Entre o fascínio pelo extremismo e a apatia das bolhas digitais, o revés de lideranças progressistas expõe o preço altíssimo que a sociedade paga ao renunciar ao pensamento próprio
Por Sandra Bitencourt*, em A Terra é Redonda
1.
“O pior mal é aquele que não é reconhecido como mal”. Essa frase comunica que a ignorância diante do mal, ou a incapacidade de identificá-lo, impede a resistência e a ação moral necessária para combatê-lo. Ela foi escrita em 1943, numa cela nazista, na prisão de Tegel, por um pastor luterano e teólogo alemão.
Dietrich Bonhoeffer (1906–1945) participou de movimentos de resistência contra Adolf Hitler, envolvido em conspirações para derrubar o regime nazista, reconhecendo que o cristianismo não poderia ser uma fé passiva diante da injustiça. Por suas ações, foi preso pela Gestapo em 1943 e executado em 1945, pouco antes do final da guerra. Até hoje, Dietrich Bonhoeffer é lembrado por sua corajosa ética cristã que defendia a responsabilidade moral ativa, e por sua reflexão sobre como a fé deve responder ao mal no mundo.
Durante os últimos dois anos de sua vida, enquanto esteve preso, Dietrich Bonhoeffer escreveu muitas cartas, notas e reflexões que foram reunidas no livro Cartas e documentos da prisão.[i] Nelas, ele medita sobre a fé, a ética, a luta contra o mal, a esperança e o sofrimento.
Um dos temas que Dietrich Bonhoeffer aborda é a ideia de que a ignorância é pior que o mal, no sentido de que não reconhecer o mal ou não agir contra ele é uma condição ainda mais perigosa. Para ele, a omissão e a falta de discernimento frente ao mal alimentam sua continuação.
Nas cartas, o teólogo descreve algo mais perturbador que a crueldade dos guardas nazistas: perceber como a Alemanha inteira – médicos, professores, religiosos, gente comum que criava filhos, universitários que liam livros –, aplaudia Hitler. Mais do que perguntar como foi possível o mal, a pergunta que o teólogo propõe é como foi possível que gente de bem aplaudisse o mal absoluto.
Dietrich Bonhoeffer ensina que contra a maldade é possível lutar, denunciar, resistir. A maldade tem uma lógica, deseja algo e assim é possível enfrentá-la. Já a estupidez dificulta a resistência. A pessoa estúpida não é alguém com pouca inteligência. É alguém que renunciou ao uso do próprio juízo. Alguém que entregou sua capacidade de pensar a um líder, a um grupo, a um slogan, a uma crença. E quando isso ocorre, não é possível convencê-la com fatos, apelar para a razão, porque essa pessoa já não tem a razão própria, mas sim, a razão do outro.
Outro ponto certeiro do teólogo: a estupidez ocorre mais em pessoas que acabam de adquirir poder social ou que pertencem a grupos com poder coletivo forte. Quanto mais poderoso é o grupo, mais o sujeito deixa de pensar por si mesmo, porque o grupo oferece identidade, pertencimentos, segurança e respostas. E de repente, pensar de modo autônomo, passa a ter um custo que antes não tinha: o cancelamento do grupo. O estúpido é o instrumento de outros e o pior: não sabe que é. Está convencido e se sente parte de algo grande. Não foram os monstros que destruíram a Alemanha. Foram milhares de pessoas que entregaram seus critérios a um movimento e deixaram de se fazer perguntas.
2.
Passados mais de 80 anos, percebemos o mundo novamente envolvido em um mal-estar que permite aderir à estupidez. Os novos inimigos forjados para drenar recalques e frustrações podem ser imigrantes, minorias LGBTQI+, mulheres, negros, indígenas ou menores infratores. Aqui neste nosso mal iluminado torrão gaúcho, outrora berço positivista e orgulho politizado, deixamos escapar a representação de uma mulher inteligente e vibrante na defesa das crianças, das mulheres e da decência na jornada e na justiça fiscal para os trabalhadores.
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Manu fez a campanha mais limpa, presente, moderna, respeitosa e inovadora para o Senado. Perdeu para as promessas de castração química e de redução da maioridade penal, sendo que segundo levantamentos oficiais sobre o sistema infantojuvenil, adolescentes entre 16 e 18 anos são responsáveis por cerca de 0,5% do total de crimes violentos e homicídios no Brasil.
