações e faz desaparecer aquilo que o candidato não quis responder. Como examinei em O que não estamos vendo?, a segmentação algorítmica e a organização política nas redes interferem no alcance e no contexto das informações.
Uma acusação repetida pode adquirir familiaridade e parecer verdadeira, enquanto a ausência de resposta desaparece do campo de visão. A segurança da voz não garante a verdade, assim como a indignação não comprova uma injustiça.
Essa lógica também aparece na promessa de Flávio de oferecer à população atendimento com o chamado “padrão Einstein”. Fiquei com a impressão de um candidato que desconhece profundamente o SUS e se comporta como vendedor de planos de saúde, anunciando excelência sem explicar como pretende alcançá-la. Para quem conhece a história da Reforma Sanitária brasileira, a promessa soa como uma sedução barata, que substitui o conhecimento do sistema por uma peça de propaganda.
O SUS não é uma rede de hospitais de luxo, mas um sistema universal que articula atenção primária, vacinação, prevenção, vigilância sanitária e epidemiológica, assistência especializada e outras ações fundamentais à proteção da população. Sua qualidade depende de financiamento adequado, integralidade do cuidado e redução das desigualdades. Exige também o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), estratégico para a produção nacional de medicamentos, vacinas e tecnologias e para a soberania sanitária. Como conciliar essas responsabilidades com a profunda redução dos gastos públicos defendida pelo candidato?
Precisamos, portanto, aprender a olhar para a construção da cena. Quando um candidato gesticula indignado, que pergunta deixou de responder? Quando uma acusação domina a transmissão, quais fatos a sustentam? Quando um recorte viraliza, o que ficou de fora?
Durante o debate, Lula acusou Flávio de ter sido treinado para aquela apresentação e convidou os telespectadores a observar seus olhos, afirmando que perceberiam quando estivesse mentindo. Mais do que denunciar uma encenação, chamou a atenção para o desrespeito ao eleitor que existe na tentativa de substituir respostas por provocações e gestos calculados para as redes sociais.
Quem acompanha um debate presidencial tem o direito de conhecer propostas, avaliar argumentos e exigir explicações, não de ser tratado como plateia de um espetáculo ensaiado. Para distinguir a encenação da realidade, precisamos recuperar as perguntas, examinar as respostas e confrontar as afirmações com os fatos.
Não me interessa uma democracia de candidatos domesticados, debates mornos ou divergências escondidas sob uma cordialidade artificial. Quero confrontos vigorosos, perguntas difíceis, acusações investigadas e respostas submetidas ao escrutínio público.
O que me preocupa é nos acostumarmos a uma política em que a evasão seja celebrada como esperteza, a arrogância como firmeza e a provocação como autoridade. Nesse ambiente, representar um personagem pode adquirir mais importância do que enfrentar conflitos reais e assumir responsabilidades.
A Presidência da República não é um papel numa encenação, e o povo brasileiro não pode ser reduzido à condição de plateia.
As multidões que encontrei na Candelária e em Copacabana me lembraram que a democracia é feita por cidadãos que participam, discutem, questionam e querem decidir os rumos do país. É a eles que os candidatos devem explicações.
Quem pretende governar precisa saber ouvir, justificar suas escolhas, enfrentar o contraditório e responder pelos próprios atos, em vez de se comportar como um animador de auditório de gosto bastante discutível.
Quando a mentira, a arrogância e o cinismo passam a ser celebrados como demonstrações de força, corremos o risco de abrir as portas do inferno para a democracia, permitindo que o desprezo pela verdade e pelas instituições se converta em método de governo.
Quando as câmeras se apagam e os aplausos terminam, o que importa não é a expressão ensaiada, o sorriso irônico ou a provocação que viralizou, mas aquilo que cada candidato foi capaz de explicar — e, sobretudo, aquilo que preferiu não responder ou procurou esconder.
É possível confiar o destino do país a alguém que se comporta dessa maneira? No próximo domingo, veremos o quanto estamos conscientes dos riscos que corremos. Definitivamente não precisamos de picaretas.
*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde(Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz




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