Jeferson Miola: André Mendonça deve explicações sobre áudio gravado pelo Vorcaro para a Veja
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Por Jeferson Miola, em seu blog
O áudio de Daniel Vorcaro divulgado pela Veja na edição de 10 de outubro é verídico.
A peça foi efetivamente gravada pelo banqueiro mafioso inventando repasses financeiros ao Instituto Lula para o documentário do cineasta Oliver Stone sobre a trajetória do Lula.
O conteúdo, no entanto, é absolutamente falso, porque Vorcaro não repassou um centavo de dinheiro ao Instituto Lula ou ao Stone. O áudio foi gravado por Vorcaro sob encomenda para ser usado pela campanha miliciana vinculando falsamente Lula ao escândalo Master.
A Polícia Federal afirmou, em nota, “que Daniel Vorcaro não prestou depoimento com o teor relatado na matéria, tampouco entregou à instituição anexos, documentos ou informações com o conteúdo ali descrito”.
A Procuradoria-Geral da República informou “que os termos usados no material não coincidiam com os relatos apresentados pela defesa” – ou seja, foram inventados.
Em nota assinada pelos advogados Sérgio Leonardo e Engels Augusto Muniz, a defesa de Vorcaro “não confirma o conteúdo de qualquer material divulgado, cuja origem, autenticidade e integridade não são reconhecidas”.
Está bem caracterizado, portanto, que o material não existe nos depoimentos prestados pelo mafioso à justiça, nem nas provas armazenadas nos celulares e dispositivos eletrônicos dele.
O áudio foi gravado ilegalmente por Vorcaro na prisão; é uma peça farsesca produzida com ele preso.
Isso não seria possível sem a cumplicidade de alguém responsável pela custódia do réu: ou dos agentes penitenciários da Papuda, que é gerida pelo governo bolsonarista do DF; ou os agentes bolsonaristas da PF. Algum funcionário pode ter realizado diretamente tal gravação, ou, então, permitido que algum advogado de defesa a fizesse.
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Não se pode descartar, também, o envolvimento, em algum nível, do gabinete do ministro do STF André Mendonça na produção da farsa.
Enquanto foi relator do caso e responsável pela supervisão da investigação, Mendonça atuou com mão-de-ferro, exercendo o controle absoluto sobre a equipe policial, sobre as provas dos equipamentos do Vorcaro, sobre o que seria e o que não seria apurado, e sobre o que seria vazado para certos setores da mídia.
Hoje está documentalmente comprovado que Mendonça protegeu Flávio Bolsonaro e demais bolsonaristas envolvidos no esquema de corrupção e direcionou a investigação para alvos que poderiam causar danos à campanha do Lula, como o ministro Alexandre de Moraes.
No dia 27 de agosto – quatro dias antes da implosão do STF por Mendonça com as denúncias contra Moraes– aconteceu algo no mínimo intrigante, para não dizer suspeito, e que pode ter relação com a montagem da farsa.
Naquele dia, a PF foi obrigada a cancelar o depoimento no qual Vorcaro seria ouvido sobre a relação dele com funcionários do Banco Central suspeitos de colaborarem com ele.
O cancelamento se deveu à alegação de falhas e queda no sinal de internet na carceragem da Papuda – vale lembrar, o complexo penitenciário administrado pelo governo bolsonarista do DF.
Curiosamente, entretanto, naquele mesmo dia o gabinete de André Mendonça realizou uma audiência com Vorcaro via internet e em caráter de urgência, sob o pretexto de que o banqueiro teria pedido para relatar supostas ameaças e intimidações que, ao fim, não se confirmaram, pois presumivelmente não passavam de falsas alegações para dar cobertura formal à audiência realizada de última hora.
Apesar de ter sido afastado da relatoria do caso Master, André Mendonça deve explicações sobre as circunstâncias da gravação do áudio de Daniel Vorcaro, pois o episódio aconteceu quando ele ainda era o relator e tinha responsabilidades totais sobre a investigação.
Ninguém concentrou tanto poder e controle sobre esse escândalo genuinamente bolsonarista como o ministro André Mendonça.
É muito difícil, por isso, se imaginar que ele não tivesse conhecimento sobre a produção desta peça falsa para prejudicar Lula.
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