Ou seja, em nada afeta ou melhora a Segurança Pública, mas os dados pouco importam, a proposta apenas dá de beber à sede do senso comum que requer crueldade e sangue em praça pública contra um certo tipo de violência. Outras modalidades são toleradas, sabemos, nos novos códigos extremistas.
São hábeis, as novas seitas, a exortar requintes cruéis para conter os crimes. Foi essa habilidade que derrotou Marina Silva. Com um mundo enfermo, a natureza ameaçada próximo a um ponto de não retorno, a autoridade moral e ambiental, o conhecimento e o reconhecimento internacional de Marina foram descartados também em nome do endurecimento penal, incluindo retrocesso civilizatório, como a promessa de acabar com a Audiência de Custódia e realizar castração química.
Simone Tebet também perdeu para o flerte com a exceção. Sua proposta de renda mínima permanente ou recriação de uma cultura de planejamento no país, não foi considerada como foi o juramento de lealdade ao seu grupo político feito pelo candidato que conquistou a segunda vaga.
3.
Temos, sem dúvida, a tarefa de investigar os erros e a desconexão que o campo progressista precisa enfrentar. Um governo atabalhoado na Comunicação, sem um Estado Maior para costurar as decisões políticas estruturantes, dependente de um líder que parece já não ouvir, distribuindo medidas de afogadilho sem uma estratégia de constituição e base social, impermeável à realidade do empreendedorismo e das novas formas de trabalho. Contudo, um governo ocupado, de modo comovente até, em reconstruir a terra arrasada deixada pelo extremismo bolsonarista.
Dito isso, há um contexto que escapa a nossa capacidade de decisão direta e interferência consistente, com dois aspectos decisivos. O primeiro deles é a própria crise aguda do capitalismo. Se produziu um sentimento de repulsa por tudo que foi, na verdade, avanço. Essa crise aguda do capitalismo produz um sonho inalcançável para um estilo de vida. Se acumulam demandas, necessidades, frustrações e dívidas. Os desejos de consumo nunca poderão ser saciados, o que acaba por redundar em desconforto, recalque e raiva.
O segundo aspecto é a incômoda questão de reconhecer até que ponto a decisão do voto é realmente livre nestas engrenagens digitais que determinam os fluxos de informação, atenção e opinião. O pesquisador Vilso Santi, no livro Por que os insetos votam no inseticida?,[ii] propõe uma leitura crítica sobre como propaganda, medo, exaustão, carisma, desinformação e curadoria digital ajudam a fabricar decisões que parecem livres, mas já chegam envenenadas no e pelo ambiente comunicacional.
Ele propõe que antes de perguntar apenas “em quem votar?”, talvez seja preciso perguntar quem organizou o caminho até esta escolha? “A obra propõe olhar para o ambiente que molda o pensável”, destaca o autor. É importante esse exercício porque nos torna cientes de que a opinião não nasce em céu limpo: “ela brota em terreno disputado, regado por plataformas, campanhas, afetos, medos, pertencimentos e promessas de salvação”.
O risco das tribos de estupidez, tão em alta nestes tempos, cresce exponencialmente no “ambiente de propaganda enganosa, carisma político, prazer imediato, algoritmos, colapso da realidade compartilhada, medo eleitoral, esquecimento como tecnologia de poder e reconstrução crítica”, como desenvolve Vilso Santi.
Retornando ao teólogo Dietrich Bonhoeffer, morto aos 39 anos pelo nazismo, vale atentar para a ideia da diferença entre uma graça barata e uma graça verdadeira (conceito central do seu livro O custo do discipulado, 1937). A graça barata é a que promete recompensa sem uma mudança de vida. A graça verdadeira é a graça que custa, que exige de nós um compromisso radical e a renúncia ao egoísmo. Permite o perdão, mas chama o cristão a imitar a vida de Jesus – especialmente na resistência ao mal.
Salve Marina, Manu e Simone. Graças verdadeiras, independente do resultado eleitoral.
Notas
[i] Bonhoeffer, D. (2018). Cartas e documentos da prisão (J. Silva, Trad.). São Paulo: Editora Sinodal. (Obra original publicada entre 1939–1945).
[ii] https://www.amazon.com.br/Por-insetos-votam-inseticida-comunicacional-ebook/dp/B0GX35229B
*Sandra Bitencourt é jornalista, doutora em comunicação e informação pela UFRGS, diretora de comunicação do Instituto Novos Paradigmas (INP).
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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